Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo
Por Edmund Burke
Parte I
[113]Seção IX A Causa Final da Diferença entre as Paixões pertencentes à Autopreservação, e Àquelas que dizem respeito à Sociedade dos Sexos.
A causa final da diferença no caráter entre as paixões com respeito à autopreservação e aquelas que são dirigidas à multiplicação da espécie ilustrará as observações acima expostas ainda mais; e, eu imagino, é digna de observação até em consequência de sua própria consideração. Visto que o desempenho dos nossos deveres de qualquer tipo depende da vida e desempenhá-los com vigor e eficácia depende da saúde, nós somos muito fortemente afetados por seja o que for que ameace a destruição de qualquer uma delas; mas visto que nós não fomos feitos para aquiescer com vida e saúde, o simples gozo delas não é acompanhado com nenhum prazer real, com o receio de que, satisfeitos com isso, nós devêssemos desistir de nós mesmos por indolência e inação. Por outro lado, a geração da humanidade é um grande propósito, e é necessário que os homens deveriam ficar animados por algum grande incentivo para a perseguir. Portanto, ela é acompanhada com um prazer muito elevado; mas, visto que de maneira nenhuma ela é projetada para ser a nossa ocupação constante, não é adequado que a ausência desse prazer deveria ser acompanhada por qualquer dor considerável. Nesse ponto, a diferença entre homens e brutos parece ser notável. Os homens, em todos os momentos, estão bastante igualmente dispostos aos prazeres do amor, porque eles devem ser guiados pela razão na ocasião e maneira de os satisfazer. Houvesse alguma grande dor surgido a partir da carência dessa satisfação, a razão, eu temo, encontraria grandes dificuldades no desempenho do seu dever. Mas [114]os brutos que obedecem às leis, na execução das quais a sua própria razão têm apenas pequena participação, têm as suas temporadas determinadas; em tais ocasiões não é improvável que a carência seja muito problemática, porque então o fim tem de ser satisfeito, ou ser perdida por muito, talvez para sempre; visto que a inclinação returna apenas com a sua temporada.
Seção X Da Beleza
A paixão que pertence à geração, meramente como tal, é a concupiscência (lust) apenas. Isso é evidente em brutos, cujas paixões são mais não misturadas, e que perseguem seus propósitos mais diretamente do que nós. A única distinção que eles observam com respeito aos seus parceiros é aquela do sexo. É verdadeiro que eles se fixam severamente em suas próprias espécies em preferência a todas as outras. Mas essa preferência, eu imagino, não surge a partir de qualquer senso de beleza que eles encontram em suas espécies, como o sr. Addison supõe, mas a partir de uma lei de algum outro tipo, à qual eles estão sujeitos; e isso nós podemos justamente concluir, a partir de sua aparente carência de escolha entre aqueles objetos aos quais as barreiras de sua espécie confinou-os. Mas o homem, quem é uma criatura adaptada para uma variedade e complexidade maiores de relação, conecta-se com a paixão geral da ideia de algumas qualidades sociais, as quais dirigem e aumentam o apetite que ele tem em comum com todos os outros animais; e visto que ele não é projetado para viver como eles no geral, é adequado que ele deveria ter alguma coisa para criar uma preferência, e fixar sua escolha; e, no geral, isso deveria ser alguma qualidade sensível; visto que nenhuma outra pode produzir o seu efeito tão rapida, tão poderosa [115]ou tão certamente. Portanto, o objeto dessa paixão mista, a qual nós chamamos de amor, é a beleza do sexo. Os homens são levados ao sexo em geral, visto que é o sexo, e pela lei comum da natureza; mas eles são vinculados a particulares pela beleza pessoal. Eu chamo a beleza de uma qualidade social; pois onde mulheres e homens, e não apenas eles, mas quando outros animais concedem-nos um senso de alegria e prazer em os contemplar (e há muitos que o fazem), eles inspiram-nos com sentimentos de ternura e afeição em relação às suas pessoas; nós gostamos de os ter perto de nós, e nós entramos voluntariamente em um tipo de relação com eles, a menos que nós tenhamos razões fortes para o contrário. Mas para qual fim, em muitos casos, isso foi projetado, eu sou incapaz de descobrir; pois eu não vejo razão maior para uma conexão entre o homem e os vários animais que estão adornados de uma maneira tão atraente, do que entre ele e alguns outros que inteiramente desejam essa atração, ou possuem-na em um grau muito mais fraco. Mas é provável que a Providência nem mesmo faça essa distinção, mas com um visão em algum grande fim; embora nós não possamos perceber distintamente qual é, viso que a sua sabedoria não é a nossa sabedoria, nem os nossos caminhos, os seus caminhos.
Seção XI Sociedade e Solidão
O segundo ramo das paixões sociais é aquele que administra para a sociedade no geral. Eu observo com respeito a isso que a sociedade, meramente como sociedade, sem nenhum aumento particular, não nos concede nenhum prazer positivo no gozo; mas a solidão inteira e absoluta, quer dizer, a exclusão total e perpétua [116]de toda a sociedade, é uma grande dor positiva, como quase pode ser concebido. Portanto, na balança entre o prazer da sociedade geral e a dor da solidão absoluta, a dor é a ideia predominante. Mas o prazer de qualquer gozo social pesa consideravelmente muito mais do que a agitação causada pela carência daquele gozo particular; de maneira que as sensações mais fortes relativas aos hábitos da sociedade particular são as sensações de prazer. Boa companhia, conversações animadas, e os carinhos da amizade, enchem a mente com grande prazer; uma solidão temporária, por outro lado, é agradável em si mesma. Isso talvez prove que nós somos criaturas projetadas para contemplação assim como para ação; uma vez que a solidão assim como a sociedade têm seus prazeres; visto que, a partir da observação anterior, nós podemos discernir que uma vida inteira de solidão contradiz os propósitos do nosso próprio ser, uma vez que a morte mesma é escassamente uma ideia de mero terror.
