quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Deveríamos repensar como pesquisamos?

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte XI Realizando o Humanismo Digital


Ensaio anterior


[323]Deveríamos repensar como pesquisamos?


por Carlo Ghezzi


Resumo Os avanços em tecnologias digitais movem-se incrivelmente rápidos do estágio de pesquisa para o uso prático, e eles geram mudanças radicais no mundo, afetando seres humanos em todos os aspectos das suas vidas. O capítulo ilustra como isso pode ter implicações profundas sobre a forma como a pesquisa tecnológica é desenvolvida. Ele também discute a necessidade para os pesquisadores engajarem-se mais ativamente em debates públicos com a sociedade.


1 Introdução: Lidando com Mudanças Disruptivas


A história mostra como avanços em ciência e tecnologia sempre têm produzido mudanças no mundo no qual nós vivemos. Com as tecnologias digitais,1 nós experienciamos níveis inéditos de mudança. Elas afetam o bem-estar humano, auxiliam humanos em suas atividades individuais e aliviam-nos de trabalhos extenuantes ou perigosos. De maneira mais ampla, elas criam um inteiramente novo mundo ciberfísico, no qual elas vivem e interagem com fenômenos naturais, outros indivíduos e novos tipos de entidades artificiais autônomas. O “velho mundo,” o qual era conhecido por nós por séculos, no qual nos sentíamos confortáveis e com o qual nós lentamente evoluímos, subitamente tem sido substituído por um novo cujas leis nós ignoramos e onde os humanos podem perder o controle. O humanismo digital enfatiza que a humanidade tem de estar no centro da inovação e que a tecnologia tem de servir à sociedade e ao ambiente.

Os desenvolvimentos tecnológicos são largamente movidos por pesquisa. Para entendermos as lições para a pesquisa que nós podemos aprender a partir do desenvolvimento das tecnologias digitais, nós temos de refletir sobre suas duas propriedades-chave: radicalidade e velocidade de mudança.

De fato, os efeitos das tecnologias digitais sobre o gênero humano têm sido revolucionários. Outras mudanças radicais foram geradas por pesquisa no passado, mas talvez nenhuma esteja [324]afetando tão profundamente cada vida humana. Por exemplo, a mudança da astronomia ptolomaica – a qual considerava a terra estar no centro do universo, com o sol, a lua e os planetas girando ao redor dela – para a visão copernicana teve efeitos radicais na ciência e filosofia, mas não afetou a vida cotidiana do indivíduo. Da mesma maneira, a mudança radical na física no começo do século XX, causada pelos desenvolvimentos da teoria da relatividade e mecânica quântica, desafiou a visão conhecida do mundo físico, descrita pelos axiomas e leis da mecânica de Newton. Essa foi uma mudança espetacular de paradigma, a qual, contudo, teve pouco efeito em fenômenos praticamente observáveis na vida humana cotidiana.

Adicionalmente, a transição dos avanços em tecnologias digitais do estágio de pesquisa para a vida cotidiana ocorreu muitos mais rapidamente do que para tecnologias anteriores. Como observado, por exemplo, por Harari (2014), a Revolução Industrial, inflamada pela invenção de motores a vapor, precisou de aproximadamente dois séculos para desenvolver o moderno mundo industrial. As tecnologias digitais espalharam-se pelo mundo em apenas umas poucas décadas, gerando mudanças abruptas e dificultando adaptação gradual e sem fricção.2


2 Efeitos sobre como Nós realizamos Pesquisa


A implicação principal da velocidade da mudança é que cientistas e engenheiros,3 em seu trabalho exploratório, não podem ignorar as implicações e efeitos potenciais da nova tecnologias que eles desenvolvem. Adiar a reflexão sobre o uso da tecnologia para um estágio mais tardio pode causar sério prejuízo. Aí de mim, “mais tardio” é de fato “mais cedo” do que o esperado; pode ser tarde demais! Em vez disso, a pesquisa tecnológica tem de prosseguir de mãos dadas com a investigação das suas implicações. Tradicionalmente, estratégias cuidadosas de implementação e teste de uso (trial usage) de tecnologia recentemente desenvolvida poderiam evitar grandes danos através de ajustes e contramedidas. Contudo, hoje em dia, inovações radicais em reconhecimento de imagem baseado em técnicas de aprendizagem profunda de IA têm sido imediatamente transferidas para a prática sem primeiro explorar suas limitações e potenciais implicações. A adoção em julgamentos (law trials) levantou sérias preocupações éticas e potenciais violações de direitos humanos. Da mesma forma, os avanços que possibilitaram computação universal móvel em massa através de aparelhos pessoais e smartphones enfatizaram principalmente usabilidade e funcionalidade, às custas de confiabilidade (trustworthiness) e segurança (dependability). Como um resultado, as infraestruturas estão abertas e todos os tipos de abusos e ataques, incluindo violações de privacidade que levam a sérias consequências políticas.4 Muitos exemplos de questões técnicas eticamente sensíveis são enfrentadas pela pesquisa corrente em veículos autônomos.

[325]O efeito de mudanças radicais sobre seres humanos e sociedade é uma preocupação séria que deve ser encarada enquanto desenvolvendo pesquisa tecnológica. Para lidar com isso, a pesquisa tem de ampliar o seu foco, movendo-se para além das fronteiras puramente técnicas e trazendo um foco sobre o potencial humano e as questões sociais envolvidas. Isso pede aos cientistas que quebrem os rígidos silos dentro dos quais a ciência está atualmente compartimentalizada. Por exemplo, filósofos e cientistas sociais têm de ser integrados em grupos de pesquisa que desenvolvem tecnologia nova para veículos autônomos; ambientalistas, planejadores urbanos e cientistas sociais tem de trabalhar com cientistas da computação para desenvolver sistemas de gerenciamento de trânsito em cidades inteligentes. A busca por interdisciplinaridade – até então frequentemente mais slogan da moda do que realidade – torna-se uma necessidade. Nós seria e urgentemente necessitamos entender como isso pode ser realizado. Por exemplo, como alcançar amplitude sem sacrificar profundidade de pesquisa, como avaliar trabalho interdisciplinar sem o penalizar aplicando critério tradicionais baseados em silos, etc.


3 Efeitos no Engajamento com a Sociedade


A velocidade e radicalidade da mudança têm uma consequência importante sobre a necessidade de que os cientistas se engajem com a sociedade. Tradicionalmente, eles interagem e comunicam-se quase exclusivamente com seus pares de silo. Eles estão amplamente protegidos de comunicação e interação diretas com um público mais amplo. Formas limitadas de engajamento incluem iniciativas inovadoras, como geração de derivados (spin-offs) e colaborações com indústria, governo e legisladores. Mudanças rápidas e radicais requerem mais envolvimento, especialmente na discussão de desenvolvimentos e usos potenciais e na elevação de ampla consciência social. Contudo, isso é mais fácil de dizer do que de fazer.

