domingo, 20 de agosto de 2023

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - A Informática como uma Disciplina Fundamental na Educação Geral: A Perspectiva Dinamarquesa

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte VII Educação e Habilidades do Futuro


Ensaio anterior


[191]A Informática como uma Disciplina Fundamental na Educação Geral: A Perspectiva Dinamarquesa


por Michael E. Caspersen


Resumo A informática no geral, e o desenvolvimento particular da inteligência artificial, está mudando o conhecimento, a percepção e a realidade humanos, dessa forma, mudando radicalmente o curso da história humana. A informática tem tornado possível automatizar uma gama extraordinária de tarefas ao possibilitar às máquinas desempenharem um papel cada vez mais decisivo na extração de conclusões a partir de dados e, em seguida, agirem A transferência crescente de julgamento dos seres humanos para as máquinas denota o aspecto revolucionário da informática.

Para as sociedades manterem ou recuperarem o controle e a supremacia democráticos sobre a tecnológica digital é imperativo incluir a informática na educação geral com uma perspectiva dupla sobre as possibilidades e implicações da computação para os indivíduos e a sociedade. O currículo informático dinamarquês para educação geral reconhece a natureza dupla e bipartida da informática ao complementar uma abordagem construtiva para a computação com uma abordagem analítica crítica para os artefatos digitais.


1 Humanismo Digital e Educação Informática Geral


A tecnologia da informação é uma tecnologia diferente de qualquer outra que a humanidade inventou. Todas as outras tecnologias estendem a nossa habilidade física, habilitando-nos a mover-nos mais rápidos de um lugar para outro, a gerar energia (verde), a desenvolver medicamento para salvar vidas, a refinar a produção de alimentos, e assim por diante. A tecnologia da informação é crucial para outras tecnologias modernas, mas a qualidade essencial única da tecnologia da informação é que ela estende à nossa habilidade cognitiva.

Já em 1967, o dinamarquês laureado com o Turing Peter Naur escreveu sobre a importância da inclusão da informática na educação geral (Naur, 1997, pp. 14-15; Naur 1992, p.176):


[192]“Para conceber o lugar adequado da informática no currículo é natural compará-la com assuntos de caráter similar. Então alguém compreenderá que linguagens e matemática são as analogias mais próximas. Também comum para as três é a sua característica como ferramentas para muitos outros assuntos.

Uma vez que a informática se torne bem estabelecida na educação geral, o mistério em torno dos computadores, nas percepções de muitas pessoas, desaparecerá. Isso precisa ser considerado como talvez a razão mais importante para a promoção do entendimento da informática. Essa é uma condição necessária para a supremacia da humanidade sobre os computadores e para assegurar que o uso deles não se torne um assunto para um pequeno grupo de especialistas, mas torne-se um assunto democrático usual e, dessa maneira, através do sistema democrático, permanecerá onde deveria, com todos nós.”


O apelo de Naur para incluir apropriadamente a informática na educação geral com uma posição similar a das linguagens e da matemática e os seus argumentos em favor do apelo não são menos relevantes hoje em dia, mais de meio século após a sua articulação.

Em junho de 2018, The Atlantic trouxe a crônica How the Enlightenment Ends por Henry Kissinger (2018); aqui, o autor escreve:


Até agora, o avanço tecnológico que mais alterou o curso da história moderna foi a invenção da impressa (printing press) no século XV, a qual permitiu à busca por conhecimento empírico suplantar a doutrina litúrgica, e à era da razão suplantar a era da religião. Intuição individual e conhecimento científico substituíram a fé como o critério principal da consciência humana. A informação foi armazenada e sistematizada em bibliotecas em expansão. A era da razão deu origem a pensamentos e ações que deram forma à ordem mundial contemporânea.

Mas agora essa ordem está em agitação em meio a uma nova, ainda mais vasta, revolução tecnológica cujas consequências nós temos falhado em avaliar completamente, e cuja culminação pode ser um mundo dependente de máquinas alimentadas por dados e algoritmos e desgovernadas de normas éticas ou filosóficas.”


A informática em geral, e, em particular, o desenvolvimento da inteligência artificial (IA), estão mudando o conhecimento, a percepção e a realidade humanas – e, ao fazê-lo, mudando o curso da história humana. A informática tornou possível automatizar uma variedade extraordinária de tarefas e fez isso possibilitando às máquinas desempenharem um papel – um papel cada vez mais decisivo – na extração de conclusões a partir de dados e, em seguida, na ação. A transferência crescente do julgamento dos seres humanos para as máquina denota o aspecto revolucionário da informática e da IA como descrito por Kissinger na crônica supracitada.

Mais de um século depois do apelo de Naur, a informática está finalmente se tornando uma matéria escolar. Internacionalmente, há uma brisa emergente bastante rápida na direção de tornar a informática parte dos currículos nacionais e parte da educação geral para todos. Essa tendência reflete o reconhecimento crescente de que a informática é uma competência fundacional junto com “os três Rs”: leitura (reading), escrita (writing) e aritmética/matemática.

Contudo, no geral, os currículos informáticos tendem a priorizar o conteúdo técnico (sistemas de computadores, redes e a Internet, dados e análises, algoritmos e programação) – talvez adicionando um elemento de impacto da computação.

O currículo dinamarquês para a educação geral (um para o secundário superior e um mais novo para o primário e o secundário inferior) reconhece a natureza bipartida de todas as computações dirigidas a propósitos do mundo real – o domínio do problema e o [193]o sistema de modelo computacional – assim como a relação entre os dois: representação e interpretação (ver Fig. 1).


[193]Fig. 1 A natureza bipartida da computação


A inclusão igual do domínio do problema e da interpretação, complementando o sistema e a representação do modelo computacional, é bastante única e corporifica a perspectiva do currículo dinamarquês sobre o humanismo digital.


2 Ênfase Política em Educação Informática para Todos


Em 2016, o antigo presidente Obama lançou CS for All como uma audaciosa nova alternativa para empoderar todos os estudantes americanos, desde o jardim da infância até o ensino médio, para aprenderem ciência da computação e estarem equipados com as habilidades de pensamento computacional de que eles necessitam para serem criadores, e não apenas consumidores, na economia digital e para serem cidadãos em nosso mundo movido por tecnologia (White House 2016).

Em 2018, grandes organizações europeias e internacionais formaram a aliança Informatics for All (Informatics for All 2018). De muitas maneiras, a iniciativa Informática para Todos espelha a iniciativa de CS for All de Obama, o que a distingue da iniciativa CS for All é a estratégia em dois níveis em todos os níveis educacionais: a informática como uma matéria discreta, quer dizer, um assunto fundamental e independente na escola (como linguagem e matemática), e a integração com e aplicação a outros assuntos escolares da informática, assim como com programas de estudo na educação superior. Talvez excessivamente simplificados, os dois níveis podem ser caracterizados como Aprender a Computar (Learn to Compute) (matéria discreta) e Computar para Aprender (Compute to Learn) (integração); ver Caspersen et al. (2019).

[194]Em 2020, a Comissão da UE lançou o Plano de Ação da Educação Digital para 2021-2027, o qual menciona, como uma área e ação prioritárias (Comissão Europeia 2020a, p.9), [que]:


Para suportar um ecossistema de educação digital de alta performance, a Comissão Europeia perseguirá as seguintes ações: […]

10. Propor uma recomendação do Conselho sobre a melhoria da provisão das habilidades digitais na educação e no treinamento […] através de um foco em uma inclusiva educação computacional (informática) de alta qualidade em todos os níveis de educação.”


