Por Richard Whately
Parte
anterior
[181]§5
Em
cada Falácia que desse
modo foi
enumerada
e distinguida, proponho oferecer alguns
comentários
mais particulares. Mas,
antes que eu prossiga com isso, será adequado
pressupor
duas observações gerais, 1) sobre a importância
e 2) a dificuldade,
de detecção e descrição de Falácias. Ambas
já foram levemente aludidas;
mas é necessário que elas devam ser um pouco mais completa e
distintamente demonstradas aqui.
Importância
da detecção de Falácias.
1) Parece ser tomado como certo pela
maioria das pessoas
que uma Falácia é para ser temida meramente como uma arma
moldada e empunhada por um
habilidoso sofista; ou,
se eles permitirem que um homem com intenções honestas escorregue
para uma inconscientemente, no calor do argumento.
Entretanto,
eles parecem supor que, onde não houver disputa,
não há
causa para temer
a Falácia;
já
que há muito perigo, mesmo no que pode ser chamada de raciocínio
solitário,
de escorregar inconscientemente para alguma Falácia,
pela
qual alguém pode ser
enganado
tão
longe,
mesmo a agir
de acordo
com a conclusão obtida desse modo. Por “raciocínio solitário”
quero dizer o caso no qual alguém não está buscando
argumentos
para provar uma dada
questão,
mas laborando para deduzir de seu estoque prévio de conhecimento
alguma inferência útil.
Influência
das palavras sobre os pensamentos.
Para selecionar um de inumeráveis exemplos que poderiam
ser citados, e dos quais mais alguns ocorrerão na parte subsequente
deste ensaio; não é improvável que muitos sermões indiferentes
tenham sido produzidos pela ambiguidade da palavra “simples
(plain)”.
Um
jovem sacerdote percebe
a
verdade da máxima de
que
“para as ordens [182]mais
baixas a linguagem de alguém não pode ser muito simples
(plain):”
(ou seja, clara
e perspicaz,
de modo a não requerer qualquer aprendizagem ou engenho para a
entender,) e quando ele começa a praticar, a palavra “simples
(plain)”
indistintamente se
esvoaça
diante dele, por
assim dizer,
e frequentemente
lhe
confere o
uso de ornamentos
de estilo, tais como metáfora, epíteto, antítese, etc, os quais
são opostos à “simplicidade” em um sentido totalmente diferente
da palavra; sendo de jeito nenhum necessariamente contrários
à perspicuidade,
mas
em vez disso, em muitos casos, propícios
a ela; como pode ser visto em vários dos mais claros discursos de
nosso Senhor, os quais são os mesmos que são os
mais
ricamente adornados com linguagem figurativa. Até
agora, de fato, um estilo ornamentado está longe
de ser impróprio para o simples, que eles estão satisfeitos com ele
mesmo em excesso. Contudo,
o
desejo de ser “simples (plain)”,
combinado com aquela noção sombria e confusa de
que
a ambiguidade da palavra como
tal produz,
como
por
exemplo
a
não
separar nas mentes deles, e definir diante deles,
os dois sentidos, frequentemente, causam-lhes
a escrever com estilo
seco e insignificante, o qual não tem nenhuma vantagem na questão
da perspicuidade, e é o menos
adequado de todos para o gosto do vulgar. O exemplo acima não foi
retirado de mera conjectura, mas a partir de experiência atual do
fato.
Outro
exemplo da
forte influência das palavras sobre nossas ideias pode ser aduzido
de um assunto largamente diferente:
a
maioria das pessoas sente um certo grau de surpresa
ao primeiro ouvirem do resultado de alguns experimentos recentes dos
químicos agrícolas, pelas quais eles verificaram universalmente que
os que são chamados de solos pesados
são especificamente os mais leves; e vice-versa.
De
onde essa surpresa?
Pois,
ninguém
nunca distintamente
acreditou
que nomes estabelecidos deveriam ser usados no sentido literal e
primário, em consequência dos
respectivos solos terem sido pesados
juntos; de fato, é óbvio, após um momento de reflexão, que solos
argilosos tenazes
(tenacious
clay-soils)
(assim como estradas lamacentas) [183]são
figurativamente
chamados de pesados, a partir da dificuldade de arar
ou passar através deles, o que produz um efeito
semelhante àquele
de carregar ou arrastar um grande peso. Contudo,
ainda os termos “leve” e “pesado”, embora usados
figurativamente,
o mais indubitavelmente, introduziram nas mentes dos homens alguma
coisa das ideias expressas por eles em seus sentidos primitivos. As
mesmas palavras, quando aplicadas a artigos de dieta, produziram
erros importantes; muitos supondo algum artigo de comida ser leve
de digerir
ao ser especificamente
leve.
Tão verdadeira é a engenhosa observação de Hobbes de
que
“as palavras são os contadores dos homens sábios, e o dinheiro
dos tolos.”
“Os
homens imaginam,” diz Bacon, “que suas mentes têm o comando da
Linguagem; mas frequentemente acontece que a Linguagem exibe
comando sobre
suas mentes”.
Alguns
dos argumentos fracos e absurdos que frequentemente são urgidos
contra o Suicídio
podem ser traçados à influência das palavras sobre os pensamentos.