Os pesquisadores sabem muito bem como se comunicar com os seus pares. Eles aprendem como fazer isso desde que eles entram em um programa de doutorado e continuam a aprender e melhorar por toda sua carreira. A pesquisa é um processo intrinsecamente aberto que depende da comunicação entre pares. A principal ambição dos cientistas é alcançar resultados novos e comunicá-los à comunidade de pesquisa através de artigos de pesquisa, artefatos (tais como conjuntos de dados ou protótipos de software), e debates científicos em conferências. O seu progresso na carreira depende amplamente de quão exitosamente eles estão produzindo e difundindo resultados novos e relevantes para os seus pares. Ghezzi (2020) discute a importância da comunicação entre pares e também enfatiza a necessidade de formas mais negligenciadas de engajamento público, através das quais os cientistas conduzem, ou participam de, debates científicos com uma audiência mais amplas, fora do círculo de pares: com o governo, tomadores de decisão e decisores de políticas, e o público geral.

Há notáveis exemplos históricos de cientistas que se engajaram em debates científicos públicos, especialmente quando o progresso leva a mudanças radicais. Um caso famoso é o de Galileu Galilei, quem se esforçou para trazer o seu suporte à teoria copernicana à atenção da sociedade da sua época. Ele estava bem ciente das profundas consequências da mudança da visão ptolomaica para a copernicana: a humanidade não estava mais vivendo no centro do universo, mas, em vez disso, em um planeta, o qual era apenas uma pequena parte do sistema solar. Ele falou para a sociedade informada da época dele através de um ensaio, [326]“Dialogue Concerning the Two Chief World Systems,” no qual uma conversa científica é realizada entre três indivíduos: um cientista copernicano que explica a nova teoria para um cidadão educado argumentando contra as afirmações feitas por um cientistas ptolomaico. Galileu é considerado como o pai da ciência moderna. Ele ensinou-nos que a ciência não é fé cega em crenças prévias, ortodoxia dominante ou ideologia. Ela depende de argumentações racionais para chegar a quaisquer conclusões que uma análise cuidadosa da evidência sugeriria, mesmo se elas não fossem conforme as crenças correntes. Ele desenvolveu nova tecnologia para capacitar os humanos a entenderem e dominarem o mundo físico. O seu engajamento público levou-o a confrontar-se com a doutrina católica oficial, a qual seguia a visão de Ptolomeu de que a terra ficava no centro do sistema solar. Galileu compareceu diante da Inquisição romana e eventualmente foi acusado de heresia. Ele foi forçado a renegar suas visões e sentenciado à prisão doméstica pelo resto da vida.

Outro exemplo de debate acalorado ocorreu no começo do século XX, quando os desenvolvimentos revolucionários na física e na matemática por gigantes como Einstein, Plank, Bohr e Hilbert reuniram um grupo fora do comum de físicos, filósofos e matemáticos, quem se encontraram em Viena em um seminário permanente de 1924 a 1936, chamado de Wiener Kreis (Círculo de Viena). Os membros do seminário tinham como objetivo fundamentar a filosofia em uma visão científica moderna do mundo, mantendo-a separada da metafísica.

Participantes nas discussões incluíam físicos, filósofos, como Schlick (quem presidia o grupo), Neurath, Popper e Wittgenstein, e matemáticos e lógicos, como Carnap e Gödel. O Círculo de Viena dissolveu-se em 1936, quando Schilick morreu e o antissemitismo levou a uma diáspora dos outros membros. Um relato fascinante desse movimento altamente influente pode ser encontrado em Sigmund (2017). Discussões mais acaloradas envolveram físicos no final da Segunda Guerra Mundial, quando a relação entre a pesquisa e o seu uso direto no desenvolvimento de armas de destruição em massa tornou-s evidente. O debate foi capaz de informar e envolver tanto governos quanto cidadãos.

Esses exemplos de envolvimento público em debates científicos permaneceram principalmente no âmbito das “elites educadas.” A revolução digital está afetando diretamente a vida de cada indivíduo e requer um alcance mais amplo. Um debate informado tem de acontecer, envolvendo não apenas cientistas em quase todas as áreas e tomadores de decisões em todos os níveis, mas também cidadãos, para ter certeza de que os humanos e a terra na qual eles vivem estão no centro dos desenvolvimentos tecnológicos.


4 Conclusões


Engajamento efetivo com o público geral requer que os pesquisadores aprendam como se comunicar efetivamente e que os seus esforços para o fazer sejam reconhecidos e recompensados. Eles têm de entender o papel que têm de desempenhar nessa conversa, a qual visa principalmente à explicação dos avanços de pesquisa e à indicação das questões críticas envolvidas no seus uso, o que pode requer decisões coletivas, informadas, racionais. [327]As fronteiras entre conhecimento científico e opiniões e crenças pessoais deveriam ser claramente separadas. A comunicação efetiva também demanda uma audiência madura e competente. Isso levanta sérias preocupações, uma vez que, lamentavelmente, o nível de educação científica tem diminuído em muitos países. Ainda pior, paradoxalmente, em nosso mundo altamente tecnológico, há uma desconfiança difundida na ciência – ver Nichols (2017) – a qual deveria ser contrastada por mais investimentos em educação. Em particular, nós temos de assegurar que todo cidadão responsável entenda como ciência e tecnologia progridem, como se pode confiar nelas, e quais são os limites delas. O desenvolvimento de um espaço aberto para discussões em torno da tecnologia digital é crucial para o futuro das nossas sociedades democráticas e a realização do humanismo digital.


Referências


Ghezzi, C. (2020) Being a Researcher: An Informatics Perspective. Springer International Publishing.

Harari, Y.N. (2014) Sapiens: A Brief History of Humankind. Random House.

Nichols, T. (2017) The Death of Expertise: The Campaign against Established Knowledge and Why it Matters. Oxford University Press.

Sigmund, K. (2017) Exact Thinking in Demented Times: The Vienna Circle and the Epic Quest for the Foundations of Science. Basic Books.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

GHEZZI, C. Should We Rethink How We Do Research?. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 323-327. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1[323]O termo guarda-chuva “tecnologias digitais” inclui tanto hardware quanto software (dados, algoritmos, IA).

2[324]A revolução digital também estão mudando muito rapida e radicalmente a forma como nós realizamos pesquisa, em quase todas as áreas, através da disponibilidade sem precedentes de dados e a invenção de algoritmos que podem manipulá-los e raciocinar sobre eles, levando à automação de descobertas. As consequências profundas dessa mudança requererão discussão adicional.

3[324]Neste capítulo, os termos cientistas e pesquisador são usados intercambiavelmente. Além disso, eles principalmente se referem implicitamente a pesquisa tecnológica.

4Por exemplo, o spyware Pegasus [https://en.wikipedia.org/wiki/Pegasus_(spyware)].  