A Comissão da UE destaca a educação informática como uma ferramenta para impulsionar a competência digital (Comissão Europeia 2020b, p.47):


A educação informática na escola permite aos jovens obterem um entendimento crítico e prático do mundo digital. Se ensinada desde os estágios iniciais, ela pode complementar as intervenções de alfabetização digital. Os benefícios são sociais (jovens deveriam ser criadores, não apenas usuários passivos de tecnologia), econômicos (habilidades digitais são necessárias em setores da economia para conduzir crescimento e inovação) e pedagógicos (educação em computação, informática e tecnologia é um veículo para aprendizagem não apenas de habilidades técnicas, mas de habilidades-chave como pensamento crítico, resolução de problemas, colaboração e criatividade).”


Na maioria dos países, a ambição ainda não é tão grande quanto deveria ser, considerando o impacto que a revolução digital tem tido sobre todos os aspectos da sociedade (CECE 2017; Mapa da CECE 2017), e, portanto, a ênfase da Comissão Europeia sobre a informática inclusiva em todos os níveis de educação é igualmente importante, necessária e oportuna.


3 O Currículo Informático Dinamarquês para Educação Geral


Os vários tipos de informática têm sido um tópico nas escolhas secundárias superiores dinamarquesas por mais de 50 anos (Caspersen e Nowack 2013).

No final de 2008, o ministro da educação estabeleceu uma força tarefa para conduzir uma análise da informática em escolas secundárias superiores e fornecer recomendações para a revitalização do assunto, não como uma especialidade de nicho, mas como um assunto geral relevante para todos. Subsequentemente, uma nova matéria informática geral, coerente e uniforme foi desenvolvida, testada e, finalmente, tornada permanente em 2016, contudo, não ainda como uma matéria compulsória para toda a educação secundária superior.

Um aspecto distinto do currículo informático dinamarquês é o foco em empoderamento digital. Nós definimos empoderamento digital como uma preocupação de como estudantes, como indivíduos e grupos, desenvolvem a capacidade para entender a tecnologia digital e o seu efeito sobre as suas vidas e a sociedade no geral, e as habilidade deles para se engajaram critica e curiosamente com a construção e desconstrução de artefatos digitais (Dindler et al. 2021).

Uma abordagem para abraçar o empoderamento digital já estava presente no currículo informático do secundário superior dinamarquês desenvolvido em 2009 (Caspersen 2009). Uma [195]das seis áreas-chave de competência era Uso e impacto dos artefatos digitais sobre a atividade humana. O propósito dessa área de competência era que os estudantes deveriam entender que os artefatos digitais e o seu design têm um impacto profundo sobre pessoas, organizações e sistemas sociais. O design de um sistema não é apenas o design de uma artefato digital e sua interface, ele também é o design do uso e fluxo de trabalho que se manifesta em torno do artefato. O propósito é que os estudantes entendam a interação entre o design de um artefato digital e os padrões comportamentais que intencionalmente ou não intencionalmente se manifestam (Caspersen e Nowack 2013).

O currículo informático para educação primária e secundária inferior foi desenvolvido por mandato do Ministro dinamarquês da Educação em 2018 e está funcionando em teste até 2021 em aproximadamente 5% das escolas primárias e secundárias inferiores através da Dinamarca.

O autor deste capítulo e um colega do departamento de design digital e estudos da informação na faculdade de artes foram convidados para servirem como presidentes para o grupo desenvolvendo o currículo. Na escolha de presidentes, o ministro da educação sinalizou a importância da integração de uma perspectiva de humanismo digital no design do currículo.

O currículo informático para a escola primária e secundária inferior consiste em quatro áreas de competências (Ministro dinamarquês da Educação 2018):

  • Empoderamento digital

  • Design digital e processos de design

  • Pensamento e modelagem computacionais

  • Conhecimento e habilidades tecnológicos

Uma visão geral das quatro áreas de competência é fornecida na Fig. 2.


[195]Fig. 2 As quatro áreas de competência no currículo informático dinamarquês para escola primária e secundária inferior.


[196]Empoderamento digital refere-se à exploração e análise crítica e construtiva de como a tecnologia está imbuída de valores e intenções e como ela dá forma às nossas vidas como indivíduos, grupos e como uma sociedade. Ela está interessado na ética dos artefatos digitais e promove uma abordagem analítica e crítica para a transformação digital.

Design digital e processos de design refere-se à habilidade para conceber problemas dentro de uma área problema complexa e, através de processos iterativos, gerar novas ideias que podem ser transformadas em forma e conteúdo em protótipos iterativos. Ela foca-se nos processos através dos quais os artefatos digitais são criados e as escolhas que os designers têm de fazer nesses processos, realçando a habilidade dos estudantes para trabalharem reflexivamente com problemas complexos.

Pensamento e modelagem computacional diz respeito à habilidade para traduzir um problema concebido em uma possível solução computacional. Ela foca-se na habilidade do estudante para analisar, modelar e estruturar dados e processos de dados em termos de modelos abstratos (por exemplo, algoritmos, modelos de dados e modelos de interação).

Conhecimento e habilidades tecnológicos diz respeito ao conhecimento de sistemas de computador, ferramentas digitais e linguagens associadas, e programação. Ela foca-se na habilidade dos estudantes para expressas ideias e modelos computacionais em artefatos digitais. Isso inclui a habilidade para usar sistemas de computador e a linguagem associada com esses, e para expressar ideias através de programação. O trabalho dentro desta área tem por objetivo fornecer aos estudantes experiência e habilidades necessárias para fazerem escolhas informadas sobre o uso de ferramentas e tecnologias digitais.

Duas das áreas de competência – Pensamento e modelagem computacionais e Conhecimento e habilidades tecnológicos – englobam assuntos clássicos de computação, enquanto os outros dois são menos padrão em currículos informáticos, se de qualquer maneira presentes.


4 Humanismo Digital em Informática: A Perspectiva Dinamarquesa


As quatro áreas de competência constituem uma abordagem holística para a informática, aqui descrita em termos do modelo na fig. 1.

O mundo real ou um imaginário é povoado com fenômenos e atividades, os quais – através de análise e abstração – podem ser entendidos em termos de conceitos e casos de uso. Através de modelagem computacional, esses podem ser priorizados, estruturados e modelados por representação computacional. Através de design e construção usando tecnologia digital, novos artefatos digitais podem ser desenvolvidos para manipular e transformar essas representações em alguma coisa, a qual, afortunadamente, fornece de volta valor através de interpretação e uso para o mundo real (Madsen et al. 1993, chap. 18). Essas quatro áreas de competência mapeiam-se mais ou menos, uma para uma, para os quatro processos no modelo (Fig. 3).


[197]Fig. 3 Mapeamento das quatro áreas de competência para os quatro processos no pensamento computacional de um domínio de problema.


Design digital e processos de design cobrem primariamente atividades relacionadas ao domínio do problema. O pensamento e a modelagem computacional mapeiam-se para o processo indo [197]do domínio do problema para o sistema de modelo computacional. O conhecimento e as habilidades tecnológicos fornecem competências para o design e a construção de artefatos digitais. O empoderamento digital relaciona-se ao processo de volta do sistema de modelo computacional para o domínio do problema.

Não apenas as quatro áreas de competência constituem um belo círculo completo. Elas também fortalecem-se mutuamente uma a outra. Competências analíticas fornecidas pelo empoderamento digital fortalecerão as três outras áreas de competência. E vice-versa: se você efetivamente sabe como construir artefatos digitais, a sua análise crítica e construtiva pode tornar-se muito mais rica e mais profunda.


