quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Elementos de Lógica - Livro III Sobre Falácias - §5

Por Richard Whately


Parte anterior


[181]§5


Em cada Falácia que desse modo foi enumerada e distinguida, proponho oferecer alguns comentários mais particulares. Mas, antes que eu prossiga com isso, será adequado pressupor duas observações gerais, 1) sobre a importância e 2) a dificuldade, de detecção e descrição de Falácias. Ambas já foram levemente aludidas; mas é necessário que elas devam ser um pouco mais completa e distintamente demonstradas aqui.

Importância da detecção de Falácias. 1) Parece ser tomado como certo pela maioria das pessoas que uma Falácia é para ser temida meramente como uma arma moldada e empunhada por um habilidoso sofista; ou, se eles permitirem que um homem com intenções honestas escorregue para uma inconscientemente, no calor do argumento. Entretanto, eles parecem supor que, onde não houver disputa, não causa para temer a Falácia; que há muito perigo, mesmo no que pode ser chamada de raciocínio solitário, de escorregar inconscientemente para alguma Falácia, pela qual alguém pode ser enganado tão longe, mesmo a agir de acordo com a conclusão obtida desse modo. Por “raciocínio solitário” quero dizer o caso no qual alguém não está buscando argumentos para provar uma dada questão, mas laborando para deduzir de seu estoque prévio de conhecimento alguma inferência útil.1

Influência das palavras sobre os pensamentos. Para selecionar um de inumeráveis exemplos que poderiam ser citados, e dos quais mais alguns ocorrerão na parte subsequente deste ensaio; não é improvável que muitos sermões indiferentes tenham sido produzidos pela ambiguidade da palavra “simples (plain)”. Um jovem sacerdote percebe a verdade da máxima de que “para as ordens [182]mais baixas a linguagem de alguém não pode ser muito simples (plain):” (ou seja, clara e perspicaz, de modo a não requerer qualquer aprendizagem ou engenho para a entender,) e quando ele começa a praticar, a palavra “simples (plain)” indistintamente se esvoaça diante dele, por assim dizer, e frequentemente lhe confere o uso de ornamentos de estilo, tais como metáfora, epíteto, antítese, etc, os quais são opostos à “simplicidade” em um sentido totalmente diferente da palavra; sendo de jeito nenhum necessariamente contrários à perspicuidade, mas em vez disso, em muitos casos, propícios a ela; como pode ser visto em vários dos mais claros discursos de nosso Senhor, os quais são os mesmos que são os mais ricamente adornados com linguagem figurativa. Até agora, de fato, um estilo ornamentado está longe de ser impróprio para o simples, que eles estão satisfeitos com ele mesmo em excesso. Contudo, o desejo de ser “simples (plain)”, combinado com aquela noção sombria e confusa de que a ambiguidade da palavra como tal produz, como por exemplo a não separar nas mentes deles, e definir diante deles, os dois sentidos, frequentemente, causam-lhes a escrever com estilo seco e insignificante, o qual não tem nenhuma vantagem na questão da perspicuidade, e é o menos adequado de todos para o gosto do vulgar. O exemplo acima não foi retirado de mera conjectura, mas a partir de experiência atual do fato.

Outro exemplo da forte influência das palavras sobre nossas ideias pode ser aduzido de um assunto largamente diferente: a maioria das pessoas sente um certo grau de surpresa ao primeiro ouvirem do resultado de alguns experimentos recentes dos químicos agrícolas, pelas quais eles verificaram universalmente que os que são chamados de solos pesados são especificamente os mais leves; e vice-versa. De onde essa surpresa? Pois, ninguém nunca distintamente acreditou que nomes estabelecidos deveriam ser usados no sentido literal e primário, em consequência dos respectivos solos terem sido pesados juntos; de fato, é óbvio, após um momento de reflexão, que solos argilosos tenazes (tenacious clay-soils) (assim como estradas lamacentas) [183]são figurativamente chamados de pesados, a partir da dificuldade de arar ou passar através deles, o que produz um efeito semelhante àquele de carregar ou arrastar um grande peso. Contudo, ainda os termos “leve” e “pesado”, embora usados figurativamente, o mais indubitavelmente, introduziram nas mentes dos homens alguma coisa das ideias expressas por eles em seus sentidos primitivos. As mesmas palavras, quando aplicadas a artigos de dieta, produziram erros importantes; muitos supondo algum artigo de comida ser leve de digerir ao ser especificamente leve. Tão verdadeira é a engenhosa observação de Hobbes de que “as palavras são os contadores dos homens sábios, e o dinheiro dos tolos.”