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Humanismo Digital: Navegando através das Tensões à Frente

 Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte XI Realizando o Humanismo Digital


Ensaio anterior


[317]Humanismo Digital: Navegando através das Tensões à Frente


por Helga Nowotny


Resumo A suposição por parte do humanismo digital de que uma abordagem centrada no humano é possível no design, uso e desenvolvimento adicional da IA implica um alinhamento com valores humanos. Se o objetivo mais ambicioso de construir uma boa sociedade digital ao longo do caminho coevolucionário entre humanos e as máquinas digitais inventadas por eles deve ser alcançado, tensões inerentes devem ser confrontadas. Algumas delas são o resultado de desigualdades já existentes e interesses econômicos, sociais e políticas divergentes, exacerbados pelo impado de tecnologias digitais. Outras surgem a partir da questão do que nos torna humanos e como a nossa interação com máquinas digitais muda a nossa identidade e relações uns com os outros. Se o humanismo digital deve suceder, um conjunto amplamente compartilhado de práticas e atitudes é necessário para nos sensibilizar para a diversidade de contextos sociais nos quais as tecnologias digitais são implantadas e como lidar com sistemas complexos, não lineares.


A disponibilidade de massas de dados, algoritmos eficientes e poder computacional sem precedentes impulsionou humanos para um caminho coevolucionário com as máquinas digitais que nós criamos. Visto a partir de uma perspectiva evolucionária, isso poderia parecer como outra das muitas tentativas e erros evolucionários que ou levam a um beco sem saída ou na direção de novas formas de vida. Embora seja impossível de predizer, nós deveríamos lembrar a nós mesmos que a nossa evolução cultural, liderada por ciência e tecnologia, ultrapassou a evolução biológica. Ela equipou a espécie humana com capacidades cognitivas que têm possibilitado que ela gere entidades, artifícios e infraestruturas digitais com os quais os humanos interagem de maneiras sempre mais intrincadas e íntimas. Nós deveríamos conhecê-las melhor do que elas nos conhecem – contudo, nós somos repetidamente afligidos pela ansiedade de que no fim elas poderiam dominar-nos.

Dessa forma, nós oscilamos entre desconfiança com as tecnologias digitais que se tornaram nossas companhias cotidianas enquanto estando cientes de que há muitas razões para desconfiança e cautela. Preocupações sobre privacidade e medo de vigilância coexistem com o conluio [318]da entrega voluntária dos nossos dados para as grandes corporações (Zuboff 2018). As possibilidades de abuso e mau funcionamento de vulnerabilidades a hacking e outras formas de insegurança cibernética persistem, enquanto cenários otimistas de novas oportunidades continuam a ser aclamados. Nós corretamente insistimos que, em situações críticas, os humanos deveriam ser aqueles cujos julgamentos superam a resposta e as decisões automatizadas e que a responsabilização (accountability) tem de estar incorporada no processo no caso das coisas darem errado (Christian 2020; Russell 2019). Nessa jornada coevolucionária, a despeito da incerteza do seu resultado, nós nos sentimos encorajados pelo que pode se revelar ser uma ilusão: que nós compramos as cartas levemente melhores no jogo coevolucionário e que a ingenuidade humana prevalecerá. Essa é uma das premissas sobre as quais o humanismo digital descansa, a crença de que valores humanos possam ser instilados nas tecnologias digitais e que uma abordagem centrada no humano guiará o design, uso e desenvolvimento futuros delas (Werthner et al. 2019).

Para os humanistas digitais, tais aspirações servem como as precondições necessárias para se ganhar impulso, mas não deveriam obscurecer as dificuldades que se estendem à frente. Na longa história das invenções e inovações tecnológicas, os humanos sempre tentaram estar no controle. O que começou como a implementação de ferramentas há milhares de anos para escavar uma vida precária a partir do ambiente natural, transformou-se em intervenção massiva e mudança em larga escala do meio ambiente natural durante a industrialização, com consequências devastadoras para o primeiro, do qual nós dependemos. O auge da crença de que os humanos estavam em controle completo da tecnologia e dominando seu futuro veio durante a modernidade (Scott 1999). Um ponto de virada foi alcançado no meio do século XX, quando se tornou claro que nós não mais estávamos no controle do lixo radioativo deixado para traz na produção da bomba atômica. Depois do fim da guerra, a população mundial começou a crescer dramaticamente e, da mesma maneira, o PIB e os padrões de vida. Ao mesmo tempo, o impacto da intervenção humana no sistema da terra e nos seus serviços começou a ser visivelmente sentido. Chamada de “a Grande Aceleração,” a convergência desses desenvolvimentos de larga escala não diminuiu desde então (Steffen et al. 2015; McNeill e Engelke 2015). Hoje, nós nos deparamos com uma grande crise de sustentabilidade, enquanto a digitalização está adquirindo impulso rapidamente, com implicações profundas e de longo alcance para o que significa ser humano e o que deveria ser uma boa sociedade digital. Nós chegamos ao antropoceno, e será um antropoceno digital.

Dessa maneira, o humanismo digital emerge em um momento crucial, na intersecção da crise de sustentabilidade e nas oportunidades oferecidas pela digitalização. Para medir os desafios que ele encara, nós deveríamos lembrar a nós mesmos das continuidades e rupturas que ela implica. Ele aspira a construir sobre algumas das grandes transformações culturais que são parte da herança europeia, explorando a natureza humana e adotando uma abordagem centrada no humano sob circunstâncias globais rapidamente mudando. Mas o humanismo digital também abriga uma ruptura menos visível. Ele marca a transição da linearidade no pensamento e entendimento do mundo, que foi uma das marcas da modernidade, para lidar com processos não lineares de sistemas adaptativos complexos. Exatamente como não é mais possível confiar que a linearidade no progresso tecnológico inevitavelmente levará a um futuro sendo melhor do que o passado e o presente, o humanismo [319]digital tem de nos guiar no pensamento em termos não lineares quando nós cada vez mais encaramos incerteza e complexidade (Nowotny 2015).

Portanto, o humanismo digital tem de navegar as tensões diferentes da nossa existência que emergem a partir da tensão inerente entre humanos e máquinas. Em termos filosóficos, nós falamos sobre vida e não vida, sobre matéria orgânica e inorgânica, sobre diferentes taxas de conversão de energia necessárias para manter a nós e as máquinas movendo-se, e, em última instância, sobre a consciência e sua ausência em máquinas (Lee 2021). Mas, visto que há pouco acordo sobre a definição desses termos e o seu significado, a interação emaranhada entre humanos e as máquinas digitais continua na prática como um processo borrado e bagunçado. O humanismo digital, se ele deve ser promulgado, tem de estar preparado para navegar através das tensões manifestas e ocultas que vêm à frente de maneiras esperadas e inesperadas e em diferentes constelações.

A digitalização exacerba tensões já existentes e familiares entre interesses econômicos, políticos e sociais diferentes, como amplamente demonstrado durante a pandemia de COVID-19, quando fissuras e desigualdades sociais foram reveladas. Notícias falsas e teorias da conspiração continuam a circular livremente nas mídias sociais, transformando ciência em mera opinião e arriscando a desestabilizar ainda mais as já frágeis democracias liberais. Mais conflitos não resolvidos estão ligados às desigualdades ascendentes. Conforme a exclusão digital aprofunda-se, persiste o medo de que a digitalização substituirá empregos mais rapidamente do que novos serão gerados (Susskind 2020). Essas tensões manifestas podem inflamar grandes conflitos e dilacerar ainda mais o tecido social já sob estresse considerável. O humanismo digital não pode se abster de entrar nessa arena disputada. Ele não pode se retirar para perseguir o ideal de um indivíduo humanista e digitalmente sofisticado sem considerar a sociedade digital que dá forma a como nós vivemos. O humanismo digital terá de imaginar designs para novos métodos de governança digital que podem satisfazer aos desafios do que uma boa sociedade digital adequada para o século XXI deveria ser.

