Perspectivas sobre o Humanismo Digital
Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital
Parte X Aprendendo com a Crise
[303]Lições Aprendidas com a Pandemia da COVID-19
por Alfonso Fuggetta
Resumo A pandemia de COVID-19 está tendo um impacto trágico e profundo sobre o nosso planeta. Milhares de vidas foram perdidas, milhões de empregos foram destruídos, e a vida de bilhões de pessoas foi mudada e disruptada. Nesse turbilhão dramático, as tecnologias digitais têm desempenhado um papel essencial. A internet e todos os seus serviços possibilitaram às nossas sociedades continuarem funcionando e operando; as redes sociais forneceram canais valiosos para disseminarem informações e manterem as pessoas conectadas a despeito de confinamentos e do bloqueio da maioria das viagens; mais importante, as tecnologias digitais são chave para auxiliarem pesquisadores, epidemiologistas e funcionários públicos no estudo, monitoramento, controle e gerenciamento dessa emergência sem precedentes.
Depois de mais de um ano, é possível e vale a pena propor algumas reflexões sobre as forças e fraquezas que nós temos experienciado e, mais importante, sobre as lições aprendidas que devem conduzir as nossas políticas futuras e mapas de estrada. Isso é inevitável não apenas para aperfeiçoar a nossa habilidade para reagir a essas situações dramáticas, mas, mais importante, para projetar e desenvolver proativamente um futuro melhor para a nossa sociedade.
1 Lição 1: Aumento da Digitalização
No começo de março de 2020, como muitos outros países, toda a Itália foi colocada em confinamento (lockdown): comércios e escolas foram fechadas, a maior parte dos trabalhadores começou a trabalhar remotamente, indústrias foram forçadas a operar com pessoal limitado, e viagens foram praticamente cancelas. A infraestrutura-chave que manteve o país vivo e operando foi a Internet. Mesmo assim, houve (e ainda há) problemas que não poderiam ser resolvidos instantaneamente: porções significativas dos territórios não têm acesso a rede e serviços adequados; a maior parte das administrações públicas não gerenciam toda a informação digitalmente e, mais importante, operam como silos separados que não trocam nem integram seus dados e processos; companhias demais estavam despreparadas para trabalharem como [304]uma organização ágil e descentralizada, e para implementarem políticas e procedimentos de trabalho inteligente; e o sistema de saúde ficou sobrecarregado e teve de lidar com um tipo de emergência de guerra. O problema-chave foi a falta de prepação: nós não planejamos e não organizamos a nossa sociedade para lidar com esses tipos de eventos. Nós apenas reagimos, e a reação não pode instantaneamente resolver problemas e questões de magnitude tão grande.
Isso não foi apenas problema da Itália. Todos os países foram atingidos e pegos de surpresa. A primeira lição que nós deveríamos aprender a partir dessa emergência é que fibras óticas não podem ser instaladas “por demanda,” processos não podem ser estabelecidos “quando necessários,” a sociedade não pode ser adaptada “por decreto,” e as pessoas e companhias não podem apenas “reagir”: nós temos de antecipar e dar forma ao futuro em vez de apenas lidar com ele quando as emergências ocorrem.
2 Lição 2: Velocidade é mais Importante do que Dinheiro
Quando a crise explodiu, a Itália foi incapaz de adquirir todas as máscaras necessárias para lidar com a emergência. Não foi uma questão de uma falta de recursos: não houve capacidades de produção e abastecimento (sourcing), e levou semanas e meses para as criar. Um país com um PIB muito elevado, um membro do G20, foi incapaz de adquirir utensílios básicos tais como máscaras. Similarmente, quando a Itália decidiu lançar um aplicativo de rastreamento, a questão real não foi o custo do desenvolvimento do aplicativo ou da integração dele com o sistema nacional de informação de saúde: a questão real foi o tempo necessário para o colocar em operação. Como um exemplo adicional, o mesmo problema ocorreu para definir e lançar uma estratégia de interoperabilidade para os diferentes aplicativos da COVID-19 desenvolvidos na Europa.
Em uma emergência, o recurso crítico é tempo, não dinheiro. Consequentemente, a velocidade e eficiência de processos são de importância fundamental. Ela depende do nível de prevenção (preparadness) (como discutido no ponto anterior) e da eficiência e clareza da cadeia de comando no interior dos diferentes ramos do governo e da sociedade em geral.
Tempo não pode ser adquirido.
3 Lição 3: Nós temos de encontrar um Novo Equilíbrio entre Privacidade e Bem Público
A necessidade para rastrear e controlar a pandemia gerou uma discussão acalorada e turbulenta sobre uma questão crucial e sensível: preservação de privacidade. De fato, as características do vírus requerem a disponibilidade de mecanismos rápidos e difundidos para identificar pessoas infectadas que têm de ser isoladas de maneira que a infecção seja bloqueada tão rapidamente quanto possível. Esse processo pode ser possibilitado e acelerado por tecnologias e processos digitais que rastreiam e exploram um número de dados e informações pessoais. [305]A esse respeito, nós temos visto diferentes abordagens que têm explorado o espectro inteiro de possibilidades, desde o acesso leve a um mínimo de dados pessoais até uma penetração difundida e intrusiva nas vidas privadas dos cidadãos. Muito frequentemente, o debate sobre esse tópico tem sido incapaz de alcançar um equilíbrio entre essas diferentes tensões e a instilar confiança suficiente na opinião pública.