5 A Natureza Bipartite da Informática


O sistema de modelo computacional (sistema de computador, redes, segurança e linguagem de programação, etc.) é um componente clássico para um currículo informático. Sem surpresas aqui.

A inclusão de Design digital e processos de design reconhece a natureza bipartite de toda computação que é dirigida para propósitos no mundo real. Dessa maneira, nós abraçamos igualmente o domínio do problema e o domínio da solução: o inteiro sistema bipartido – tanto a máquina de software quanto o mundo físico (ou imaginário) cujo comportamento ele governa.

Isso não é geralmente abrangido em currículo informático para educação geral. O foco no processo de design é inspirado pela escola escandinava de design participativo, a qual se originou nos anos de 1970, com desenvolvimento e proliferação subsequentes além da Escandinávia (Greenbeaum e Kyng 1991). Ele também é inspirado pela filosofia de Donald Schön do design como uma prática reflexiva dos anos de 1980 [198](Schön 1983). A noção particular de concepção e reconcepção do problema é parte essencial dessa e é também inspirada pelo trabalho seminal do cientista britânico da computação nos anos de 1990 (Jackson 2000).

Contudo, o foco não é apenas nas duas partes de “o sistema bipartido” – domínio do problema e domínio da solução – mas também das relações entre as duas partes: representação e interpretação.


6 Abraçando a Incerteza: O Desafio Representacional e Interpretativo


A maior parte do mundo físico, o qual nós tentamos capturar e representar em modelos e artefatos computacionais é confusa, incerta e não determinística.

Por outro lado, os modelos computacionais que nós construímos são fundamentalmente estritos, certos e determinísticos.

O desafio tem duas faces. Uma é o desafio representacional: como nós podemos modelar os aspectos obscuros, incertos e não determinísticos do mundo em artefatos computacionais?

A outra é o desafio interpretativo: Como nós evitamos restringir e, eventualmente, desumanizar o nosso entendimento de fenômenos e conceitos no mundo real quando a nossa visão de mundo é cada vez mais definida através das lentes de modelos e artefatos computacionais estritos, certos e determinísticos?

O desafio representacional é tratado pela área de competência do Pensamento e modelagem computacionais (dados, algoritmos, estruturação, etc), a qual, novamente, é um componente autoevidente no currículo informático.

O desafio interpretativo é tratado pela área de competência do Empoderamento digital, a qual representa a habilidade para analisar e avaliar artefatos digitais com um foco sobre a intenção e o uso através de um exame e entendimento crítico, reflexivo e construtivo das consequências e possibilidades de uma artefatos digital. Essa área componente é para os artefatos digitais o que a análise literária é para os romances, mas com o componente liberador adicional da reconcepção e do redesign – compreendendo que os artefatos digitais são produzidos por humanos e poderiam ter sido projetados diferentemente se outras perspectivas tivessem sido aplicadas.


7 Conclusões


Nós apresentamos elementos do corrente desenvolvimento internacional relativo à informática na educação geral para todos, e nós apresentamos o desenvolvimento corrente na Dinamarca, na escola secundária superior e, mais recentemente, na escola primária e secundária inferior.

[199]Nós apresentamos a distinta perspectiva dinamarquesa sobre o humanismo digital representada por uma abordagem para a informática na escola onde as quatro áreas do currículo constituem uma abordagem holística reconhecendo a natureza bipartida de toda computação ao tratar do domínio do problema assim como do domínio da solução – mas também das relações entre os dois: representação e interpretação.

Ao fazê-lo, nós temos como objetivo tratar de dois interesses particulares relacionados a artefatos computacionais:

  1. Como nós podemos modelar significativamente os aspectos obscuros, incertos e não determinísticos do mundo em artefatos computacionais?

  2. Como nós evitamos restringir e, eventualmente, desumanizar o nosso entendimento de fenômenos e conceitos no mundo real, quando a nossa visão é cada vez mais definida através das lentes de modelos e artefatos computacionais estritos, certos e determinísticos?

Essas são questões essenciais em nosso caminho adiante para uma sociedades em todos os aspectos cada vez mais digital. É imperativo que a informática se torne uma disciplina fundamental e geral na escola afim de assegurar que as gerações futuras tornem-se educadas e empoderadas para contribuírem para o desenvolvimento do seu ambiente digital e para realizarem o nosso avanço tecnológico para assegurar a evolução de uma sociedade segura, protegida e ambientalmente consciente e justa.


Reconhecimento Eu gostaria de agradecer aos revisores anônimos pela opinião valiosa sobre uma versão anterior deste manuscrito.


Referências


Caspersen, M.E. (2009). Kernekompetencer i informationsteknologi (em dinamarquês). Notas para grupo de trabalho ministerial. Acessado em 21 de abril de 2021.

Caspersen, M.E. & Nowack, P. (2013). Computational Thinking and Practice — A Generic Approach to Computing in Danish High Schools, Proceedings of the 15th Australasian Computing Education Conference, ACE 2013, Adelaide, South Australia, Australia, pp. 137-143.

Caspersen, M.E., Gal-Ezer, J., McGettrick, A.D. & Nardeli, E. (2019). Informatics as a Fundamental Discipline for the 21st Century. Communications of the ACM 62 (4), DOI: https://doi.org/10.1145/3310330.

CECE (2017). Informatics Education in Europe: Are We All In The Same Boat?, Relatório pelo Comitê sobre Educação Europeia em Computação, Informatics Europe and ACM Europe. Acessado em 12 de março de 2021.

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Danish Ministry of Education (2018). Indholdet i forsøgsfaget teknologiforståelse (em dinamarquês). O Ministério Dinamarquês da Educação. Acessado em 14 de março de 2021.

Dindler, C., Iversen, O.S., Caspersen, M.E. & Smith, R.C. (2021). Computational Empowerment. In Computational Thinking Education in K-12: Artificial Intelligence Literacy and Physical Computing, MIT Press, 2021. Eds. Kong, S-C & Abelson, H. Programado para publicação na primavera de 2021.

[200]Greenbeaum, J. & Kyng, M., Eds. (1991). Design at Work: Cooperative Design of Computer Systems. CRC Press.

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Jackson, M. (2000). Problem Frames: Analyzing and structuring software development problems. Addison-Wesley.

Kissinger, H. (2018). How the Enlightenment Ends. The Atlantic, Junho de 2018. Acessado em 21de abril de 2021.

Madsen, O.L., Møller-Pedersen, B. & Nygaard, K. (1993). Object-Oriented Programming in the BETA Programming Language. Addison-Wesley.

Naur, P. (1967). Datalogi – læren om data (em dinamarquês). A segunda das cinco preleções Rosenkjær na Danish Broadcasting Corporation 1966-67 publicado como Datamaskinerne og samfundet, Munksgaard. Acessado em 21 de abril de 2021.

Naur. P. (1992). Computing: A Human Activity, ACM Press.

Schön D.A. (1983). The Reflective Practitioner: How professionals think in action. Temple Smith.

