Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo
Por Edmund Burke
[69]Prefácio
Eu tentei tornar esta edição alguma coisa mais completa e satisfatória do que a primeira. Eu tenho buscado com o máximo cuidado, e lido com igual atenção, tudo que apareceu em público contra as minhas opiniões; eu tenho tirado vantagem da liberdade sincera dos meus amigos; e se por esses meios eu tiver sido melhor capacitado para descobrir as imperfeições da obra, a indulgência que ela tem recebido, imperfeita como ela era, forneceu-me um novo motivo para não poupar esforços razoáveis para o seu aperfeiçoamento. Embora eu não tenha encontrado razão suficiente, ou que parecia ser suficiente, para fazer qualquer mudança material na minha teoria, eu considerei necessário em muitos pontos explicá-la, ilustrá-la e aplicá-la. Eu prefixei um discurso introdutório relativo ao Gosto; essa é uma questão curiosa em si mesma; e conduz de maneira suficientemente natural à investigação principal. Isso, com as outras explicações, tornou a obra consideravelmente maior; e, aumentando o seu volume, eu temo, acrescentou às suas faltas; de maneira que, a despeito de toda a minha atenção, ela pode estar em necessidade de uma porção ainda maior de indulgência do que ela requereu em seu aparecimento inicial.
Aqueles que estão acostumados com estudos dessa natureza anteciparão, e eles também levarão em consideração, muitas faltas. Eles sabem que muitos dos objetos da nossa investigação [70]são em si mesmos obscuros e intrincados; e que muitos outros têm sido tornados assim por refinamentos afetados, ou por conhecimento falso; eles sabem que há muitos impedimentos no assunto, nos prejuízos de outros, e mesmo no nosso próprio, que tornam a questão de dificuldade não pequena para revelar em uma luz clara a face genuína da natureza. Ele sabem que, enquanto a mente visa ao esquema geral das coisas, algumas partes particulares têm de ser negligenciadas; que, frequentemente, nós devemos submeter o estilo ao assunto, e, frequentemente, abrir mão do elogio de elegância, satisfeitos com sermos claros.
Os sinais da natureza são legíveis, é verdadeiro; mas eles não são suficientemente evidentes para permitir àqueles que correm lê-los. Nós temos de fazer uso de um método cauteloso, eu quase disse, receoso de proceder. Nós não devemos tentar voar, quando, escassamente, pretendemos engatinhar. Na consideração de qualquer assunto complexo, nós devemos examinar cada ingrediente distinto na composição, um por um; e reduzir tudo à simplicidade máxima; uma vez que a condição da nossa natureza restringi-nos a uma lei estrita e a limites muitos estreitos. Subsequentemente, nós devemos reexaminar os princípios pelo efeito da composição, assim como a composição por aqueles dos princípios. Nós devemos comparar o nosso assunto com coisas de natureza similar, e até com coisas de uma natureza contrária; pois descobertas podem ser, e frequentemente são feitas, pelo contraste, o qual nos escaparia a uma única visão. Quão maior o número de comparações que nós fazemos, mais geral e mais certo o nosso conhecimento é provável de se provar, visto que construído sobre uma indução mais extensa e perfeita.
Se uma investigação dessa maneira cuidadosamente conduzida deverá afinal falhar [71]na descoberta da verdade, ela pode atender a um fim talvez tão útil, ao descobrir para nós a fraqueza do nosso próprio entendimento. Se ela não nos torna conhecedores, ela torna-nos modestos. Se ela não nos preserva do erro, pelo menos, ela pode preservar-nos do espírito do erro; e tornar-nos cautelosos de pronunciar com positividade ou com pressa, quando tanto labor pode terminar em tanta incerteza.
Eu poderia desejar que, ao examinar essa teoria, o mesmo método que eu tentei observar na formação dela fosse perseguido. Em minha opinião, as objeções deveriam ser propostas, quer aos vários princípios conforme eles sejam distintamente considerados, quer à justeza da conclusão que é extraída deles. Mas é comum passar por alto igualmente sobre as premissas e a conclusão em silêncio, e produzir, como uma objeção, alguma passagem poética que não parece facilmente explicada sobre os princípios que eu tento estabelecer. Essa maneria de proceder eu deveria considerar muito imprópria. A tarefa seria infinita, se nós não pudéssemos estabelecer nenhum princípio até que nós tivéssemos previamente desemaranhado a textura complexa de cada imagem ou descrição a ser encontrada em poetas e oradores. E embora nós nunca devamos ser capazes de reconciliar o efeito de tais imagens com os nossos princípios, isso nunca pode perturbar a teoria mesma, enquanto ela esteja fundada em fatos certos indisputáveis. Uma teoria fundada sobre a experiência, e não assumida, é sempre boa por tanto quanto ela explica. A nossa inabilidade para a impulsionar indefinidamente não é, absolutamente, nenhum argumento contra ela. Essa inabilidade poder ser devida a nossa ignorância de alguns meios necessários; a uma falta de aplicação apropriada; a muitas outras causas além de um defeito nos princípios que nós empregamos. Na realidade, o assunto requer uma atenção [72]muito mais estrita do que nós nos atrevemos a reivindicar a partir da nossa maneira de o tratar.
Se não devesse aparecer no rosto da obra, eu deveria acautelar o leitor contra imaginar que eu pretendi uma dissertação completa sobre o sublime e o belo. A minha investigação não avançou mais do que até a origem dessas ideias. Se as qualidades que eu classifiquei sob a categoria do sublime deverão ser todas consistentes umas com as outras, e todas diferentes daquelas que eu coloquei sob a categoria da beleza; e se aquelas que compõem a classe do belo têm a mesma consistência consigo mesmas, e a mesma oposição com aquelas que são classificadas sob a denominação do sublime, eu estou em pouca dificuldade se alguém escolhe seguir o nome que eu dou a elas ou não, contanto que ele admita que o que eu disponho sob categorias diferentes, na realidade, são coisas diferentes em natureza. O uso que eu faço das palavras pode ser culpado, como confinado demais ou extenso demais; o meu significado não pode ser suficientemente incompreendido.
Para concluir: qualquer progresso que seja que possa ser realizado na direção da descoberta da verdade nesse assunto, eu não me arrependo dos esforços que eu enfrentei nele. A utilidade de tais investigações pode ser muito considerável. O que quer que seja que volte a alma para dentro de si mesma, tende a concentrar suas forças, e ajustá-la para voos maiores e mais fortes de ciência. Examinando as causas físicas, as nossas mentes são abertas e alargadas; e nessa busca, se nós aproveitamos ou se nós perdemos o nosso jogo, a busca é certamente de serviço. Cícero, verdadeiro como ele foi para a filosofia acadêmica e, consequentemente, levado a rejeitar a certeza do conhecimento físico, assim como de qualquer outro, todavia, livremente confessa a sua grande importância para o entendimento humano: “Est animorum [73]ingeniorumque nostrorum naturale quoddam quasi pabulum consideratio contemplatioque naturae.” Se nós pudermos dirigir as luzes que nós derivamos a partir de tais especulações exaltadas para o campo mais humilde da imaginação, enquanto nós investigamos as fontes e traçamos os cursos das nossas paixões, nós podemos não apenas comunicar ao gosto um tipo de solidez filosófica, mas nós podemos refletir de volta sobre as ciências mais severas algumas das graças e elegâncias do gosto, sem as quais a maior proficiência nessas ciências sempre terá a aparência de alguma coisa de espírito limitado.
ORIGINAL:
BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 69-73. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/69/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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