Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo
Por Edmund Burke
Parte III
[165]Seção I Da Beleza
É minha intenção considerar a beleza como distinta do sublime; e, no curso da investigação, examinar até onde isso é consistente com ele. Mas antes disso nós temos de realizar uma breve revisão das opiniões já aceitas sobre aquela qualidade; as quais, eu considero, dificilmente devem ser reduzidas a quaisquer princípios fixos; porque os homens estão acostumados a falar sobre a beleza de uma maneira figurada, quer dizer, de uma maneira extremamente incerta e indeterminada. Por beleza, eu quero dizer aquela qualidade, ou aquelas qualidades, nos corpos, pela qual eles causam amor, ou alguma paixão similar a ele. Eu confino essa definição às qualidades meramente sensíveis das coisas, em prol de preservar a máxima simplicidade em um assunto, o qual sempre nos distrai sempre que nós compreendemos aquelas várias causas de simpatia que nos ligam a quaisquer pessoas ou coisas a partir de considerações secundárias, e não a partir de força direta que elas tenham meramente ao serem vistas. Da mesma maneira, eu distingo o amor, (pelo qual eu quero dizer aquela satisfação que surge na mente em consequência da contemplação de alguma coisa bela, de qualquer natureza que ela possa ser,) do desejo ou luxúria (lust); que é uma energia da mente que nos perturba à possessão de certos objetos, que não nos afeta enquanto eles são belos, mas por meios completamente diferentes. Nós devemos ter um desejo forte por uma mulher de beleza não notável; enquanto que a maior beleza em homens, ou em outros animais, [166]embora ela cause-nos amor, contudo, não excita absolutamente nada de desejo. O que mostra que a beleza, e a paixão causada pela beleza, a qual eu chamei de amor, é diferente do desejo, embora o desejo algumas vezes possa operar junto com ela; mas é a esse último que nós temos de atribuir aquelas paixões violentas e tempestuosas, e as emoções consequentes do corpo que acompanham o que é chamado de amor em algumas de suas acepções ordinárias, e não aos efeitos da beleza meramente como tal.
Seção II Proporção, não a Causa da Beleza em Vegetais
A beleza usualmente tem sido dita consistir em certas proporções de partes. Considerando a questão, eu tenho grande razão para duvidar de se a beleza, de qualquer maneira, é uma ideia pertencente à proporção. A proporção relaciona-se quase inteiramente à conveniência, como toda ideia de ordem parece fazer; e, portanto, ela deve ser considerada como uma criatura do entendimento, em vez de uma causa primária atuando sobre os sentidos e a imaginação. Não é por força de atenção longa e investigação que nós consideramos qualquer objeto ser belo; a beleza não requer assistência do nosso raciocínio; mesmo a vontade não está interessada; a aparência da beleza tão efetivamente causa algum grau de amor em nós, quanto a aplicação de gelo ou fogo produz as ideias de calor ou frio. Para obter alguma coisa como uma conclusão satisfatória nesse ponto, seria bom examinar o que é a proporção; uma vez que muitos que fazem uso dessa palavra nem sempre parecem entender muito claramente a força do termo, nem ter ideias muito distintas relativas à coisa mesma. A proporção é a medida de quantidade [167]relativa. Uma vez que toda quantidade é divisível, é evidente que cada parte distinta na qual qualquer quantidade é dividida deve comportar alguma relação com outras partes, ou com o todo. Essas relações dão uma origem à ideia de proporção. Elas são descobertas através de mensuração e são os objetos de investigação matemática. Mas se qualquer parte de qualquer quantidade definida, se um quarto, ou um quinto, ou um sexto, ou um metade (moiety) do todo; ou se for de comprimento igual a qualquer outra parte, ou o dobro do seu comprimento, ou apenas uma metade, é uma questão meramente indiferente para a mente; ela coloca-se neutra na questão; e é a partir dessa indiferença e tranquilidade absoluta da mente que as especulações matemáticas derivam parte de