Outras tensões são menos visíveis; algumas são latentes ou emergentes. Elas pairam sobre a questão que constitui o centro do humanismo digital: o que nos torna humanos e como a interação com máquinas digitais nos muda? Algumas dessas tensões abastecem ansiedades de identidades que estão direta ou indiretamente relacionados com mídias sociais ou o sentimento de que um algoritmo nos conhece melhor do que nós conhecemos a nós mesmos. Se a experiência da aceleração dominou a modernidade, a experiência prevalente na era digital é a sobrecarga informacional e superextensão emocional. Enquanto o passado estende-se ao presente e o futuro já chegou, pelo menos na forma visível dos últimos aparelhos digitais, o presente torna-se densificado e mais comprimido. O humanismo digital é desafiado a criar novos espaços nessa atmosfera superaquecida e hiper-reativa nos quais a presença física tem de ser reconciliada com o espaço virtual de maneiras que ainda têm de ser inventadas. O vírus ensinou-nos muito sobre as necessidades dos nossos corpos em um mundo digital. Quaisquer que sejam as lições que extraímos, o humanismo digital terá de abrir novos caminhos para as implementar.

A estranha eficiência dos algoritmos preditivos e o seu domínio prático sobre a tomada de decisão permeando nossa vida individual e coletiva marcam outro domínio cheio de tensão para o humanismo digital navegar. Seja ele o setor inteiro de saúde ou estilos de vida individuais, nosso comportamento de consumo, ou o funcionamento das [320]nossas instituições, algoritmos preditivos extrapolam a partir do passado para nos permitir enxergar mais adiante no futuro. Contudo, ao fazê-lo, eles atraem-nos para transferir agência para eles. Uma vez que nós começamos a acreditar que um algoritmo pode predizer o que acontecerá no futuro, e sistemas digitais de suporte à tomada de decisão sejam amplamente adotados, pode-se ter alcançado o ponto onde o julgamento humano pareça supérfluo e predições algorítmicas tornem-se em profecias autorrealizantes (Nowotny 2021).

Dessa maneira, os riscos para o humanismo digital são altos. Para navegar através dessas tensões, ele terá que conceber proposições concretas que incluam as camadas humanistas mais profundas, indo além de soluções tecnológicas. Importante enquanto apelam para princípios éticos são, elas não serão suficientes, a menos que possam se basear em termos muito práticos sobre um amplo conjunto de atitudes e práticas que são inspirados e guiados por um ideal humanista como uma maneira de viver juntos. Isso envolve divisar nossas maneiras de enfrentar problemas que vão além de dificuldades tecnológicas e reconhecer que “problemas insolúveis (wicked problems)” existem para os quais não há nenhuma solução em vista, contudo, eles também devem ser confrontados. O humanismo digital extrai sua força da convicção de que uma sociedade digital melhor é possível, reunindo a coragem para experimentar com o que é necessário para dar forma a ela.

Na prática isso significa cultivar uma sensibilidade humanista para a diversidade de contextos sociais nos quais as tecnologias digitais são implementadas e eficazes. Correntemente, nem os algoritmos preditivos nem os dados sobre os quais eles treinam são suficientemente sensíveis ao contexto. O humanismo digital pode permitir-nos descobrir características até então desconhecidas de quem nós somos sem determinar o que nós seremos. Ele pode ensinar-nos o valor inestimável do julgamento crítico humano quando nós encaramos a promessa ilusória dos algoritmos preditivos de que eles conhecem o futuro, o qual não é determinado por nenhuma tecnologia, mas permanece incerto e aberto. Os benefícios principais dos processos digitais não consistem apenas em serem “inteligentes (smart),” mas outros benefícios potenciais esperam para ser explorados com uma mente aberta e curiosa. O humanismo digital pode sensibilizar-nos para como lidar com a complexidade que está mais próxima do nosso entendimento intuitivo do que significa ser humano do que uma maneira linear, de causa e efeito, de pensar. Ela pode sintonizar-nos com propriedades emergentes e com o que resta de imprevisível – o sinal final da vida que continua evoluindo.


Referências


Christian, B. (2020) The Alignment Problem. Machine Learning and Human Values. New York: Norton & Company.

Lee, E. A. (2020) The Coevolution: The Entwined Futures of Humans and Machines. Cambridge, MA: MIT Press.

McNeill, J. R. and Engelke, P. (2015) The Great Acceleration: An Environmental History of the Anthropocene since 1945. Cambridge, MA: Harvard University Press.

Nowotny, H. (2015) The Cunning of Uncertainty. Cambridge, UK: Polity Press.

Nowotny, H. (2021) In AI We Trust. Power, Illusion and Control of Predictive Algorithms. Cambridge, UK: Polity Press.

Russell, S. (2019) Human Compatible: AI and the Problem of Control. London: Allen Lane.

Scott, J 1999, Seeing Like a State: How Certain Schemes to Improve the Human Condition Have Failed, Yale University Press, New Haven.

[321]Steffen, W. et al. (2015) ‘The Trajectory of the Anthropocene: The Great Acceleration’, The Anthropocene Review 2:1, pp. 81 – 98.

Susskind, D. (2020) A World Without Work: Technology, Automation, and How We Should Respond. London: Allen Lane.

Werthner, H et al. (2019) Vienna Manifesto on Digital Humanism, visto em 20 de junho de 2019, <www.informatik.tuwien.ac.at/dighum/>.

Zuboff, S. (2018) The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power, New York: Hachette Book Group.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

NOWOTNY, H. Digital Humanism: Navigating the Tensions Ahead. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 317-321. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - A Necessidade de Tecnologias Respeitosas

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte X Aprendendo com a Crise


Ensaio anterior


[309]A Necessidade de Tecnologias Respeitosas: Indo além da Privacidade


por Elissa M. Redmiles


Resumo As tecnologias digitais, os dados que elas coletam e as maneiras pelas quais esses dados são usados afetam cada vez mais o nosso bem-estar psicológico, social, econômico, médico e relacionado à segurança. Embora a tecnologia possa ser usada para melhorar o nosso bem-estar em todos esses eixos, ele também pode causar dano. Todavia, a privacidade é apenas uma das muitas considerações que os usuários têm quando adotando uma tecnologia. Neste capítulo, eu uso o estudo de caso de aplicativos de COVID-19 para argumentar que essa visão reducionista sobre dano tecnológico tem evitado a adoção efetiva de tecnologia benéfica. Além disso, um foco apenas na privacidade arrisca perpetuar e ampliar desigualdades existentes relacionadas a tecnologia. Para realizarmos o potencial da tecnologia de bem-estar, nós temos de criar tecnologias que sejam respeitosas não apenas da privacidade de usuário mas das expectativas dos usuários para o uso das suas tecnologias e o contexto no qual esse uso ocorre.


