domingo, 1 de outubro de 2023

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte I - Seções I-III

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


Introdução


Parte I


[101]Seção I Novidade


A primeira e mais simples emoção que nós descobrimos na mente humana é a curiosidade. Por curiosidade eu quero dizer seja o que for que nós desejamos, ou seja o que for que no que nós temos prazer, novidade. Nós vemos as crianças perpetuamente correndo de um lugar para outro, para caçar alguma coisa nova; elas agarram com grande ânsia, e com muito pouca escolha, seja o que for que surge diante delas; a atenção delas é atraída tudo, porque tudo tem, naquele estágio da vida, o encanto da novidade para o recomendar. Mas, como aquelas que nos atraem meramente pela sua novidade não podem nos segurar por qualquer extensão de tempo, a curiosidade é a mais superficial de todas as afeições; ela muda o seu objeto perpetuamente; ela tem um apetite que é muito agudo, mas muito facilmente satisfeito; e tem uma aparência de vertigem (giddiness), inquietação (restlessness) e ansiedade. A curiosidade, a partir de sua natureza, é um princípio muito ativo; ela rapidamente recapitula a maior parte dos seus objetos, e logo exaure a variedade com a qual é comumente encontrada na natureza; as mesmas coisas fazem retornos frequentes, e elas retornam com cada vez menos de qualquer [102]efeito agradável. Em resumo, as ocorrências da vida, pelo momento que nós chegamos a conhecê-las um pouco, seriam incapazes de afetar a mente com quaisquer outras sensações do que aquelas de aversão (loathing) e fadiga (weariness), se muitas coisas não fossem adaptadas para afetarem a mente através de outros poderes além da novidade nelas, e de outras paixões além da curiosidades nelas mesmas. Esses poderes e paixões deverão ser considerados em seu lugar. Mas, sejam quais forem esses poderes, ou em consequência de seja qual for o princípio que eles afetam a mente, é absolutamente necessário que eles não devam ser exercidos sobre aquelas coisas que um uso vulgar e diário trouxe a uma obsoleta familiaridade inafetável. Algum grau de novidade tem de ser um dos materiais em cada instrumento que funciona sobre a mente; e a curiosidade mistura-se mais ou menos com todas as nossas outras paixões.


Seção II Dor e Prazer


Portanto, parece necessário, para movermos as paixões das pessoas avançadas em idade em qualquer grau considerável, que os objetos projetados para esse propósito, além de serem novos em alguma medida, deveriam ser capazes de excitar dor ou prazer a partir de outras causas. Dor e prazer são ideias simples, incapazes de definição. As pessoas não estão sujeitas a estarem equivocadas em seus sentimentos, mas, frequentemente, elas estão muito equivocadas nos nomes que elas dão a eles, e nos seus raciocínios sobre eles. Muitas são da opinião de que as dores surgem necessariamente a partir da remoção de algum prazer; visto que elas consideram que o prazer o faz a partir da cessação ou diminuição de alguma dor. Por minha parte, eu estou [103]bastante inclinado a imaginar que a dor e o prazer, em uma maneira mais simples e natural de afetação, são cada um de natureza positiva e, de maneira nenhuma, dependentes um do outro para a sua existência. A mente humana frequentemente, e eu acredito pela maior parte, não está nem um estado de dor nem de prazer; o qual eu chamo de estado de indiferença. Quando eu sou transportado desse estado para dentro de um estado efetivo de prazer, não parece necessário que eu deveria passar pelo meio de qualquer tipo de dor. Se em um tal estado de indiferença, ou conforto (ease), ou tranquilidade, ou chame isso do que você desejar, você devesse ser subitamente entretido por um concerto de música; ou suponha algum objeto de uma forma fina, e cores brilhantes e vívidas, ser apresentado diante de você; ou imagine que o seu olfato (smell) seja gratificado com a fragrância de uma rosa; ou se, sem nenhuma sede anterior, você devesse beber algum tipo agradável de vinho; em todos esses sentidos variados, de audição (hearing), olfato (smelling) e paladar (tasting), você indubitavelmente encontra um prazer; todavia, se eu investigasse o estado da sua mente anterior a essas gratificações, você dificilmente me dirá que eles encontraram você em algum tipo de dor; ou, tendo satisfeito esses vários sentidos com seus vários prazeres, você dirá que alguma dor seguiu-se, embora o prazer seja absolutamente passado? Por outro lado, suponha um homem no mesmo estado de indiferença para receber um golpe violento, ou beber alguma poção amarga, ou ter seus ouvido machucados com algum som desagradável (harsh) e dissonante (granting); aqui não há remoção de prazer; e todavia, aqui é sentido, em cada sentido que é afetado, uma dor muito distinguível. Talvez possa ser dito que nesses casos a dor teve sua origem a partir da remoção do prazer do qual antes o homem [104]desfrutava, embora esse prazer fosse de uma grau tão baixo quanto a ser percebido apenas pela sua remoção. Mas isso me parece uma sutileza que não é descobrível na natureza. Pois se, anterior a dor, eu não sinto nenhum prazer atual, eu não tenho nenhuma razão para julgar que qualquer coisa semelhante existe; uma vez que o prazer é apenas prazer conforme ele seja sentido. O mesmo pode ser dito dor, e com igual razão. Eu nunca posso me persuadir de que prazer e dor sejam meras relações, as quais apenas podem existir enquanto elas estejam contrastadas; mas eu considero que eu posso discernir claramente que há dores e prazeres positivos, os quais absolutamente não dependem uns dos outros. Nada é mais certo para meus próprios sentimentos do que isso. Não há nada que eu possa distinguir em minha mente com mais clareza do que os três estados, de indiferença, de prazer e de dor. Cada um desses eu posso perceber sem qualquer tipo de ideia de sua relação com qualquer outra coisa. Caius é afligido com uma crise (fit) de cólica; esse homem está atualmente com dor; estique Caius sobre o cavalete, ele sentirá uma dor muito maior: mas essa dor do cavalete surge a partir da remoção de algum prazer? Ou é a crise de cólica um prazer ou uma dor apenas porque nós somos satisfeitos com a considerar?