Os homens imaginam,” diz Bacon, “que suas mentes têm o comando da Linguagem; mas frequentemente acontece que a Linguagem exibe comando sobre suas mentes”. Alguns dos argumentos fracos e absurdos que frequentemente são urgidos contra o Suicídio podem ser traçados à influência das palavras sobre os pensamentos. Quando o moralista cristão é invocado para uma direta prescrição da Escritura contra o suicídio, em vez de responder que a Bíblia não é para ser um código completo de leis, mas um sistema de razões e princípios, a resposta frequentemente dada é “tu não farás nenhum assassinato”; e é assumido com argumentos extraídos da Razão, assim como aqueles da Revelação, que o Suicídio é uma espécie de assassinato; em outras palavras, porque é chamado de assassinato de si mesmo (self-murder); e, desse modo, iludidos por um nome, muitos são levados a descansar em um argumento incorreto; o qual, como todas as outras falácias, faz mais mal do que bem, no final, à causa da verdade. Suicídio, se algum considerar a natureza e não o nome, evidentemente exige a característica mais essencial do assassinato, a saber, o dano e o ferimento feitos ao vizinho de alguém ao privá-lo da vida, assim como de outros pela insegurança na qual eles estão, em consequência, sujeitos a sentir. E uma vez que ninguém pode, falando estritamente, fazer injustiça a si mesmo, ele não pode, na aceitação literal e primária das [184]palavras, ser considerado roubar ou assassinar a si mesmo. Ele que deserta de seu posto para o qual ele foi apontado por seu grande Mestre, e presunçosamente encurta o estado de provação graciosamente permitido a ele para realizar sua salvação,” (quer pela ação ou pela persistência paciente,) é de fato culpado de um pecado grave, mas de um não menos análogo em sua característica ao assassinato. Não implica desumanidade. Está mais rigorosamente aliado ao pecado de desperdiçar a vida em indolência, ou em buscas insignificantes, — visto que a vida é concedida como um tempo semente para a colheita da imortalidade. O que é chamada na frase família de “matar o tempo (killing time)”, é, em verdade, uma abordagem, até onde prossegue, de destruição da própria vida de alguém: pois “O tempo é a matéria da qual a vida é feita”.


Tempo destruído

É suicídio, onde mais do que sangue é derramado.” - Young.2


Erros emergentes a partir do uso de termos analógicos. Mais especificamente merecendo atenção está a influência dos Termos Analógicos ao levar homens a noções errôneas em Teologia; onde os termos mais importantes são analógicos; contudo, eles são continuamente empregados no Raciocínio sem a devida atenção (mais frequentemente devido à falta de cuidado do que desígnio injusto) à sua natureza analógica; e a maioria dos [185]erros nos quais os teólogos caíram podem ser traçados, em parte, a essa causa.3

Perigo duplo em qualquer suposição falsa. Ao falar da importância de se refutar Falácias, (nome sob o qual incluo, como será visto, qualquer falsa suposição empregada como uma Premissa) essa consideração não deve ser negligenciada; que um princípio incorreto, o qual fora empregado para estabelecer alguma Conclusão maliciosamente falsa, não se torna inofensivo de uma vez, e tão insignificante para ser digno de refutação, tão cedo que a Conclusão seja abandonada, e o falso Principio não seja mais empregado para aquele uso particular. Ele pode igualmente bem levar a algum outro resultado não menos pernicioso. “Uma falsa premissa, conforme ela seja combinada com essa, ou com aquela, verdadeira, levará a duas diferentes conclusões falsas. Desse modo, se o princípio for admitido, que quaisquer importantes erros religiosos deverão ser suprimidos à força, isso pode levar ou a perseguição por um lado, ou a indiferença latitudinária no outro. Alguns podem ser levados a justificar a supressão de heresias pela espada civil; e outros, cujos sentimentos de revolta diante de um procedimento semelhante, e que veem a perseguição reprovada e desacreditada por aqueles ao redor deles, podem ser levados pelo mesmo princípio a considerar erros religiosos como de pouca ou nenhuma importância, e todas as persuasões religiosas como igualmente aceitáveis aos olhos de Deus.4

Superestimação do efeito de algumas falácias. Contudo, por outro lado, deve ser observado, que semelhantes efeitos frequentemente são atribuídos a alguma falácia que de fato não os produz. Talvez deva ter sido triunfantemente urgido, e repetido de novo e de novo, e referido por muitos como [186]irrefragável; contudo nunca deve ter convencido ninguém; mas ter sido meramente assentido por aqueles já convencidos. Para muitas pessoas, quaisquer duas frases bem corretas, que tenham umas poucas palavras parecidas, e estão de alguma maneira conectadas com o mesmo assunto, servirão como Premissas e Conclusão: e quando ouvirmos um homem professar derivar convicção de semelhantes argumentos, estamos naturalmente dispostos a considerar seu caso como sem esperança. Mas frequentemente acontecerá que, em realidade, suas faculdades de raciocínio devem ter estado totalmente dormentes; e igualmente talvez, em outro caso, onde ele conceda seu assentimento a um processo de raciocínio correto, levando a uma conclusão que ele já admitiu. “As falácias infantis que você algumas vezes pode ouvir um homem aduzir sobre alguns assuntos, talvez sejam em realidade não mais suas próprias do que os argumentos corretos que ele emprega com outros; ele pode ter dado indolente aquiescência impensada a cada um; e se ele pode ser animado ao esforço do pensamento, ele pode bem ser muito capaz de distinguir o correto do incorreto.5

Bastante portanto, quanto à extensa influência prática das Falácias, e a consequente importância eleva de as detectar e expor.


Próxima parte


ORIGINAL:

WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.181-186. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/181/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

1 Ver o capítulo sobre “inferring and proving”, (Book IV. ch. iii.) na Dissertação sobre a Província do Raciocínio.

2 Certamente é mais sábio e seguro confinarmo-nos a argumentos semelhantes que portarão a experiência de um exame detido, do que lançar mão de tais que podem de fato, à primeira vista, ser mais enganadores e parecerem mais fortes, mas os quais, quando expostos, também frequentemente deixarão um homem um pateta para as falácias do lado oposto. Mas esse é especialmente o erro dos controversistas, urgir de cada coisa que pode ser urgida; para agarrar a primeira arma que venha à mão; (“furor arma ministrat;”) sem esperar para considerar qual é VERDADEIRA.

3 Ver as notas do Ch. v. §1 da Dissertação junta em anexo.

4 Ver Essays, 3d Series, Ch. v. §2 p.228.

5 Pol. Econ. Lect. I. p.15.

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