Por Richard Whately
[186]§6
Dificuldade de detecção de Falácias. 2º. A segunda observação é, que embora o raciocínio correto seja sempre o mais prontamente admitido, quanto mais claramente ele seja percebido como tal, a Falácia, ao contrário, sendo rejeitada assim que percebida, será, é claro, mais provável de obter acolhida, quanto mais obscurecida e disfarçada pela obliquidade [187]e complexidade da linguagem [ela] esteja. Desse modo é mais provável ou o escorregar acidentalmente de um raciocinador descuidado, ou o ser conduzido adiante deliberadamente pelo sofista. Não que ele alguma vez deseje que essa obscuridade e complexidade seja percebida; pelo contrário, é para seu propósito que a expressão deva parecer tão clara e simples quanto possível, enquanto, na verdade, é a rede mais emaranhada que ele pode inventar.
Falácias dissimuladas pela linguagem elíptica. Desse modo, considerando que é usual expressar nosso raciocínio elipticamente, de modo que uma Premissa (ou mesmo dois ou três passos inteiros no curso de um argumento), que pode ser prontamente fornecida, como sendo perfeitamente óbvia, deverá ser deixada para ser entendida, o Sofista de maneira similar suprime o que não é óbvio, mas em realidade é a parte mais fraca do argumento: e usa todas as outras invenções para retirar nossa atenção (sua arte sendo muito parecida com a do prestidigitador) do quartel onde a Falácia existe. Consequentemente, a incerteza antes mencionada, classe à qual qualquer falácia individual deve ser referida: e é por isso que a dificuldade de detectar e expor a Falácia, é tão maior do que a de compreender e desenvolver um processo de raciocínio correto. É como a detecção e apreensão de um criminoso apesar de todas as artes de ocultação e disfarce; quanto é realizada, e ele é levado a julgamento com toda a evidência de sua culpa produzida, sua condenação e punição são fáceis; e esse é precisamente o caso com aquelas Falácias que são dadas como exemplo em tratados de Lógica; de fato, elas já estão detectadas, estando expostas em uma forma simples e regular, e são, por assim dizer, somente levadas para receber a sentença. Ou novamente, o raciocínio falacioso pode ser comparado a uma massa confusa e embaraçada de explicações, a qual requer muita sagacidade e atenção detida para ser aclarada, e exibida em forma regular e inteligível; [188]embora quando isso é realizado, o todo parece tão perfeitamente simples, que o descuidado está apto a subestimar a habilidade e os esforços que foram empregados nela.
Falácias dissimuladas pela discussão longa. Além disso, deveria ser lembrado, que uma discussão muito longa é um dos disfarces mais efetivos da Falácia. Sofística, como veneno, é imediatamente detectada, e enjoada, quando apresentada a nós em uma forma concentrada; mas uma Falácia que, quando expressa abertamente em poucas sentenças, não enganaria uma criança, pode enganar metade do mundo, se diluída em um volume em quarto. Pois, como em um cálculo, uma única figura incorretamente expressa capacitar-nos-á a chegar a qualquer resultado que seja, embora cada outra figura, e o todo das operações possa estar correto, assim, uma única suposição falsa em qualquer processo de raciocínio, embora todos os outros sejam verdadeiros, capacitar-nos-á extrair qualquer conclusão que nos agrade; e quanto maior o número de suposições verdadeiras, mais provavelmente é que a falsa passe despercebida. Mas quando você destaca um passo no raciocínio em curso, e exibi-o como um Silogismo com uma Premissa verdadeira e outra falsa, a sofística é facilmente percebido. Eu vi um longo argumento para provar que a batata não é um artigo barato de comida; no qual havia um elaborado, e talvez correto, cálculo da produção por acre, e do trigo, — a quantidade perdida em farelo — custo de moer, preparar, etc, e uma suposição escorregada, por assim dizer, acidentalmente, de que uma dada quantidade de batatas contêm somente um décimo da matéria nutritiva igual a do pão: a partir de tudo isso (e há provavelmente apenas uma afirmação infundada no todo) um resultado muito triunfante foi deduzido.1
[189]Para usar outra ilustração; é verdadeiro no curso de um argumento, como em Mecânica, que “nada é mais forte do que sua parte mais fraca”; e, consequentemente, uma corrente que tem um elo defeituoso quebrará; mas embora o número de elos seguros não adicione nada à força da corrente, ele adiciona muito à chance do elo defeituoso escapar à observação. Em tais casos, como eu estive aludindo, alguém pode frequentemente ouvir ser observado que “há uma grande quantidade de verdade no que um semelhante alguém disse”: ou seja, talvez tudo seja verdade, exceto um ponto essencial.
O erro de se supor serem todas as Falácias de fácil detecção. Portanto, falar de todas as Falácias que foram enumeradas como muito evidentes e óbvias para necessitarem mesmo ser mencionadas, por causa dos exemplos simples dados em tratados de lógica, e lá expostos em sua forma mais simples e consequentemente mais fácil de ser detectada, são tais que (naquela forma) não enganariam ninguém; — isso, claramente mostra extrema fragilidade, ou senão injustiça. Pode ser prontamente concedido, de fato, que para detectar Falácias individuais, e colocá-las sob regras gerais, é uma tarefa mais difícil do que estabelecer essas regras gerais; mas isso não prova que a última ocupação seja insignificante ou inútil, ou que ela não contribua essencialmente para o desempenho da outra. Pode haver mais engenho exibido ao detectar e apreender um malfeitor, e condenando-o pelo fato, do que em estabelecer uma lei para o julgamento e punições de tais pessoas; mas última ocupação, a saber, aquela do legislador, certamente não é nem desnecessária, nem insignificante.
[190]Deve ser acrescentado que uma observação rigorosa e análise lógica de argumentos com Falácias, como se tende (de acordo com o que foi dito) a formar um hábito da mente bem adequado para a detecção prática de Falácias; assim, por essa razão mesma, tornar-nos-á mais cuidados ao fazer concessões a elas; ou seja, a ter em mente quanto os homens em geral estão sujeitos a serem influenciados por elas. Por exemplo, um argumento refutado não deve dar em nada, (exceto onde houver algum fundamento para assumir que nenhum mais forte poderia ser aduzido.)2 mas de fato isso geralmente provar-se-á prejudicial à causa, a partir de Falácia que logo será explicada. Agora, ninguém é mais provável de estar praticamente ciente disso, e tomar precauções adequadamente, do que alguém que esteja mais versado na inteira teoria das Falácias; pois o melhor Lógico é o menos provável de avaliar os homens em geral sendo um.
ORIGINAL:
WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.186-190. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/186/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 Isso, contudo, recebeu o assentimento indubitável de uma Análise de modo alguma favorável ao autor, e geralmente notada mais por ceticismo que por pronto assentimento! “Todas as coisas,” diz um escritor apócrifo, “são duplas, uma contra a outra, e nada é feito em vão:” afirmadores descarados de falsidades parecem ter uma raça de fáceis crentes de propósito para seu uso; homens que não acreditarão nas verdades melhor estabelecidas da religião, mas estão prontos a acreditar em qualquer outra coisa.
2 Ver Essay II on Kingdom of Christ, §22, note.
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