Seção III A Diferença entre a Remoção da Dor e o Prazer Positivo


Nós devemos levar essa proposição ainda um passo adiante. Nós devemos nos aventurar a propor que dor e prazer não apenas não são necessariamente dependentes, para as suas existências, de sua diminuição ou remoção mútuas, mas que, na realidade, a diminuição ou cessação de prazer não [105]opera como dor positiva; e que a remoção ou diminuição de dor, em seu efeito, tem pouca semelhança com prazer positivo.1 A primeira dessas proposições, eu acredito, será muito mais prontamente admitida do que a segunda; pois é muito evidente que o prazer, quando ele seguiu seu curso natural (run its career) assenta-se muito próximo de onde ele nos encontrou. O prazer de todo tipo rapidamente satisfaz; e, quando ele está acabado, nós recaímos na indiferença, ou antes, nós caímos em uma tranquilidade suave que é tingida com a cor agradável da sensação anterior. Eu reconheço que não é à primeira vista tão aparente que a remoção de uma grande dor não se assemelhe a prazer positivo: mas recordemos de qual estado nós encontramos nossas mentes em consequência de escaparmos de algum perigo iminente, ou de sermos liberados da severidade de alguma dor cruel. Em semelhantes ocasiões, nós encontramos, se eu não estou muito equivocado, o temperamento de nossas mentes em um teor muito distante daquele que acompanha o prazer positivo; nós encontramo-las em um estado de muita sobriedade, impressionadas com uma sensação de admiração (awe), em um tipo de tranquillidade sombreada com horror. A forma do semblante e do gesto do corpo para esse estado de mente é tão correspondente a esse estado de mente, que qualquer pessoa, um estranho à causa da aparência, antes nos consideraria sob alguma consternação do que no gozo de qualquer coisa como prazer positivo.


Ὡς δ' ὅταν ἄνδρ' ἄτη πυκινὴ λἁβῃ, ὅστ' ἐνὶ πἁτρῃ,

Φὢτα κατακτεἱνας, ἄλλων ἐξἱκετο δἢμον,

Ἁνδρὀς ἐς ἀφνειοὒ, θἁμβος δ' ἔχἑι εἰσορὀωντας.

Iliad, Ω. 480.


[106]“Como quando um miserável, quem, consciente do seu crime,

Perseguido por assassinato desde o seu clima nativo,

Apenas alcança alguma fronteira, sem fôlego, pálido, espantado;

Tudo olha, tudo pondera!”2


A aparência marcante de quem Homero supõe ter há pouco escapado de um perigo iminente, o tipo de paixão mista de terror e surpresa, com a qual ele afeta os espectadores, pinta muito fortemente a forma na qual nós nos encontramos afetados em consequência de qualquer forma semelhante. Pois, quando nós sofremos de alguma emoção violenta, a mente naturalmente continua em alguma coisa como a mesma condição, após a causa que inicialmente a produziu ter cessado de operar. A agitação do mar permanece após a tempestade; e quando esse resto de horror diminuiu inteiramente, toda paixão que o acidente gerou diminui junto com ele; e a mente retorna ao seu usual estado de indiferença. Para resumir, eu imagino que o prazer (eu quero dizer, qualquer coisa ou na sensação interna ou na aparência externa, como o prazer a partir de uma causa positiva) nunca tem a sua origem a partir da remoção da dor ou do perigo.


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ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 101-106. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/101/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [105]O sr. Locke [Essay on Human Understanding, I. ii. c. 20, sect. 16,] considera que a remoção ou diminuição de uma dor é considerada e operada como um prazer, e a perda ou diminuição de prazer, como uma dor. Essa é opinião que nós consideramos aqui.

2 Nota do tradutor: a presente tradução foi realizada a partir da tradução em inglês, a qual ela substitui e não a partir do original grego imediatamente anterior. Texto traduzido:

As when a wretch, who, conscious of his crime.

Pursued for murder from his native clime,

Just gains some frontier, breathless, pale, amazed;

All gaze, all wonder!”

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