suas vantagens mais consideráveis; porque não há nada para interessar à imaginação; porque o julgamento se assenta livre e não enviesado para examinar o assunto. Todas as proporções, todo arranjo de quantidade, é igual para o entendimento, porque as mesmas verdades resultam a partir de todos; a partir do maior, a partir do menor, a partir da igualdade e desigualdade. Mas certamente a beleza não é ideia pertencente à mensuração; nem ela tem nada a ver com cálculo e geometria. Se ela tivesse, nós então poderíamos indicar certas medidas que nós poderíamos demonstrar ser belas, quer simplesmente consideradas, quer como relacionadas a outras; e nós poderíamos comunicar para aqueles objetos naturais, para cuja beleza nós não temos comprovante exceto o sentido, esse padrão feliz, e confirmar a voz das nossas paixões pela determinação da nossa razão. Mas uma vez que nós não temos essa ajuda, vejamos se a proporção, em algum sentido, pode ser considerada como causa da beleza, como tão geralmente e, por alguns, tão confiantemente, tem sido afirmado. Se a proporção for um dos constituintes da [168]beleza, ela tem de derivar esse poder ou a partir de algumas propriedades naturais inerentes a certas medidas, as quais operam mecanicamente; a partir de operação do costume; ou a partir da adequação (fitness) que algumas medidas têm para responder a alguns fins particulares de conveniências. Portanto, a nossa obrigação é investigar se as partes daqueles objetos, os quais são considerados belos nos reinos vegetal ou animal, são constantemente formados dessa maneira de acordo tais certas medidas, visto que pode servir para nos satisfazer de que a beleza deles resulte a partir dessas medidas, sobre o princípio de uma causa mecânica natural; ou a partir do costume; ou, por fim, a partir de sua adequação para quaisquer propósitos determinados. Eu pretendo examinar esse ponto sob cada uma dessas categorias em sua ordem. Mas, antes eu prossiga adiante, eu espero que não será considerado errado, se eu estabelecer as regras que me governaram nessa investigação, e as quais teriam me enganado nela, eu tivesse me extraviado [delas]. 1. Se dois corpos produzem o mesmo ou um similar efeito na mente, e, durante exame, eles são descobertos concordarem em algumas de suas outras propriedades, e diferirem em outras; o efeito comum deve ser atribuído às propriedades nas quais eles concordam, e não àquelas que na qual eles diferem. 2. Não explicar o efeito de um objeto natural a partir do efeito de um objeto artificial. 3. Não explicar o efeito de nenhum objeto natural a partir de uma conclusão da nossa razão relativa aos seus usos, se uma causa natural puder ser atribuída. 4. Não admitir nenhuma quantidade determinada, ou qualquer relação de quantidade, como a causa de um certo efeito, se o efeito é produzido por medidas e relações diferentes ou opostas; ou se essas medidas e relações podem existir, e, contudo, o efeito não pode ser produzido. Essa são as regras que eu principalmente segui, enquanto eu examinava o poder da proporção [169]considerado como uma causa natural; e essas, se ele considera-as justas, eu requisito ao leitor que as leve com ele durante toda a discussão seguinte; enquanto nós investigamos, em primeiro lugar, em que coisa nós encontramos essa qualidade da beleza; em seguida, ver se nessas nós podemos encontrar quaisquer proporções atribuíveis de maneira tal como deveria para nos convencer de que a nossa ideia de beleza resulta a partir delas. Nós deveremos considerar esse poder agradável como ele aparece nos vegetais, nos animais inferiores e no homens. Voltando os nossos olhos para a criação vegetal, nós não encontramos nada tão belo quanto as flores; mas as flores são quase de qualquer tipo de forma, e de todo tipo de disposição: elas são viradas e formadas em uma variedade de formas; e, a partir dessas formas, os botânicos deram a elas seus nomes, os quais são quase tão vários. Que proporção nós descobrimos entre as hastes (stalks) e as folhas (leaves), ou entre