domingo, 13 de setembro de 2020

Elementos de Lógica - Livro III Sobre Falácias - Introdução

Por Richard Whately


[168]Embora, de tempos em tempos diversos exemplos de Falácias tenham sido reconhecidos nos Livros anteriores, será digno de nota devotar uma atenção mais particular ao assunto.

Definição de Falácia. Por uma Falácia é comumente entendido, “qualquer modo incorreto de argumentar, o qual parece exigir nossa convicção e ser decisivo para a questão em mãos, quando para ser justo não é.Considerando a pronta detecção e clara revelação de Falácias serem ambas mais extensivamente importantes, e também mais difíceis, do que muitos estão cientes, proponho adotar uma visão Lógica do tópico; referindo as diferentes Falácias às mais convenientes categorias, e dando uma análise científica do procedimento que ocorre em cada uma.

Afinal, realmente, na detecção prática de cada Falácia individual, muito precisa depender de perspicácia natural e adquirida. Não regras a serem dadas, o mero aprendizado das quais nos capacitaria a as aplicar com certeza e prontidão mecânicas. Mas ainda devemos descobrir que adotar visões gerais corretas sobre o assunto, e estar familiarizado com discussões [169]científicas sobre ele, tenderão, acima de tudo, a engendrar um tal hábito na mente, que melhor nos servirá para prática.

De fato, o caso é o mesmo com respeito à Lógica em geral. Dificilmente alguém, na prática ordinária, exporia para si mesmo ou o raciocínio seu, ou de outro, em completo Silogismo em [modo] Barbara; contudo, uma familiaridade com os princípios da Lógica, tende muito (como todos sentem, quem é realmente familiarizado com eles) a gerar um hábito de raciocínio claro e correto. A verdade é: nisso, assim como em muitas outras coisas, há processos ocorrendo na mente (quando estamos praticando qualquer coisa muito familiar para nós) com tal rapidez que não deixam traços na memória; e nós frequentemente aplicamos princípios que, tanto quanto estamos conscientes, não nos ocorrem no momento mesmo.

A linguagem imprecisa dos escritores anteriores. Contudo, seria estranho ao propósito presente, investigar completamente a maneira pela qual certos estudos operam para produzir remotamente certos efeitos na mente: é suficiente estabelecer o fato, que os hábitos da análise científica (além da beleza e dignidade intrínseca de tais estudos) levam à vantagem prática. Portanto, é em princípios da Lógica que proponho discutir o tópico das Falácias; e pode, de fato, parecer ter sido desnecessário fazer qualquer apologia para assim o fazer, após o que foi formalmente dito, geralmente, em defesa da Lógica; mas é que a maioria dos escritores em Lógica usualmente tem seguido um plano tão oposto. Sempre que eles têm de tratar de qualquer coisa que esteja além dos meros elementos da Lógica, eles deixam totalmente de lado toda referência aos princípios que eles estiveram ocupados em estabelecer e explicar, e recorrem a uma linguagem frouxa, vaga e popular; tal como seria o mais adequado realmente a um discurso exotérico, mas parece estranhamente incongruente em um professado [170]tratado de Lógica. O que deveríamos pensar de um escritor em Geometria que, após ter passado pelos Elementos, com definições e demonstrações estritas, devesse, prosseguindo para a Mecânica, deixar de lado totalmente toda referência aos princípios científicos, — todo o uso de termos técnicos, — e tratasse a matéria em termos indefinidos, e com argumentos prováveis e populares? Seria considerado estranho, se mesmo um Botânico, ao se dirigir àqueles que ele estivera instruindo nos princípios e termos de seu sistema, devesse deixar esse totalmente de lado quando ele viesse a descrever plantas e devesse adotar a linguagem do comum. Certamente isso proporciona apenas muita plausibilidade para as cavilações daqueles que zombam da Lógica completamente, que os escritores mesmos que professam ensiná-la nunca deveriam eles mesmos fazerem qualquer aplicação de, ou referência a, seus princípios, nas mesmas ocasiões quando, e somente quando, tal aplicação e referência seriam esperadas. Se os princípios de qualquer sistema estão bem estabelecidos, se sua linguagem técnica está judiciosamente construída, então, certamente, aqueles princípios e aquela linguagem proporcionarão (àqueles que uma vez os aprenderam completamente) o melhor, o mais claro, simples e conciso método para tratar qualquer assunto conectado àquele sistema. Contudo, até escritores geralmente perspicazes no tratamento do Dilema e das Falácias, muito se esqueceram do Lógico, e assumiram um estilo frouxo e retórico de escrita, sem fazerem nenhuma aplicação dos princípios que eles anteriormente estabeleceram, mas, pelo contrário, algumas vezes afastando-se largamente deles.1

