segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo - Parte I - Seções XV-XIX

Uma Investigação Filosófica sobre a Origem das Nossas Ideias do Sublime e do Belo


Por Edmund Burke


Parte I


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[120]Seção XV Dos Efeitos da Tragédia


É dessa forma nas calamidades reais. Nos sofrimentos imitados, a única diferença é o prazer resultante a partir dos efeitos da imitação; pois ele nunca é tão perfeito, mas nós podemos perceber que ele é imitação, e com esse princípio nós estamos um pouco satisfeitos com ele. E de fato, em alguns casos, nós derivamos tão ou mais prazer daquela fonte que da coisa mesma. Mas então eu imagino que nós deveríamos ficar muito equivocados se nós atribuíssemos qualquer parte considerável da nossa satisfação na tragédia à consideração de que a tragédia é um engano, e suas representações, irrealidades. Quão mais próximo ela chega da realidade, e mais ela nos remove de toda ideia de ficção, mais perfeito é o seu poder. Escolha um dia para representar a tragédia mais sublime e comovente que nós temos; indique os atores mais favoritos; não poupe custo nas cenas e decorações; una os maiores esforços de poesia, pintura e música, e, quando você tiver selecionado a sua audiência, exatamente no momento quando as mentes deles estão elevadas com expectativa, deva ser relatado que um estado criminoso de alta posição está prestes a ser executado na praça adjacente; em um momento o vazio do teatro demonstraria a fraqueza comparativa das artes imitativas e proclamaria os triunfo da simpatia real. Eu acredito que essa noção de nós termos uma dor simples na realidade, contudo um deleite na representação, surge a partir disto, que nós não distinguimos suficientemente o que nós não escolhemos de maneira nenhuma [121]realizar, daquilo que nós deveríamos estar ansiosos o suficiente para ver se fosse uma vez realizado. Nós deleitamo-nos em ver coisas, que, muito longe de serem realizadas, os nossos desejos mais sinceros seriam de ver reparadas. Esta nobre capital, o orgulho da Inglaterra e da Europa, eu acredito que nenhum homem seria tão estranhamente perverso quanto a desejar ver destruída por uma conflagração ou um terremoto, embora ele devesse estar removido à grande distância do perigo. Mas suponha um acidente tão fatal ter ocorrido, que números de todas as partes teriam se aglomerado para contemplar as ruínas, e, entre eles, muitos que teriam ficado contentes em nunca terem visto Londres em sua glória! Nem é, quer em sofrimentos reais ou fictícios, a nossa imunidade a partir deles que produz o nosso deleite; em minha mente eu não posso descobrir nada semelhante. Eu compreendo que esse equívoco é devido a um tipo de sofisma, o qual frequentemente se impõe sobre nós; ele surge a partir de nós não distinguirmos entre o que de fato é uma condição necessária para nós fazermos ou sofremos qualquer coisa no geral, e qual é a causa de algum ato particular. Se um homem mata-me com uma espada, é uma condição necessária para isso que nós devamos ter estado ambos vivos durante o fato: e, contudo, seria absurdo dizer que ambos sermos criaturas vivas foi a causa do crime dele e da minha morte. Assim é certo que é absolutamente necessário que a minha vida deveria estar fora de qualquer perigo iminente, antes que eu possa me deliciar nos sofrimentos dos outros, reais ou imaginárias, ou, de fato, sobre qualquer outra coisa a partir de qualquer causa que seja. Mas então é um sofisma argumentar a partir daí que essa imunidade seja a causa do meu deleite, ou nessa ou em quaisquer ocasiões. Ninguém pode distinguir uma causa tão grande de satisfação em sua própria mente, eu acredito; ou melhor, quando nós não sofremos nenhuma dor muito [122]aguda, nem ficamos expostos a nenhum perigo iminente para nossas vidas, nós podemos sentir [algo] pelos outros, ao passo que nós mesmos sofremos; e mais frequentemente então quando nós estamos suavizados por aflição; nós vemos com piedade até sofrimentos que nós aceitaríamos no nosso próprio lugar.