as folhas e os pistilos? Como a haste delgada da rosa concorda com a cabeça volumosa sob a qual ela se inclina? Mas a rosa é uma bela flor; e nós podemos intentar dizer que ela não deve uma grande quantidade da sua beleza mesmo a essa desproporção; a rosa é uma flor grande, contudo, ela cresce em um pequeno arbusto (shrub); a flor da maçã é muito pequena, e cresce em uma grande árvore; contudo, a flor da rosa e da maçã são ambas belas, e as plantas que as geram são as mais cativantemente vestidas, a despeito dessa desproporção. O que por consentimento geral é admitido ser um objeto mais belo do que uma laranjeira, florescendo de uma vez com suas folhas, suas flores e seus frutos? Mas é em vão que aqui nós buscamos por qualquer proporção entre a altura, a largura ou qualquer outra coisa relativa ás dimensões do todo, ou relativas à relação [170]das partes particulares uma com a outra. Eu admito que nós podemos observar em muitas flores alguma coisa de uma figura regular, e de uma disposição metódica das folhas. A rosa tem uma tal figura e uma tal disposição das suas pétalas; mas em um visão oblíqua, quando essa figura está perdida em uma boa medida, e a ordem das folhas confusa, ela ainda retém sua beleza; a rosa é até mais bela antes de sua floração completa; no botão (bud); antes que a sua figura exata esteja formada; e essa não é a única instância onde método e exatidão, a alma da proporção, são encontrados antes prejudiciais que vantajosos à causa da beleza.
Seção III Proporção, não a Causa da Beleza em Animais
Que a proporção tem apenas uma pequena parte na formação da beleza é completamente evidente entre os animais. Aqui a maior variedade de formas e disposições de partes são bem adequadas para excitarem essa ideia. O cisne, confessadamente um belo pássaro, tem um pescoço mais longo do que o resto do seu corpo, e apenas uma causa muito curta: é essa uma proporção bela? Nós temos de admitir que é. Mas então o que nós deveremos dizer do pavão, com uma cauda mais longa do que o pescoço e o resto do corpo tomados juntos? Quantos pássaros há que variam infinitamente a partir desses dois padrões, e a partir de cada outro que nós podemos fixar; com proporções diferentes e, frequentemente, diretamente opostas umas as outras! E contudo, muitos desses pássaros são extremamente belos; quando os considerando, nós não encontramos nada em nenhuma parte deles que poderia determinar-nos a priori a dizer o que [171]as outras deveriam ser, nem, de fato, a advinhar nada sobre elas, mas que a experiência poderia mostrar ser cheia de desapontamento e equivoco. E com respeito às cores, quer de pássaros, quer de flores, pois há alguma coisa similar na coloração de ambos, se elas são consideradas em sua extensão ou gradação, não há nenhuma proporção a ser observada. Alguns são apenas de uma única cor; outros têm todas as cores do arco-íris; alguns são das cores primárias, outros são das mistas; em resumo, um observador atento logo pode concluir que há pouco de proporção na colocação assim como nas formas desses objetos. Voltando-se para as bestas; examine a cabeça de um belo cavalo; descubra qual proporção ela comporta com o corpo dele, e com seus membros, e que relação esses têm um com o outro; e quando você tiver determinado essas proporções como um padrão de beleza, então, tome um cão ou gato, ou qualquer outro animal, e examine até onde as mesmas proporções entre as cabeças e pescoços deles, entre aqueles e o corpo, e assim por diante, são consideradas valer; eu penso que nós podemos dizer seguramente que elas diferem em cada espécie, contudo, que há indivíduos, encontrados em muitas espécies tão diferentes, que têm uma beleza muito impressionante. Agora, se for admitido que formas e disposições muito diferentes, e mesmo contrárias, são consistentes com beleza, eu acredito que isso equivalha a uma concessão de que nenhuma medida certa, operando a partir de algum princípio natural, é necessária para a produzir; pelo menos até onde se diz respeito à espécie bruta.