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Próximo ensaio


ORIGINAL:

CASPERSEN, M. E. Informatics as a Fundamental Discipline in General Education: The Danish Perspective. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.191-200. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

domingo, 13 de agosto de 2023

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Introdução: Sobre o Gosto

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


Prefácio


[79]Introdução: Sobre o Gosto


Em uma visão superficial, nós podemos parecer diferir muito amplamente uns dos outros em nossos raciocínios, e não menos em nossos prazeres; mas, a despeito dessa diferença, a qual eu considero ser mais aparente do que real, é provável que o padrão tanto da razão quanto do gosto seja o mesmo em todas as criaturas humanas. Pois, se não existissem alguns princípios de julgamento, assim como de sentimento, comuns a todo o gênero humano, nenhum entendimento possivelmente poderia ser tido, quer da razão, quer das paixões deles, suficiente para manter a compatibilidade de vida. De fato, parece ser geralmente reconhecido que, com respeito à verdade e falsidade, há alguma coisa fixa. Nós encontramos as pessoas em suas disputas continuamente apelando para certos testes e padrões, os quais são admitidos em todos os lados e são supostos estarem estabelecidos em nossa natureza comum. Mas não há mesma concordância óbvia em nenhum princípio uniforme ou estabelecido que se relaciona ao gosto (taste). É até comumente suposto que essa faculdade delicada e aérea, que parece volátil demais para suportar até as cadeias de uma definição, não pode ser apropriadamente provada em nenhum teste, nem regulada por nenhum padrão. Há uma convocação tão contínua para o exercício da faculdade do raciocínio; e ela é tão fortalecida pela controvérsia perpétua, que certas [80]máximas da razão correta parecem estar tacitamente estabelecidas entre os mais ignorantes. O instruído aperfeiçoou-se nessa ciência rude e reduziu aquelas máximas a um sistema. Se o gosto não tem sido tão felizmente cultivado, não foi porque o tema fosse estéril, mas porque os trabalhadores foram poucos ou negligentes; pois, para dizer a verdade, não há os mesmos motivos de interesse para nos impelirem a estabelecer um, os quais nos urgem a determinar o outro. E afinal, se os homens diferem em sua opinião relativa a tais assuntos, a diferença deles não é acompanhada com as mesmas consequências importantes; senão eu não tenho dúvida de que a lógica do gosto, se me é permitida a expressão, poderia muito bem ser tão bem sintetizada, e nós poderíamos chegar a discutir assuntos dessa natureza com tanta certeza, quanto aquelas que parecem mais imediatamente dentro da província da mera razão. E de fato é muito necessário, na entrada de uma investigação tal como a nossa presente, tornar esse ponto tão claro quanto possível; pois, se o gosto não possuir princípios fixos, se a imaginação não for afetada de acordo com algumas leis invariáveis e certas, o nosso labor é provável de ser empregado para propósito muito pequeno; visto que deve ser julgado como empreendimento inútil, se não absurdo, estabelecer regras para o capricho, e estabelecer-se como um legislador de venetas (whims) e fantasias (fancies).

O termo gosto (taste), como todos os outros termos metafóricos (figuratives), não é extremamente preciso; a coisa que nós entendemos por ele está longe de ser uma ideia simples e determinada nas mentes da maioria dos homens e, portanto, está sujeita à incerteza e confusão. Eu não tenho nenhuma grande opinião de uma definição, o remédio celebrado para a cura dessa desordem. Pois, quando nós definimos, nós parecemos em perigo de circunscrever a natureza no interior dos limites das nossas próprias noções, as quais nós frequentemente aceitamos por perigo [81]ou abraço em confiança, ou formadas a partir de uma consideração limitada e parcial do objeto diante de nós; em vez de estender nossas ideias para compreenderem tudo o que a natureza compreende de acordo com a sua forma de combinação. Nós estamos limitados, em nossa investigação, pelas leis estritas às quais nós nos submetemos no nosso início.


Circa vilem patulumque morabimur orbem,

Unde pudor proferre pedem vetat aut operis lex.


Uma definição pode ser muito exata e, contudo, avançar muito pouco na direção de nos informar sobre a natureza da coisa definida; mas, seja qual for a virtude de uma definição, na ordem das coisas, ela parece antes seguir do que anteceder a nossa investigação, da qual ela deve ser considerada como o resultado. Deve ser reconhecido que os métodos de investigação e ensino algumas vezes podem ser diferentes, e sobre muito boa razão, indubitavelmente; mas, por minha parte, eu estou convencido de que o método de ensino que mais de perto se aproxima do método de investigação é incomparavelmente o melhor; uma vez que, não contente com fornecer umas poucas verdades estéreis e sem vida, ele conduz ao estoque no qual elas cresceram; ele tende a colocar o leitor mesmo no rastro da invenção, e a dirigi-lo para aqueles caminhos nos quais o autor realizou as suas próprias descobertas, se ele deve ter sido tão feliz quanto a ter feito qualquer uma que seja valiosa.

Mas para remover toda pretensão para cavilação, eu quero dizer pela palavra gosto (taste) não mais do que aquela faculdade ou aquelas faculdades da mente que são afetadas por, ou que formam um julgamento de, as obras da imaginação e das artes elegantes. Eu penso que essa é a ideia mais geral dessa palavra, e que é a menos conectada com qualquer teoria particular. E meu objetivo [82]nesta investigação é descobrir se há quaisquer princípios sobre os quais a imaginação seja afetada, tão comuns a todos, tão fundamentados e certos, quanto a fornecerem os meios de se raciocinar satisfatoriamente sobre eles. E tais princípios de gosto eu imagino que há; por mais paradoxal que possa parecer para aqueles, quem, em uma visão superficial, imaginam que há uma diversidade tão grande de gostos, tanto em tipo quanto em grau, que nada pode ser mais indeterminado.

