Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo
Por Edmund Burke
Parte III
[187]Seção VIII A Recapitulação
No todo; se tais partes em corpos humanos são consideradas proporcionais, foram, da mesma forma, constantemente consideradas belas, como elas certamente não são; ou se elas estiveram assim situadas, de modo que um prazer pudesse fluir a partir da comparação, o que elas raramente fazem; ou se quaisquer proporções atribuíveis fossem descobertas, quer em plantas ou animais, as quais sempre foram acompanhados por beleza, o que nunca foi o caso; ou se, onde as partes estiveram bem adaptadas para os seus propósitos, elas foram constantemente belas, e, quando nenhum uso apareceu, não houve beleza, o que é contrário a toda experiência; nós poderíamos concluir que a beleza consistiu na proporção ou utilidade. Mas uma vez que, em todos os aspectos, o caso é bastante de outra maneira; nós podemos ficar satisfeitos de que a beleza não depende deles, que ela deva sua origem ao que mais for.
Seção IX Perfeição, não a Causa da Beleza
Há outra noção corrente, bastante estritamente alinhada à anterior; que perfeição é a causa constituinte da beleza. Essa opinião tem sido estendida muito além de objetos sensíveis. [188]Mas nesses, tão longe está a perfeição, considerada como tal, de ser a causa da beleza; que essa qualidade, onde ela é mais alta, no sexo feminino, quase sempre carrega com ela uma ideia de fraqueza e imperfeição. Mulheres são muito sensíveis a isso; razão pela qual elas aprendem a balbuciar (lisp), a vacilar (totter) em seu caminhar, para imitar fraqueza, e até doença. Em tudo isso elas são guiadas pela natureza. Beleza em perigo (Beauty in distress) é muito a beleza mas compassiva. Ruborizar (Blushing) tem pouco menos poder; e a modéstia em geral, a qual é o reconhecimento tácito da imperfeição, é em si mesma considerada como uma qualidade amigável, e certamente intensifica toda outra que é assim. Eu sei que está na boca de todo mundo que nós deveríamos amar a perfeição. Isso é para mim uma prova suficiente de que ela não é o objeto apropriado do amor. Quem alguma vez disse que nós deveríamos (ought) amar uma bela (fine) mulher, ou mesmo qualquer um desses belos animais que nos agradam? Aqui, para ser afetado, não há necessidade do concurso da nossa vontade.
Seção X Até onde a Ideia de Beleza pode ser Aplicada às Qualidades da Mente
Nem é essa observação no geral menos aplicável às qualidades da mente. Aquelas virtudes que causam admiração, e são de tipo mais sublime, produzem terror em vez de amor; tais como fortidão, justiça, sabedoria e semelhante. Nunca nenhum homem foi amigável (amiable) por força dessas qualidades. Aquelas que se engajam nossos corações, que nos impressionam com uma sensação de amabilidade (loveliness) são as virtudes mais suaves; facilidade de temperamento, compaixão, gentileza (kindness) e liberalidade; embora certamente aqueles [189]posteriores sejam de interesse menos imediato e importante para a sociedade, e de menos dignidade. Mas é por essa razão que eles são tão amigáveis. As grandes virtudes voltam-se principalmente para perigos, punições e dificuldades, e são exercitadas, antes na prevenção dos piores equívocos, do que em dispensa de favores e, portanto, não são amáveis, embora altamente veneráveis. Portanto, a introdução subordinada de alívios, gratificações e indulgências é são mais amável, embora inferior em dignidade. Aquelas pessoas que se arrastam para dentro dos corações da maioria das pessoas, quem são escolhidas como companhia das suas horas mais suaves, e seus alívios do cuidado (care) e ansiedade, nunca são pessoas de qualidades brilhantes ou virtudes fortes. É antes no verde suave da alma que nós descansamos nossos olhos, que estão fatigados com a contemplação (beholding) de objetos mais deslumbrantes (glaring). Vale a pena observar como nos sentimos afetados com a leitura das personalidades de César e Cato, como elas estão tão finamente desenhadas e constratada em Salústio. Em um o ignoscendo largiundo; no outro, nil largiundo. Em um, o miseris perfugium; no outro, malis perniciem. No posterior nós temos muito para admirar, muito para reverenciar e talvez alguma coisa para temer; nós o respeitamos, mas nós o respeitamos a uma distância. O anterior tornano-nos familiar com ele; nós o amamos, e ele nos conduz para onde ele desejar. Para aproximar as coisas dos nossos primeiros e mais naturais sentimentos, eu acrescentarei uma observação feita por um amigo engenhoso com a leitura desta seção. A autoridade de um pai, tão útil para o nosso bem-estar, e tão justificavelmente venerável em todas as considerações, impedi-nos de ter aquele inteiro amor por ele que nós temos por nossas mães, onde a autoridade parental está quase dissolvida ao carinho (fondness) e indulgência da mãe. Mas nós geralmente temos um [190]grande amor por nossos avós (grandfathers), em quem essa autoridade está removida em um grau a partir de nós, e onde a fraqueza da idade abranda-a em alguma coisa de parcialidade feminina.
