sábado, 24 de fevereiro de 2024

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte III - Seções V-VII

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


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Parte III


[178]Seção V Proporção, adicionalmente Considerada


Se eu não estou enganado, uma grande quantidade do prejuízo em favor da proporção surgiu nem tanto a partir da observação de quaisquer medidas certas encontradas em corpos belos, como a partir de uma ideia errada da relação que a deformidade comporta com a beleza, à qual ela tem sido considerada como oposta; sobre esse princípio se concluiu que, onde as causas da deformidade fossem removidas, a beleza tem natural e necessariamente ser introduzida. Eu acredito que isso é um erro. Pois a deformidade não é oposta ao belo, mas à forma comum completa. Se uma das pernas de um homem for considerada mais curta do que a outra, o homem é deformado; porque há alguma coisa faltante (wanting) para completar a ideia toda que nós formamos de [179]um homem; e isso tem o mesmo efeito em faltas naturais, como o aleijamento (maiming) e a mutilação produzem a partir de acidentes. Assim, se as costas forem corcundas (humped), o homem é deformado; porque as suas costas possuem uma figura não usual, e o que leva consigo a ideia de alguma doença ou infortúnio; assim, se um pescoço do homem for consideravelmente mais longo ou mais curto do que o usual, nós dizemos que ele é deformado nessa parte, ser a causa dos homens não serem comumente formados dessa maneira. Mas certamente, a experiência comum pode convencer-nos de que um homem pode ter suas pernas de um comprimento igual, e assemelhando-se uma a outra em todos os aspectos, e o seu pescoço de tamanho justo, e suas costas bastante retas, sem, ao mesmo tempo, ter a menor beleza perceptível. De fato, a beleza está tão longe de pertencer à ideia de costume, que, na realidade, o que nos afeta dessa maneira é extremamente raro e incomum. O belo atinge-nos tanto por sua novidade quanto a deformidade mesma. É dessa maneira naquelas espécies de animais com as quais nós estamos familiarizados; e se algum de uma nova espécie fosse representado, nós de maneira nenhuma esperaríamos até o que o costume tivesse atribuído uma ideia de proporção, antes que nós decidíssemos relativo a sua beleza ou feiura (ugliness): o que revela que a ideia geral de beleza não pode ser mais devedora da proporção costumeira que da natural. A deformidade surge a partir da falta (want) das proporções comuns; mas o resultado necessário da sua existência em qualquer objeto não é a beleza. Se nós supusermos a proporção em coisas naturais ser relativa ao costume e uso, a natureza do uso e costume revelará que a beleza, a qual é uma qualidade positiva e poderosa, não pode resultar a partir dela. Nós somos tão maravilhosamente formados que, enquanto nós somos criaturas veementemente desejosas de novidade, nós estamos igualmente apegadas ao hábito e costume. Mas é a natureza de coisas que nos sustentam por costume, afetar-nos [180]muito pouco enquanto nós estamos na posse delas, mas fortemente quando elas estão ausentes. Eu lembro de ter frequentado um certo lugar, a cada dia, por um longo período de tempo completo; e eu posso dizer verdadeiramente que, muito longe de encontrar prazer nele, eu fui afetado com o um tipo de cansaço (weariness) e desgosto; eu chegava, eu saía, eu retornava, sem prazer; todavia, se por qualquer causa eu passasse do tempo usual de ir para lá, eu ficava notavelmente inquieto, e não me acalmava até que eu tivesse entrado em minha antiga trilha. Aqueles que usam rapé (snuff), tomam-no sem estarem sensíveis de que eles o tomam, e o senso agudo de cheiro está amortecido (deadened), assim quanto a sentir com dificuldade qualquer coisa a partir de um estímulo tão agudo; contudo, prive-se o tomador de rapé (snuff-taker) de sua caixa, e ele é o mortal mais inquieto do mundo. De fato, até onde nós estamos acostumados e habituados de sermos causas de prazer meramente como tais, que o efeito do uso constante é tornar todas as coisas de qualquer tipo inteiramente inafetáveis. Pois, como o uso por fim remove o efeito doloroso de muitas coisas, ele reduz o efeito prazeroso em outras da mesma maneira, e traz ambos a um tipo de mediocridade e indiferença. Muito justamente o uso é chamado de uma segunda natureza; e o nosso estado natural e comum é um de indiferença absoluta, igualmente preparado para dor ou prazer. Mas, quando nós somos jogados fora desse estado, ou privados de qualquer coisa necessária para nos manter nele; quando essa mudança não acontece por prazer a partir de alguma causa mecânica, nós sempre ficamos machucados. É assim com a segunda natureza, o costume, em todas as coisas que se relacionam a isso. Dessa maneira, a falta das proporções usuais em homens e outros animais é certa de desgostar, embora a presença delas não seja de maneira alguma causa de prazer real. É verdadeiro que as proporções estabeleceram as causas de beleza no corpo humano, são frequentemente encontradas em corpos belos, porque elas são geralmente encontradas em [181]todo a humanidade; mas se também pode ser revelado que elas são encontradas sem a beleza, e que a beleza frequentemente existe sem elas, e que esta beleza, onde ela existe, sempre pode ser atribuída a outras causas menos equívocas, isso naturalmente nos levará a concluir que proporção e beleza não ideias da mesma natureza. O verdadeiro oposto à beleza não é a desproporção ou deformidade, mas feiura (ugliness); e visto que ela procede a partir de causas opostas àquelas da beleza positiva, nós não podemos considerá-la até que nós cheguemos ao trato daquela. Entre beleza e feiura há um tipo de mediocridade, no qual as proporções atribuídas são mais comumente encontradas; mas isso não tem efeito sobre as paixões.