Todos os poderes naturais no homem, que eu conheço, que são familiarizados com objetos externos, são os sentidos; a imaginação; e o julgamento. E primeiro com respeito aos sentidos. Nós supomos e devemos supor que, como a conformação dos seus órgãos são quase ou completamente a mesma em todos os homens, assim a forma de percepção dos objetos externos é, em todos os homens, a mesma ou com pouca diferença. Nós ficamos satisfeitos que o que parece luz para um olho, parece luz para outro; que o que parece doce para um paladar, é doce para outro; que o que é escuro e amargo para este homem, da mesma maneira, é escuro e amargo para aquele; e nós concluímos da mesma maneira sobre o grande e o pequeno, o duro e o macio, o quente e o frio, o irregular e o liso; e de fato, sobre todas as qualidades e afeições naturais dos corpos. Se nós permitimos a nós mesmos imaginarmos que os sentidos deles apresentam para homens diferentes imagens diferentes das coisas, esse procedimento cético tornará todo tipo de raciocínio sobre qualquer assunto vão e frívolo, mesmo que o raciocínio cético mesmo tenha persuadido-nos a entreter uma dúvida relativa ao acordo das nossas percepções. Mas, visto que haverá pouca dúvida de que os corpos apresentam imagens similares para a espécie inteira, deve ser necessariamente reconhecido que os prazeres e as dores que cada objeto excita em um homem, ele deve provoca em todo [83]o gênero humano, considerando que ele opera naturalmente, simplesmente e apenas através dos seus próprios poderes; pois, se nós negamos isso, nós precisamos imaginar que a mesma causa, operando da mesma maneira, e sobre sujeitos do mesmo tipo, produzirá efeitos diferentes; o que seria altamente absurdo. Primeiro consideremos esse ponto no sentido do gosto (taste), e preferivelmente, visto que a faculdade em questão tomou o seu nome desse sentido. Todos os homens concordam em chamar o vinagre de azedo, o mel de doce, e aloés de amargo; e, visto que todos eles concordam em encontrar essas qualidades naqueles objetos, eles não diferem no mínimo relativo aos seus efeitos em relação ao prazer e à dor. Todos eles concordam em chamar a doçura de agradável e a acidez e amargura de desagradáveis. Aqui não há diversidade nos seus sentimentos; e que não há, surge completamente a partir do consentimento de todos os homens nas metáforas que são tomadas a partir do sentido do gosto. Um temperamento azedo, expressões amargas, maldições amargas, uma destino amargo, são termos bem e fortemente entendidos por todos. E nós também somos completamente entendidos quando dizemos, uma disposição doce, uma pessoa doce, uma condição doce e semelhantes. É confessado que costume e algumas outras causas produziram muitas divergências dos prazeres ou das dores naturais que pertencem aos vários gostos: mas então o poder de distinguir entre o gosto (relish) natural e o adquirido permanece por fim. Frequentemente, um homem chega a preferir o gosto do tabaco àquele do açúcar, e o gosto (flavor) do vinagre àquele do leite; mas isso não produz confusão nos gostos, enquanto ele está consciente de que tabaco e vinagre não são doces, e enquanto apenas o hábito reconciliou o paladar dele com esses prazeres estranhos. Mesmo com uma semelhante pessoa nós podemos falar, e com precisão suficiente, relativo a gostos. Mas, [84]devesse qualquer homem ser encontrado que declare que, para ele, o tabaco tem um gosto semelhante ao do açúcar, e que ele não pode distinguir entre o leite e o vinagre; ou que tabaco e vinagre são doces, leite, amargo, e açúcar, azedo; nós imediatamente concluímos que os órgãos desse homem estão fora de ordem, e que o paladar dele está completamente viciado. Nós estamos tão longe de concordar com uma semelhante pessoa sobre gostos, como de raciocinar relativo a relações de quantidade com alguém que considere que todas as partes juntas eram iguais ao todo. Nós não chamamos um homem desse tipo de errado em suas noções, mas de absolutamente louco. Exceções desse tipo, de qualquer maneira, absolutamente, não desacreditam a nossa regra geral, nem nos fazem concluir que os homens têm vários princípios relativos às relações de quantidade ou do gosto das coisas. De modo que, quando se diz, o gosto não pode ser contestado, isso apenas quer dizer que ninguém pode responder estritamente que prazer ou dor algum homem particular pode encontrar a partir do gosto de alguma coisa particular. De fato, isso não pode ser contestado; mas nós podemos contestar, e também com clareza suficiente, relativo às coisas que são naturalmente agradáveis ou desagradáveis para o sentido. Mas quando nós falamos em qualquer gosto adquirido, então nós temos de conhecer os hábitos, os prejuízos, ou as enfermidades desse homem particular, e nós precisamos extrair a nossa conclusão a partir deles.

Esse acordo do gênero humano não está confinado unicamente ao gosto. O princípio do prazer derivado da visão é o mesmo em todos. A luz é mais agradável do que a escuridão. O verão, quando a terra está envolta em verde, quando os céus estão serenos e brilhantes, é mais agradável do que o inverno, quando tudo produz uma aparência diferente. Eu nunca me lembro de nada belo, ou um homem, ou uma besta, ou um pássaro, ou uma [85]planta, fosse alguma vez revelado, embora fosse para uma centena de pessoas, que eles todos não concordaram imediatamente que fosse belo, embora alguns tenham considerado que ficasse aquém da sua expectativa, ou que outras coisas fossem ainda mais belas. Eu acredito que nenhum homem considere um ganso ser mais belo do que um cisne, ou imagine que o que eles chamam de galinha da Frísia seja mais excelente do que um pavão. Também deve ser observado que os prazeres da visão não são tão complicados, e confusos, e alterados por hábitos e associações não naturais, como são os prazeres do paladar (taste); porque os prazeres da vista mais comumente aquiescem em si mesmos; e não são tão frequentemente alterados por considerações que são independentes da visão mesma. Mas as coisas não se apresentam espontaneamente ao paladar (palate) como elas o fazem para a visão; elas são geralmente aplicadas a ele, quer como comida, quer como remédio; e a partir das qualidades que ela possuem para propósitos nutritivos ou medicinais, elas frequentemente dão forma ao paladar (palate) gradualmente, e por força dessas associações. Dessa forma, o ópio é agradável para os turcos, por causa do delírio agradável que ele produz. O tabaco é o deleite do holandês, visto que ele difunde um torpor e uma estupefação agradável. Álcoois fermentados agradam o nosso povo, porque eles banem o cuidado e toda consideração dos males futuros ou presentes. Todos esses jazeriam absolutamente negligenciados, se as propriedades deles, originalmente, não tivessem ido além do paladar; mas todos esses, juntos com o café e chá, e algumas outras coisas, passaram da loja do boticário para as nossas mesas, e foram considerados para a saúde muito antes que eles fossem considerados para o prazer. O efeito da droga fez-nos usá-la frequentemente; e o uso frequente, combinado com o efeito agradável, por fim, tornou o gosto mesmo [86]agradável. Mas isso não confunde no mínimo o nosso raciocínio; porque nós distinguímos até o fim o adquirido do gosto (relish) natural. Na descrição do sabor (taste) de uma fruta desconhecida, você escassamente diria que ela tinha um sabor (flavor) doce e agradável como o tabaco, ópio ou alho, embora você fale para aqueles que estavam no uso constante dessas drogas, e tinham um grande prazer nelas. Há em todos os homens uma lembrança suficiente das originais causas naturais do prazer, para os possibilitar trazer todas as coisas oferecidas aos seus sentidos àquele padrão, e para regular os seus sentimentos e opiniões por ele. Suponha que alguém tenha viciado o seu paladar para obter mais prazer no gosto da ópio do que naquele da manteiga ou do mel, seja apresentado a um bolo de cilas; dificilmente há qualquer dúvida de que ele preferiria a manteiga ou o mel a esse bocado nauseabundo, ou a qualquer outra droga com a qual ele não estivesse acostumado; o que prova que o seu paladar era naturalmente como aquele de outros homens em todas as coisas, que ele ainda é como o paladar de outros homens em muitas coisas, e apenas viciado em alguns pontos particulares. Pois, ao julgar alguma coisa nova, mesmo um gosto similar àquele que ele foi formado pelo hábito para gostar, ele descobre o seu paladar afetado da maneira natural, e sobre princípios comuns. Dessa forma, o prazer de todos os sentidos, da visão, e mesmo do paladar, esse mais ambíguo dos sentidos, é o mesmo em todos, altos e baixos, instruídos e incultos.

Além das ideias, com suas dores e seus prazeres adicionados, que são apresentadas pelo sentido, a mente do homem possui um tipo de poder criativo de si própria; quer representando à vontade as imagens das coisas na ordem e no modo nos quais elas são recebidas pelos sentidos, quer na combinação daquelas [87]imagens em um novo modo, e de acordo com uma ordem diferente. Esse poder é chamado de imaginação; e a ele pertence o que quer que seja chamado de inteligência (wit), fantasia (fancy), invenção e semelhantes. Mas deve ser observado que esse poder da imaginação é incapaz de produzir qualquer coisa absolutamente nova; ele apenas pode varia a disposição daquelas ideias que ele recebeu a partir dos sentidos. Agora, a imaginação é a província mais extensa do prazer e da dor, visto que ela é a região dos nossos medos e das nossas esperanças, e de todas as nossas paixões que estão conectadas com eles; e, o que quer que seja calculado afetar a imaginação como essas ideias dominantes, por força de qualquer impressão natural, tem de ter o mesmo poder bastante igualmente sobre todos os homens. Pois, uma vez que a imaginação é apenas a representação dos sentidos, ela apenas pode ser agradada ou desagradada com as imagens, a partir do mesmo princípio sobre o qual o sentido é agradado ou desagradado com as realidades; e, consequentemente, tem de haver exatamente tão próximo de um acordo na imaginação como nos sentidos dos homens. Um pouco de atenção convencer-nos-á de que esse necessariamente deve ser o caso.

