terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte III - Seções XIX-XXVII

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


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Parte III


[198]Seção XIX A Fisiognomia


A fisiognomia tem uma parte considerável na beleza, especialmente naquela da nossa própria espécie. As maneiras (manners) concedem uma certa determinação ao semblante; o qual, sendo observado corresponder regularmente a elas, é capaz de juntar o efeito de certas qualidades agradáveis da mente com aquelas do corpo. De modo que, para dar forma a uma beleza humana acabada, e concedê-la sua completa influência, o rosto precisa ser expressivo de tais qualidades gentis e amigáveis, como correspondentes à suavidade (softness), lisura (smoothness) e delicadeza da forma externa.


Seção XX O Olho


Até aqui eu propositalmente evitei falar do olho, o qual tem uma parte tão grande na beleza da criação animal, visto que ele não cai tão facilmente sob as categorias anteriores, embora, de fato, ele seja redutível aos mesmos princípios. Portanto, eu penso que a beleza do olho consiste, primeiro, em sua clareza (clearness); que o olho colorido deverá agradar mais, depende em uma grande medida de fantasias particulares; mas ninguém fica satisfeito com um olho cuja [199]água (water) (para usar esse termo) é baça (dull) e turva (muddy).1 Nós ficamos agradados com um olho nessa visão, em consequência do princípio pelo qual nós gostamos de diamantes, água clara, vidro e tais substâncias transparentes semelhantes. Segundo, o movimento do olho contribui para a sua beleza, ao mudar continuamente a sua direção; mas um movimento lento e lânguido é mais belo do que um rápido (brisk); o segundo é animador; o primeiro, amável. Terceiro, com respeito à união do olho com as partes vizinhas, deve-se sustentar a mesma regra que é dada para outras coisas belas; não se deve fazer uma divergência forte a partir da linha das partes vizinhas; nem ressaltar nenhuma figura geométrica. Além de tudo isso, o olho afeta, como ele é expressivo de algumas qualidades da mente; e o seu poder principal geralmente surge a partir disso; de modo que o que nós acabamos de dizer sobre a fisiognomia é aplicável aqui.


Seção XXI Feiura


Talvez possa parecer como um tipo de repetição do que já foi dito, insistir aqui na natureza da feiura (ugliness); visto que eu a imagino ser em todos os aspectos o oposto daquelas qualidades que nós estabelecemos para os constituintes da beleza. Mas embora a feiura seja o oposto da beleza, ela não é o oposto da proporção e adequação. Pois é possível que uma coisa possa ser muito feia com quaisquer proporções, e com uma adequação perfeito para quaisquer usos. Da mesma forma, eu imagino a feiura ser suficientemente consistente com uma ideia do sublime. Mas de maneira nenhuma eu insinuaria [200]que a feiura em si mesma é uma ideia sublime, a menos que unida com qualidades tais que excitam um terror forte.


Seção XXII Graça


Graciosidade (Gracefulness) não é uma ideia muito diferente da beleza; ela consiste em muitas das mesmas coisas. A graciosidade é uma ideia pertencente à postura e ao movimento. Em ambos esses, para ser gracioso, é necessário que não haja aparência de dificuldade; seja requerida uma pequena inflexão do corpo; e uma compostura das partes de uma maneira tal como a não atrapalhar (incumber) uma à outra, não parecer dividido por ângulos agudos e súbitos. Nesse caso, essa rotundidade (roundness), essa delicadeza de atitude e movimento, é no que toda a mágica da graça consiste, e é o que é chamado de je ne sçai quoi; como será óbvio para qualquer observador, quem considera atentamente a Vênus de Médici, os Antinous ou qualquer estátua admitida ser graciosa em um grau elevado.


Seção XXIII Elegância e Especiosidade (Speciousness)


Quando qualquer corpo é composto de partes lisas e polidas, sem pressionarem umas as outras, sem mostrarem nenhuma rugosidade (ruggedness) ou confusão, e, ao mesmo tempo, afetando alguma forma regular, eu chamo-o de elegante. Isso está estritamente aliado com o belo, diferindo dele apenas nessa regularidade; a qual, contudo, como ele forma uma diferença muito material na afeição produzida, pode muito bem constituir outra espécie. [201]Sob esta categoria, eu classifico (rank) aquelas obras delicadas e regulares de arte, que não imitam nenhum objeto determinado na natureza, como construções elegantes, e peças de mobília. Quando qualquer objeto participa das qualidades acima mencionadas, ou daquelas de corpos belos, e está junto com grandes dimensões, ele está completamente longe da ideia de mera beleza; eu chamo-o de fino (fine) ou especioso (specious).