Quando
o moralista cristão é invocado para uma direta prescrição
da Escritura
contra o suicídio, em vez de responder que a Bíblia não é para
ser um código completo de leis, mas um sistema de razões
e princípios,
a resposta frequentemente dada é “tu não farás nenhum
assassinato”;
e é assumido com argumentos extraídos da Razão, assim como aqueles
da Revelação, que o Suicídio é uma
espécie
de assassinato; em outras palavras, porque é chamado de assassinato
de si mesmo (self-murder);
e, desse modo, iludidos
por um nome, muitos são levados a descansar
em
um argumento incorreto; o
qual, como todas as outras falácias, faz mais mal do que bem, no
final, à causa da verdade. Suicídio, se algum considerar a natureza
e não o nome, evidentemente exige
a característica mais essencial do assassinato, a saber, o dano
e o ferimento
feitos
ao vizinho de alguém ao privá-lo da vida, assim como de outros pela
insegurança
na qual eles estão, em consequência,
sujeitos
a
sentir. E uma vez que ninguém pode, falando estritamente,
fazer injustiça
a si mesmo, ele não pode, na aceitação
literal e primária das [184]palavras,
ser considerado roubar
ou
assassinar a si
mesmo. Ele que deserta de seu posto para o qual ele foi apontado por
seu grande Mestre, e presunçosamente
encurta o estado de provação graciosamente permitido a ele para
“realizar
sua salvação,” (quer pela ação ou pela persistência
paciente,) é de fato culpado de um pecado grave, mas de
um
não menos análogo em sua característica ao assassinato.
Não implica desumanidade. Está mais
rigorosamente
aliado ao
pecado de desperdiçar a vida em indolência, ou em buscas
insignificantes, — visto
que
a vida é concedida como um tempo semente para a colheita da
imortalidade. O que é chamada na frase família de “matar
o tempo (killing
time)”,
é, em verdade, uma abordagem, até
onde prossegue, de
destruição da própria vida de alguém: pois “O tempo é a
matéria da qual a vida é feita”.
“Tempo
destruído
É
suicídio, onde mais do que sangue é derramado.”
- Young.
Erros
emergentes a partir do uso de termos analógicos.
Mais especificamente merecendo atenção está a influência dos
Termos Analógicos ao levar homens a noções errôneas em Teologia;
onde
os termos mais importantes são analógicos; contudo, eles são
continuamente empregados no Raciocínio sem a devida atenção (mais
frequentemente devido à falta de cuidado do que desígnio injusto) à
sua natureza analógica; e a maioria dos
[185]erros
nos quais os teólogos
caíram
podem ser traçados, em parte, a
essa causa.
Perigo
duplo em qualquer suposição falsa.
Ao falar da importância de se
refutar
Falácias, (nome sob
o qual
incluo, como será visto, qualquer falsa suposição empregada como
uma Premissa) essa consideração não
deve
ser negligenciada;
que
um princípio incorreto, o qual fora empregado para estabelecer
alguma Conclusão maliciosamente falsa, não
se torna inofensivo de uma vez, e
tão insignificante para ser digno de refutação, tão cedo que a
Conclusão seja abandonada, e o falso Principio não seja mais
empregado para aquele uso particular. Ele pode igualmente bem levar a
algum outro
resultado não menos pernicioso.
“Uma falsa premissa, conforme
ela seja
combinada com essa, ou com aquela, verdadeira, levará a duas
diferentes conclusões falsas. Desse modo, se o
princípio
for admitido, que
quaisquer importantes erros religiosos deverão ser suprimidos à
força, isso pode levar ou a perseguição
por um lado, ou a indiferença
latitudinária no outro. Alguns podem ser levados a justificar a
supressão de heresias pela espada civil; e outros, cujos sentimentos
de revolta diante de um procedimento semelhante, e que veem a
perseguição reprovada e desacreditada
por aqueles ao redor deles, podem ser levados pelo mesmo princípio a
considerar erros religiosos como de pouca ou nenhuma importância, e
todas as persuasões religiosas como igualmente aceitáveis aos olhos
de Deus.”
Superestimação
do efeito de algumas falácias.
Contudo, por outro lado, deve ser observado, que semelhantes efeitos
frequentemente são atribuídos a alguma falácia que
de fato não os produz.
Talvez
deva ter sido triunfantemente urgido, e repetido de novo e de novo, e
referido por muitos como [186]irrefragável;
contudo
nunca deve ter convencido ninguém; mas ter sido meramente assentido
por aqueles já convencidos. Para muitas pessoas, quaisquer duas
frases bem
corretas, que tenham umas poucas palavras parecidas, e estão de
alguma maneira conectadas com o mesmo assunto, servirão como
Premissas e Conclusão: e quando ouvirmos
um homem
professar derivar convicção de semelhantes argumentos, estamos
naturalmente dispostos a considerar seu caso como sem
esperança.
Mas frequentemente acontecerá que, em realidade, suas faculdades de
raciocínio devem ter estado totalmente dormentes; e igualmente
talvez,
em outro caso, onde ele conceda seu assentimento a um processo de
raciocínio correto, levando a uma conclusão que ele já admitiu.
“As falácias infantis que você algumas vezes pode ouvir um homem
aduzir sobre alguns assuntos, talvez
sejam
em
realidade não
mais suas
próprias
do
que os argumentos corretos que ele emprega com outros; ele pode ter
dado indolente aquiescência impensada a
cada um; e se ele pode ser animado
ao esforço do pensamento, ele pode bem
ser muito capaz de distinguir o correto do incorreto.”
Bastante
portanto,
quanto
à extensa influência prática das Falácias, e a consequente
importância eleva de as detectar e expor.
Próxima
parte
ORIGINAL:
WHATELY,
R. Elements of Logic.
New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859.
p.181-186.
Disponível em:
<https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/181/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB
do Blog
Mathesis
Licença:
CC
BY-NC-SA 4.0