[172]Seção IV Proporção, não a Causa da Beleza na Espécie Humana
Há certas partes do corpo humano que são observadas manterem certas proporções umas com as outras; mas antes que possa ser provado que a causa da beleza esteja nessas, tem de ser mostrado que, sempre que essas são descobertas exatas, a pessoa a quem elas pertencem é bela: eu quero dizer, no efeito produzido na visão, quer por qualquer membro distintamente considerado, quer no inteiro corpo combinado. Da mesma maneira, deve ser mostrado que essas partes estão em uma tal relação umas com as outras, que a comparação entre elas pode ser facilmente feita, e que a afeição da mente pode resultar naturalmente a partir dela. De minha parte, várias vezes eu examinei muito cuidadosamente muitas dessas propriedades, e descobri-as valer muito aproximadamente, ou completamente, semelhantes em muitos sujeitos, os quais não apenas eram muito diferentes um do outro, mas um era muito belo, e o outro, muito distante da beleza. Com respeito às partes que são encontradas assim proporcionadas, elas frequentemente estão tão distantes uma da outra, em situação, natureza e função (office), que eu não posso ver como elas admitem qualquer comparação, nem, consequentemente, como qualquer efeito devido à proporção pode resultar a partir delas. O pescoço, dizem eles, em corpos belos, deveria medir-se com a panturrilha (calf) da perna; de maneira similar, ele deveria ser o dobro da circunferência do punho (wrist). E uma infinidade de observações desse tipo devem ser encontradas nos escritos e conversas de muitos. Mas que relação tem a panturrilha da perna com o pescoço; ou qualquer uma dessas partes com o punho? [173]Essas proporções certamente devem ser encontradas em corpos belos. Elas certamente são encontradas em feios; como qualquer um que se esforçará para experimentar pode encontrar. Ou melhor, eu não sei, mas elas parecem ser menos perfeitas em alguns dos mais belos. Você pode atribuir quaisquer proporções que lhe agradar a cada parte do corpo humano; e eu aceito que um pintor deverá observar religiosamente todas elas e, mesmo assim, produzir, se lhe agradar, uma figura muito feita. O mesmo pintor deverá desviar-se consideravelmente dessas proporções, e produzir uma muito bela. E de fato, pode ser observado nas obras-primas da estatuária antiga e moderna, que várias delas diferem muito amplamente das proporções das outras, em partes muito conspícuas e de grande consideração; e que elas não diferem menos das proporções que nós encontramos em homens vivos, de formas extremamente impressionantes e agradáveis. E afinal, como os partidários da beleza proporcional concordaram entre si mesmos sobre as proporções do corpo humano? Alguns sustentam que ele deve ser de sete cabeças; alguns o fazem de oito; enquanto outros o estendem até a dez: uma diferença vasta em um número tão pequeno de divisões! Outros aceitam outros métodos de estimativa das proporções, e todos com igual sucesso. Mas essas proporções são exatamente as mesmas em todos os homens bonitos? Ou são elas de qualquer maneira encontradas em belas mulheres? Ninguém dirá que elas são; contudo, ambos sexos são indubitavelmente capazes de beleza, e feminino o mais; vantagem que, eu acredito, dificilmente será atribuída à exatidão superior de proporção no belo sexo. Demoremo-nos por um momento nesse ponto; e consideremos quanta diferença há entre as medidas que prevalecem em muitas partes similares do corpo, nos dois sexos [174]dessa única espécie apenas. Se você atribuir quaisquer proporções definidas aos membros de um homem, e se você limitar a beleza humana a essas proporções, quando você encontrar uma mulher que difere na constituição e nas medidas de quase toda parte, você tem de concluir que ela não é bela, a despeito das sugestões da sua imaginação; ou, em obediência à sua imaginação, você deve renunciar às suas regras; você deve deixar de lado a escala e o compasso e procurar por alguma outra causa de beleza. Pois, se beleza estiver junto a certas medidas que