As tecnologias digitais estão cada vez mais entrelaçadas com experiências vívidas de bem-estar. As maneiras pelas quais nós usamos tecnologias, e as maneiras pelas quais as tecnologias usam os nossos dados, afetam o nosso bem-estar psicológico, social, econômico, médico e relacionado a segurança. Por exemplo, ser capaz de verificar o bem-estar de outros durante desastres naturais pode reforçar a força das nossas comunidades e intensificar os nossos sentimentos pessoais de segurança (Redmiles et al. 2019). No espaço da saúde, há uma excitação crescente e evidência promissora para tecnologias de prescrição auxiliarem no manejo de doenças crônicas (Byambasuren et al. 2018).

A despeito do potencial delas para aperfeiçoarem o nosso bem-estar, essas mesmas tecnologias também podem causar dano. Muito do diálogo relativo aos prejuízos tecnológicos das tecnologias de bem-estar foca-se principalmente em riscos para a privacidade de dados: como o abuso dos dados do usuário pode criar prejuízos psicológicos, sociais, econômicos ou relacionados a segurança (Vitak et al. 2018; Redmiles et al. 2019).

[310]A privacidade também se revelou ser uma preocupação-chave, e crescente, para usuários quando considerando se adotar novas tecnologias, incluindo tecnologias relacionadas a bem-estar. Contudo, a privacidade está longe de ser a única consideração que tem efeito em se um usuário adotará uma nova tecnologia. Aqui, eu argumento que nós desenvolvemos um foco reducionista sobre a privacidade considerando se as pessoas adotarão uma nova tecnologia. Esse foco nos impediu de alcançar efetivamente a adoção de tecnologias benéficas e arrisca perpetuar e ampliar as iniquidades em acesso, uso e prejuízos tecnológicos.

Ao focarmos exclusivamente sobre privacidade de dados, nós falhamos em apreender completamente o desejo do usuário por tecnologias respeitosas: sistemas que respeitem as expectativas do usuário de como seus dados serão usados e as expectativas de um usuário para como o sistema influenciará sua vida e os contextos circundando-as. Eu argumento que as decisões do usuário para adotar uma nova tecnologia são dirigidas por sua percepção de se essa tecnologia será respeitosa.

Um grande corpo de pesquisa revela que o comportamento de adoção de tecnologia do usuário frequentemente está mal alinhado com suas preocupações expressas de privacidade. Embora esse fenômeno, o paradoxo da privacidade, seja explicado em parte pelo efeito de muitos vieses cognitivos incluindo efeitos de dotação (endowment) e compras (ordering) (Acquisti et al. 2013), talvez não deveria ser uma surpresa tão grande que a decisão da pessoa para adotar ou rejeitar uma tecnologia seja baseada em mais do que apenas a privacidade dessa tecnologia.

A teoria do cálculo de privacidade (TCP) concorda, indo além de considerar apenas a privacidade para considerar os benefícios, argumenta que “indivíduos fazem escolhas nas quais eles entregam um certo grau de privacidade em troca de resultados que são percebidos serem dignos do risco da revelação de informação” (Dinev e Hart 2006). Contudo, como eu ilustro abaixo, colocar a privacidade como a única detratora da adoção de uma tecnologia e dos resultados (ou benefícios) sobre os outros permanece reducionista demais para capturar completamente o comportamento do usuário, especialmente em cenários relacionados a bem-estar.

A incompletude de uma visão de apenas privacidade direcionada para o projeto de tecnologias respeitosas foi exemplificada na pressa para criar tecnologias para a COVID-19. No fim de 2020 e começo de 2021, as companhias e pesquisadores de tecnologia desenvolveram aplicações para notificação de exposição que foram projetadas para detectar exposição ao coronavírus e notificar os usuários do aplicativo dessas exposições. Esses aplicativos foram criados para substituir e/ou aumentar o rastreamento manual de contatos, o qual requer que as pessoas convoquem aqueles que foram expostos para rastrear suas redes de contato.

Em conjunto com o impulso para projetar essas tecnologias havia um impulso para assegurar que esse projetos fossem preservadores de privacidade (Troncoso et al. 2020). Embora assegurar a privacidade dessas tecnologias fosse criticamente importante para a prevenção de mau uso do governo e violações de direitos humanos, e o tratamento das preocupações do usuário, as pessoas raramente adotam tecnologias apenas porque elas são privadas (Abu-Salma et al. 2017). De fato, após muitos anos desses aplicativos sendo lançados, uma minoria de pessoas adotou-os. Faltando da discussão foi uma discussão das outras expectativas do usuário para os aplicativos de COVID-19.

A teoria do cálculo de privacidade postula que os usuários trocam a privacidade por benefícios e, ao fazê-lo, tomam decisões sobre quais tecnologias adotar. Contudo, pesquisa empírica sobre as considerações de adoção dos aplicativos de COVID-19 pelas pessoas descobre uma história mais complexa (Li et al. 2020; Redmiles 2020; Simko et al. 2020). As pessoas consideram [311]não apenas os benefícios dos aplicativos da COVID-19 – se o aplicativo pode notificá-los de uma exposição à COVID, por exemplo – mas também como a eficácia do aplicativo, quantas exposições ele pode detectar, poderia erodir esses benefícios. De fato, pesquisa preliminar mostra que considerações de eficácia podem ser muito mais importante nas decisões de adoção do aplicativo da COVID-19 pelo usuário do que considerações de benefícios (Learning from the People: Responsibly Encouraging Adoption of Contact Tracing Apps 2020). Por outro lado, considerações de privacidade não são as únicas detratoras potenciais; as pessoas também consideram custos de uso do sistema, tanto monetário (por exemplo, custo de dados móveis usados pelo aplicativo) quando relacionado à usabilidade (por exemplo, erosão da vida de bateria do telefone devido ao uso do aplicativo).

As considerações de adoção de aplicativos de COVID-19 pelas pessoas exemplificam a ideia de tecnologias respeitosas: aquelas que fornecem um benefício com um nível suficiente de garantia (eficácia) em troca do uso dos dados de usuário – com os riscos potenciais de privacidade resultando a partir de tal uso – a um custo monetário e de usabilidade apropriado. Embora os aplicativos de COVID-19 ofereceram benefícios e protegeram a privacidade do usuário, os desenvolvedores do aplicativo e as jurisdições falharam em avaliar a eficácia e o custo do que eles tinham construído e falharam em ser transparentes com usuários tanto sobre a eficácia quanto sobre os custos desses aplicativo. Como um resultado, as pessoas foram incapazes de avaliar se essas tecnologias foram respeitosas e a taxa de adoção de uma tecnologia que tinha o potencial para beneficiar significativamente o bem-estar individual e social durante a pandemia globa permaneceu baixo.

Examinar o espectro completo das considerações relacionadas a tecnologia respeitosa das pessoas é especialmente crítico para aplicativos relacionados a bem-estar por duas razões.

