Por Richard Whately
[244]§18
Falácia de provar uma parte da questão. Outra forma de ignoratio elenchi, que também é bastante útil do lado do respondente, é provar ou refutar alguma parte do que é requerido, e demorar-se nela, suprimindo todo resto.
Desse modo, se uma Universidade é acusada de cultivar somente os elementos mínimos da Matemática e, em resposta, uma lista dos livros estudados é produzida, devesse mesmo qualquer um desses livros ser não elementar, a acusação estaria justamente refutada. Mas o Sofista pode então seriamente afirmar que alguns desses livros são elementares e, desse modo, manter fora de vista, a questão real, ou seja, se todos são elementares.1
Assim também, alguém pode sustentar (com verdade perfeita) que mera habilidade intelectual – os poderes de raciocínio sozinho – é insuficiente para a obtenção da verdade em questões religiosas (ver Apêndice III nota) e, consequentemente, pode continuar a assumir [245](como se fosse a mesma proposição) que todo emprego do raciocínio – toda cultura intelectual – é perfeitamente inúteis em tais questões, e deve ser descartado como alheia ao assunto.
Arte de fabricar uma resposta. Essa é a grande arte do respondedor de um livro. Suponha que as posições principais em algum trabalho sejam irrefragáveis, seria estranho se alguma ilustração delas, ou parte subordinada, em resumo, não admitisse uma objeção plausível; então o oponente junta a questão a uma dessas questões acidentais, e surge com “uma Resposta” para um tal e tal trabalho. E uma semelhante “Resposta” é ainda mais fácil e mais plausível quando acontece – e como frequentemente acontecerá – que uma refutação real e satisfatória pode ser encontrada para um ou mais dos argumentos, cada um, isoladamente, provando completamente a mesma conclusão (assim como tantos teoremas de Euclides admitem de várias demonstrações diferentes); ou uma resposta para uma ou mais das várias objeções, cada uma, separadamente, decisiva contra um certo programa ou teoria; embora seja evidente para a reflexão que, se o resto ou qualquer um dele, permanecer não refutado ou irrespondível, a conclusão está estabelecida, e permanece tão firme como se o respondedor não tivesse exigido nada.
Desse modo, ele, quem responde aos argumentos exigidos, está na condição de um comandante defendendo todas as brechas viáveis em uma fortificação, exceto uma. Esse tipo de “resposta” parcial está propriamente disponível somente em um caso onde cada um dos argumentos não estabelece a certeza, mas somente a probabilidade da conclusão. De fato, então, a conclusão, repousando não inteiramente sobre a força de qualquer um dos argumentos, mas na combinação deles, está proporcionalmente enfraquecida pela refutação de qualquer um deles. A falácia da qual eu agora estou falando consiste na confusão do caso precedente [246]ou com esse último, ou com o caro anteriormente observado [§14] de uma cadeia de argumentos, cada um provando não a mesma conclusão, mas uma premissa do subsequente.
O perigo de sustentar demais. Consequentemente, o perigo de sempre avançar mais do que o que pode ser bem sustentado, uma vez que a refutação disso frequentemente anulará o todo. Os Quakers talvez tivessem até agora sucedido em acabar com nossos juramentos supérfluos e irreverentes, se eles não tivessem, além de muitos argumentos válidos e fortes, aduzido tantos que são tão fracos e facilmente refutados.
Desse modo, também, uma pessoa culpada, frequentemente, pode escapar ao ter demais colocado em sua responsabilidade; pela mesma razão, ela também pode, ao ter evidência demais contra ela, ou seja, alguma que em si mesma não é satisfatória. Portanto, um prisioneiro, algumas vezes, pode obter libertação ao mostrar que uma das testemunhas contra ele é um informante e espião infame; embora, talvez se essa parte da evidência tivesse sido omitida, o resto teria sido suficiente para a condenação.