[171]Os professores mais experientes, quando se dirigindo àqueles que são familiares com os princípios elementares da Lógica, julgam um requisito, não de fato guiá-los a eles, em cada ocasião, através de todos os detalhes daqueles princípios, quando o processo é bem óbvio, mas sempre colocá-los na estrada, por assim dizer, para aqueles princípios, de modo que eles possam claramente ver seus próprios caminhos até o fim, e adotar uma visão científica da matéria; da mesma maneira como escritores em matemática de fato evitam o tédio ocasional de passarem por cada demonstração muito simples, o que o aprendente, se ele desejar, pode facilmente prover; mas, sempre falam em estrita linguagem matemática, e com referência a princípios matemáticos, embora nem sempre eles nos declarem em toda extensão. Eu não professaria, portanto, nada mais do que eles afirmam, escrever (sobre matérias conectadas com a ciência) em uma linguagem inteligível por aqueles que são ignorantes de seus primeiros rudimentos. Para fazê-lo, na verdade, implicaria que alguém não está adotando a visão científica do assunto, nem se utilizando para si mesmo dos princípios que foram estabelecidos, e da linguagem técnica acurada e precisa que foi edificada.

Erros como a ocupação da Lógica. As regras já dadas capacitam-nos a desenvolver os princípios através do qual todo o raciocínio é conduzido, qualquer que seja a matéria de discussão dele, e a determinar a validade ou a falácia de qualquer argumento aparente, até onde a forma de expressão diga respeito; essa somente sendo a província adequada da Lógica.

[172]Mas é evidente que podemos mesmo assim continuar sujeitos a sermos enganados ou desorientados em um Argumento pela suposição de Premissas falsas ou duvidosas, ou pelo emprego de Termos indistintos ou ambíguos; e, portanto, muitos escritores em Lógica, desejando fazer seus sistemas tão perfeitos quanto possível, intentaram dar regras “para obtenção de ideias claras”, e para “orientação do julgamento”; e imaginando ou professando a si mesmos bem-sucedidos nisso, têm bastante consistentemente denominado a Lógica de a “Arte do uso da Razão”; o que em verdade seria, e quase suplantaria todos os outros estudos, se pudesse determinar em si mesma o significado de cada Termo, e a verdade ou falsidade de cada Proposição; da mesma maneira que ela atualmente pode, a validade de cada Argumento. E eles foram levados a isso, em parte pela consideração de que a Lógica diz respeito às “três Operações” da mente Apreensão simples, Julgamento e Raciocínio; não observando que ela não diz respeito igualmente a todos: sendo somente a última Operação sua província apropriada; e o resto sendo tratado apenas em referência a ela.

Descrédito trazido sobre a Lógica. O desdém, devido justamente a tais presunções, caiu injustamente sobre a Ciência mesma; muito da mesma maneira que a Química foi trazida à perturbação entre os descuidados, pelas pretensões extravagantes dos Alquimistas. E aqueles escritores em Lógica foram censurados, não (como eles deveriam ter sido) por fazerem tais declarações, mas por não as realizarem. Tem sido objetado, especialmente, que as regras da Lógica ainda nos deixam em perda do ponto mais importante e difícil do raciocínio; a saber a averiguação do sentido dos termos empregados, e a remoção de sua ambiguidade: uma crítica semelhante [173]àquela (de acordo com uma história contada por Warburton2 e anteriormente aludida) feita por um homem que encontrou defeitos em todos os óculos de leitura apresentados a ele pelo lojista; o fato sendo, que ele nunca aprendera a ler. No caso presente, a crítica é mais desarrazoada, na medida em que não há, nem nunca pode possivelmente haver, nenhum sistema inventado que realizará o objeto proposto de eliminar a ambiguidade dos termos. Contudo, não é pequena vantagem, que as regras da Lógica, embora elas sozinhas não possam averiguar e eliminar a ambiguidade em cada termo, contudo, apontem em qual Termo de um argumento ela deve ser procurada: dirigindo nossa atenção para o termo médio, como aquele no qual a ambiguidade de uma Falácia é provável de ser construída.

Será útil, contudo, classificar e descrever as diferentes formas de ambiguidade que devam ser encontradas; e também as várias maneiras pelas quais a inserção de Premissas falsas, ou ao menos indevidamente assumidas, é mais provável de iludir a observação. E apesar de as observações que serão oferecidas sobre esses pontos não poderem ser estritamente consideradas como formando uma parte da Lógica, elas não podem ser consideradas fora de lugar, quando é considerado como elas estão conectadas essencialmente com aplicações dela.


Próxima parte


ORIGINAL:

WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.168-173. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/168/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

1Aldrich (e o mesmo pode ser dito de vários outros escritores) é muito mais confuso em sua discussão de Falácias do que em qualquer outra parte de seu tratado; do que este exemplo pode servir: após ter distinguido as Falácias entre aquelas na expressão, e aquelas na matéria (“in dictionee “extra dictionem) ele observa que uma ou duas dessas subsistem, que elas não são propriamente chamadas de Falácias, como não sendo Silogismos imperfeitos em forma; (“Syllogismi forma pecantes:”) como se qualquer um, que fosse tal, pudesse ser “Fallaci extra dictionem”.

2 Em seu Div. Leg.


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