Primeiro, há uma multidão de tipos de bem-estar que cada vez mais são abordados por tecnologia – desde soluções de check-in em desastres naturais através de sistemas de tratamento de saúde – cada uma com uma variedade correspondente de prejuízos, custos e riscos diferentes que os usuários podem considerar, Se nos focarmos estritamente sobre os compromissos dos benefícios de privacidade de tais tecnologias, nós podemos deixar passar considerações de adoção tais como se o usuário suspeita de se ele poderia ser ameaçado enquanto usando, ou por usar, uma tecnologia particular (Redmiles et al. 2019). Falha em projetar para e examinar essas considerações de adoção adicionais pode ser uma barreira significante para intensificar a adoção de tecnologias comercialmente lucrativas e individualmente, ou socialmente, benéficas.

Segundo, aspectos diferentes de tecnologias respeitosas são priorizados por grupos sociodemográficos diferentes (Learning from the People: Responsibly Encouraging Adoption of Contact Tracing Apps 2020). Por exemplo, adultos mais velhos se focam mais nos custos dos aplicativos da COVID-19 do que os adultos mais jovens; adultos mais jovens se focam mais na eficácia desses aplicativos do que os adultos mais velhos. Ignorar considerações ao lado da privacidade, e dos benefícios, pode perpetuar iniquidades em cujas necessidade são projetadas para tecnologias de bem-estar e, por fim, quem adota essas tecnologias. Tais considerações de equidade são especialmente importantes para tecnologias de bem-estar, para as quais o acesso equitativo é crítico e para as quais a distribuição desigual dos prejuízos pode ser especialmente prejudicial.

Dessa forma, para assegurar a viabilidade e adoção comerciais das tecnologias de bem-estar, e evitar a perpetuação e ampliação das iniquidades de bem-estar através da criação [312]de tais tecnologias, é crítico construir tecnologias de bem-estar respeitosas. Criadores e pesquisadores de tecnologia não apenas consideram os riscos de privacidade e proteções de tais tecnologias – e os benefícios de tecnologia – mas também as considerações contextuais, de custo e de eficácia, que juntas formam a visão potencial de um usuário de se uma tecnologia é respeitosa com eles e seus dados. Para o fazer, duas abordagens são necessárias: primeiro, mensuração direta do custo e da eficácia das tecnologias produzidas, em linha com expectativas para evidência a partir de outros campos, tais como a saúde (Burns et al. 2011), e segundo, investigação direta com usuários potenciais, para entender custos contextuais e qualitativos. Combinando essas duas abordagens para mensuração empírica, nós podemos criar melhores tecnologias de bem-estar que são tanto efetivas quanto respeitosas.


Referências


Abu-Salma, R., Sasse, M. A., Bonneau, J., Danilova, A., Naiakshina, A., e Smith, M. (2017). Obstacles to the Adoption of Secure Communication Tools. In: Security and Privacy (SP), 2017 IEEE Symposium on (SP17). IEEE Computer Society.

Acquisti, A., John, L. K., e Loewenstein, G. (2013). What Is Privacy Worth? The Journal of Legal Studies, 42 (2), 249 – 274.

Burns, P. B., Rohrich, R. J., e Chung, K. C. (2011). The levels of evidence and their role in evidence-based medicine. Plastic and reconstructive surgery, 128 (1), 305.

Byambasuren, O., Sanders, S., Beller, E., e Glasziou, P. (2018). Prescribable mHealth apps identi fi ed from an overview of systematic reviews. npj Digital Medicine, 1 (1), 1 – 12.

Dinev, T. and Hart, P. (2006). An Extended Privacy Calculus Model for E-Commerce Transactions.

Information Systems Research, 17 (1), 61 – 80.

Learning from the People: Responsibly Encouraging Adoption of Contact Tracing Apps (2020). Disponível a partir de: https://www.youtube.com/watch?v=my_Sm7C_Jt4&t=366s [Acessado em 17 de março 2021].

Li, T., Cobb, C., Jackie, Yang, Baviskar, S., Agarwal, Y., Li, B., Bauer, L., e Hong, J. I. (2020). What Makes People Install a COVID-19 Contact-Tracing App? Understanding the Influence of App Design and Individual Difference on Contact-Tracing App Adoption Intention. arXiv:2012.12415 [cs] [online]. Disponível a partir de: http://arxiv.org/abs/2012.12415 [Acessado em 17 de março 2021].

Redmiles, E. M. (2020). User Concerns 8 Tradeoffs in Technology-facilitated COVID-19 Response. Digital Government: Research and Practice, 2 (1), 6:1 – 6:12.

Redmiles, E. M., Bodford, J., and Blackwell, L. (2019). “I Just Want to Feel Safe”: A Diary Study of Safety Perceptions on Social Media. Proceedings of the International AAAI Conference on Web and Social Media, 13, 405 – 416.

Simko, L., Chang, J. L., Jiang, M., Calo, R., Roesner, F., and Kohno, T. (2020). COVID-19 Contact

Tracing and Privacy: A Longitudinal Study of Public Opinion. arXiv:2012.01553 [cs] [online]. Disponível a partir de: http://arxiv.org/abs/2012.01553 [Acessado em 17 de março 2021].

Troncoso, C., Payer, M., Hubaux, J.-P., Salathé, M., Larus, J., Bugnion, E., Lueks, W., Stadler, T., Pyrgelis, A., Antonioli, D., Barman, L., Chatel, S., Paterson, K., Č apkun, S., Basin, D., Beutel, J., Jackson, D., Roeschlin, M., Leu, P., Preneel, B., Smart, N., Abidin, A., Gürses, S., Veale, M., Cremers, C., Backes, M., Tippenhauer, N. O., Binns, R., Cattuto, C., Barrat, A., Fiore, D., Barbosa, M., Oliveira, R., e Pereira, J. (2020). Decentralized Privacy-Preserving Proximity Tracing. arXiv:2005.12273 [cs] [online]. Disponível a partir de: http://arxiv.org/abs/2005.12273 [Acessado em 17 de março 2021].

[313]Vitak, J., Liao, Y., Kumar, P., Zimmer, M., and Kritikos, K. (2018). Privacy attitudes and data valuation among fitness tracker users. In: International Conference on Information. Springer, 229 – 239.


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ORIGINAL:

REDMILES, E. M. The Need for Respectful Technologies: Going Beyond Privacy. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 309-313. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte III - Seções XIX-XXVII

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


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Parte III


[198]Seção XIX A Fisiognomia


A fisiognomia tem uma parte considerável na beleza, especialmente naquela da nossa própria espécie. As maneiras (manners) concedem uma certa determinação ao semblante; o qual, sendo observado corresponder regularmente a elas, é capaz de juntar o efeito de certas qualidades agradáveis da mente com aquelas do corpo. De modo que, para dar forma a uma beleza humana acabada, e concedê-la sua completa influência, o rosto precisa ser expressivo de tais qualidades gentis e amigáveis, como correspondentes à suavidade (softness), lisura (smoothness) e delicadeza da forma externa.