Casos dessa natureza poderiam muito bem também ser referidos à Falácia anteriormente mencionada, de inferir a Falsidade da Conclusão a partir da Falsidade de uma Premissa; o que de fato é um aliado muito próximo da Falácia presente. A questão real é, “se ou não esta Conclusão deveria ser admitida”. O Sofista confina-se à questão de “se ou não isso está estabelecido por este argumento particular”; deixando para ser inferido pela audiência se ele transmitiu seu ponto a respeito da segunda questão, de que a primeira está por esse meio decidida. O que é então, e somente então, uma inferência correta, quando há uma boa razão para acreditar que outros e melhores argumentos foram aduzidos, se tiver havido algum. (Ver acima, no final do §6)
[247]§19
Conclusão suprimida. Será prontamente percebido que nada é menos propício ao sucesso da Falácia em questão do que declarar claramente e no início, ou a proposição que você está prestes a provar, ou a que você deve provar. Responde melhor começar com as Premissas e introduzir uma cadeia bastante longa de argumentos antes de você chegar à Conclusão. O ouvinte descuidado toma como certo, no começo, que essa cadeia conduzi-lo-á à Conclusão requerida; e, quando você tiver chegado ao fim, ele está pronto para tomar como certa que a Conclusão que você inferiu é a requerida; a ideia dele da questão tendo gradualmente se tornado confusa. Esta Falácia é muito ajudada pela prática comum de supressão da Conclusão, deixando-a para ser provida pelo ouvinte; quem, é claro, está menos apto a perceber se ela é realmente aquela “que devia ser provada”, do que se ela fosse distintamente declarada. Portanto, na melhor das hipóteses, a prática é suspeita e, no geral, é melhor evitá-la e dar uma requerida declaração distinta da Conclusão requerida.
A Falácia agora diante de nós talvez seja a forma mais comum daquela conclusão de pensamento à qual estão sujeitos aqueles que foram educados irregular e inutilmente; - quem talvez reuniu uma grande quantidade de conhecimento, sem arranjo e sem a cultura dos hábitos lógicos; - quem aprendeu (como eu ouvi expresso) um bom número de respostas sem as questões. A maior parte das visões errôneas em Moral, e em outros assuntos, que prevalecem em meio a tais pessoas, pode ser exibida na forma de “Falácias da [248]Conclusão Irrelevante”.2 Por exemplo, a bem conhecida decisão errada, concernente aos dois meninos e seus casacos, pela qual Ciro fora punido por seu preceptor, foi um erro da questão real, a qual era, não “qual casaco ajusta-se melhor a cada menino”, mas “quem tinha o direito de dispor deles”. E casos semelhantes ocorrem a cada dia. Um paralelo exato deve ser encontrado nas questões relativas à imposição de restrições ou outras penalidades sobre aqueles de um credo diferente do nosso. Argumenta-se sobre elas como se o ponto a ser decidido fosse “qual religião é a melhor” ou “se as diferenças entre elas são importantes”; em vez de ser “se um homem tem um direito de obrigar outros a professarem sua religião” ou “se professores da Fé verdadeira têm um direito de monopolizar o poder secular e privilégios civis”. Ou novamente (para colocar os mesmos princípios em outra forma) as questões de “se deve ser permitido a um Cristão lutar na defesa de si mesmo da opressão e do ultraje”3 e de “se [249]um magistrado Cristão pode empregar coerção física e infligir punição secular a malfeitores”, - essas são perpetuamente confundidas com as questões de “se Cristãos COMO TAIS são autorizados a lutar; ou seja, lutar por sua Religião, contra aqueles que corrompem ou rejeitam a Fé”; e “se um magistrado Cristão pode empregar a força em nome da Cristandade, e infligir punição a Heréticos como malfeitores”.4