Seção VI Adequação (Fitness), não a causa da Beleza


É dito que a ideia de utilidade, ou de uma parte ser bem adaptada para corresponder ao seu fim, é a causa da beleza, ou, de fato, a beleza mesma. Se não fosse por essa opinião, teria sido impossível para a doutrina da proporção ter mantido o seu fundamento por muito tempo; o mundo logo ficaria cansado de ouvir sobre medidas que não se relacionam com nada, quer de um princípio natural, que de uma adequação para corresponder a algum fim; a ideia que a humanidade mais comumente concebe de proporção é a adequação (suitableness) dos meios para certos fins, e, onde isso não é uma questão, muito raramente se preocupam sobre o efeito das diferentes medidas de coisas. Portanto, foi necessário para essa teoria insistir em que não apenas os objetos artificiais, mas o naturais tomam a sua beleza a partir da adequação (fitness) das partes aos seus vários propósitos. Mas na estruturação dessa teoria, eu estou apreensivo [182]de que a experiência não foi suficientemente consultada. Pois, sobre o esse princípio, o focinho em forma de cunha (wedge-like snout) de um suíno, com a sua dura cartilagem no fim, o pequenos olhos afundados, e a inteira configuração da cabeça, tão bem adaptados para suas tarefas de escavação e enraizamento, seria extremamente belo. O grande saco pendendo do bico de uma pelicano, uma coisa tão altamente útil para esse animal, da mesma maneira, seria bela aos nossos olhos. O ouriço (hedge-hog), tão bem seguro contra todos os assaltos através do seu esconderijo espinhoso, e o porco-espinho (porcupine) com suas penas projéteis (missile quills), então seriam considerado como criaturas de não pequena elegância. Há poucos animais cujas partes são melhor concebidas do que aquelas de um macaco; ele tem as mãos de um homem, junto com os membros flexíveis de uma besta; ele é admiravelmente calculado para correr, saltar, agarrar e escalar; e contudo, há poucos animais que parecem ter menos beleza aos olhos de toda a humanidade. Eu preciso dizer pouco sobre o tronco (trunk) do elefante, de utilidade vária, e que está tão longe de contribui para a beleza dele. Quão bem adequado (fitted) é o lobo para corrida e salto! Quão admiravelmente está o leão armado para a batalha! Mas, por esses motivos, alguém chamará o elefante, o lobo e o animal de animais belos? Eu acredito que ninguém considerará a forma da perna de um homem tão bem adaptada para corrida quanto aquelas de um cavalo, um cão, um veado (deer) e várias outras criaturas; pelo menos, elas não têm essa aparência; contudo, eu acredito, uma perna humana bem formada (well-fashioned) será admitida exceder todas essas em beleza. Se a adequação (fitness) das partes foi o que constitui a amabilidade (loveliness) da forma delas, o emprego efetivo delas indubitavelmente muito a aumentaria; mas isso, embora algumas vezes seja assim em consequência de outro princípio, está longe de sempre ser o caso. Um pássaro