Mas na imaginação, além da dor ou do prazer surgindo a partir das propriedades do objeto natural, um prazer é percebido a partir da semelhança que a imitação tem com o original: a imaginação, eu concebo, pode não ter prazer exceto no que resulta a partir de uma ou outra dessas causas. E essas causas operam bastante uniformemente sobre todos os homens, porque elas operam por princípios na natureza, e esses não são derivados a partir de nenhum hábito ou vantagem particular. O sr. Locke, muito justa e finamente, observa sobre a inteligência (wit), que é principalmente proficiente traçando semelhanças (resemblances); ao mesmo tempo, ele observa que a atividade do julgamento está antes na [88]descoberta de diferenças. Sobre essa suposição, pode parecer que não há distinção material entre inteligência e julgamento, visto que ambos parecem resultar a partir de operações diferentes da mesma faculdade de comparação (comparing). Mas na realidade, se eles são ou não são dependentes do mesmo poder da mente, eles diferem tão materialmente em muitos aspectos, que uma união perfeita de inteligência e julgamento é uma das coisas mais raras no mundo. Quando dois objetos distintos são diferentes um do outro, é apenas o que nós esperamos; coisas são em sua maneira comum; e, portanto, elas não causam impressão na imaginação: mas quando dois objetos têm uma semelhança, nós somos afetados, nós prestamos atenção neles, e nós ficamos satisfeitos. A mente do homem naturalmente tem uma vivacidade e satisfação muito maior traçando semelhanças do que em procurar por diferenças; porque criando semelhanças nós produzimos novas imagens; nós unimos, nós criamos, nós alargamos o nosso estoque; mas criando distinções nós não oferecemos absolutamente nenhuma alimento para a imaginação; a tarefa mesma é mais severa e cansativa, e que prazer nós derivamos a partir dela é alguma coisa de uma natureza negativa e indireta. Uma peça de notícia é contada a mim pela manhã; isso, meramente como uma peça de notícia, como um fato adicionado ao meu estoque, concede-me alguma prazer. À noite, eu descubro que não há nada nela. O que eu ganho com isso, exceto a insatisfação de descobrir eu fui abusado? Consequentemente, é que os homens são muito mais naturalmente adequadas à crença o que à incredulidade. E é sobre esse princípios que as nações mais ignorantes frequentemente têm sido excelentes em semelhanças, comparações, metáforas e alegorias, quem têm sido fracas e atrasadas em distinguir e ordenar suas ideias. E é por uma razão desse tipo que Homero os escritores [89]orientais, embora inclinados a semelhanças, e embora eles atinjam tal como verdadeiramente admiráveis, raramente tomam o cuidado de as ter exatas; quer dizer, elas são aceitas com a semelhança geral, eles pintam-na fortemente, e eles não prestam atenção à diferença que podem ser encontrada entre as coisas comparadas.

Agora, como o prazer da semelhança é aquilo que principalmente lisonjeia a imaginação, todos os homens são quase iguais nesse ponto, até onde se estende o conhecimento deles das coisas representadas ou comparadas. O princípio desse conhecimento é muito acidental, visto que ele depende da experiência e observação, e não da força ou fraqueza de nenhuma faculdade natural; e é a partir dessa diferença em conhecimento, essa que nós comumente, embora sem grande exatidão, chamamos de uma diferença em gosto procede. Um homem para quem a escultura é nova, vê um bloco de barbeiro, ou alguma peça ordinária de estatuária; ele é imediatamente afetado e agradado, porque ele vê alguma coisa semelhante a uma figura humana; e, inteiramente tomado por essa semelhança, ele absolutamente não presta atenção para os defeitos dela. Nenhuma pessoa, eu acredito, vendo pela primeira vez uma peça de imitação alguma vez o fez. Algum tempo depois, nós supomos que essas novas luzes sobre uma obra mais artificial da mesma natureza; ele agora começa a olhar com desdém para o que ele inicialmente admirava; não que ele a admirasse mesmo então por sua diferença para um homem, mas por aquela semelhança imprecisa, embora geral, que ela comportava com a figura humana. O que ele admirava em diferentes momentos nessas figuras tão diferentes era estritamente o mesmo; e, embora o conhecimento dele tenha melhorado, o seu gosto não se alterou. Até agora, o equívoco dele era a partir de uma carência de conhecimento na arte, e isso surgiu a partir de sua inexperiência; mas ele ainda pode ser deficiente a partir de uma carência de conhecimento na natureza. [90]Pois é possível que o homem em questão possa parar aqui, que a obra-prima de uma grande mão possa agradar-lhe não mais do que a performance medíocre de um artista vulgar; e isso não por falta de gosto (relish) melhor ou mais elevado, mas porque todos os homens não observam com precisão suficiente a figura humana para os capacitar a julgar adequadamente uma imitação dela. E que o gosto crítico não depende de um princípio superior nos homens, mas de conhecimento superior, pode surgir em várias instâncias. A história do antigo pintor e sapateiro é muito bem conhecida. O sapateiro descreveu corretamente para o pintor com respeito a alguns equívocos que ele tinha produzido no calçado de uma das figuras, o que o pintor, quem não tinha realizado observações precisas dos sapatos, e estava contente com uma semelhança geral, nunca tinha observado. Mas isso não impedimento para o gosto do pintor; apenas revelou alguma carência de conhecimento na arte de produzir sapatos. Imaginemos que um anatomista tenha entrado na sala de trabalho do pintor. No geral, a peça dele está bem feita, a figura em questão em uma boa atitude, e as partes bem ajustadas para os vários movimentos delas; contudo, o anatomista, crítico em sua arte, pode observar a dilatação de algum músculo não bem ajustada na ação peculiar da figura. Aqui o anatomista observa o que o pintor não tinha observado; e ele passa pelo que o sapateiro tinha observado. Mas uma carência do último conhecimento crítico em anatomia não mais refletia o bom gosto natural do pintor, ou de qualquer observador comum de sua peça, do que a carência de um conhecimento exato na formação de sapato. Uma fina peça de uma cabeça degolada de São João Batista foi mostrada a um imperador turco: ele elogiou muitas coisas, mas ele observou um defeito: [91]ele observou que a pele não se encolhia a partir da parte ferida do pescoço. O sultão nessa ocasião, embora sua observação fosse muito justa, não revelou mais gosto natural do que o pintor que executou essa obra, ou que mil conhecedores europeus, quem, provavelmente, nunca teria feito a mesma observação. De fato, sua majestade turca estava bem familiarizada com aquele terrível espetáculo, o qual os outros apenas poderiam ter representado na imaginação deles. Sobre a questão do desgosto deles, há uma diferença entre todas essas pessoas, surgindo de diferentes tipos e graus do seu conhecimento; mas há alguma coisa em comum entre o pintor, o sapateiro, o anatomista e o imperador turco, o prazer surgindo a partir de um objeto natural, até onde cada um percebe que ele é justamente imitado; a satisfação de ver uma figura agradável; a simpatia procedendo a partir de um incidente impactante e afetante. Até onde o gosto é natural, ele é quase comum a todos.