Seção XI Até onde a Ideia de Beleza pode ser Aplicada à Virtude
A partir do que foi dito na seção anterior, nós facilmente podemos ver até onde a aplicação da ideia da beleza pode ser feita com propriedade. A aplicação geral dessa qualidade à virtude tem uma forte tendência a confundir as nossas ideias das coisas, e tem dado origem a uma quantidade infinita de teoria extravagante; como a afixação do nome de beleza à proporção, congruidade e perfeição, assim como a qualidades de coisas ainda mais distantes das nossas ideias naturais de beleza, tem tendido a confundir as nossas ideias de beleza, e não nos deixam nenhum padrão ou regra pelos quais julgar, que não eram nem mesmo mais incertos e falaciosos do que as nossas fantasias (fancies). Portanto, essa maneira relaxada (loose) e imprecisa de falar tem nos enganado tanto na teoria do gosto quanto da moral e induzido-nos a remover a ciência dos nossos deveres da sua base própria (nossa razão, nossas relações, e nossas necessidades), para a apoiar sobre fundamentos completamente visionários e insubstanciais.
[191]Seção XII A Causa Real da Beleza
Tendo tentado mostrar o que a beleza não é, resta que nós devemos examinar, pelo menos com igual atenção, no que ela realmente consiste. A beleza é uma coisa tão muito comovente para não depender de algumas qualidades positivas. E uma vez que ela não é nenhuma criatura da nossa razão, uma vez que ela nos atinge sem nenhuma referência ao uso, e mesmo onde absolutamente nenhum uso pode ser discernido, uma vez que a ordem e o método da natureza é geralmente muito diferente das nossas medidas e proporções, nós temos de concluir que, pela maior parte, a beleza é alguma qualidade nos corpos agindo mecanicamente sobre a mente humana pela intevenção dos sentidos. Portanto, nós deveríamos considerar atentamente de que maneiras essas qualidades sensíveis são dispostas, em tais coisas que, pela experiência, nós consideramos belas, ou que excitam em nós a paixão do amor, ou alguma afeição correspondente.
Seção XIII Objetos Belos, Pequenos
O ponto mais óbvio que se apresenta a nós no exame de qualquer objeto é a sua extensão ou quantidade. E qual grau a extensão predomina nos corpos que nós consideramos belos, pode ser inferido a partir da maneira usual de expressão relativo a ela. Conta-se a mim que, na maioria das linguagens, os objetos de amor são falados sob epítetos diminutivos. É assim em todas as linguagens das quais eu tenho qualquer conhecimento. No grego, o ιον e outros termos diminutivos são quase sempre os termos [192]de afeição e ternura. Esses diminutivos eram comumente acrescentados pelos gregos aos nomes de pessoas com quem eles conversavam em termos de amizade e familiaridade. Embora os romanos fossem um povo de sentimentos menos rápidos e delicados, contudo, eles naturalmente se deslocavam suavemente para a terminação diminutiva em consequência de algumas ocasiões. Antigamente, na língua inglesa, o diminutivo ling foi acrescentado a pessoas e coisas que eram objetos de amor. Algumas ainda o retém, como darling (ou pequeno querido) e umas poucas outras. Mas até hoje em dia, em conversação ordinária, é comum acrescentar o nome cativante (endearing) de little (pequeno) a qualquer coisa que nós amamos; os franceses e italianos fazem uso desse diminutivos afetivos ainda mais do que nós. Na criação animal, fora da nossa própria espécie, é ao pequeno que nós ficamos inclinados a sermos afeiçoados; pequenos pássaros, e alguns dos tipos menores de bestas. Uma grande coisa bela é uma forma de expressão escassamente usada; mas aquela de uma grande coisa feia é muito comum. Há uma ampla diferença entre admiração e amor. O sublime, que é a causa da primeira, sempre habita em objetos grandes e terríveis; o segundo, nos pequenos e agradáveis; nós nos submetemos ao que nós admiramos, mas nós amamos o que se submete a nós; no primeiro caso, nós somos forçados, no outro, nós somos lisonjeados, à complacência. Em resumo, as ideias do sublime e do belo erguem-se sobre fundamentos tão diferentes, que é difícil, eu tenho dito, quase impossível, pensar na reconciliação delas no mesmo objeto, sem atenuar consideravelmente o efeito de um ou do outro sobre as paixões. De modo que, acompanhando a sua quantidade, objetos belos são comparativamente pequenos.
