Por Richard Whately
[240]§16
Mudança de fundamento. A Falácia da “conclusão irrelevante” [ignoratio elenchi] em nenhum lugar é mais comum do que em uma controvérsia prolongada; quando um dos partidos, após ter tentado em vão manter sua posição, muda seu fundamento, tão secretamente quanto possível, para outro, em vez de honestamente desistir do assunto. Uma instância ocorre em um ataque feito ao sistema buscado por uma de nossas Universidades. Os opositores, encontrando-se incapazes de sustentar sua acusação da negligência presente (a saber, no ano de 1810) da Matemática naquele lugar, (negligência que eles atribuíram ao “recente declínio geral” nesses estudos) mudaram seu fundamento, e contenderam que aquela Universidade “nunca foi famosa por Matemáticos”; o que não somente não estabelece, mas absolutamente derruba, sua afirmação original; pois, se ela nunca sucedeu nessas investigações, nunca poderia ter causado seu declínio recente.
Falácia de se combater as duas Premissas alternadamente. Uma prática dessa natureza é comum em controvérsia oral, especialmente; a saber, no combate de ambas as Premissas de seu oponente alternadamente, e mudando o ataque de uma para outra, sem esperar ter uma delas decidida antes de abandoná-la. “E além disso”, é uma expressão que alguém pode frequentemente ouvir de um contendedor que está prosseguindo para um [241]argumento recente, quando ele não pode estabelecer, e contudo não abandonará, o seu primeiro.
Foi observado acima, que uma classe de proposições que, nesta Falácia, pode ser substituída por uma requerida, é das particulares pelas universais: semelhante a essa é a substituição de um condicional com um antecedente universal, por um condicional com um antecedente particular; o qual usualmente será mais difícil de provar. Por exemplo, suponha que você fosse convocado a provar que “se qualquer (ou seja, algum) dos interesses privados foi prejudicado por uma medida proposta, ela é inconveniente”; e você pretende ter demonstrado ao mostrar que “se todos os interesses privados são prejudicados por isso, isso deve ser inconveniente.” Quase semelhante a isso é noção comum mesma de provar alguma coisa ser possível quando deveria ter sido provada altamente provável; ou provável, quando deveria ter sido provada necessária; ou, o que ver a ser exatamente o mesmo, prová-la ser não necessária, quando deveria ter sido provada não provável; ou improvável, quando deveria ter sido provada impossível. Aristóteles (em Ret. Livro II) reclama dessa última ramificação da Falácia, como dando vantagem indevida ao respondente. Muitas vezes uma pessoa culpada deve sua absolvição a isto: o juri considerando que a evidência trazida não demonstra a impossibilidade completa dela ser inocente; embora talvez as chances sejam inumeráveis contra isso.
§17
Falácia das objeções. Semelhante a esse caso é aquele que pode ser chamado de Falácia das objeções: ou seja, mostrar que há objeções contra algum plano, teoria ou sistema, e, consequentemente, inferindo que ele deveria ser rejeitado, quando o que deveria ter sido provado é que há [242]objeções maiores e mais fortes contra o recebimento do que a rejeição dele. Essa é a Falácia principal e quase universal dos anticristãos; e é aquela da qual um jovem cristão deveria ser primeiro e principalmente avisado.1 Eles encontram numerosas “objeções” contra várias partes da Escritura; a algumas das quais nenhuma resposta satisfatória pode ser dada. O ouvinte incauto está apto, enquanto sua atenção está fixada naquelas, a esquecer de que há objeções infinitamente mais numerosas e mais fortes contra a suposição de que a Religião Cristã seja de origem humana; e que, onde nós não podemos responder todas as objeções, nós estamos obrigados pela razão e com franqueza a adotar a hipótese que trabalha sob o mínimo. Que o caso seja como eu afirmei, eu estou autorizado a assumir, a partir da circunstância de que nenhuma explicação completa e consistente foi