Na poesia, em outras peças de imaginação, a mesma paridade pode ser observada. É verdadeiro que um homem fica encantado com Don Bellianis e lê Virgílio friamente; ao passo que outro é transportado com a Eneida, e deixa Don Bellianis para as crianças. Esses dois homens parecem ter um gosto muito diferente um do outro; mas, de fato, eles diferem muito pouco. Em ambos esses casos, o que inspira sentimentos tão opostos, um conto excitando a admiração é contado; ambos são cheios de ação, ambos são apaixonados; em ambos há viagens, batalhas, triunfos e mudanças contínuas de fortuna. O admirador de Don Bellianis talvez não entenda a linguagem refinada da Eneida, quem, se ela for degradada ao estilo do “Pilgrim’s [92]Progress,” poderia senti-la em toda a sua energia, sobre o mesmo princípio que o tornou um admirador de Don Bellianis.

Em seu autor favorito, ele não fica chocado com as infrações contínuas da probabilidade, a confusão dos tempos, as ofensas contra as maneiras, o atropelo da geografia; pois ele nada conhece de geografia e cronologia, e ele nunca examinou os fundamentos da probabilidade. Talvez ele leia sobre um naufrágio na costa a Boêmia: inteiramente tomado por um evento tão interessante e, apenas preocupado pelo destino do herói, ele não está perturbado no mínimo diante desse engano extravagante. Pois, porque ele deveria ficar chocado com um naufrágio na costa da Boêmia, quem não conhece senão que a Boêmia pode ser um ilha no oceano Atlântico? E, afinal, qual é esta reflexão sobre o natural bom gosto da pessoa suposta aqui?

Portanto, até agora, visto que o gosto pertence à imaginação, o seu princípio é o mesmo para todos os homens; não há diferença no modo deles serem afetados, nem nas causas da afetação; mas no grau há uma diferença, a qual surge principalmente a partir de duas causas; quer a partir de um grau maior de sensibilidade natural, quer a partir de uma atenção mais estrita e longa do objeto. Para ilustrar isso pelo procedimento dos sentidos, no qual a mesma diferença é encontrada, suponhamos um mesa de mármore muito lisa a ser colocada diante de dois homens; eles ambos percebem-na ser lisa, e eles ambos ficam agradados com ela por causa dessa qualidade. Até aqui eles concordam. Mas suponha outra, e após aquela outra mesa, a segunda ainda mais lisa do que a primeira, para ser colocada diante dele. Agora é muito provável que esses homens, quem concordavam tanto sobre o que é liso, e [93]no prazer a partir daí, discordarão quando se chegar a decidir qual mesa tem a vantagem no ponto de polimento. Aqui, de fato, há a grande diferença entre os gostos, quando homens chegam a comparar o excesso ou diminuição de coisas que são julgados por graus e não por medida. Nem é fácil, quando uma semelhante diferença surge, resolver o assunto, se o excesso ou a diminuição não for evidente. Se nós diferimos na opinião sobre duas quantidades, nós podemos recorrer a uma medida comum, a qual pode decidir a questão com a exatidão máxima; e isso, eu admito, é o que concede ao conhecimento matemático uma certeza maior do que qualquer outro. Mas em coisas cujo o excesso não é julgado por maior ou menor, como suavidade (smoothness) ou rugosidade (roughness), dureza a maciez, escuridão e iluminação, os tons de cor, todos esses são muito facilmente distinguíveis quando a diferença é de qualquer maneira considerável, mas não quando ela é minúscula, por falta de algumas medidas comuns, as quais, talvez, nunca podem vir a ser descobertas. Nesses belos casos, supondo-se a acuidade do sentido igual, a maior atenção e hábito em tais coisas terá a vantagem. Na questão das mesas, o polimento do mármore inquestionavelmente determinará mais acuradamente. Mas, a despeito dessa carência de uma medida comum para a resolução de muitas disputas relativas aos sentidos, e seus representantes na imaginação, nós descobrimos que os princípios são os mesmos em todos, e que não há desacordo até que nós cheguemos a examinar dentro da preeminência ou diferença das coisas, o que nós traz dentro província do julgamento.

Enquanto nós estamos familiarizados com as qualidades sensíveis das coisas, dificilmente algo mais do que a [94]imaginação parece interessada; pouco mais do que a imaginação parece interessada quando as paixões são representadas, porque, pela força de simpatia natural, elas são sentidas por todos os homens sem nenhum recurso ao raciocínio, e a justeza delas reconhecida em cada peito. Amor, pesar, medo, raiva, alegria, todas essas paixões, em seus momentos, afetaram cada mente; e elas não as afetam de uma maneira arbitrária ou casual, mas em consequência de princípios certos, naturais e uniformes. Mas, visto que muitas das obras da imaginação não estão confinadas à representação de objetos sensíveis, nem aos esforços sobre as paixões, mas estendem-se às maneiras, aos caráteres, às ações e aos desígnios dos homens, suas relações, suas virtudes e seus vícios, eles entram na província do julgamento, o qual é aperfeiçoado pela atenção e pelo hábito do raciocínio. Tudo isso forma uma parte muito considerável do que são considerados como objetos do gosto; e Horácio envia-nos para as escolas de filosofia e para o mundo para a nossa instrução neles. Qualquer que seja a certeza que deva ser adquirida na moralidade e ciência da vida; exatamente o mesmo grau de certeza nós temos no que se relaciona a elas nas obras de imitação. De fato, é pela maior parte em nossa habilidade nas maneiras, e nas observâncias de tempo e lugar, e de decência em geral, a qual deve ser aprendida apenas naquelas escolas que Horácio nos recomenda, que o que é chamado de gosto, pelo caminho da distinção, consiste; e que é, na realidade, não outro que um julgamento mais refinado. No todo, parece-me que o que é chamado de gosto, em sua aceitação mais geral, não é uma ideia simples, mas é parcialmente formado por uma percepção dos prazeres primários do sentido, dos prazeres secundários da imaginação, [95]e das conclusões da faculdade do raciocínio, relativos às várias relações dessas e relativos às paixões, maneiras e ações humanas. Tudo isso é necessário para formar o gosto, e o fundamento de tudo isso é o mesmo na mente humana; pois como os sentidos são as grandes origens de todas as nossas ideias e, consequentemente, de todos os nossos prazeres, o inteiro fundamento do gosto é comum a todos, e, portanto, há fundamento suficiente para um raciocínio conclusivo sobre essas questões.

Enquanto nós considerarmos o gosto meramente de acordo com a sua natureza e espécie, nós deveremos considerar os seus princípios inteiramente uniformes; mas o grau no qual esses princípios prevalecem, nos vários indivíduos da humanidade, é completamente tão diferente quanto os princípios mesmos são similares. Pois a sensibilidade e o julgamento, os quais são as qualidades que nós comumente chamamos de um gosto (taste), variam excessivamente em várias pessoas. Pois um defeito na primeira dessas qualidades gera uma falta de gosto; uma fraqueza na segunda constitui um erro um mau [gosto]. Há alguns homens formados com sentimentos tão embotados (blunt), com temperamentos tão frios e fleumáticos que dificilmente se pode dizer que eles estão despertos durante o inteiro curso das vidas deles. Diante de tais pessoas, os mais impressionantes objetos produzem apenas um impressão fraca e obscura. Há outros, tão continuamente na agitação de prazeres grosseiros e meramente sensuais, ou tão ocupados na labuta baixa da avareza, ou tão acaloradas na caça de honras e distinção, que as mentes deles, as quais têm estado tão continuamente acostumadas às tempestades dessas paixões violentas e tempestuosas, que dificilmente são movidas pelo jogo delicado e refinado das imaginação. Esses homens, embora a partir de uma causa [96]diferente, tornam-se tão estúpidos e insensíveis quanto os anteriores; mas sempre que qualquer um desses seja atingido com qualquer elegância ou grandeza naturais, ou com aquelas qualidades em qualquer obra de arte, eles são movidos em consequência dos mesmos princípios.