Seção XVI Imitação


A segunda paixão pertencente à sociedade é a imitação, ou, se você desejar, um desejo de imitação e, consequentemente, um prazer nisso. A paixão surge a partir quase da mesma causa que a simpatia. Pois como a simpatia nos faz te um interesse no quer que os homens sintam, assim essa afeição nos incita a lidar com o que quer que eles façam; e consequentemente nós temos um prazer na imitação, e no que quer que pertença à imitação meramente como tal, sem qualquer intervenção da faculdade de raciocínio, mas unicamente a partir da nossa constituição natural, a qual a Providência estruturou de tal maneira quanto a encontrar quer o prazer quer o deleite, de acordo com a natureza do objeto, no que quer que diga respeito aos propósitos do nosso ser. É por imitação, muito mais do que a partir de princípio, que nós aprendemos qualquer coisa; e o que nós aprendemos dessa maneira, nós adquirimos não apenas mais efetivamente, mas mais agradavelmente. Isso dá forma às nossas maneiras, nossas opiniões, nossas vidas. É uma das ligações mais fortes da sociedade; é uma espécie de comprimento mútuo, a qual todos os homens concedem uns aos outros, sem restringirem a si mesmos, e a qual é extremamente lisonjeadora para todos. Aqui é que aquela pintura e muitas outras artes agradáveis estabeleceram um dos principais fundamentos do seu poder. E uma vez que, por sua influência sobre [123]nossas maneiras e nossas paixões, é de uma consequência tão grande, aqui eu deverei me aventurar a estabelecer uma regra, a qual pode nos informar, com um bom grau de certeza, quando nós estamos para atribuir o poder das artes à imitação, ou ao prazer na habilidade do imitador meramente, e quando à simpatia, ou alguma outra causa em conjunção com ela. Quando o objeto representado na poesia ou pintura é tal que nós poderíamos não ter desejo para o ver na realidade, então eu posso estar certo de que o seu poder na poesia ou pintura é devido ao poder da imitação, e não a nenhuma causa operando na coisa mesma. Assim é com a maior parte das peças que os pintores chamam de natureza morta (still-life). Nessa, uma cabana, uma esterqueira (dung-hill), os mais insignificantes e mais ordinários utensílios da cozinha, são capazes de nos conceder prazer. Mas, quando o objeto da pintura ou do poema é tal que, se real, nós deveríamos correr para o ver, que ele nos afete com aquele estranho tipo de sensação, nós podemos confiar sobre aquele poder do poema ou da pintura é mais devido à natureza da coisa mesma do que ao mero efeito da imitação, ou a uma consideração da habilidade do imitador, por mais que excelente. Aristóteles falou tanto e tão solidamente sobre a força da imitação em sua Poetics, que torna qualquer discurso adicional sobre esse assunto menos necessário.


Seção XVII Ambição


Embora a imitação seja um dos grandes instrumentos usados pela Previdência para conduzir a nossa natureza à sua perfeição, contudo, se os homens dessem a si mesmos inteiramente à imitação, e cada um seguisse o outro, e assim por diante [124]em um ciclo eterno, é fácil ver que nunca poderia haver nenhum aperfeiçoamento entre eles. Os homens devem permanecer como os brutos o fazem, os mesmos no fim que eles são neste dia, e que eles foram no começo do mundo. Para evitar isso, Deus plantou no homem um sentido de ambição, e uma satisfação surgindo a partir da contemplação dele excedendo os seus companheiros em alguma coisa considerada valiosa entre eles. É essa paixão que conduz os homens por todos os caminhos que nós vemos em uso para sinalizarem a si mesmos, e que tende a fazer o que quer que excite em um homem a ideia dessa distinção tão prazerosa. Ela tem sido tão forte quanto a fazer homens muito miseráveis obterem o conforto de que eles eram supremos em miséria; e certo é que, onde nós podemos nos distinguir por alguma coisa excelente, nós começamos a adotar uma complacência em algumas enfermidades, loucuras ou defeitos de um tipo ou outro. É sobre esse princípio que a lisonja é tão prevalente; pois a lisonja não é nada mais do que o fazer surgir na mente de um homem uma ideia de uma preferência que ele não tem. Agora, seja o que for, ou em fundamentos bons ou em consequência de maus, que tende a elevar um homem em sua própria opinião, produz um tipo de um aumento e triunfo, que é extremamente gratificador para a mente humana; e que esse aumento nunca é mais percebido, nem opera com mais força, do que quando, sem perigo, nós estamos familiarizados com objetos proficientes; a mente sempre reivindicando para si mesma alguma parte da dignidade e importância das coisas que ela contempla. Consequentemente procede o que Longino observou daquela glorificação e do sentido de grandeza interna, que sempre enche o leitor de tais passagens em poetas e oradores que são sublimes; é o que cada homem deve ter sentido em si mesmo em consequência de semelhantes ocasiões.