Nós necessitamos de novas regras, políticas e mecanismos que sejam capazes de encontrar o equilíbrio apropriado e compromisso entre a promoção dos interesses sociais e a proteção da liberdade e dos direitos civis. Isso tem de ser alcançado através da exploração de duas direções-chave. Primeiro, como indicado pelo Ato de Serviços Digitais da UE e iniciativas legislativas relacionadas,1 é vital fornecer mecanismos transparentes para informar os cidadãos sobre as políticas e regras usadas para coletar e usar os seus dados e proteger os seus direitos e a sua privacidade. Segundo, é crucial e urgente aumentar os nossos investimentos em educação para assegurar que cada cidadão europeu use as tecnologias digitais de uma maneira informada e inteligente (knowledgeable).
4 Lição 4: Interoperabilidade é Vital
Na Itália, assim como através dos países da Europa, um dos problemas mais cruciais têm sido a integração de informação e fontes de dados diferentes que foram chave para monitora e controlar a pandemia. Os principais problemas são dois:
Padrões e infraestruturas possibilitadoras de interoperabilidade técnica
Esquemas de dados e modelos semânticos comuns para interpretar e explorar coerente e efetivamente os dados.
Tratar desses problemas requer um esforço incrível, de natureza similar – mas mais desafiador até onde se diz respeito ao seu escopo e complexidade – à criação do padrão GSM e infraestruturada relacionada. Na Europa, há duas iniciativas importantes que estão tentando enfrentar esses desafios: o projeto Gaia-X22 e a Internacional Data Spaces Association (IDSA).33 o primeiro tem por objetivo a definição de uma estratégia de mercado e industrial europeia para promover e explorar a computação em nuvem e serviços relacionados; a segunda tem por objetivo a criação de padrões de troca para ativos de dados críticos.
Quanto ao desenvolvimento da GSM, da Internet e de outras tecnologias digitais, a padronização é um fundamento essencial e crucial para promover inovação, crescimento e impacto social. O conceito-chave aqui é a coopetição (coopetition): é vital cooperar na criação de padrões e infraestruturas comuns possibilitadoras que definam um campo plano de jogo enquanto competindo para oferecer os melhores serviços para cidadãos e companhias baseados na disponibilidade desses ativos possibilitadores.
[306]5 Lição 5: Metade do Número de Palavras, Dobro da Qualidade de Comunicação
Uma das maiores falhas que nós temos experienciado nessa pandemia é a inabilidade para fornecer mensagens claras e convincentes aos cidadãos. Uma crise tão incrível teria demandado uma estratégia de comunicação baseada em evidência, a qual muito frequentemente tem sido completamente ausente ou insuficiente. Ainda pior, nós temos estados sobrecarregados para um montante não gerenciável de mensagens incoerentes, confusas e, frequentemente, contraditórias.
Governo, companhias (por exemplo, grandes empresas farmacêuticas) e instituições científicas têm de elevar a qualidade (raise the bar) em suas estratégias e práticas de comunicação, para fornecer ao público informação apropriada e digna de confiança sobre a evolução e o gerenciamento da emergência. Isso tem de ser alcançado pela combinação de estratégias e procedimentos coordenados e claros (especialmente até onde se diz respeito a órgãos públicos) com exploração simplificada (streamlined), oportuna e coerente de mídias digitais e redes sociais.
6 Lição 6: Competências são a Prioridade
O gerenciamento da complexidade exige um aperfeiçoamento substancial das nossas competências como funcionários públicos, pesquisadores, educadores e cidadãos. Nós não podemos gerenciar uma crise tão desafiadora se nós não temos os meios culturais e científicos para nos ajudar a entender e lidar com ela. É claro, papéis diferentes requereriam vários níveis diferentes de conhecimento e perícia. Contudo, como uma sociedade, nós temos de elevar o nível médio de educação e competência de cada cidadão. Isso requer um conjunto coordenado de ações:
Fornecer cursos de consciência digital em todos os níveis do sistema educacional e com uma visão de aprendizagem ao longo da vida.
Repensar e reimaginar todos os currículos e disciplinas para manter em consideração como as tecnologias digitais têm-nos mudado dramaticamente (por exemplo, geografia e matemática).
Prover suporte e orientação para os nossos estudantes na seleção dos seus estudos e carreiras de maneira a aumentar o número de profissionais de STEM.
Estabelecer ou fortalecer os currículos que combinem tecnologia e humanidades.
Combater o abandono escolar (school drop-out) e assegurar bons níveis de educação para cada cidadão.
[307]7 Lição 7: Tecnologias e Infraestrutura Digitais são Assuntos-chave para a Segurança Europeia
Apple e Google desempenharam um papel-chave no desenvolvimento de aplicativos rastreadores de contato. Mesmo se – infelizmente – eles não tiveram um impacto significante e amplo na contenção da epidemia, como europeus, nós basicamente temos estado dependentes das decisões e estratégias de indústrias estrangeiras. Similarmente, nossas atividades de trabalho e sociais dependem pesadamente de tecnologias desenvolvidas por companhias americanas e asiáticas. Seria bobo simplesmente promover um protecionismo tecnológico simplista e irrealizável. Ao mesmo tempo, o manejo da produção da vacina e dos processos de aquisição têm demonstrado que a União Europeia tem de definir uma estratégia que considere a política de ciência e alta tecnologia uma questão estratégica e de segurança e não apenas uma questão cultural e econômica.
ORIGINAL:
FUGGETTA, A. Lessons Learned from the COVID-19 Pandemic. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 303-307. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1[305]Diretorado-Geral CONNECT da Comissão Europeia. “O Ato dos Serviços Digitai.” https://digital-strategy.ec.europa.eu/en/policies/digital-services-act-package
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