Seção XII Simpatia, Imitação e Ambição
Sob essa denominação da sociedade, as paixões são de um tipo complicado, e ramificam-se em uma variedade de formas, de acordo com aquela variedade de fins que elas devem servir na grande corrente da sociedade. As três principais são simpatia, imitação e ambição.
[117]Seção XIII Simpatia
É pela primeira dessas paixões que nós entramos nos interesses de outros; que nós somos movidos como eles são movidos, e nós nunca toleramos ser espectadores indiferentes de quase qualquer coisa que os homens podem fazer ou sofrer. Pois a simpatia tem de ser considerada como um tipo de substituição, pela qual nós somos colocados no lugar de outro homem e, de muitas maneiras, afetados como ele é afetado: de modo que essa paixão pode compartilhar da natureza daqueles com respeito à autopreservação e, tornando-se dor, pode ser uma fonte do sublime; ou ela pode voltar-se para as ideias de prazer; e então, o que quer que tenha sido dito das afeições sociais, quer elas digam respeito a sociedade geral, quer apenas a alguns modos particulares dela, pode ser aplicável aqui. É principalmente através desse princípio que poesia, pintura e outras artes dos afetos transmitem suas paixões de um peito para outro, e frequentemente são capazes de enxertar um deleite no sofrimento (wretchedness), na miséria e na morte mesmos. É uma observação comum que objetos que, na realidade, chocariam, são, no trágico e em semelhantes representações, a fonte de uma espécie muito elevada de prazer. Isso, tomado como um fato, tem sido a causa de muito raciocínio. A satisfação tem sido comumente atribuída, primeiro, ao conforto que nós recebemos na consideração de que uma história tão melancólica não é mais do que uma ficção; e, em seguida, à contemplação da nossa própria liberdade em relação aos males que nós vemos representados. Eu temo que seja uma prática muito comum em investigações dessa natureza, atribuir a causa de sentimentos que meramente surgem a partir da estrutura mecânica [118]dos nossos corpos, ou a partir da estrutura e constituição naturais das nossas mentes, a certas conclusões da faculdade de raciocínio sobre os objetos apresentados a nós; pois eu deveria imaginar que a influência da razão na produção das nossas paixões não é nada tão extensa como ela é comumente acreditada.
Seção XIV Os Efeitos da Simpatia nas Aflições de Outros
Para examinar de uma maneira apropriada esse argumento relativo ao efeito da tragédia, nós antes devemos considerar como somos afetados pelos sentimento das nossas criaturas companheiras em circunstâncias de aflição real. Eu estou convencido de que nós temos um deleite, e esse não um pequeno, nos infortúnios e dores reais de outros; pois, que a afeição seja o que for na aparência, se ela não nos faz afastar-nos de semelhantes objetos, se, pelo contrário, ela induz-nos a aproximar-nos deles, se ela nos faz demorar-nos neles, nesse caso eu estou convencido de que nós temos um deleite ou prazer de alguma espécie ou outra na contemplação de objetos desse tipo. Nós não lemos histórias autênticas de cenas dessa natureza com tanto prazer quanto romances ou poemas, onde os incidentes são fictícios? A prosperidade de nenhum império, nem a grandeza de nenhum rei, pode afetar tão agradavelmente a leitura como a ruína do estado da Macedônia e a aflição do seu príncipe infeliz. Uma semelhante catástrofe toca-nos na história tanto quanto a destruição de Troia na fábula. O nosso deleite, em casos desse tipo, é muito grandemente intensificado se o sofredor for alguma pessoa excelente que [119]se afunda em uma fortuna infeliz. Cipião e Catão são ambos personagens virtuosos; mas nós somos mais profundamente afetados pela morte violenta de um, e a ruína da grande causa à qual ele aderiu, do que pelos triunfos merecidos e a prosperidade ininterrupta do outro; pois o terror é uma paixão que sempre produz deleite quando ela não aflige muito de perto; e a piedade é uma paixão acompanhada por prazer, porque ela surge a partir do amor e da afeição social. Sempre que nós somos formados pela natureza para alguma propósito ativo, a paixão que nos anima para isso é acompanhada com deleite, ou um prazer de algum tipo, seja o tema o que for; e como o nosso criador projetou-nos para que nós devêssemos estar unidos pelo vínculo da simpatia, ele fortaleceu esse vínculo com um deleite proporcionável; e aí é onde a maior parte da nossa simpatia é mais desejada, - no sofrimento dos outros. Se essa paixão fosse simplesmente dolorosa, nós nos afastaríamos, com o maior cuidado, de todas as pessoas e todos lugares que poderiam excitar uma paixão semelhante; como alguns, quem estão tão perdidos em indolência para não suportarem nenhuma impressão forte, fazem-no. Mas o caso é largamente diferente com a maior parte do gênero humano; não há espetáculo que nós tão ansiosamente persigamos como aquele de alguma calamidade incomum e dolorosa; de maneira que, quer o infortúnio esteja diante de nossos olhos, quer eles estejam voltados para trás na história, ela sempre nos toca com deleite. Esse não é um deleite puro, mas misturado com alguma pequena inquietação. O deleite que nós temos em semelhantes coisas impede-nos de nos afastar das cenas de miséria; e a dor que nós sentimos incita-nos a ajudar a nós mesmos ajudando aqueles que sofrem; e tudo isso antes de qualquer raciocínio, através de um instinto que trabalha em nós para o seu próprio propósito, sem a nossa cooperação.
ORIGINAL:
BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 113-119. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/113/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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