[125]Seção XVIII A Recapitulação


Para traçar o todo do que foi dito em alguns poucos pontos distintos: - As paixões que pertencem à autopreservação incitam dor e prazer; elas são simplesmente dolorosas quando as causas delas imediatamente nos afetam; elas são deliciosas quando nós temos uma ideia da dor e do perigo, sem estarmos efetivamente em semelhantes circunstâncias; esse deleite eu não chamei de prazer, porque ele incita dor, e porque ele é suficientemente diferente de qualquer ideia de prazer positivo. O seja o que for que excite esse deleite, eu chamei de sublime. As paixões pertencentes à autopreservação são as mais fortes das paixões.

A segunda categoria à qual as paixões são referidas em relação à sua causa final, é a sociedade. Há dois tipos de sociedades. A primeira é a sociedade do sexo. A paixão pertencendo ao que é chamado de amor, e ela contém uma mistura de luxúria (lust); o seu objeto é a beleza das mulheres. O outro é a grande sociedade do homem com todos os outros animais. A paixão subserviente a essa é da mesma maneira chamada de amor, mas ela não tem mistura de luxúria, e o seu objeto é a beleza; o qual é um nome que eu deverei aplicar a todas as qualidades semelhantes em coisas enquanto elas nos induzem uma sensação de afeição e ternura, ou alguma outra paixão mais proximamente se assemelhando a essas. A paixão do amor tem a sua origem no prazer positivo; ela é, como todas as coisas que crescem a partir do prazer, capaz de ser misturada com uma forma de inquietação, quer dizer, quando uma ideia do seu objeto é excitada na mente com, ao mesmo tempo uma ideia de irremediavelmente o ter perdido. Essa sensação mixta de prazer eu não chamei de [126]dor, porque ela se revela prazer efetivo, e porque ela é, tanto em sua causa quanto na maior parte dos seus efeitos, de uma natureza completamente diferente.

Próxima à paixão geral que nós temos pela sociedade, para uma escolha na qual nós estamos direcionados pelo prazer que nós temos no objeto, a paixão particular sob essa categoria chamada de simpatia tem a maior extensão. A natureza dessa paixão é, para nos colocar no lugar de outra em qualquer circunstância que seja na qual ela esteja, e para nos afetar de uma maneira similar; de modo que essa paixão pode, conforme a ocasião requeira, incitar ou dor ou prazer; mas com as modificações mencionadas em alguns casos na seção 11. Quanto à imitação e preferência, nada mais a ser dito.


Seção XIX A Conclusão


Eu acreditei que uma tentativa para ordenar e metodizar algumas das nossas paixões mais principais seria um bom preparativo para uma semelhante investigação como nós estamos prestes a realizar no discurso seguinte. As paixões que eu mencionei são quase as únicas que podem ser necessárias considerar em nosso projeto presente; embora a variedades das paixões seja grande, e de valor, em cada ramo dessa variedade, de uma investigação atenta. Quão mais acuradamente nós pesquisamos a mente humana, nós encontramos em todas partes os traços mais fortes da sabedoria Dele que a criou. Se um discurso sobre o uso das partes do corpo pode ser considerado um hino ao Criador; o uso das paixões, as quais são os órgãos da mente, não podem ser estéril de elogio a ele, nem improdutivo para nós mesmos daquela união nobre e [127]incomum de ciência e admiração, a qual apenas uma contemplação das obras da sabedoria infinita pode propiciar para uma mente racional; ao passo que, referindo a ele o que quer que nós consideremos de correto ou bom ou justo em nós mesmos, descobrindo sua força e sabedoria até em nossa fraqueza e imperfeição, honrando-as onde nós as descobrimos claramente, e adorando a sua profundidade onde nós ficamos perdidos em nossa busca, nós podemos ser inquisitivos sem impertinência, e elevados, sem orgulho; nós podemos ser admitidos, se eu posso atrever-me a falar assim, nos conselhos do Todo-poderoso através de uma consideração das suas obras. A elevação da mente deveria ser o objetivo principal de todos os nossos estudos; a qual, se eles não o fazem em algum efeito medido, eles são de pouco uso para nós. Mas, além desse grande propósito, uma consideração da justificação das nossas paixões parece-me muito necessária para todos aquelas que nos afetariam em consequência de princípios sólidos e certos. Não é suficiente conhecê-los no geral; para as afetar de uma maneira delicada, ou para julgar apropriadamente qualquer obra projetada para as afetar, nós deveríamos conhecer as fronteiras exatas de suas várias jurisdições; nós deveríamos persegui-las através de toda a variedade de suas operações, e penetrar nas partes mais internas e, no que poderia parecer mais inacessíveis da nossa natureza,


Quod latet arcanâ non enarrabile fibrâ.