Novamente, proposições tais como a seguinte, alguém poderia frequentemente ouvir, sofistica ou negligentemente, confundidas: “Os Apóstolos realizaram assembleias religiosas no primeiro dia da semana”, com “Eles transferiram o Sábado (Sabbath) do sétimo dia para o primeiro”:5 “Um Judeu, Maometano, ou Católico Romano não é a pessoa mais aceitável para ocupar Cargo público em um país cristão Protestante”, com “Tais pessoas não deveriam ser legalmente elegíveis”: “Os Apóstolos estabeleceram uma tal e tal forma de governo das Igrejas que eles fundaram”, com “Eles projetaram essa forma para ser obrigatória para todos os Cristãos como uma Ordenança para sempre”, etc.6
§20 [fim do livro]
Antes que nós dispensemos o assunto das Falácias, pode não ser impróprio mencionar, que Gracejos (Jests) são Falácias simuladas (mock-Fallacies); ou seja, Falácias tão evidentes quanto a não estarem aptas a enganar ninguém, mas ainda comportando exatamente aquela semelhança de Argumento que é calculada [250]para entreter pelo contraste; da mesma maneira que uma paródia faz, pelo contraste de sua frivolidade com a apresentação séria que ela imita. De fato, há algo risível, mesmo em Falácias projetadas para convicção séria, quando elas são completamente expostas.7
Há vários tipos de pilhéria (joke) e zombaria (raillery), os quais serão descobertas corresponderem a diferentes tipos de Falácia. O Trocadilho (Pun)(para tomar o caso mais simples e mais óbvio) é, evidentemente, na maior parte das instâncias, um argumento imitado (mock-argument) encontrado em um evidente equívoco do Termo Médio; e outros de maneira semelhante descobrir-se-ão corresponder às Falácias respectivas, assim como ser imitações de argumentos sérios.
De fato, é provável que todos os gracejos (jests), esportes ou jogos (παιδείαι) propriamente assim chamados, serão encontrados, após exame, ser imitações de negócios sérios; como da Guerra, ou Comércio.8 Mas, entrar inteiramente nesse assunto seria impróprio para a ocasião presente.
Eu deverei acrescentar algumas observações gerais sobre a província legitima do Raciocínio, e sobre sua conexão com a filosofia Indutiva, e com a Retórica; pontos sobre os quais muito equívoco prevaleceu, tendendo a jogar obscuridade sobre o projeto e uso da Ciência em consideração.
Um tratado sobre o que é chamado de “leis de evidência” – os tipos diferentes, estritamente falando, de argumentos, e as ocasiões para as quais eles são respectivamente adequados, etc, que é algo que alguém esperaria em Trabalho de Lógica, será encontrado na 1ª parte dos “Elementos de Retórica”.
ORIGINAL:
WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.244-250. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/244/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 “Reply to calumnies of Edinb. Review against Oxford”, 1810.
2 “A falácia consiste em confundir a ininterrupta sucessão Apostólica de um Ministério cristão, geralmente, e a mesma sucessão numa linha ininterrupta, deste ou daquele Ministro individual. Se a esperança cristã de cada homem é feita depender de seu recebimento das Ordenanças nas mãos de um Ministro a quem a virtude sacramental [da ordenação], que dá eficácia às ordenanças, foi transmitida em uma sucessão ininterrupta de mão em mão, cada coisa precisa depender daquele particular Ministro; e sua reivindicação não está de jeito nenhum estabelecida a partir de nós meramente estabelecermos a existência de uma semelhante classe de homens como Ministros cristãos. Você ensina-me, - um homem poderia dizer, - que minha salvação depende da posse por você – o pastor particular sob o qual eu estou colocado – de uma certa qualificação; e, quando eu pergunto pela prova de que você a possui, você prova para mim que é possuída geralmente por uma certa classe de pessoas das quais você é uma, e provavelmente por uma grande maioria delas!” - On the Kingdom of Christ, Essay II. §30.
3 Ver Essay 1st, on the Kingdom of Christ.
4 Ver Essays on the Dangers, etc. Notes E. e F.
5 Ver Thoughts on the Sabbath.
6 Ver Kingdom of Christ, Essay II. §9.
7 Ver a Logic de Wallis, e também Rhetoric, Part I. Ch. iii. §7, p. 131.
8 Ver algumas observações excelentes sobre “Imitation”, nos Essays póstumos do Dr. A. Smith.
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