Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo
Por Edmund Burke
Parte I
[106]Seção IV Do Deleite e Prazer, como Opostos um ao Outro
Mas, portanto, nós deveremos dizer que a remoção da dor, ou a sua diminuição, é sempre simplesmente dolorosa? Ou afirmar que a cessação ou diminuição do prazer é sempre acompanhada em si mesma por um prazer? De maneira alguma. O que eu proponho não é mais do que isto; primeiro, que há prazeres e dores de uma natureza positiva e [107]independente; e, segundo, que o sentimento que resulta a partir da cessação ou diminuição da dor não comporta uma semelhança suficiente com o prazer positivo, para o ter considerado como da mesma natureza, ou para o autorizar a ser conhecido pelo mesmo nome; e terceiro, que, em consequência do mesmo princípio, a remoção ou qualificação do prazer não tem semelhança com dor positiva. É certo que o primeiro sentimento (a remoção ou moderação da dor) tem alguma coisa nele muito longe de angustiante ou desagradável em sua natureza. Esse sentimento, em muitos casos tão agradável, mas no todo tão diferente do prazer positivo, não tem nome pelo qual eu o conheça; mas isso não o impede de ser um muito real e muito diferente de todos os outros. É muito certo que cada espécie de satisfação ou prazer, por mais diferente que seja em sua forma de afetação, é de uma natureza positiva na mente daquele que a sente. A afetação é indubitavelmente positiva; mas a causa pode ser, como neste caso certamente é, um tipo de privação. E é muito razoável que nós deveríamos distinguir por algum termo duas coisas tão distintas em natureza, como um prazer que é simplesmente tal e sem nenhuma relação, daquele prazer que não pode existir sem uma relação, e essa, também, uma relação com a dor. Muito extraordinário seria se essas afetações, tão distinguíveis em suas causas, tão diferentes em seus efeitos, deveriam ser confundidas uma com a outra, porque o uso vulgar classificou-as sob o mesmo título geral. Sempre que eu tenho ocasião de falar dessa espécie de prazer relativo, eu chamo-o de deleite (delight); e eu deverei tomar o melhor cuidado que eu posso para não usar essa palavra em nenhum outro sentido. Eu estou satisfeito de que a palavra não seja comumente usada em sua significação apropriada; mais eu considerei melhor aceitar uma palavra já [108]conhecida, e limitar a sua significação, do que introduzir uma nova, a qual, talvez, não se incorporaria tão bem na linguagem. Eu nunca deveria ter presumido a menor alteração em nossas palavras, se a natureza da linguagem, estruturada para os propósitos dos negócios práticos em vez daquelas da filosofia, e a natureza do meu assunto, que me leva para fora do caminho comum do discurso, de uma maneira não necessitasse que eu fizesse isso. Eu deverei fazer uso dessa liberdade com todo cuidado possível. Como eu faço uso da palavra deleite para expressar a sensação que acompanha a remoção da dor ou do prazer, assim, quando eu falar de prazer positivo, eu deverei, pela maior parte, chamá-lo simplesmente de prazer.
Seção V Alegria e Pesar
Deve ser observado que a cessação do prazer afeta a mente de três maneiras. Se ele simplesmente cessa após ter continuado por um tempo apropriado, o efeito é a indiferença; ele é abruptamente interrompido, aí se segue uma sensação inquieta chamada de desapontamento; se o objeto for tão totalmente perdido de modo que não haja nenhuma chance de desfrutar dele novamente, uma paixão surge na mente que é chamada de pesar. Agora, não há nenhum desses, nem mesmo o pesar, que seja o mais violento, que eu considere que tenha alguma semelhança com dor positiva. A pessoa que sente pesar sente a sua paixão crescer sobre ela; ele satisfaz-se nela, ele ama-a; mas isso nunca acontece no caso de dor atual, a qual nenhum homem nunca voluntariamente suporta por nenhum tempo considerável. Que o pesar deveria ser voluntariamente suportado, embora longe de uma sensação simplesmente agradável, não é tão difícil de ser [109]entendido. É a natureza do pesar manter o seu objeto perpetuamente em seu olho, para o apresentar em suas visões mais prazerosas, para repetir todas as circunstâncias que a acompanham, mesmo à minúcia última; para retornar a cada desfrute particular, para se demorar em cada um, e para descobrir mil novas perfeições em todos, que não foram suficientemente entendidas antes; no pesar, o prazer ainda é predominante; e a aflição que nós sofremos não tem semelhança com a dor absoluta, a qual é sempre odiosa, e da qual nós nos esforçamos para nos livrarmos tão logo possível. A Odisseia de Homero, a qual abunda com tantas imagens naturais e comoventes, não tem nenhuma mais impactante do que aquelas que Menelau levanta do destino calamitoso dos seus amigos e de sua própria forma de o sentir. De fato, ele reconhece que frequentemente concede a si mesmo algum intervalo para tais reflexões de melancolia; mais ele também observa que, melancólicas como elas são, elas dão-lhe prazer.
Ἁλλ’ ἔμπης πάντας μἐv ὀδυρόμενος καὶ ἀχεὐων,
Πολλάκις ἐv μεγάροισι καθήμενος ἡμετέροισιν,
Ἁλλοτε μέν τε γόῳ φρένα τέρπομαι, ἄλλοτε δ' αὐτε
Παύομαι; αἰψηρὀς δἐ κόρος κρυεροἲο γόοιο.
Hom. Od. Δ. 100.