Sem tudo isso é possível para um homem, após uma forma às vezes confusa de satisfazer sua própria mente da verdade da sua obra; mas ele nunca pode ter uma regra certa e determinada para seguir, nem nunca pode tornar suas proposições suficientemente claras para outros. Sem esse conhecimento crítico, poetas, e oradores, e pintores, e aqueles que cultivam outros ramos das artes liberais, tem [128]sucedido bem em suas várias províncias, e sucederão: como entre os artífices há muitas máquinas construídas e até inventadas sem nenhum conhecimento exato dos princípios pelos quais elas são governadas. Eu reconheço, não é incomum estar errado na teoria e certo na prática; e nós ficamos felizes de que seja assim. Os homens frequentemente agem corretamente a partir dos seus próprios sentimentos, quem, subsequentemente, raciocinam bastante mal sobre eles a partir de princípio; mas, visto que é impossível evitar uma tentativa de semelhante raciocínio, e igualmente impossível evitar que ela tenha alguma influência sobre a nossa prática, certamente vale a pena encarar algumas dificuldades para a ter justa e fundada sobre a base de experiência correta. Nós poderíamos esperar que os artistas mesmos teriam sido os nossos guias mais certos; mas os artistas têm estado ocupados demais com a prática: os filósofos têm realizado pouco; e o que eles realizaram, foi principalmente com uma visão para os seus próprios esquemas e sistemas; e quanto àqueles chamados de críticos, eles geralmente têm buscado regrar as artes no lugar errado; eles buscaram-na entre poemas, pinturas, gravações (engravings), estátuas e prédios. Mas a arte nunca pode fornecer as regras que constituem uma arte. Eu acredito que essa é a razão pela qual os artistas no geral, e os poetas, principalmente, têm estado confinados em um círculo tão estreito: eles têm sido antes imitadores um do outro do que da natureza; e isso com uma uniformidade tão fiel, e a uma antiguidade tão remota, que é difícil dizer quem forneceu o primeiro modelo. Os críticos seguem-nos e, portanto, pouco podem fazer como guias. Eu posso julgar qualquer coisa bastante pobremente, enquanto eu a medir por nenhum outro padrão que não a mim mesmo. O padrão verdadeiro das artes está no poder de cada homem; e uma observação fácil das coisas mais comuns e, algumas vezes, das mais insignificantes na natureza, fornecerá [129]as luzes mais verdadeiras, onde as maiores sagacidade e indústria, que desprezam semelhante observação, devem deixar-nos no escuro, ou, o que é pior, entreter-nos e enganar-nos com luzes falsas. Em uma investigação tudo está quase de uma vez em um caminho correto. Eu estou satisfeito de que eu realizei não obstante pouco com essas observações consideradas em si mesmas; e eu nunca deveria ter aceito as dificuldades para as compilar, muito menos deveria eu ter alguma vez me aventurado a publicá-las, se eu não estivesse convencido de que nada tende mais para a corrupção da ciência do que a tolerar estagnar-se. Essas águas devem ser perturbadas antes que elas possam exercer as suas virtudes. Um homem que trabalha além da superfície das coisas, embora ele mesmo possa estar errado, contudo, ele limpa o caminho para outros, e talvez até possa tornar os seus erros subservientes à causa da verdade. Nas partes seguintes eu deverei investigar quais coisas são aquelas que causam em nós as afeições do sublime e belo, como nesta eu considerei as afeições mesmas. Eu apenas desejo um favor, - que nenhuma parte do discurso possa ser julgada por si mesma e independentemente do resto; pois eu estou ciente de que eu não dispus os meus materiais para tolerar o teste de uma controvérsia capciosa, mas de um exame sóbrio e mesmo perdoador; que eles não estão armados em todos os pontos para batalha, mas vestidos para visitar aqueles que estão desejosos de conceder uma entrada pacífica para a verdade.


Próxima seção


ORIGINAL:

BURKE, E. A Philosophical Inquiry into the Origin of our Ideas of the Sublime and Beautiful. IN:______. The Works of the Right Honorable Edmund Burke. Volume I. Boston: Little, Brown, and Company, 1877. pp. 120-129. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofrighthono01burk/page/120/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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