Principia Ethica
Por G.E. Moore
[vii]Prefácio
Parece-me que em ética, assim como em todos os outros estudos filosóficos, as dificuldades e os desacordos, dos quais a sua história está cheia, são principalmente devidos a uma causa muito simples: a saber, à tentativa de responder a questões sem primeiro descobrir qual é a questão que você deseja responder. Eu não sei quão longe esse erro seria eliminado se os filósofos tentassem descobrir qual questão eles estavam perguntando antes que eles começassem a respondê-la; pois o trabalho de análise e distinção é frequentemente muito difícil: nós podemos frequentemente falhar em fazer a descoberta necessária, mesmo embora nós façamos uma tentativa definida de a fazer. Mas eu estou inclinado a pensar que, em um muitos casos, uma tentativa resoluta seria suficiente para assegurar o sucesso; de maneira que, se apenas essa tentativa fosse realizada, muitas das dificuldades e desacordos mais óbvios em filosofia desapareceriam. De qualquer maneira, no geral, os filósofos não parecem realizar a tentativa; e, se em consequência de omissão ou não, eles estão constantemente tentando provar que ‘Sim’ ou ‘Não’ responderá à questões para as quais nenhuma resposta é correta, reconhecendo o fato de que eles têm diante das suas mentes não uma questão, mais várias, a algumas das quais a resposta é ‘Não,’ para outras ‘Sim.’
Neste livro, eu tentei distinguir claramente dois tipos de questões, às quais os filósofos morais sempre professaram [viii]responder, mas que, como eu tentei mostrar, eles quase sempre confundiram ambas uma com a outra e com outras questões. Essas duas questões podem ser expressas, a primeira na forma: Que tipos de coisas deveriam existir por causa de si mesmas? A segunda na forma: Que tipo de ações nós deveríamos realizar? Eu tentei revelar exatamente o que é que nós perguntamos sobre uma coisa, quando nós perguntamos se ela deveria existir por sua própria causa, se ela é boa em si mesma ou tem valor intrínseco; e exatamente o que é que nós perguntamos sobre uma ação, quando nós perguntamos se nós deveríamos realizá-la, se ela é uma ação correta ou um dever.
Mas, a partir de uma clara intuição na natureza dessas duas questões, aí me parece seguir um segundo resultado mais importante: a saber, qual é a natureza da evidência, apenas pela qual qualquer proposição ética pode ser provada ou refutada, confirmada ou tornada duvidosa. Uma vez que nós reconheçamos o significado exato dessas duas questões, eu considero que também se torna evidente exatamente que tipo de razões são relevantes como argumentos em favor ou contra qualquer resposta particular a elas. Torna-se evidente que, por respostas à primeira questão, nenhuma evidência relevante que seja pode ser aduzida: a partir de que nenhuma outra verdade, exceto elas mesmas sozinhas, pode ser inferida de que elas são verdadeiras ou falsas. Nós podemos nos proteger contra o erro apenas tomando cuidado de que, quando nós tentamos responder a uma questão desse tipo, nós tenhamos diante de nossas mentes essa questão apenas, e não alguma outra ou outras; mas que há grande perigo de tais erros de confusão eu tentei revelar, e também quais são as principais precauções através do uso das quais nós podemos nos guardar contra eles. Quanto à segunda questão, torna-se igualmente evidente que qualquer resposta a ela é capaz de prova ou refutação – que, de fato, tantas considerações diferentes são relevantes para a sua verdade ou falsidade, quanto a tornar a obtenção de probabilidade muito difícil, e a obtenção de certeza, impossível. Mesmo assim, o tipo de evidência que é igualmente necessária e sozinha relevante para semelhante prova e refutação é capaz de definição [ix]exata. Semelhante evidência deve conter proposições de dois tipos, e apenas de dois tipos: em primeiro lugar, ela deve consistir em verdades com respeito aos resultados da ação em questão – de verdades causais – mas ela também deve conter verdades da nossa primeira ou autoevidente classe. Muitas verdades de ambos os tipos são necessárias para a prova de que qualquer ação deve ser realizada; e qualquer outro tipo de evidência é inteiramente irrelevante. Segue-se que, se qualquer filósofo de ética oferece por proposições do primeiro tipo qualquer evidência que seja, ou se, por proposições do segundo tipo, ele ou falha em aduzir tanto verdades causais quanto éticas, ou aduz verdades que não são nenhuma nem outra, o raciocínio dele não tem a mínima tendência para estabelecer suas conclusões. Mas não apenas as conclusões dele estão completamente destituídas de peso: além disso, nós temos razão para suspeitar de um erro de confusão nelas; uma vez que o oferecimento de evidência irrelevante geralmente indica que o filósofo que a oferece teve diante da sua mente não a questão que ele professa responder, mas alguma outra inteiramente diferente. Até aqui, talvez, a discussão ética tenha consistido principalmente em raciocínio desse tipo inteiramente irrelevante.