[193]Seção XIV Lisura
A próxima propriedade constantemente observável em tais objetos é a lisura (smoothness);1 uma qualidade tão essencial para a beleza que eu não me lembro de nada belo que não seja liso (smooth). Em árvores e flores, flores lisas são belas; declives (slopes) lisos de terra em jardins; córregos lisos na paisagem; peles (coats) lisas de pássaros e bestas em belos animais; em belas mulheres, peles lisas; e em vários tipos de mobilia ornamental, superfícies lisas e polidas. Uma parte muito considerável do efeito da beleza é devida a essa qualidade; de fato, a mais considerável. Pois, tome-se qualquer objeto belo, conceda-lhe uma superfície quebrada (broken) e áspera (rugged); e, por mais que ele possa ser bem-formado em outros aspectos, ele não mais agrada. Ao passo que, que ele sempre careça de tantos dos outros constituintes, se ele não carece desse, ele torna-se mais agradável do que quase todos os outros sem ele. Isso me parece tão evidente que eu fico muito surpreso de que ninguém, que tenha tratado do assunto, tenha feito nenhuma menção à qualidade da lisura na enumeração daquelas que vão para a formação da beleza. Pois, de fato, qualquer aspereza (ruggedness), qualquer projeção súbita, qualquer ângulo agudo, é contrário a essa ideia no mais alto grau.
[194]Seção XV Variação Gradual
Mas como corpos perfeitamente belos não são compostos por partes angulares, assim as partes deles nunca contina por muito na mesma linha reta.2 Elas variam sua direção a cada momento, e elas mudam sob o olhar através de um desvio continuamente se realizando, mas para cujo começo ou fim você considerará difícil determinar um ponto. A visão de um belo pássaro ilustrará essa observação. Aqui nós vemos a cabeça aumentando insensivelmente para o meio, a partir de onde ela diminui gradualmente até que ela se mistura com o pescoço; o pescoço perde-se em um volume maior, o qual continua para o meio do corpo, quando o todo diminui novamente para a cauda; a cauda toma uma nova direção, mas logo ela varia o seu novo curso, ela mistura-se novamente com as outras partes, e a linha está perpetuamente mudando, acima, abaixo, em cada lado. Nessa descrição, eu tenho diante de mim a ideia de um pombo (dove); ela concorda muito bem com a maioria das condições da beleza. Ele é liso (smooth) e macio (downy); suas partes (para usar esta expressão) fundem-se umas com as outras; protuberâncias súbitas não se apresentam a você, e, contudo, o todo está continuamente mudando. Observe aquela parte uma bela mulher onde, talvez, ela seja mais bela, em torno do pescoço e seios; a lisura (smoothness), a suavidade (softness), o volume fácil e insensível; a variedade de superfície, a qual nunca é a mesma para o menor dos espaços; o labirinto enganoso através do qual o olho instável desliza vertiginosamente, sem saber onde se fixar e para onde ele é levado. Isso não é uma demonstração [195]dessa mudança de superfície, contínua e, contudo, dificilmente perceptível em qualquer ponto, a qual forma uma das grandes constituintes da beleza? Não me concede pequeno prazer descobrir que eu posso fortalecer minha teoria nesse ponto pela opinião do muito engenhoso sr. Hogarth, cuja ideia da linha de beleza eu considero, no geral, ser extremamente justa. Mas a ideia de variação, sem acompanhar tão precisamente a maneira (manner) da variação, levou-o a considerar figuras angulares como belas; essas figuras, é verdadeiro, variam grandemente, contudo, elas variam de uma maneira súbita e quebrada, e eu não encontro nenhum objeto natural que seja anguloso e, ao mesmo tempo, belo. De fato, muito poucos objetos naturais são inteiramente angulosos. Mas eu penso que aqueles que se aproximam mais de perto disso são os mais feios. Eu também tenho de acrescentar que, até onde eu pude observar da natureza, embora apenas a linha variada seja aquela na qual beleza completa seja encontrada, contudo, não há linha particular que seja sempre encontrada no mais completamente belo, e que, portanto, seja bela em preferência a todas as outras linhas. Pelo menos, eu nunca pude observá-la.