ao vento não é tão belo como quando ele está [183]empoleirado; ou melhor, há várias aves domésticas que raramente são vistas voar, e que não são menos belas nessa consideração; contudo, os pássaros são tão extremamente diferentes em sua forma, dos tipos bestial e humano, que você não pode, sobre o princípio da adequação (fitness), admiti-los nada agradáveis, mas em consideração das suas partes serem projetadas para propósitos bastante outros. Nunca em minha vida eu tive a chance de ver um pavão (peacock) voar; e contudo antes, por muito tempo antes, eu considerei qualquer aptidão em sua forma para vida aérea, eu ficava impressionado com a extrema beleza que se origina naquele pássaro acima de muitos dos melhores pássaros voadores no mundo; embora, por qualquer coisa que eu visse, o modo de vida dele era muito semelhante àquele do suíno, o qual se alimentava no pátio da fazendo junto com ele. O mesmo pode ser dito galos, galinhas e semelhantes; eles são do tipo voador na figura; em sua maneira de se moverem, não muito diferentes dos homens e das bestas. Para abandonar esses exemplos estrangeiros; se a beleza em nossa espécie estivesse adicionada ao uso, os homens seriam muito mais amáveis (lovely) que as mulheres; e força e agilidade seriam consideradas com as únicas belezas. Mas chamar a força pelo nome de beleza, ter apenas uma denominação para as qualidade de uma Vênus e um Hércules, tão totalmente diferentes em quase todos os aspectos, certamente seria uma estranha confusão de ideias, ou abuso de palavras. Eu imagino que a causa dessa confusão proceda a partir de nós frequentemente estamos percebendo as partes dos corpos humanos e de outros animais serem, ao mesmo tempo, belas e muito bem adaptadas para os seus propósitos; e nós somos bem enganados por um sofisma, o qual nos faz tomar por uma causa aquilo que é apenas um concomitante: esse é o sofisma da mosca (fly); que imagina ter levantado uma grande poeira, porque ela estava sobre a carruagem que realmente a levantou. O estômago, os pulmões, o fígado, assim como [184]as outras partes, estão incomparavelmente bem adaptadas para os seus propósitos; contudo, elas estão muito longe de terem qualquer beleza. Novamente, muitas coisas são muito belas, nas quais é impossível discernir qualquer ideia de uso. E eu apelo aos primeiros e mais naturais sentimentos da humanidade, se ao contemplar um olho belo, ou uma boca bem formada, ou uma perna bem torneada (well-turned), quaisquer ideias deles serem bem adequados (well fitted) para ver, comer ou correr alguma vez se apresentam. Qual é a ideia de uso que as flores excitam, a parte mais bela do mundo vegetal? É verdadeiro que o Criador infinitamente sábio e bom, a partir da sua generosidade, frequentemente juntou a beleza àquelas coisas que ele tornou úteis para nós; mas isso não prova que uma ideia de uso e uma de beleza sejam a mesma coisa, ou que elas sejam, de qualquer maneira, dependentes uma da outra.