Seção XXIV O Belo no Sentimento


A descrição acima de beleza, até onde ela é tomada pelo olho, pode ser grandemente ilustrada descrevendo-se a natureza de objetos que produzem um efeito similar através do toque (touch). Isso eu chamo de belo no sentimento (feeling). Ele corresponde maravilhosamente ao que causa a mesma espécie de prazer para a visão (sight). Há uma sequência (chain) em todas as nossas sensações; elas todas são apenas tipos diferentes de sentimentos calculados para serem afetados segundo a mesma maneira. Todos os corpos que são agradáveis ao toque são assim pela leveza (slightness) da resistência que eles produzem. A resistência é ou ao movimento ao longo da superfície ou à pressão das partes uma sobre a outra; se a primeira for leve (slight), nós chamamos o corpo de liso (smooth); se a segunda, de macio (soft). O prazer principal que nós recebemos através do sentimento está em uma outra dessas qualidades; e, se há uma combinação de ambos, o nosso prazer é muito intensificado. Isso é tão evidente que é antes mais adequado ilustrar outras coisas do que ser ilustrado em si mesmo por um exemplo. A próxima fonte de prazer nesse sentido, como em qualquer outro, é a apresentação contínua de alguma coisa nova; e nós descobrimos que corpos que continuamente variam sua [202]superfície, são exatamente os mais agradáveis e belos para o sentimento, como qualquer um que se agrada pode experienciar. A terceira propriedade em tais objetos é que, embora a superfície varie sua direção, ela nunca a varia subitamente. A aplicação de qualquer coisa súbita, mesmo se a impressão mesma tenha pouco ou nada de violenta, é desagradável. A aplicação rápida de um dedo um pouco mais quente ou mais frio do que o usual, sem notar, faz-nos pular; um leve tapa no ombro, não esperado, tem o mesmo efeito. Consequentemente, é que corpos angulares, corpos que subitamente variam a direção do contorno (outline), proporcionam tão pouco prazer para o sentimento. Cada uma dessas mudanças é um de escalada (climbing) ou queda (falling) em miniatura; de maneira que quadrados, triângulos e outras figuras angulares não são belas nem para a visão nem para o sentimento. Quem quer que compare o seu estado de mente, sobre o sentimento macio, liso, variado, corpos não angulares, com aquele no qual ele se encontra, à visão de um objeto belo, perceberá uma analogia muito impressionante nos efeitos de ambos; e a qual pode avançar bastante na direção da descoberta da sua causa comum. O sentimento e a visão, nesse aspecto, diferem em apenas uns poucos pontos. O toque apreende o prazer da maciez (softness), o qual não é primariamente um objeto da visão; a visão, por outro lado, compreende a cor, a qual dificilmente pode ser tornada perceptível para o toque; novamente, o toque tem a vantagem em uma nova ideia de prazer resultando a partir de um grau moderado de calor (warmth); mas o olho triunfa na extensão e multiplicidade dos seus objetos. Mas há uma similitude tão grande nos prazeres desses sentidos, que eu estou apto a fantasiar, se fosse possível que alguém pudesse discernir a cor pelo sentimento (como se diz que alguns cegos têm feito), de modo que as mesmas cores, e a mesma disposição de coloração, as quais são consideradas belas para a visão, [203]seriam, da mesma forma, consideradas mais agradáveis (grateful) para o toque. Mas, deixando conjecturas de lado, passemos para o outro sentido; da audição (hearing).


Seção XXV O Belo em Sons


Neste sentido nós encontramos uma aptidão igual para sermos afetados de uma maneira suave e delicada; e até onde doces ou belos concordam com as nossas descrições de beleza em outros sentidos, a experiência de cada um tem de decidir. Milton descreveu essa espécie de música em um dos seus poemas juvenis.2 Eu não tenho de dizer que Milton era perfeirtamente bem versado nessa arte; e que nenhum homem teve um ouvido mais fino, com uma maneira mais feliz de expressar as afeições de um sentido através de metáforas tomadas de outro. A descrição é como se segue: -


E sempre contra cuidados consumidores,

Amima-me em suaves (soft) ares lídios;

Em notas com muitas sinuosas voltas

De doçura vinculada há muito prolongada;

Com atenção arbitrária, e astúcia inconstante,

A voz derretendo-se através de labirintos correndo;

Destorcendo todas as correntes que vinculam

A oculta alma da harmonia.”


Comparemos isso com a suavidade (softness), a superfície sinuosa, a continuidade ininterrupta, a gradação fácil do belo em outras coisas; e todas as diversidades dos vários sentidos, com todas as suas várias afeições, antes ajudarão a lançar luzes de um para outro para retocar uma ideia clara, consistente, do todo, do que para obscurecê-la por sua complexidade e variedade.

