quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Deveríamos repensar como pesquisamos?

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


Parte XI Realizando o Humanismo Digital


Ensaio anterior


[323]Deveríamos repensar como pesquisamos?


por Carlo Ghezzi


Resumo Os avanços em tecnologias digitais movem-se incrivelmente rápidos do estágio de pesquisa para o uso prático, e eles geram mudanças radicais no mundo, afetando seres humanos em todos os aspectos das suas vidas. O capítulo ilustra como isso pode ter implicações profundas sobre a forma como a pesquisa tecnológica é desenvolvida. Ele também discute a necessidade para os pesquisadores engajarem-se mais ativamente em debates públicos com a sociedade.


1 Introdução: Lidando com Mudanças Disruptivas


A história mostra como avanços em ciência e tecnologia sempre têm produzido mudanças no mundo no qual nós vivemos. Com as tecnologias digitais,1 nós experienciamos níveis inéditos de mudança. Elas afetam o bem-estar humano, auxiliam humanos em suas atividades individuais e aliviam-nos de trabalhos extenuantes ou perigosos. De maneira mais ampla, elas criam um inteiramente novo mundo ciberfísico, no qual elas vivem e interagem com fenômenos naturais, outros indivíduos e novos tipos de entidades artificiais autônomas. O “velho mundo,” o qual era conhecido por nós por séculos, no qual nos sentíamos confortáveis e com o qual nós lentamente evoluímos, subitamente tem sido substituído por um novo cujas leis nós ignoramos e onde os humanos podem perder o controle. O humanismo digital enfatiza que a humanidade tem de estar no centro da inovação e que a tecnologia tem de servir à sociedade e ao ambiente.

Os desenvolvimentos tecnológicos são largamente movidos por pesquisa. Para entendermos as lições para a pesquisa que nós podemos aprender a partir do desenvolvimento das tecnologias digitais, nós temos de refletir sobre suas duas propriedades-chave: radicalidade e velocidade de mudança.

De fato, os efeitos das tecnologias digitais sobre o gênero humano têm sido revolucionários. Outras mudanças radicais foram geradas por pesquisa no passado, mas talvez nenhuma esteja [324]afetando tão profundamente cada vida humana. Por exemplo, a mudança da astronomia ptolomaica – a qual considerava a terra estar no centro do universo, com o sol, a lua e os planetas girando ao redor dela – para a visão copernicana teve efeitos radicais na ciência e filosofia, mas não afetou a vida cotidiana do indivíduo. Da mesma maneira, a mudança radical na física no começo do século XX, causada pelos desenvolvimentos da teoria da relatividade e mecânica quântica, desafiou a visão conhecida do mundo físico, descrita pelos axiomas e leis da mecânica de Newton. Essa foi uma mudança espetacular de paradigma, a qual, contudo, teve pouco efeito em fenômenos praticamente observáveis na vida humana cotidiana.

Adicionalmente, a transição dos avanços em tecnologias digitais do estágio de pesquisa para a vida cotidiana ocorreu muitos mais rapidamente do que para tecnologias anteriores. Como observado, por exemplo, por Harari (2014), a Revolução Industrial, inflamada pela invenção de motores a vapor, precisou de aproximadamente dois séculos para desenvolver o moderno mundo industrial. As tecnologias digitais espalharam-se pelo mundo em apenas umas poucas décadas, gerando mudanças abruptas e dificultando adaptação gradual e sem fricção.2


2 Efeitos sobre como Nós realizamos Pesquisa


A implicação principal da velocidade da mudança é que cientistas e engenheiros,3 em seu trabalho exploratório, não podem ignorar as implicações e efeitos potenciais da nova tecnologias que eles desenvolvem. Adiar a reflexão sobre o uso da tecnologia para um estágio mais tardio pode causar sério prejuízo. Aí de mim, “mais tardio” é de fato “mais cedo” do que o esperado; pode ser tarde demais! Em vez disso, a pesquisa tecnológica tem de prosseguir de mãos dadas com a investigação das suas implicações. Tradicionalmente, estratégias cuidadosas de implementação e teste de uso (trial usage) de tecnologia recentemente desenvolvida poderiam evitar grandes danos através de ajustes e contramedidas. Contudo, hoje em dia, inovações radicais em reconhecimento de imagem baseado em técnicas de aprendizagem profunda de IA têm sido imediatamente transferidas para a prática sem primeiro explorar suas limitações e potenciais implicações. A adoção em julgamentos (law trials) levantou sérias preocupações éticas e potenciais violações de direitos humanos. Da mesma forma, os avanços que possibilitaram computação universal móvel em massa através de aparelhos pessoais e smartphones enfatizaram principalmente usabilidade e funcionalidade, às custas de confiabilidade (trustworthiness) e segurança (dependability). Como um resultado, as infraestruturas estão abertas e todos os tipos de abusos e ataques, incluindo violações de privacidade que levam a sérias consequências políticas.4 Muitos exemplos de questões técnicas eticamente sensíveis são enfrentadas pela pesquisa corrente em veículos autônomos.