Seção VII O Efeitos Reais da Adequação


Quando eu exclui proporção e adequação de qualquer parte na beleza, de maneira nenhuma eu pretendi dizer que elas não são de nenhuma valor, ou que elas deveriam ser desconsideradas em obras de arte. As obras de arte são a esfera apropriada do poder delas; e aqui é que elas têm o seu efeito completo. Sempre que a sabedoria do nosso Criador intencionou que nós deveríamos ser afetados por qualquer coisa, ele não confiou a execução do seu desígnio à operação precária e lânguida da nossa razão; mas ele dotou-o de poderes e propriedades que evitam o entendimento, e mesmo a vontade; os quais, apoderando-se dos sentidos e da imaginação, cativam a alma antes que o entendimento esteja pronto [185]quer para se juntar a eles, quer para se opor a eles. É através de uma longa dedução, e muito estudo, que nós descobrimos a sabedoria adorável de Deus em suas obras: quando nós a descobrimos, o efeito é muito diferente, não apenas na maneira de a adquirir, mas em sua própria natureza, a partir da qual nos impressiona sem qualquer preparação do sublime ou do belo. Quão diferente é a satisfação de um anatomista, quem descobre o uso dos músculos e da pele, a invenção (contrivance) excelente de um para os vários movimentos do corpo e a textura maravilhosa da outra, de uma vez uma cobertura geral, e de uma vez uma entrada (outlet) geral assim como saída (inlet); quão diferente é isso da satisfação que possui um homem ordinário diante da visão de uma pele delicada, lisa, e de todas as outras partes da beleza, as quais não requerem nenhuma investigação para serem percebidas! No caso anterior, embora nós olhemos para o Criador (Maker) com admiração e elogio, o objeto que os causa pode ser odioso e desagradável; o posterior muito frequentemente assim nos toca através do seu poder sobre a imaginação, que nós examinamos bem pouco dentro do artificio da sua invenção; e nós temos necessidade de um esforço forte da nossa razão para desemaranhar nossas mentes dos encantos (allurements) do objeto, para uma consideração daquela sabedoria que inventou uma máquina tão poderosa. O efeito da proporção e adequação, pelo menos até onde elas procedem a partir de uma mera consideração da obra mesma, produz aprovação, a aquiescência do entendimento, mas não amor, nem qualquer paixão dessa espécie. Quando nós examinamos a estrutura de um relógio (watch), quando se chega a conhecer minuciosamente o uso de cada parte dele, satisfeitos como nós estamos com a adequação do todo, nós estamos bastante longe de perceber qualquer coisa como a beleza na obra do relógio (watch-work) mesma; mas examinemos o caso, [186]o labor de algum curioso artista em gravura (engraving), com pouca ou nenhuma ideia de uso, nós deveremos ter uma ideia muito mais viva de beleza do que nós alguma vez poderíamos ter tido a partir do relógio em si mesmo, embora a obra-prima de Graham. Como eu disse, na beleza, o efeito é anterior a qualquer conhecimento do uso; mas para julgar sobre a proporção nós temos de conhecer o fim para o qual qualquer obra foi projetada. A proporção varia de acordo com o fim. Dessa forma, há uma proporção de uma torre, outra de uma casa; uma proporção de uma galeria, outra de um salão, outra de uma câmara. Para julgar sobre as proporções dessas, você deve primeiro estar familiarizado com os propósitos para os quais elas foram projetadas. Bom senso e experiência agindo juntos, descobrir o que é adequado (fit) de ser feito em cada obra de arte. Nós somos criaturas racionais e, em todas as nossas obras, nós devemos considerar o seu fim e propósito; a gratificação de qualquer paixão, por mais inocente que seja, deveria ser apenas de consideração secundária. Aí está posicionado o poder real da adequação e proporção; elas operam sobre o entendimento considerando-se, o qual aprova a obra e aquiesce com ela. As paixões e a imaginação, quem principalmente as anima, têm muito pouco a fazer. Quando uma sala aparece em sua nudez originária, paredes descobertas e um teto liso; que a proporção dela seja sempre tão excelente, ela agrada muito pouco; no máximo uma aprovação fria é que nós alcançamos; uma sala muito pior proporcionada com moldagens (mouldings) elegante e belas guinaldas (festoons), vidros e outro equipamento (furniture) meramente ornamental, farão a imaginar revoltar-se contra a razão; agradará muito mais do que a proporção nua da primeira sala, a qual o entendimento tanto aprovou, como admiravelmente adequada para os seus propósitos. O que eu disse aqui e antes relativo à proporção, de maneira nenhuma, é para persuadir as pessoas a absurdamente negligenciarem a ideia de uso nas obras de arte. É apenas para mostrar que essas coisas excelentes, a beleza e a proporção, não são as mesmas; nem que qualquer uma delas deveria ser desconsiderada.


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ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 178-187. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/178/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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