alguma vez dada da maneira pela qual a Religião Cristã, supondo-a uma invenção humana, poderia ter surgido e prevalecido como fez. E, contudo, isso pode obviamente ser demando com a máxima justiça, daqueles que negam sua origem divina. A religião existe: isso é o fenômeno; aqueles que não a permitirão ter vindo de Deus, estão obrigados a resolver esse fenômeno a partir de alguma outra hipótese menos aberta a objeções. De fato, eles não estão obrigados a provarem que ela realmente surgiu desta ou daquela maneira; mas a sugerirem (consistentemente com fatos reconhecidos) alguma maneira provável pela qual ela pode ter surgido, reconciliável com todas as circunstâncias do caso. Que infiéis nunca fizeram isso, embora eles tenham tido 1800 para tentar, equivale a uma confissão de que nenhuma hipótese semelhante pôde ser inventada, o que não estará aberto a maiores objeções do que mentir contra a Cristandade.2
[243]Reformas estão abertas a objeções. A Falácia das Objeções é também fortaleza de anti-inovadores fanáticos, quem se opõem a todas as reformas e alterações indiscriminadamente; pois nunca houve, ou haverá, qualquer plano executado ou proposto, contra o qual objeções fortes e mesmo irrespondíveis não possam ser urgidas. De modo que, a menos que objeções opostas sejam estabelecidas do outro lado da balança, nós nunca podemos avançar um passo. Por exemplo, os defensores do sistema de Deportação, - um sistema que, como um escritor eminente observou, “começou em desafio a toda razão, e perseverou, em desafio a toda Experiência” – estão acostumados a perguntar “que tipo de Punição secundária você substituiria?” e se alguma é sugerida, eles aduzem as objeções e dificuldades, reais e aparentes, às quais está exposta; se outra é proposta, eles procedem da mesma maneira; e assim por diante, sem fim. Pois de todos os outros planos de Punição secundária que alguma vez foram tentados, ou imaginados, o melhor precisa estar aberto a algumas objeções, embora o pior mesmo seja muito menos objetável do que a Deportação.3 “Há objeções”, disse o Dr. Johnson, “contra um pleno (plenum), e objeções contra um vácuo (vacuum); mas uma das duas tem de ser verdadeira.”
De fato, exatamente a mesma Falácia é empregada (como foi dito) pelo outro lado, por aqueles que estão pela derrubada de tudo que está estabelecido, tão logo eles possam provar uma objeção contra; sem considerar se mais ou mais pesadas objeções não podem existir contra seus próprios planos; mas seus oponentes têm essa nítida vantagem sobre eles, que eles podem insistir com grande plausabilidade, “nós não invocamos você para rejeitar de uma vez o que quer se seja objetado, mas meramente para suspender [244]seu julgamento, e não chegar a uma decisão enquanto houver razões dos dois lados”: agora, uma vez que sempre haverá razões dos dois lados, essa não decisão é praticamente uma decisão em favor do existente estado de coisas. “Não resolver é resolver.”4 O atraso do julgamento torna-se equivalente a uma absolvição.5
ORIGINAL:
WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.240-244. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/240/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 Ver nota no final do Apêndice nº III.
2 Em um “Essay on the Omissions of our Sacred Writers”, eu assinalei algumas circunstâncias que ninguém alguma vez tentou, para explicar alguma suposição deles, sendo outras que não sejam, não somente testemunhas verdadeiras, mas inspiradas sobrenaturalmente.
3 Ver as Cartas do Earl Grey sobre Deportação.
4 Bacon
5 Quão feliz é para a humanidade que, em muitos dos mais importantes preocupações da vida, a decisão sobre elas é geralmente formada para eles por circunstâncias exteriores: o que desse modo poupa-os não somente da perplexidade da dúvida e do perigo da demora, mas também da aflição do arrependimento; uma vez que nós aquiescemos muito mais alegremente com aquilo que é inevitável.
Nenhum comentário:
Postar um comentário