[325]O efeito de mudanças radicais sobre seres humanos e sociedade é uma preocupação séria que deve ser encarada enquanto desenvolvendo pesquisa tecnológica. Para lidar com isso, a pesquisa tem de ampliar o seu foco, movendo-se para além das fronteiras puramente técnicas e trazendo um foco sobre o potencial humano e as questões sociais envolvidas. Isso pede aos cientistas que quebrem os rígidos silos dentro dos quais a ciência está atualmente compartimentalizada. Por exemplo, filósofos e cientistas sociais têm de ser integrados em grupos de pesquisa que desenvolvem tecnologia nova para veículos autônomos; ambientalistas, planejadores urbanos e cientistas sociais tem de trabalhar com cientistas da computação para desenvolver sistemas de gerenciamento de trânsito em cidades inteligentes. A busca por interdisciplinaridade – até então frequentemente mais slogan da moda do que realidade – torna-se uma necessidade. Nós seria e urgentemente necessitamos entender como isso pode ser realizado. Por exemplo, como alcançar amplitude sem sacrificar profundidade de pesquisa, como avaliar trabalho interdisciplinar sem o penalizar aplicando critério tradicionais baseados em silos, etc.


3 Efeitos no Engajamento com a Sociedade


A velocidade e radicalidade da mudança têm uma consequência importante sobre a necessidade de que os cientistas se engajem com a sociedade. Tradicionalmente, eles interagem e comunicam-se quase exclusivamente com seus pares de silo. Eles estão amplamente protegidos de comunicação e interação diretas com um público mais amplo. Formas limitadas de engajamento incluem iniciativas inovadoras, como geração de derivados (spin-offs) e colaborações com indústria, governo e legisladores. Mudanças rápidas e radicais requerem mais envolvimento, especialmente na discussão de desenvolvimentos e usos potenciais e na elevação de ampla consciência social. Contudo, isso é mais fácil de dizer do que de fazer.

Os pesquisadores sabem muito bem como se comunicar com os seus pares. Eles aprendem como fazer isso desde que eles entram em um programa de doutorado e continuam a aprender e melhorar por toda sua carreira. A pesquisa é um processo intrinsecamente aberto que depende da comunicação entre pares. A principal ambição dos cientistas é alcançar resultados novos e comunicá-los à comunidade de pesquisa através de artigos de pesquisa, artefatos (tais como conjuntos de dados ou protótipos de software), e debates científicos em conferências. O seu progresso na carreira depende amplamente de quão exitosamente eles estão produzindo e difundindo resultados novos e relevantes para os seus pares. Ghezzi (2020) discute a importância da comunicação entre pares e também enfatiza a necessidade de formas mais negligenciadas de engajamento público, através das quais os cientistas conduzem, ou participam de, debates científicos com uma audiência mais amplas, fora do círculo de pares: com o governo, tomadores de decisão e decisores de políticas, e o público geral.

Há notáveis exemplos históricos de cientistas que se engajaram em debates científicos públicos, especialmente quando o progresso leva a mudanças radicais. Um caso famoso é o de Galileu Galilei, quem se esforçou para trazer o seu suporte à teoria copernicana à atenção da sociedade da sua época. Ele estava bem ciente das profundas consequências da mudança da visão ptolomaica para a copernicana: a humanidade não estava mais vivendo no centro do universo, mas, em vez disso, em um planeta, o qual era apenas uma pequena parte do sistema solar. Ele falou para a sociedade informada da época dele através de um ensaio, [326]“Dialogue Concerning the Two Chief World Systems,” no qual uma conversa científica é realizada entre três indivíduos: um cientista copernicano que explica a nova teoria para um cidadão educado argumentando contra as afirmações feitas por um cientistas ptolomaico. Galileu é considerado como o pai da ciência moderna. Ele ensinou-nos que a ciência não é fé cega em crenças prévias, ortodoxia dominante ou ideologia. Ela depende de argumentações racionais para chegar a quaisquer conclusões que uma análise cuidadosa da evidência sugeriria, mesmo se elas não fossem conforme as crenças correntes. Ele desenvolveu nova tecnologia para capacitar os humanos a entenderem e dominarem o mundo físico. O seu engajamento público levou-o a confrontar-se com a doutrina católica oficial, a qual seguia a visão de Ptolomeu de que a terra ficava no centro do sistema solar. Galileu compareceu diante da Inquisição romana e eventualmente foi acusado de heresia. Ele foi forçado a renegar suas visões e sentenciado à prisão doméstica pelo resto da vida.