Seção XVI Delicadeza
Um ar de robustez e força é muito prejudicial para a beleza. Uma aparência de delicadeza, e mesmo de fragilidade, é quase essencial para ela. Quem quer que examine a criação vegetal ou animal descobrirá essa observação ser encontrada na natureza. Não é o carvalho (oak), o freixo (ash) ou o olmo (elm), ou qualquer uma das árvores robustas da floresta que nós consideramos como belas; elas são [196]impressionantes (awful) e majestosas, elas inspiram um tipo de reverência. É a murta (myrtle) delicada, é a laranjeira, é a amendoeira (almond), é o jasmineiro, e a vinha que nós vemos como belezas vegetais. São as espécies floridas, tão notáveis por sua fraqueza e duração momentânea, que nos concedem a ideia mais vívida de beleza e elegância. Entre os animais, o galgo (greyhound) é mais belo do que o mastim (mastiff), e a delicadeza de uma burra (jennet), um berberisco (barb), ou um cavalo árabe, é muito mais amigável do que a força e estabilidade de alguns cavalos de guerra e carruagem. Aqui eu tenho de falar pouco do belo sexo, onde eu acredito que o argumento facilmente me será concedido. A beleza das mulheres é consideravelmente devida à sua fraqueza ou delicadeza, e é até intensificada pela sua timidez, uma qualidade de mente análoga a ela. Aqui eu não gostaria de ser entendido dizer que fraqueza revelando saúde muito ruim tem qualquer parte na beleza; mas que o mau disso não é porque ela é fraqueza, mas porque o mau estado de saúde, o qual produz tal fraqueza, altera as outras condições de beleza; em um tal caso, as partes colapsam, a cor brilhante, a lumen purpureum juventae, perdeu-se, e a variação delicada é perdida em rugas (wrinkles), interrupções súbitas e linhas retas.
Seção XVII Beleza na Cor
Quanto às cores comumente encontradas em objetos belos, pode ser um pouco difícil determiná-las, porque, em várias partes da natureza, há uma variedade infinita. Contudo, mesmo nessa variedade, nós podemos distinguir alguma coisa sobre a qual decidir. Primeiro, as cores dos corpos belos não devem ser escuras (dusky) ou [197]turvas (muddy), mas limpas (clean) e claras (fair). Segunda, elas não devem ser do tipo mais forte. Aquelas que parecem mais apropriadas para a beleza são as mais suaves de cada tipo; verdes-claros; azuis suaves; brancos fracos, vermelhos rosas e violetas. Terceiro, se as cores forem fortes e vívidas, elas são sempre diversificadas, e o objeto nunca é de uma cor forte; quase sempre há um número tão grande delas (como nas flores variadas) que a força e o brilho (glare) de cada uma é consideravelmente abatido. Em uma compleição delicada não apenas há uma variedade na coloração, mas nas cores, nem o vermelho, nem o branco são fortes e brilhantes (glaring). Além disso, elas estão misturadas de uma maneira tal, e com tais gradações, que é impossível fixar os limites. Pelo mesmo princípio é que a cor dúbia nos pescoços e caldas dos pavões (peacocks), e ao redor das cabeças dos marrecos (drakes), são tão agradáveis. Na realidade, tanto a beleza da forma quanto da coloração estão quase tão relacionadas como nós bem podemos supor para coisas de naturezas tão diferentes serem.
Seção XVIII Recapitulação
No todo, as qualidades da beleza, visto que elas são meramente qualidades sensíveis, são as seguintes: primeiro, ser comparativamente pequenas. Segundo, ser lisas. Terceiro, ter uma variedade na direção das partes; mas, quarto, ter essas partes não angulosas, mas fundidas umas com as outras, por assim dizer. Quinto, ser de uma estrutura delicada, sem nenhuma aparência notável de força. Sexto, ter suas cores claras e brilhantes (bright), mas não muito fortes e brilhantes (glaring). [198]Sétimo, ou, se deve ter qualquer cor brilhante (glaring), tê-la diversificada com outras. Eu acredito que essas são as propriedades sobre as quais a beleza depende; propriedades que operam por natureza, e estão menos inclinadas a serem alteradas por capricho, ou confundidas por uma diversidade de gostos, do que quaisquer outras.
ORIGINAL:
BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 187-198. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/187/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[193]Parte IV, seção 20.
2[194]Parte IV, seção 23.
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