A causa de um gosto errado é um defeito de julgamento. E esse pode surgir a partir de uma fraqueza natural de entendimento (em qualquer que seja a força que aquela faculdade possa consistir), ou, o que é mais comumente o caso, ele pode surgir de uma carência de um exercício próprio e bem dirigido, o que sozinho pode torná-lo forte e pronto. Além disso, essa ignorância, desatenção, prejuízo, imprudência, leviandade, obstinação, em resumo, todas aquelas paixões, e todos aqueles vícios, que pervertem o julgamento em outros assuntos, não o prejudicam menos nessa província mais refinada e elegante. Essas causas produzem opiniões diferentes sobre tudo que seja uma objeto do entendimento, sem nos induzir a supor que não haja princípios estabelecidos de razão. E de fato, no todo, alguém pode observar, que há bastante menos diferença sobre questões de gosto em meio ao gênero humano, do que sobre a maioria daquelas que dependem da razão nua; e que os homens estão muito melhor de acordo sobre a excelência de uma descrição em Virgílio do que sobre a verdade ou falsidade de uma teoria de Aristóteles.

A retidão do julgamento nas artes, a qual pode ser chamada de um bom gosto, em grande medida, depende da sensibilidade; porque se a mente não tem inclinação para os prazeres da imaginação, ela nunca se aplicará suficientemente a obras daquela espécie para adquirir um conhecimento competente nelas. Mas, embora um grau de sensibilidade seja requisito para formar um bom julgamento, contudo, um bom julgamento não necessariamente surge a partir de uma sensibilidade rápida de prazer; frequentemente [97]acontece que um juiz muito ruim, meramente pela força de uma maior sensibilidade de compleição, seja mais afetado por uma peça muito ruim, do que o melhor juiz pela mais perfeita; pois como tudo novo, extraordinário, grande e apaixonado, está bem calculado para afetar uma tal pessoa, e que as faltas não a afetam, o prazer dela é mais puro e sem mistura; e como é meramente uma prazer da imaginação, é muito mais elevado do que qualquer uma que seja derivado da retidão do julgamento; pela maior parte, o julgamento é empregado jogando obstáculos no caminho da imaginação, dissipando as cenas do encantamento delas, e amarrando-nos ao jugo enfadonho da nossa razão: pois quase o único prazer que os homens têm em julgar melhor do que outros consiste em um tipo de orgulho e superioridade conscientes, os quais surgem de pensarem corretamente; mas esse é um prazer indireto, um prazer que não resulta imediatamente do objeto que está sob contemplação. Na manhã dos nossos dias, quando os sentidos estão não usados e suaves, quando o homem inteiro está desperto em cada parte, e o lustro de novidade está fresco sobre todos os objetos que nos circundam, quão amáveis àquela época são as nossas sensações, mas quão falsos e imprecisos os julgamentos que nós formamos das coisas! Eu desespero-me de alguma vez receber o mesmo grau de prazer das performances mais excelentes de gênios, o qual eu senti, àquela idade, a partir de peças que meu julgamento presente considera como insignificantes e desprezíveis. Cada causa trivial de prazer é capaz de afetar o homem de uma compleição tão sanguínea; o apetite dele é forte demais para tolerar o seu gosto ser delicado; e ele é, em todos os aspectos, o que Ovídio diz de si mesmo em amor,


Molle meum levibus cor est violabile telis,

Et semper causa est, cur ego semper amem.


[98]Alguém desse caráter nunca pode ser um juiz refinado; nunca o que o poeta cômico chama de elegans formarum spectator. A excelência e força de uma composição sempre devem ser imperfeitamente estimadas a partir dos seus efeitos sobre as mentes de qualquer um, exceto se nós conhecermos o temperamento e caráter dessas mentes. Os efeitos mais poderosos de poesia e música foram exibidos, e talvez ainda sejam exibidos, onde essas artes estão apenas em um estado muito baixo e imperfeito. O ouvinte rude é afetado pelos princípios que operam nessas artes mesmo em sua condição mais rude; e ele não é suficientemente habilidoso para perceber os defeitos. Mas, conforme as arte avançam na direção da sua perfeição, a ciência da crítica avança com ritmo igual, e o prazer dos juízes frequentemente é interrompido pelas faltas que são descobertas nas composições mais acabadas.

Antes de eu deixar esse assunto, eu não posso evitar de notar uma opinião que muitas pessoas entretêm, como se o gosto fosse uma faculdade separada da mente, e distinta do julgamento e da imaginação; uma espécie de instinto, pelo qual nós somos naturalmente atingidos, e, à primeira vista, sem nenhum raciocínio prévio, com as excelências ou os defeitos de uma composição. Até onde se diz respeito à imaginação e às paixões, eu acredito ser verdadeiro que a razão seja pouco consultada; mas, onde se diz respeito à disposição, ao decoro, à congruência, em resumo, sempre que o melhor gosto diferir do pior, eu estou convencido de que o entendimento opera, e nada mais; e, na realidade, a sua operação está longe de ser sempre súbita, ou, quando é súbita, ela frequentemente está longe de estar correta. Os homens de melhor gosto, mediante consideração, frequentemente, chegam a mudar seus julgamentos iniciais e precipitados, os quais a mente, a partir da sua aversão à neutralidade e dúvida, ama formar in loco. É [99]conhecido que o gosto (o que quer que ele seja) é aperfeiçoado exatamente como nós aperfeiçoamos o nosso julgamento, estendendo o nosso conhecimento, através de uma atenção ao nosso objeto e de exercício frequente. Aqueles que não adotaram esses métodos, se o gosto deles decide rapidamente, é quase sempre incertamente; e a rapidez deles é devida a sua presunção e grosseria, e não a alguma irradiação súbita que, em um momento, dissipe toda escuridão das mentes deles. Mas aqueles que cultivaram essa espécie de julgamento que produz o objeto do gosto, gradual e habitualmente alcançam não apenas uma correção, mas uma prontidão de julgamento, como os homens fazem, pelos mesmos métodos, em todas as outras ocasiões. Inicialmente, eles são obrigados a soletrar, mas, por fim, eles leem com tranquilidade e celeridade; mas essa celeridade de operação não é prova de que o gosto seja uma faculdade distinta. Ninguém, eu acredito, prestou atenção ao curso de uma discussão que se voltou para assuntos dentro da esfera da mera razão nua, mas deve ter observado a extrema prontidão com a qual o processo inteiro de argumento é levado a cabo, os fundamentos descobertos, as objeções levantadas e respondidas, e as conclusões extraídas a partir de premissas, com uma rapidez completamente tão grande quanto com a qual o gosto pode ser suposto de trabalhar; e contudo, onde nada exceto a simples razão é suposta ou pode ser suposta de operar. Multiplicar princípios para cada aparência diferente é inútil e também não filosófico em um alto grau.

Esse assunto poderia ser perseguido muito mais; mas não é a extensão do assunto que deve prescrever seus limites, pois qual assunto não se ramifica ao infinito? É a natureza do nosso esquema particular, e o ponto de vista único no qual nós a consideramos, que deveria colocar um fim para nossas pesquisas.


Primeira seção


ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 79-99. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/79/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0