“Ainda em intervalos breves de aflição agradável,
Respeitoso das obrigações amigáveis eu reconheço,
Eu, para o glorioso morto, eternamente querido,
Satisfaço-me no tributo de uma lágrima grata.”1
Por outro lado, quando nós recuperamos nossa saúde, quando nós escapamos de um perigo iminente, é por alegria que nós somos afetados? A sensação nessas ocasiões está muito longe daquela satisfação suave e voluptuosa que o prospecto seguro do prazer concede. O deleite que dá origem às modificações da dor confessa o estoque a partir do qual ele surgiu, em sua natureza sólida, forte e severa.
[110]Seção VI Das Paixões que pertencem à Autopreservação
A maioria das ideias que são capazes de causar uma impressão poderosa na mente, quer simplesmente de dor quer de prazer, ou das modificações desses, podem ser reduzidas muito aproximadamente a estas duas categorias, autopreservação e sociedade; para os fins de uma ou de outra das quais todas as nossas paixões são calculadas para responder. As paixões que dizem respeito à autopreservação visam principalmente à dor ou ao prazer. As ideia de dor, doença e morte enchem a mente com emoções fortes de horror; mas vida e saúde, embora elas coloquem-nos em uma capacidade de sermos afetados com prazer, não produzir semelhante impressão pelo simples gozo. Portanto, as paixões que são propícias à preservação do indivíduo revelam-se principalmente na dor e no perigo, e elas são as mais poderosas de todas as paixões.
Seção VII Do Sublime
O que quer que, de qualquer maneira, seja adequado para excitar as ideias de dor e perigo, quer dizer, o que quer que, de qualquer maneira, seja terrível, ou seja familiar com objetos terríveis, ou opere de uma maneira similar ao terror, é uma fonte do sublime; quer dizer, é produtor da emoção mais forte que a mente é capaz de sentir. Eu digo a emoção mais forte porque eu estou convencido de que as ideias de dor são muito mais poderosas do que aquelas que entram na parte do prazer. Sem nenhuma dúvida, os tormentos que nós podemos ser feitos [111]sofrer são muito maiores sobre o corpo e a mente do que quaisquer prazeres que o mais voluptuoso instruído poderia sugerir, ou do que a mais vívida imaginação, e o mais corpo mais correto e mais primorosamente sensível, poderiam desfrutar. Ou melhor, eu estou em grande dúvida de se qualquer homem poderia ser descoberto que ganharia uma vida da mais perfeita satisfação ao preço de a terminar nos tormentos, justiça que foi infligida em umas poucas horas sobre o falecido regicida na França. Mas, como a dor é mais forte em sua operação do que o prazer, assim a morte, no geral, é uma ideia muito mais comovente do que a dor; porque há muito poucas dores, por mais que exóticas, que não são preferidas à morte: ou melhor, o que geralmente torna a dor mesma, se eu posso falar assim, mais dolorosa, é que ela é considerada como um emissário desse rei dos terrores. Quando o perigo ou a dor pressiona muito próximo, eles são incapazes de conceder qualquer deleite, e são simplesmente terríveis; mas, a certas distâncias, e com certas modificações, eles podem ser, e eles são, agradáveis, como nós experienciamos a cada dia. A causa disso eu devo investigar futuramente.
Seção VIII Das Paixões que pertencem à Sociedade
A outra categoria sob a qual eu classifico nossas paixões é aquela da sociedade, a qual pode ser dividida em dois tipos. 1. A sociedade dos sexos, a qual responde ao propósito da propagação; e, em seguida, aquela mais geral sociedade, a qual nós temos com homens e com outros animais, e que se pode dizer, de alguma maneira, que nós temos até com o número inanimado. As paixões [112]pertencentes à preservação do indivíduo visam inteiramente à dor e ao prazer: aquelas que pertencem à geração têm sua origem nas gratificações e prazeres; o prazer mais diretamente pertencente a esse propósito é de um caráter vívido, arrebatador e violento, e, confessadamente, o prazer mais elevado do sentido; todavia, a ausência de um crivo de gozo tão grande equivale a uma inquietação; e, exceto em momentos particulares, eu não penso absolutamente que isso afete. Quando os homens descrevem de que maneira eles são afetados pela dor e pelo perigo, eles não se demoram no prazer da saúde e no conforto da segurança, e então lamentam a perda dessas satisfações: o todo se revela nas dores e horrores atuais que eles suportam. Mas se você ouve as reclamações de um amante abandonado, você observa que ele insiste largamente nos prazeres que ele desfruta, ou tem esperança de desfrutar; é a perda que sempre é predominante na mente dele. Os efeitos violentos produzidos pelo amor, os quais, algumas vezes, até têm sido trabalhados à loucura, não são objeções à regra que nós buscamos estabelecer. Quando os homens toleraram suas imaginações serem longamente afetadas por alguma ideia, ela tão imediatamente os monopoliza quanto a bloquear gradualmente quase qualquer outra, e demolir qualquer partição da mente que a confinaria. Qualquer ideia é suficiente para o propósito, como é evidente a partir da variedade infinita de causas que dá origem à loucura; mas isso no máximo prova que a paixão do amor é capaz de produzir efeitos muitos extraordinários, não que suas emoções extraordinárias tenham qualquer conexão com dor positiva.
ORIGINAL:
BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 106-112. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/106/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 Nota do tradutor: a presente tradução foi realizada a partir da tradução em inglês, a qual ela substitui e não a partir do original grego imediatamente anterior. Texto traduzido:
"Still in short intervals of pleasing woe,
Regardful of the friendly dues I owe,
I to the glorious dead, forever dear,
Indulge the tribute of a grateful tear."
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