domingo, 4 de outubro de 2020

Elementos de Lógica - Livro III Sobre Falácias - §8

Por Richard Whately


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[192]§8 Do Termo Médio Ambíguo


Aquele caso no qual o Termo médio está não-distribuído pertence, é claro, à categoria anterior; o erro estando perfeitamente manifesto a partir da mera forma de expressão. Naquele caso, os Extremos são comparados com duas partes do mesmo termo; mas na Falácia que tem sido chamada de semilógica, (da qual nos falaremos agora) os extremos são comparados com dois termos diferentes, o Termo médio sendo usado em dois sentidos diferentes nas duas Premissas.1

E aqui deve ser observado que, quanto o argumento é trazido à forma de um Silogismo regular, o contraste [193]entre esses dois sentidos geralmente parecerá muito marcante a partir das duas Premissas sendo colocadas juntas. Por isso o desdém com o qual muitos trataram a menção mesma à Falácia de Equívoco, derivando sua única noção da exposição dela em tratados de Lógica; visto que, na prática, é comum para duas Premissas serem colocadas muito distantes, e discutidas em diferentes partes do discurso; meio pelo qual o ouvinte desatento descuida de qualquer ambiguidade que possa existir no Termo médio. Consequentemente, a vantagem dos hábitos da Lógica, fixando nossa atenção forte e firmemente sobre os termos importantes de um argumento.

E aqui deve ser observado que, quanto nós pretendemos acusar algum argumento do erro de “termo médio ambíguo”, não é suficiente dizer que o Termo médio é uma palavra ou frase que admite mais de um significado; (pois há poucas que não possuem) mas nós precisamos mostrar que, a fim de que cada premissa deva ser admitida, o Termo em questão precisa ser entendido em um sentido (indicando qual o sentido) em uma das premissas, e em outro sentido em outra.

Importância de distinções minuciosas. E se qualquer um falar desdenhosamente de “exatidão em excesso” ao fixar o sentido preciso no qual algum termo é usado, - de atentar para distinções minuciosas e sutis, etc, nós podemos responder que essas distinções minuciosas são exatamente aquilo que nós chamamos de atenção cuidadosa; uma vez que é somente através da negligência delas que Falácias sempre escapam de detecção.

Pois, um equívoco muito evidente e palpável nunca poderia enganar ninguém. Argumentar que “plumas dissipam a escuridão por que elas são leves (light),” ou que “este homem é agradável, por que ele está cavalgando (riding), e cavalgar (riding) é agradável”, é um equívoco que nunca poderia ser empregado senão como piada. E embora pequena em algum caso, pode haver a distinção entre os [194]dois sentidos de um Termo médio nas duas premissas, o argumento aparente será igualmente inconclusivo; embora sua natureza falaciosa será mais provável de escapar de ser notada.

Mesmo assim, é por carência de atenção com pontos minuciosos, que casas são roubadas ou incendiadas. No geral, ladrões não vêm e batem na porta da frente; mas escalam para alguma janela cuja fixação fora negligenciada. E um incendiário, ou um servo descuidado, não acende um barril de alcatrão no meio de uma sala, mas deixa uma turfa acesa, ou um rapé de vela, na palha, ou em um monte de aparas de madeira.

Em muitos casos, é uma boa máxima, “Cuidar das pequenas coisas, e as grandes cuidarão de si mesmas.”

Palavras parônimas. Um caso, o qual poderia ser considerado como classificado na categoria do Termo médio Ambíguo, é, (que eu acredito é o que escritores em lógica querem dizer com “Fallacia Figurae Dictionis,”) a Falácia construída na estrutura gramática da linguagem, a partir de homens geralmente tomando como certo que palavras parônimas (ou cognatas) – ou seja, aquelas pertencendo uma a outra, como o substantivo, adjetivo, verbo, & etc da mesma raiz, têm um sentido precisamente correspondente; o qual de maneira nenhuma universalmente é o caso. Uma semelhante falácia não poderia, de fato, mesmo ser exibida em estrita forma Lógica, o que impediria mesmo a tentativa disso, uma vez que tem dois termos médios em som assim como sentido. Mas nada é mais comum na prática do que variar continuamente os termos empregados, com uma visão de conveniência gramatical; nem há nada injusto numa prática semelhante, enquanto o significado for preservado inalterado: por exemplo, “O assassinato deve ser punido com morte; este homem é um assassino; portanto, ele merece morrer”, etc, etc. Aqui nós procedemos na suposição (nesse caso justa) de que cometer assassinato e ser um assassino, - de que merecer a morte e de ser alguém que deve morrer, são, respectivamente, expressões [195]equivalentes, e frequentemente se provaria uma forte inconivência ser impedido desse tipo de liberdade: por exemplo, “planejadores (projectors) são impróprios para ser confiados; este homem formou um projeto (project), portanto, ele é impróprio para ser confiado:2 aqui o Sofista procede na hipótese de que quem forma um projeto (project) precisa ser um planejador (projector): ao passo que o significado ruim que comumente é adicionado à segunda palavra, não está em absoluto implicado na primeira.