operam a partir de um princípio na natureza, por que deveriam partes similares com medidas diferentes de proporção ser consideradas ter beleza, e isso também exatamente na mesma espécie? Mas para abrirmos um pouco a nossa visão, vale a pena observar, que quase todos os animais têm partes exatamente da mesma natureza, e destinadas quase aos mesmos propósitos; uma cabeça, pescoço, pés, olhos, ouvidos, nariz e boca; todavia, a Providência, para prover da melhor maneira suas várias carências, e para exibir as riquezas da sua sabedoria e bondade em sua criação, trabalhou esses poucos e similares órgãos, e membros, uma diversidade dificilmente quase não infinita em sua disposição, suas medidas e sua relação. Mas, como antes observado, em meio a essa diversidade infinita, um particular é comum a muitas as espécies: vários dos indivíduos que as compõem são capazes de nos afetar com uma sensação de amabilidade (loveliness): e, embora eles concordem na produção desse efeito, eles diferem nas medidas relativas daquelas partes que o produziram. Essas considerações foram suficientes para me induzir a rejeitar a noção de quaisquer proporções particulares que operassem por natureza para produzir um efeito agradável; mas aqueles que concordarão comigo para uma [175]operação particular, estão fortemente predispostos em favor de mais uma indefinida. Eles imaginam que, embora a beleza em geral não esteja anexada a certas medidas comuns aos vários tipos de plantas e animais agradáveis; contudo, há uma certa proporção em cada espécie absolutamente essencial à beleza desse tipo particular. Se nós considerarmos o mundo animal no geral, nós não encontramos a beleza confinada a nenhuma medida; mas, visto que alguma medida particular e relação de partes é o que distingue cada classe particular de animais, tem necessidade de ser que o belo em cada tipo será encontrado nas medidas e proporções desse tipo; pois, de outra maneira, desviar-se-ia de sua espécie apropriada, e tornar-se-ia algum tipo de monstruoso: contudo, nenhuma espécie está tão estritamente confinada a nenhuma proporção certa, que não haja uma variação considerável entre os indivíduos; e como foi revelado do humano, assim pode ser revelado dos tipos brutos, que a beleza é encontrada indiferentemente em todas as proporções que cada tipo pode admitir, sem abandonar sua forma comum; e é essa ideia de uma forma comum que produz a proporção de partes de qualquer maneira considerada, e não a operação de qualquer causa natural: de fato, um pouco de consideração fará aparecer que não é a medida (measure), mas a maneira (manner), que cria toda beleza que pertence à forma (shape). Que luz nós emprestamos a essas proporções alardeadas, quando nós estudamos design ornamental? Parece impressionar-me, que artistas, se eles estivessem tão bem convencidos como eles pretendem estar, que a proporção é uma causa principal da beleza, não têm perto deles em todos os momentos mensurações precisas de todos os tipos de animais belos para os ajudar às proporções apropriadas, quando eles imaginariam qualquer coisa elegante; especialmente como eles frequentemente [176]afirmam que é a partir de uma observação da beleza na natureza que eles dirigem a prática deles. Eu sei que isto tem sido dito há muito tempo, e ecoado para frente e para trás de um escritor para outro mil vezes, que as proporções de prédios foram tomadas daquelas do corpo humano. Para tornar essa analogia forçada completa, eles representam um homem com seus braços erguidos e completamente estendidos, e, então, descrevem um tipo de quadrado, como ele é formado por linhas passando ao longo das extremidades dessa figura estranha. Mas parece-me muito claramente que a figura humana nunca supriu a arquitetura com nenhuma de suas ideias. Pois, em primeiro lugar, os homens são muitos raramente vistos nessa postura estranhada; ela não é natural para eles; nem, de qualquer maneira, está tornando-se. Segundo, a visão da figura humana assim disposta, não sugere naturalmente a ideia de um quadrado, mas