Por Richard Whately
[173]§1
Divisão das Falácias. A divisão das Falácias entre aquelas nas palavras (IN DICTIONE) e aquelas na matéria (EXTRA DICTIONEM) não foi, por quaisquer escritores até agora, fundada em qualquer princípio distinto: [174]pelo menos não em nenhum ao qual eles tenham aderido. Contudo, a confusão dessas duas classes uma com a outra é altamente prejudicial para todas as noções claras concernentes à Lógica; sendo obviamente aliada das predominantes visões errôneas que tornam a Lógica a arte do emprego das faculdades intelectuais no geral, tendo a descoberta da verdade por seu tópico, e todos os tipos de conhecimento por sua matéria de discussão própria; com toda aquela comitiva de especulações vagas e sem fundamento que levou a confusão e erros tão intermináveis, e proporcionou um pretexto para censuras tão clamorosas.
Por isso, é importante que regras devam ser dadas para uma divisão das Falácias em Lógicas e Não lógicas, sobre um princípio tal que deverá manter clara toda essa indistinção e perplexidade.
Carácter indeterminado das Falácias. Se alguém deve objetar que a divisão que está para ser adotada é arbitrária em algum grau, colocando sob uma categoria muitas Falácias que poderiam estar dispostas a serem postas sob a outra, deixe-o considerar não somente a indistinção de todas as antigas divisões, mas a completa impossibilidade de construir qualquer uma que deverá estar completamente segura da objeção urgida, num caso onde os homens formaram noções tão várias e vagas, a partir do desejo mesmo de algum princípio claro de divisão. Não, a partir da forma elíptica na qual todo o raciocínio é geralmente apresentado, e a forma peculiarmente envolvida e oblíqua na qual a Falácia é na maior parte transmitida, precisa, é claro, ser frequentemente uma questão de dúvida, ou melhor, de escolha arbitrária, não somente a que gênero cada tipo de falácia deveria referir-se, mas mesmo a que tipo referir qualquer Falácia individual. Pois, uma vez que, em qualquer Argumento, uma Premissa está geralmente suprimida, frequentemente acontece, no caso de uma Falácia, que os ouvintes são deixados com a alternativa de suprirem ou uma Premissa [175]que não é verdadeira, ou senão, uma que não prova a Conclusão. Por exemplo, se um homem discorre sobre a miséria do país, e por esta razão argumenta que o governo é tirânico, precisamos supor que ele assume ou que “todo país miserável está sob uma tirania”, o que é uma falsidade manifesta, ou, meramente que “todo país sob uma tirania está miserável”, o que, contudo verdadeiro, não prova nada, o Termo Médio não estando distribuído. Agora, no primeiro caso, a Falácia seria referida à categoria de “extra dictionem”; no último, àquela de “in dictione”. O que devemos supor que o orador pretende fazer-nos entender? Sem dúvida, apenas qualquer coisa que seus ouvintes podem acontecer de preferir: alguns poderiam concordar com a falsa premissa; outros, permitiriam o Silogismo incorreto; para o sofista mesmo, é indiferente, enquanto eles apenas possam ser trazidos a admitir a Conclusão.
Sem pretender, então, conformar-me ao modo de falar de cada um sobre o assunto, ou estabelecer regras que por si mesmas deverão (sem nenhuma exigência de trabalho ou habilidade na pessoa que as emprega) prontamente ser aplicáveis a, e decisivas de, cada caso individual, deverei propor uma divisão que é ao menos tão perfeitamente clara quanto seu princípio mais importante, e coincide, talvez, o mais próximo possível, com as noções estabelecidas pelos Lógicos sobre o assunto.
§2
Falácias Lógicas. Em cada Falácia, a Conclusão ou segue-se ou não se segue das premissas. Onde a conclusão não se segue das Premissas, é manifesto que a falta está no Raciocínio, e nisso somente; essas, portanto, chamamos de Falácias Lógicas,1 [176]como sendo propriamente violações daquelas regras do Raciocínio é a província da Lógica estabelecer.
Dentre essas, contudo, um tipo é mais puramente Lógico, como exibindo sua natureza falaciosa pela simples forma de expressão, sem nenhuma consideração pelo significado dos Termos: classe a qual pertencem: 1) Meio não distribuído; 2) Processo Ilícito; 3) Premissas Negativas, ou Conclusão Afirmativa a partir de uma Premissa Negativa, e vice-versa: a qual pode ser adicionada [uma] 4) aquelas que palpavelmente têm (ou seja, expressam) mais do que três Termos.
Falácias Semilógicas. O outro tipo pode ser mais propriamente chamado de semilógico; em outras palavras, todos os casos de Termo médio ambíguo exceto o de sua não distribuição: pois, embora em tais casos a conclusão não se siga, e embora as regras da Lógica mostrem que não, tão logo a ambiguidade do Termo médio é averiguada, contudo, a descoberta e a averiguação dessa ambiguidade requerem atenção com o sentido do Termo, bem como conhecimento da matéria de discussão; assim, aqui a Lógica não nos ensina como encontrar a Falácia, mas somente onde procurar por ela, e a partir de quais princípios condená-la.
Adequadamente foi tornado assunto de reclamação amarga contra a Lógica, que ela pressupõe que o ponto mais difícil já foi alcançado, a saber, o sentido dos Termos a ser determinado. Uma objeção similar poderia ser urgida contra cada outra arte na existência; por exemplo, contra a Agricultura, que todos os preceitos para o cultivo da terra pressupõe a posse de uma fazenda; ou contra a Perspectiva, cujas regras são inúteis para um homem cego. A objeção é de fato peculiarmente absurda quando urgida contra a Lógica, pois o objeto pelo qual ela é culpada de não alcançar não pode possivelmente estar dentro da província de qualquer arte de quem quer que seja. É de fato possível ou concebível [177]que deva haver qualquer método, ciência ou sistema que deva capacitar-nos a conhecer o sentido completo e exato de cada termo na existência? O máximo que pode ser feito é dar algumas regras gerais que podem auxiliar-nos nesse trabalho; o que já foi feito nos dois primeiros capítulos do Livro II.2
Familiaridade com um termo distinta da apreensão clara de seu significado. Nada tende a esconder mais dos homens suas concepções imperfeitas do significado de um termo do que a circunstância de serem completamente capazes de compreenderem um processo de raciocínio no qual ele está envolvido, sem atribuírem nenhum significado em absoluto àquele Termo; como é evidente quando X Y Z são usados para representarem Termos, em um Silogismo regular. Desse modo, um homem pode estar familiarizado com um termo, e nunca se encontrar perdido por não o compreender; a partir do que ele muito provavelmente inferirá que ele o compreende, quanto talvez não [o faça], mas o empregará vaga e incorretamente; o que o levará a falhas de Raciocínio e confusão. Precisa ser confessado, contudo, que muitos escritores em Lógica têm, em grande medida, ao chamar a Lógica de “o uso correto da Razão”, estabelecido “regras para obtenção de ideias claras”, e semelhantes a ἀλαζονεία, como Aristóteles chama-as; (Ret. Livro I. Cap. ii.)
ORIGINAL:
WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.173-177. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/173/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 Da mesma maneira que nós chamamos de criminal uma corte na qual crimes são julgados.
2 O autor mesmo das objeções diz, “Isso (a compreensão do significado dos Termos gerais) é um estudo que cada individuo precisa realizar por si mesmo; e para o qual nenhuma regra da Lógica (quão úteis elas possam ser na direção de nossas tarefas) pode suplantar a necessidade”. D. Stewart, Phil. Vol. II. Cap. ii. s.2.
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