Essa Falácia frequentemente pode ser considerada como não existindo no Termo médio, mas em um dos termos da Conclusão; de modo que a conclusão extraída não dever ser, em realidade, em absoluto autorizada pelas Premissas, embora ela parecerá ser assim, por meio da afinidade gramatical das palavras: por exemplo, “Estar familiarizado com a culpa é uma pressuposição (presumption) de culpa; este homem está tão familiarizado; portanto, nós podemos presumir (presume) que ele é culpado”: esse argumento procede na suposição de que há uma correspondência exata entre “presumir (presume)” e “pressuposição (presumption)”, a qual, contudo, de fato não existe; pois “pressuposição (presumption)” é geralmente usada para expressar um tipo de leve suspeição; ao passo que “presumir (to presume)equivale a crença atual.

A observação acima aplicar-se-á a alguns outros casos de ambiguidade do termo; por exemplo, a conclusão frequentemente conterá um termo, o qual (embora não como aqui, porém, diferente em expressão do correspondente na Premissa) está sujeito a ser entendido em um sentido diferente do que ele porta na Premissa, embora, é claro, uma semelhante Falácia seja menos comum, pois é menos provável de enganar, naqueles casos, do que neste; onde o termo é usado na Conclusão, embora professando corresponder a um nas Premissas, não é exatamente o mesmo em expressão, [196]e portanto é mais certo de transmitir um sentido diferente; o que é o que o Sofista deseja.

Há inúmeros exemplos de não-correspondência em palavras parônimas, semelhantes aos exemplificados acima; como entre astúcia (art) e astuto (artful), projeto (design) e artificioso (designing), (faith) e fiel (faithful), etc; e quanto mais leve a variação de significado, mais provável é que esta Falácia seja bem-sucedida; pois quando as palavras tornam-se tão amplamente deslocadas em sentido como “lástima (pity)e lamentável (pitiful), todos perceberiam uma tal Falácia, nem poderia ela ser empregada, apenas tom de brincadeira.

Essa Falácia não pode ser refutada na prática, (exceto quando você está dirigindo-se a lógicos regulares), ao meramente declarar a impossibilidade de reduzir um tal argumento à forma lógica rigorosa. Você precisa encontrar alguma maneira de indicar a não-correspondência entre os termos em questão; por exemplo, com respeito ao exemplo acima, poderia ser observado, que nós falamos de “pressuposição (presumption)” forte ou fraca, mas nós não usamos semelhante expressão em conjunção com o verbo presumir (presume)”, pois a palavra mesma implica força.

Nenhuma falácia é mais comum em controvérsia do que a presente; uma vez que dessa maneira o Sofista frequentemente será capaz de adulterar as proposições que seu oponente admite ou sustenta, e assim empregá-las contra ele. Desse modo, nos exemplos dados há pouco, é natural imaginar que uma das Premissas do Sofista foi emprestada de seu oponente.3

Etimologia. A presente Falácia é quase aliada a, ou melhor talvez possa ser considerada como uma ramificação de, aquela fundada em etimologia; a saber, quando um termo é usado uma [197]vez, em seu sentido costumeiro, e outra vez, em seu sentido etimológico. Talvez nenhum exemplo disso possa ser encontrado que seja mais extensiva e maliciosamente empregado do que a palavra representativo (representative): assumindo que seu sentido correto deve corresponder exatamente ao sentido original e estrito do verbo, “representar (represent)”, o Sofista persuade uma multidão de que um membro da Casa dos Comuns está obrigado a ser guiado em todos os pontos pela opinião de seus constituintes: e, para resumir, ser meramente o porta-voz (spokesman) deles: ao passo que a lei, e costume, o qual nesse caso pode ser considerado como resolvendo o significado do Termo, não requer semelhante coisa, mas impõe ao representativo agir de acordo com o melhor de seu julgamento, e de sua própria responsabilidade.

Horne Tooke supriu uma publicação inteira com semelhantes armas para qualquer Sofista que possa precisar delas; e forneceu alguns espécimes de emprego delas. Ele argumenta que é inútil falar de “Verdade (Truth)” eterna ou imutável, por que a palavra é derivada de “crer (trow)”, ou seja, acreditar. Ele poderia, a partir de fundamentos tão bons, ter censurado o absurdo de falar de enviar uma carta pelo “correio (post)”, por que um poste (post), em seu sentido primário, é um pilar; ou ter insistido em que “Sicofanta (Sycophant)” não pode nunca significar qualquer coisa senão “Expositor de figo (Fig-shower).


Próxima parte


ORIGINAL:

WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.192-197. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/192/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

1 Para alguns exemplos de ambiguidades importantes, ver Apêndice.

2 Wealth of Nations: Usura (por Adam Smith).

3 Talvez um dicionário de semelhantes palavras parônimas [cognatas] que não correspondem regularmente em significado, seria quase tão útil quanto um de sinônimas; ou seja, propriamente falando, de pseudossinônimas.

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