Seção XX O Olho


Até aqui eu propositalmente evitei falar do olho, o qual tem uma parte tão grande na beleza da criação animal, visto que ele não cai tão facilmente sob as categorias anteriores, embora, de fato, ele seja redutível aos mesmos princípios. Portanto, eu penso que a beleza do olho consiste, primeiro, em sua clareza (clearness); que o olho colorido deverá agradar mais, depende em uma grande medida de fantasias particulares; mas ninguém fica satisfeito com um olho cuja [199]água (water) (para usar esse termo) é baça (dull) e turva (muddy).1 Nós ficamos agradados com um olho nessa visão, em consequência do princípio pelo qual nós gostamos de diamantes, água clara, vidro e tais substâncias transparentes semelhantes. Segundo, o movimento do olho contribui para a sua beleza, ao mudar continuamente a sua direção; mas um movimento lento e lânguido é mais belo do que um rápido (brisk); o segundo é animador; o primeiro, amável. Terceiro, com respeito à união do olho com as partes vizinhas, deve-se sustentar a mesma regra que é dada para outras coisas belas; não se deve fazer uma divergência forte a partir da linha das partes vizinhas; nem ressaltar nenhuma figura geométrica. Além de tudo isso, o olho afeta, como ele é expressivo de algumas qualidades da mente; e o seu poder principal geralmente surge a partir disso; de modo que o que nós acabamos de dizer sobre a fisiognomia é aplicável aqui.


Seção XXI Feiura


Talvez possa parecer como um tipo de repetição do que já foi dito, insistir aqui na natureza da feiura (ugliness); visto que eu a imagino ser em todos os aspectos o oposto daquelas qualidades que nós estabelecemos para os constituintes da beleza. Mas embora a feiura seja o oposto da beleza, ela não é o oposto da proporção e adequação. Pois é possível que uma coisa possa ser muito feia com quaisquer proporções, e com uma adequação perfeito para quaisquer usos. Da mesma forma, eu imagino a feiura ser suficientemente consistente com uma ideia do sublime. Mas de maneira nenhuma eu insinuaria [200]que a feiura em si mesma é uma ideia sublime, a menos que unida com qualidades tais que excitam um terror forte.


Seção XXII Graça


Graciosidade (Gracefulness) não é uma ideia muito diferente da beleza; ela consiste em muitas das mesmas coisas. A graciosidade é uma ideia pertencente à postura e ao movimento. Em ambos esses, para ser gracioso, é necessário que não haja aparência de dificuldade; seja requerida uma pequena inflexão do corpo; e uma compostura das partes de uma maneira tal como a não atrapalhar (incumber) uma à outra, não parecer dividido por ângulos agudos e súbitos. Nesse caso, essa rotundidade (roundness), essa delicadeza de atitude e movimento, é no que toda a mágica da graça consiste, e é o que é chamado de je ne sçai quoi; como será óbvio para qualquer observador, quem considera atentamente a Vênus de Médici, os Antinous ou qualquer estátua admitida ser graciosa em um grau elevado.


Seção XXIII Elegância e Especiosidade (Speciousness)


Quando qualquer corpo é composto de partes lisas e polidas, sem pressionarem umas as outras, sem mostrarem nenhuma rugosidade (ruggedness) ou confusão, e, ao mesmo tempo, afetando alguma forma regular, eu chamo-o de elegante. Isso está estritamente aliado com o belo, diferindo dele apenas nessa regularidade; a qual, contudo, como ele forma uma diferença muito material na afeição produzida, pode muito bem constituir outra espécie. [201]Sob esta categoria, eu classifico (rank) aquelas obras delicadas e regulares de arte, que não imitam nenhum objeto determinado na natureza, como construções elegantes, e peças de mobília. Quando qualquer objeto participa das qualidades acima mencionadas, ou daquelas de corpos belos, e está junto com grandes dimensões, ele está completamente longe da ideia de mera beleza; eu chamo-o de fino (fine) ou especioso (specious).


Seção XXIV O Belo no Sentimento


A descrição acima de beleza, até onde ela é tomada pelo olho, pode ser grandemente ilustrada descrevendo-se a natureza de objetos que produzem um efeito similar através do toque (touch). Isso eu chamo de belo no sentimento (feeling). Ele corresponde maravilhosamente ao que causa a mesma espécie de prazer para a visão (sight). Há uma sequência (chain) em todas as nossas sensações; elas todas são apenas tipos diferentes de sentimentos calculados para serem afetados segundo a mesma maneira. Todos os corpos que são agradáveis ao toque são assim pela leveza (slightness) da resistência que eles produzem. A resistência é ou ao movimento ao longo da superfície ou à pressão das partes uma sobre a outra; se a primeira for leve (slight), nós chamamos o corpo de liso (smooth); se a segunda, de macio (soft). O prazer principal que nós recebemos através do sentimento está em uma outra dessas qualidades; e, se há uma combinação de ambos, o nosso prazer é muito intensificado. Isso é tão evidente que é antes mais adequado ilustrar outras coisas do que ser ilustrado em si mesmo por um exemplo. A próxima fonte de prazer nesse sentido, como em qualquer outro, é a apresentação contínua de alguma coisa nova; e nós descobrimos que corpos que continuamente variam sua [202]superfície, são exatamente os mais agradáveis e belos para o sentimento, como qualquer um que se agrada pode experienciar. A terceira propriedade em tais objetos é que, embora a superfície varie sua direção, ela nunca a varia subitamente. A aplicação de qualquer coisa súbita, mesmo se a impressão mesma tenha pouco ou nada de violenta, é desagradável. A aplicação rápida de um dedo um pouco mais quente ou mais frio do que o usual, sem notar, faz-nos pular; um leve tapa no ombro, não esperado, tem o mesmo efeito. Consequentemente, é que corpos angulares, corpos que subitamente variam a direção do contorno (outline), proporcionam tão pouco prazer para o sentimento. Cada uma dessas mudanças é um de escalada (climbing) ou queda (falling) em miniatura; de maneira que quadrados, triângulos e outras figuras angulares não são belas nem para a visão nem para o sentimento. Quem quer que compare o seu estado de mente, sobre o sentimento macio, liso, variado, corpos não angulares, com aquele no qual ele se encontra, à visão de um objeto belo, perceberá uma analogia muito impressionante nos efeitos de ambos; e a qual pode avançar bastante na direção da descoberta da sua causa comum. O sentimento e a visão, nesse aspecto, diferem em apenas uns poucos pontos. O toque apreende o prazer da maciez (softness), o qual não é primariamente um objeto da visão; a visão, por outro lado, compreende a cor, a qual dificilmente pode ser tornada perceptível para o toque; novamente, o toque tem a vantagem em uma nova ideia de prazer resultando a partir de um grau moderado de calor (warmth); mas o olho triunfa na extensão e multiplicidade dos seus objetos. Mas há uma similitude tão grande nos prazeres desses sentidos, que eu estou apto a fantasiar, se fosse possível que alguém pudesse discernir a cor pelo sentimento (como se diz que alguns cegos têm feito), de modo que as mesmas cores, e a mesma disposição de coloração, as quais são consideradas belas para a visão, [203]seriam, da mesma forma, consideradas mais agradáveis (grateful) para o toque. Mas, deixando conjecturas de lado, passemos para o outro sentido; da audição (hearing).