antes de uma cruz; visto que aquele grande espaço entre os braços e o chão tem de ser preenchido com alguma coisa antes que ele possa fazer alguém pensar em um quadrado. Terceiro, vários prédios não são de qualquer maneira da forma desse quadrado particular, os quais, a despeito disso, são planejados pelos melhores arquitetos e produzem um efeito completamente tão bom, e talvez um melhor. E certamente nada poderia ser mais inexplicavelmente fantástico do que para um arquiteto modelar sua performance pela da figura humana, uma vez que nenhuma dupla de coisas pode ter menos semelhança ou analogia, do que um homem e uma casa ou templo: nós necessitamos observar que os propósitos deles são inteiramente diferentes? O que eu estou inclinado a suspeitar é disto: que essas analogias foram concebidas para dar créditos às obras de arte, mostrando uma conformidade entre elas e as obras mais nobres da natureza; sem que a segunda, de qualquer maneira, servisse para fornecer pistas para a perfeição da primeira. E eu estou [177]mais completamente convencido de que os patronos da proporção transferiram suas ideias artificiais para a natureza, e não tomaram emprestado dessa as proporções que eles usam nas obras de arte; porque em qualquer discussão desse asunto eles sempre abandonam, tão logo que possível, o campo aberto das belezas naturais, os reinos animal e vegetal, e fortificam-se no interior de linhas e ângulos artificiais da arquitetura. Pois há na humanidade uma propensão infeliz para se tornar a si mesma, suas visões e suas obras, a medida de excelência em tudo o que for. Portanto, tendo observado que as suas habitações eram mais cômodas e firmes quando elas eram colocadas em figuras regulares, com partes proporcionais umas às outras; eles transferiram essas ideias para seus jardins; eles transformaram suas árvores em pilares, pirâmides e obeliscos; eles formaram suas cercas (hedges) em tantas paredes verdes, e deram forma às suas alamedas (walks) em quadrados, triângulos e outras figuras matemáticas com exatidão e simetria; e eles pensaram, se eles não estavam imitando, pelo menos, eles estavam aperfeiçoando a natureza, e ensinado-a a conhecer seu ofício. Mas a natureza finalmente escapou da sua disciplina e seus grilhões; e os nosso jardins; se nada mais, declaram que nós começamos a sentir que as ideias matemáticas não são as medidas verdadeiras da beleza. E certamente eles estão tão pouco completas no mundo animal quanto no vegetal. Pois, não é extraordinário que nessas finas ideias descritivas, nessas odes e elegias inumeráveis, as quais estão nas bocas de todo o mundo, e muitas das quais têm sido o entretenimento de eras, que nessas peças que descrevem o amor com uma energia tão apaixonada, e representam o seu objeto de uma variedade tão infinita de luzes, nenhuma palavra é dita sobre a proporção, se ela é, o que alguns insistem que é, o componente [178]principal da beleza; ao passo que, ao mesmo tempo, várias outras qualidades são muito frequente e calorosamente mencionadas? Mas se a proporção não tem esse poder, pode parecer como os homens chegaram originalmente a ficarem tão predispostos ao seu favor. Isso surge, eu imagino, a partir da predileção que eu acabei de mencionar, o quais os homens exibem tão notavelmente por suas próprias obras e noções; ela surgiu a partir de falsos raciocínios sobre os efeitos da figura costumeira de animais; ela surgiu a partir da teoria platônica da adequação (fitness) e aptidão. Razão pela qual, na próxima seção, eu deverei considerar os efeitos do costume na figura dos animais; e, subsequentemente, a ideia de adequação: uma vez que, se a proporção não opera através de um poder natural acompanhando algumas medidas, deve ser ou por costume, ou pela ideia de utilidade; não há outro caminho.
ORIGINAL:
BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 165-178. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/165/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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