[204]À descrição acima mencionada eu deverei acrescentar uma ou duas observações. A primeira é; que o belo na música não comportará aquela intensidade (loudness) e força de sons, os quais podem ser usados para elevar outras paixões; nem notas que são estridentes (shrill), ou ásperas (harsh) ou profundas; ele concorda melhor com aqueles que são claras, constante (even), lisas (smooth) e fracas. A segunda é; que grande variedade, e transições rápidas de uma medida ou tom para outro, é contrária ao gênio do belo em música. Essas3 transições frequentemente excitam hilaridade (mirth), ou outras paixões súbitas ou tumultuosas; mas não aquela submersão (sinking), aquela fusão (melting), aquele langor, que é o efeito característico do belo enquanto ele diz respeito a cada sentido. De fato, a paixão excitada pela beleza está mais próxima de uma espécie de melancolia do que da festança (jollity) e hilaridade. Aqui eu não intenciono confinar a música a nenhuma espécie de nota, ou tom, tampouco ela é uma arte na qual eu posso dizer que eu tenha qualquer grande habilidade. Minha única intenção nesta observação é estabelecer uma ideia consistente de beleza. A variedade infinita das afeições da alma sugerirá para uma boa cabeça, e ouvido habilidoso, uma variedade desses sons como são adequados para as excitar. Não pode haver prejuízo para isso, clarear e distinguir alguns poucos particulares que pertençam a mesma classe, e são consistentes uns com os outros, a partir da multidão imensa de ideias diferentes e, algumas vezes, contraditórias, que se classificam vulgarmente sobre o padrão de beleza. E dessas é minha intenção marcar apenas aquelas dos pontos principais, como revela a conformidade do sentido da audição com todas as outras regras, no artigo dos seus prazeres.


[204]Seção XXVI Gosto e Cheiro


Esse acordo geral dos sentidos é ainda mais evidente ao se discutir minuciosamente aqueles do gosto (taste) e do cheiro (smell). Nós metaforicamente aplicamos a ideia de doçura (sweetness) a visões (sights) e sons (sounds); mas as qualidades de corpos pelos quais eles são adequados para excitar prazer ou dor nesses sentidos não são tão óbvias como elas são em outros, nós devemos referir uma explicação da sua analogia, a qual é uma muito próxima, àquela parte na qual nós chegamos chegar à causa comum eficiente da beleza, visto que ela diz respeito a todos os sentidos. Eu não considero nada mais adequado para estabelecer uma ideia clara e estabelecida da beleza visual do que essa maneira de examinar prazeres semelhantes de outros sentidos; pois uma parte algumas vezes é clara em um desses sentidos que é mais obscura em outro; e onde há uma clara concorrência de todos, nós podemos falar de qualquer uma delas com mais certeza. Através desse meio, eles testemunham um o outro; por assim dizer, a natureza é escrutinada; e nós não relatamos nada dela exceto o que nós recebemos a partir de sua própria informação.


Seção XXVII O Sublime e o Belo, comparados


No fechamento dessa visão geral sobre a beleza, naturalmente ocorre que nós deveremos compará-la com o sublime; e nessa comparação aparece um contraste notável. Pois objetos sublimes são vastos em suas dimensões, os belos, comparativamente pequenos; os belos [206]deveriam ser lisos e polidos; os grandiosos, acidentados (rugged) e negligentes: a beleza deveria evitar a linha reta, contudo, desviar-se dela insensivelmente; o grandioso, em muitos casos, ama a linha reta; e, quando ele desvia, ele frequentemente faz um forte desvio: a beleza não deveria ser obscura; o grandioso deveria ser escuro e sombrio: a beleza deveria ser luminosa (light) e delicada; o grandioso deveria ser sólido e até massivo. De fato, elas são ideias de uma natureza muito diferente, uma fundada sobre a dor, a outra, sobre o prazer; e, por mais que elas posteriormente possam variar da natureza direta das suas causas, todavia, essas causas mantêm uma distinção eterna entre elas, uma distinção nunca a ser esquecida por qualquer um cuja atividade é afetar as paixões. Na variedade infinita de combinações naturais, nós temos de esperar encontrar as qualidades das coisas mais remotas imagináveis umas a partir da outra no mesmo objeto. Nós também temos de esperar encontrar combinações do mesmo tipo nas obras de arte. Mas quando nós consideramos o poder de um objeto sobre as nossas paixões, nós temos de saber que, quando qualquer coisa é intencionada para afetar a mente pela força de alguma propriedade predominante, a afeição produzida é provável de ser mais uniforme e perfeita, se todas as outras propriedades ou qualidades do objeto forem da mesma natureza, e tendendo ao mesmo desígnio como o principal.


Se o preto e o branco misturam-se, atenuam-se, e unem-se

De mil maneiras, não há nem preto nem branco?”


Se, algumas vezes, as qualidades do sublime e do belo são encontradas unidas, isso prova que eles são o mesmo; isso prova que eles estão de qualquer forma aliados; isso prova mesmo que eles não são opostos e contraditórios? O preto e o branco podem atenuar-se, podem [207]misturar-se; mas, por isso, eles não são o mesmo. Nem, quando eles estão tão atenuados e misturados um com o outro, ou com cores diferentes, é o poder do preto como preto, ou do branco como branco, tão forte com quando cada um permanece uniforme e distinto.


Próxima seção


ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 198-207. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/198/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[199]Parte IV, secção 25.

2[203]L’Allegro

3[204]“Eu nunca fico feliz, quando eu ouço música doce.” Shakespeare.

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