Outro exemplo de debate acalorado ocorreu no começo do século XX, quando os desenvolvimentos revolucionários na física e na matemática por gigantes como Einstein, Plank, Bohr e Hilbert reuniram um grupo fora do comum de físicos, filósofos e matemáticos, quem se encontraram em Viena em um seminário permanente de 1924 a 1936, chamado de Wiener Kreis (Círculo de Viena). Os membros do seminário tinham como objetivo fundamentar a filosofia em uma visão científica moderna do mundo, mantendo-a separada da metafísica.

Participantes nas discussões incluíam físicos, filósofos, como Schlick (quem presidia o grupo), Neurath, Popper e Wittgenstein, e matemáticos e lógicos, como Carnap e Gödel. O Círculo de Viena dissolveu-se em 1936, quando Schilick morreu e o antissemitismo levou a uma diáspora dos outros membros. Um relato fascinante desse movimento altamente influente pode ser encontrado em Sigmund (2017). Discussões mais acaloradas envolveram físicos no final da Segunda Guerra Mundial, quando a relação entre a pesquisa e o seu uso direto no desenvolvimento de armas de destruição em massa tornou-s evidente. O debate foi capaz de informar e envolver tanto governos quanto cidadãos.

Esses exemplos de envolvimento público em debates científicos permaneceram principalmente no âmbito das “elites educadas.” A revolução digital está afetando diretamente a vida de cada indivíduo e requer um alcance mais amplo. Um debate informado tem de acontecer, envolvendo não apenas cientistas em quase todas as áreas e tomadores de decisões em todos os níveis, mas também cidadãos, para ter certeza de que os humanos e a terra na qual eles vivem estão no centro dos desenvolvimentos tecnológicos.


4 Conclusões


Engajamento efetivo com o público geral requer que os pesquisadores aprendam como se comunicar efetivamente e que os seus esforços para o fazer sejam reconhecidos e recompensados. Eles têm de entender o papel que têm de desempenhar nessa conversa, a qual visa principalmente à explicação dos avanços de pesquisa e à indicação das questões críticas envolvidas no seus uso, o que pode requer decisões coletivas, informadas, racionais. [327]As fronteiras entre conhecimento científico e opiniões e crenças pessoais deveriam ser claramente separadas. A comunicação efetiva também demanda uma audiência madura e competente. Isso levanta sérias preocupações, uma vez que, lamentavelmente, o nível de educação científica tem diminuído em muitos países. Ainda pior, paradoxalmente, em nosso mundo altamente tecnológico, há uma desconfiança difundida na ciência – ver Nichols (2017) – a qual deveria ser contrastada por mais investimentos em educação. Em particular, nós temos de assegurar que todo cidadão responsável entenda como ciência e tecnologia progridem, como se pode confiar nelas, e quais são os limites delas. O desenvolvimento de um espaço aberto para discussões em torno da tecnologia digital é crucial para o futuro das nossas sociedades democráticas e a realização do humanismo digital.


Referências


Ghezzi, C. (2020) Being a Researcher: An Informatics Perspective. Springer International Publishing.

Harari, Y.N. (2014) Sapiens: A Brief History of Humankind. Random House.

Nichols, T. (2017) The Death of Expertise: The Campaign against Established Knowledge and Why it Matters. Oxford University Press.

Sigmund, K. (2017) Exact Thinking in Demented Times: The Vienna Circle and the Epic Quest for the Foundations of Science. Basic Books.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

GHEZZI, C. Should We Rethink How We Do Research?. In: GHEZZI, C. et al. (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p. 323-327. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1[323]O termo guarda-chuva “tecnologias digitais” inclui tanto hardware quanto software (dados, algoritmos, IA).

2[324]A revolução digital também estão mudando muito rapida e radicalmente a forma como nós realizamos pesquisa, em quase todas as áreas, através da disponibilidade sem precedentes de dados e a invenção de algoritmos que podem manipulá-los e raciocinar sobre eles, levando à automação de descobertas. As consequências profundas dessa mudança requererão discussão adicional.

3[324]Neste capítulo, os termos cientistas e pesquisador são usados intercambiavelmente. Além disso, eles principalmente se referem implicitamente a pesquisa tecnológica.

4Por exemplo, o spyware Pegasus [https://en.wikipedia.org/wiki/Pegasus_(spyware)].  

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