Seção XXV O Belo em Sons


Neste sentido nós encontramos uma aptidão igual para sermos afetados de uma maneira suave e delicada; e até onde doces ou belos concordam com as nossas descrições de beleza em outros sentidos, a experiência de cada um tem de decidir. Milton descreveu essa espécie de música em um dos seus poemas juvenis.2 Eu não tenho de dizer que Milton era perfeirtamente bem versado nessa arte; e que nenhum homem teve um ouvido mais fino, com uma maneira mais feliz de expressar as afeições de um sentido através de metáforas tomadas de outro. A descrição é como se segue: -


E sempre contra cuidados consumidores,

Amima-me em suaves (soft) ares lídios;

Em notas com muitas sinuosas voltas

De doçura vinculada há muito prolongada;

Com atenção arbitrária, e astúcia inconstante,

A voz derretendo-se através de labirintos correndo;

Destorcendo todas as correntes que vinculam

A oculta alma da harmonia.”


Comparemos isso com a suavidade (softness), a superfície sinuosa, a continuidade ininterrupta, a gradação fácil do belo em outras coisas; e todas as diversidades dos vários sentidos, com todas as suas várias afeições, antes ajudarão a lançar luzes de um para outro para retocar uma ideia clara, consistente, do todo, do que para obscurecê-la por sua complexidade e variedade.

[204]À descrição acima mencionada eu deverei acrescentar uma ou duas observações. A primeira é; que o belo na música não comportará aquela intensidade (loudness) e força de sons, os quais podem ser usados para elevar outras paixões; nem notas que são estridentes (shrill), ou ásperas (harsh) ou profundas; ele concorda melhor com aqueles que são claras, constante (even), lisas (smooth) e fracas. A segunda é; que grande variedade, e transições rápidas de uma medida ou tom para outro, é contrária ao gênio do belo em música. Essas3 transições frequentemente excitam hilaridade (mirth), ou outras paixões súbitas ou tumultuosas; mas não aquela submersão (sinking), aquela fusão (melting), aquele langor, que é o efeito característico do belo enquanto ele diz respeito a cada sentido. De fato, a paixão excitada pela beleza está mais próxima de uma espécie de melancolia do que da festança (jollity) e hilaridade. Aqui eu não intenciono confinar a música a nenhuma espécie de nota, ou tom, tampouco ela é uma arte na qual eu posso dizer que eu tenha qualquer grande habilidade. Minha única intenção nesta observação é estabelecer uma ideia consistente de beleza. A variedade infinita das afeições da alma sugerirá para uma boa cabeça, e ouvido habilidoso, uma variedade desses sons como são adequados para as excitar. Não pode haver prejuízo para isso, clarear e distinguir alguns poucos particulares que pertençam a mesma classe, e são consistentes uns com os outros, a partir da multidão imensa de ideias diferentes e, algumas vezes, contraditórias, que se classificam vulgarmente sobre o padrão de beleza. E dessas é minha intenção marcar apenas aquelas dos pontos principais, como revela a conformidade do sentido da audição com todas as outras regras, no artigo dos seus prazeres.


[204]Seção XXVI Gosto e Cheiro


Esse acordo geral dos sentidos é ainda mais evidente ao se discutir minuciosamente aqueles do gosto (taste) e do cheiro (smell). Nós metaforicamente aplicamos a ideia de doçura (sweetness) a visões (sights) e sons (sounds); mas as qualidades de corpos pelos quais eles são adequados para excitar prazer ou dor nesses sentidos não são tão óbvias como elas são em outros, nós devemos referir uma explicação da sua analogia, a qual é uma muito próxima, àquela parte na qual nós chegamos chegar à causa comum eficiente da beleza, visto que ela diz respeito a todos os sentidos. Eu não considero nada mais adequado para estabelecer uma ideia clara e estabelecida da beleza visual do que essa maneira de examinar prazeres semelhantes de outros sentidos; pois uma parte algumas vezes é clara em um desses sentidos que é mais obscura em outro; e onde há uma clara concorrência de todos, nós podemos falar de qualquer uma delas com mais certeza. Através desse meio, eles testemunham um o outro; por assim dizer, a natureza é escrutinada; e nós não relatamos nada dela exceto o que nós recebemos a partir de sua própria informação.


Seção XXVII O Sublime e o Belo, comparados


No fechamento dessa visão geral sobre a beleza, naturalmente ocorre que nós deveremos compará-la com o sublime; e nessa comparação aparece um contraste notável. Pois objetos sublimes são vastos em suas dimensões, os belos, comparativamente pequenos; os belos [206]deveriam ser lisos e polidos; os grandiosos, acidentados (rugged) e negligentes: a beleza deveria evitar a linha reta, contudo, desviar-se dela insensivelmente; o grandioso, em muitos casos, ama a linha reta; e, quando ele desvia, ele frequentemente faz um forte desvio: a beleza não deveria ser obscura; o grandioso deveria ser escuro e sombrio: a beleza deveria ser luminosa (light) e delicada; o grandioso deveria ser sólido e até massivo. De fato, elas são ideias de uma natureza muito diferente, uma fundada sobre a dor, a outra, sobre o prazer; e, por mais que elas posteriormente possam variar da natureza direta das suas causas, todavia, essas causas mantêm uma distinção eterna entre elas, uma distinção nunca a ser esquecida por qualquer um cuja atividade é afetar as paixões. Na variedade infinita de combinações naturais, nós temos de esperar encontrar as qualidades das coisas mais remotas imagináveis umas a partir da outra no mesmo objeto. Nós também temos de esperar encontrar combinações do mesmo tipo nas obras de arte. Mas quando nós consideramos o poder de um objeto sobre as nossas paixões, nós temos de saber que, quando qualquer coisa é intencionada para afetar a mente pela força de alguma propriedade predominante, a afeição produzida é provável de ser mais uniforme e perfeita, se todas as outras propriedades ou qualidades do objeto forem da mesma natureza, e tendendo ao mesmo desígnio como o principal.


Se o preto e o branco misturam-se, atenuam-se, e unem-se

De mil maneiras, não há nem preto nem branco?”


Se, algumas vezes, as qualidades do sublime e do belo são encontradas unidas, isso prova que eles são o mesmo; isso prova que eles estão de qualquer forma aliados; isso prova mesmo que eles não são opostos e contraditórios? O preto e o branco podem atenuar-se, podem [207]misturar-se; mas, por isso, eles não são o mesmo. Nem, quando eles estão tão atenuados e misturados um com o outro, ou com cores diferentes, é o poder do preto como preto, ou do branco como branco, tão forte com quando cada um permanece uniforme e distinto.


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ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 198-207. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/198/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[199]Parte IV, secção 25.

2[203]L’Allegro

3[204]“Eu nunca fico feliz, quando eu ouço música doce.” Shakespeare.