Portanto, um objeto principal deste livro pode ser expresso mudando-se levemente um dos famosos títulos de Kant. Eu tentei escrever os ‘Prolegômenos para qualquer Ética futura que possivelmente possa pretender ser científica.’ Em outras palavras, eu tentei descobrir quais são os princípios fundamentais do raciocínio ético; e o estabelecimento desses princípios, antes que de quaisquer conclusões que possam ser alcançadas pelo seu uso possam ser considerado como meu objeto principal. Contudo, eu também tentei, no capítulo VI, apresentar algumas conclusões com respeito à resposta adequada da questão ‘O que é o bem em si mesmo?’ as quais são muito diferentes de qualquer uma que comumente tem sido defendida por filósofos. Eu tenho tentado definir as classes dentro das quais todos os grandes bens e males caem; e eu tenho sustentado que muitas coisas diferentes são boas e más [x]em si mesmas, e que nenhuma classe de coisas possui qualquer outra propriedade que seja igualmente comum a todos os seus membros e peculiar a eles.
A fim de expressar o fato de que proposições éticas da minha primeira classe são incapazes de prova ou refutação, algumas vezes, eu segui o uso de Sidgwick chamando-as de ‘intuições.’ Mas eu suplico que possa ser notado que eu não sou um ‘intuicionista,’ na acepção ordinária do termo. Sidgwick mesmo nunca parece ter estado claramente ciente da imensa importância da diferença que distingue o intuicionismo dele da doutrina comum, a qual geralmente tem sido chamada por aquele nome. O intuicionista típico é distinguido por sustentar que proposições da minha segunda classe – proposições que asserem que uma certa ação é correta ou um dever – são incapazes de prova ou refutação por qualquer investigação dos resultados de semelhantes ações. Pelo contrário, eu não estou menos ansioso para sustentar que proposições desse tipo não são ‘intuições,’ antes que sustentar que proposições da minha primeira classe são intuições.
Novamente, eu gostaria de observar que, quando eu chamo tais proposições de ‘intuições,’ eu meramente afirmo que elas são incapazes de prova; não implicando nada que seja quanto à forma ou origem da nossa cognição delas. Ainda menos eu implico (como muitos intuicionistas têm feito) que qualquer proposição que seja é verdadeira porque nós a conhecemos de uma maneira particular ou pelo exercício de qualquer faculdade particular: pelo contrário, eu sustento que, de qualquer maneira que seja possível conhecer uma proposição verdadeira, também é possível conhecer uma falsa.
Quando este livro já estava completo, eu encontrei, em ‘Origin of the Knowledge of Right and Wrong’1 de Brentano, [xi]opiniões assemelhando-se muito mais de perto a minha própria do que aquelas de qualquer outro escritor de ética com quem eu estou familiarizado. Brentano parece concordar completamente comigo (1) considerando de todas as proposições éticas como definidas pelo fato de que elas predicam um único conceito objetivo; (2) dividindo tais proposições precisamente nos mesmos dois tipos; (3) sustentando que o primeiro tipo é incapaz de prova; e (4) com respeito ao tipo de evidência que é necessário e relevante para a prova do segundo tipo. Mas ele considera o conceito ético fundamental como sendo, não o simples que eu denoto por ‘bem,’ mas o complexo que eu tenho tomado para definir ‘belo’; e ele não reconhece, mas até nega por implicação, o princípio que eu tenho chamado de o princípio de unidades orgânicas. Em consequência dessas duas diferenças, as conclusões deles quanto a quais coisas são boas em si mesmas, também diferem muito materialmente das minhas. Contudo, ele concorda que há muitos bens diferentes, e que o amor a objetos bons e belos constitui uma importante classe entre eles.
Eu quero fazer referência a um descuido, do qual eu me tornei ciente apenas quando era tarde demais para o corrigir, e o qual, eu temo, possa causar dificuldade desnecessária a alguns leitores. Eu omiti discutir diretamente as relações mútuas das várias noções diferentes, as quais são todas expressas pela palavra ‘fim.’ As consequências dessa omissão, talvez, sejam parcialmente evitadas por meio de uma referência ao meu artigo ‘Teleology’ no Dictionary of Philosophy and Psychology de Baldwin.
Se eu fosse reescrever a minha obra agora, eu deveria produzir uma muito diferente, e eu acredito que eu poderia produzir um livro muito melhor. Mas poderia ser duvidado de que, ao tentar satisfazer a mim mesmo, eu não poderia meramente tornar mais obscuras as ideias que eu estou mais ansioso para transmitir, sem um ganho corresponder em completude e precisão. De qualquer forma que possa ser, a minha crença de que [xii]publicar o livro como ele está foi provavelmente a melhor coisa que eu poderia fazer, não me impede de estar dolorosamente ciente de que ele está cheio de defeitos.
Trinity College, Cambridge.
Agosto, 1903
[Este livro está agora reimpresso sem nenhuma alteração que seja exceto que uns poucos erros tipográficos e erros gramaticais foram corrigidos. Ele é reimpresso porque eu ainda estou de acordo com a sua tendência e conclusões principais; e ele é reimpresso sem alteração, porque eu descobri que, se eu devesse começar a corrigir o que nele parecia necessitar de correção, eu não poderia evitar de reescrever o livro inteiro.
G.E.M]
Cambridge, 1922
ORIGINAL:
MOORE, G.E. Principia Ethica. Cambridge: Cambridge University Press, 1922. pp. vii-xii. Disponível em: <https://archive.org/details/principiaethican00mooruoft/page/n12/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [x]‘The Origin of the Knowledge of Right and Wrong.’ Por Franz Brentano. Tradução inglesa por Cecil Hague. Constable, 1902. - Eu escrevi uma análise desse livro, a qual, eu espero, aparecerá, no International Journal of Ethics em outubro de 1903. Eu posso referir a essa análise para uma consideração mais completa das minhas razões para discordar de Brentano.
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