Por Richard Whately
[218]§12
Fallacia accidentis. O outro tipo de ambiguidade surgindo do contexto, e que é o último caso de Termo médio ambíguo que eu deverei considerar, é a “fallacia accidentis”; junto com sua contrária, “fallacia a dicte secundum quid ad dictum simpliciter”. Em cada uma delas [219]o Termo médio é usado, em uma das Premissas para significar alguma coisa considerada simplesmente, em si mesma, e quanto a sua essência; e na outra Premissa, de modo a implicar que seus Acidentes são levadas em consideração com ela: como no bem conhecido exemplo, “o que é comprado no mercado é comido; carne crua é comprada no mercado; portanto, carne crua é comida.” Aqui o Termo médio foi entendido em conjunção com ele, na Premissa maior, “quanto à sua substância meramente”: na menor, “quanto à sua condição e circunstâncias”.
Para esta categoria, talvez, assim como a qualquer uma, podem ser referidas as Falácias que são encontradas frequentemente em variações ocasionais, parciais e temporárias na acepção de algum Termo, surgindo de circunstâncias de pessoa, tempo e lugar, as quais ocasionaram alguma coisa a ser entendida em conjunção com ele além de sua estrita significação literal. Por exemplo, a palavra “lealdade (loyalty)”, a qual propriamente denota vinculação a governo legal (lawful), seja de um rei, presidente, senado, etc, de acordo com as respectivas instituições de cada nação, - tem sido frequentemente empregada para significar exclusivamente, vinculação a autoridade régia (regal); e isso mesmo quando levada além dos limites da lei (law). Assim, “reformador (reformer)” algumas vezes foi limitado aos reformadores protestantes da religião; algumas vezes, aos advogados (advocate) de alguma reforma parlamentar particular, etc. E sempre que qualquer frase deste tipo tornou-se um lema (watch-word) ou grito de reunião (gathering-cry) de um partido, o emprego dela comumente implicaria certos sentimentos não literalmente expressos pelas palavras. Portanto, assumir que alguém é amigável ou hostil a “Lealdade (Loyalty)” ou “Reforma (Reform)” em um sentido, pois ele declarou-se amigável ou hostil a ela em outro sentido, quando implicado e conectado com tal e tal sentimentos, é uma Falácia, tal como poderia justamente ser referida à presente categoria.
[220]§13
Sobre as Falácias não lógicas (ou materiais); e primeiro, “implorando a pergunta”; Petitio Principii.
Implorando a pergunta. A explicação indistinta e não filosófica que foi dada por escritores em Lógica para a Falácia de “non causa”, e aquela de “petitio principii” torna muito difícil verificar onde eles consideram-nas diferir, e o que eles entenderam ser a característica distintiva de ambas. Portanto, eu não deverei intentar conformar-me exatamente à linguagem deles, mas meramente a me expressar claramente, sem me afastar mais do que o necessário do uso estabelecido para esse propósito.
Então, que o nome de “petitio principii” (implorando a questão) seja confinado àqueles casos nos quais uma das Premissas ou é manifestamente a mesma na acepção da Conclusão, ou é realmente provada a partir dela, ou é tal como as pessoas às quais você está endereçando-se1 provavelmente não conhecem, ou admitem, exceto como uma inferência da Conclusão: como, por exemplo, se qualquer um devesse inferir a autenticidade de uma certa história, a partir de seu registro de tal e tal fatos, [quando] a realidade dos quais depende da evidência daquela história.
Todos os outros casos nos quais uma Premissa (quer uma expressa ou suprimida) não possuir alegação suficiente para ser admitida, eu deverei designar de “Falácia de suposição indevida de uma Premissa”.
Que seja observado, contudo, que em casos tais como esse (aparentemente), nós não devemos declarar tão precipitadamente o argumento falacioso; pois pode ser perfeitamente justo no começo de um [221]argumento assumir uma Premissa que não é mais evidente que a Conclusão, ou que seja mesmo muito paradoxal, desde que você siga adiante para provar justamente essa Premissa; e, de maneira semelhante, é igualmente comum e justo começar por deduzir sua Conclusão a partir de uma Premissa exatamente equivalente a ela; o que é meramente colocar a proposição em questão na forma na qual ela será mais convenientemente provada.
Argumentando em um Círculo. Argumentar em um círculo, contudo, precisa ser necessariamente injusto; embora seja frequentemente praticado involuntariamente; por exemplo, alguns Mecânicos (Mechanicians) tentam provar, (o que eles deveriam ter estabelecido como uma hipótese provável mas duvidosa,) que cada partícula de matéria gravita igualmente; “por quê?” pois aqueles corpos que contêm mais partículas sempre gravitam mais fortemente, quer dizer, são mais pesados: “mas (pode ser instigado) aqueles que são os mais pesados nem sempre são mais volumosos”; “não, mais ainda assim eles contêm mais partículas, embora mais proximamente condensadas;” “como você sabe disso?” “pois eles são mais pesados;” “como isso prova aquilo?” “pois todas as partículas de matéria gravitam igualmente, de modo que [dessa] massa, que é especificamente a mais pesada, precisa haver maior quantidade no mesmo espaço.”
É claro, quão mais estreito for o círculo, menos provável é escapar da detecção, seja do raciocinador mesmo (pois os homens frequentemente enganam a si mesmos desta maneira), ou de seus ouvintes. Quando há uma longa volta de muitas proposições intervenientes antes que você chegue à Conclusão original, frequentemente não será percebido que os argumentos realmente prosseguem em um “Círculo”: assim como quando alguém está avançando em linha reta (como nós estamos acostumados a falar) ao longo de um plano sobre a superfície desta Terra, escapa de nossa observação que nós estamos realmente nos movendo ao longo da circunferência de um Círculo (uma vez que a terra é um globo), e que, se nós pudéssemos prosseguir sem interrupção na mesma linha, [222]nós deveríamos chegar ao mesmo ponto de onde partimos. Mas isso nós percebemos prontamente quando estamos andando ao redor de uma pequena colina.
Por exemplo, se alguém argumentasse que você deveria submeter-se à orientação de si mesmo, de seu líder, ou de seu partido, etc, pois eles mantêm o que é o certo; e em seguida argumentasse que o que é assim mantido é o certo, pois é mantido pelas pessoas às quais você deveria submeter-se; e que esses são, a si mesmo e seu partido; ou novamente, se alguém sustentasse que assim e assim precisa ser uma coisa moralmente errada, pois é proibida pela parte moral da lei mosaica e, em seguida, que a proibição disso forma a parte moral (não a cerimonial, ou a civil) daquela Lei, pois é uma coisa moralmente errada. Qualquer um desses seria um Círculo muito estreito para escapar da detecção, a menos que vários passos intermediários fossem interpostos. E se a forma de expressão de cada proposição fosse variada a cada vez que ocorresse, - o sentido dela permanecendo o mesmo, - isso auxiliaria muito o engano.
É claro, a maneira de expor a Falácia é inverter esse procedimento: estreitar o Círculo, ao eliminar os passos intermediários; e exibir a mesma proposição, quando ela vem de volta (it comes round) a segunda vez, - nas mesmas palavras.
Obliquidade de expressão. Obliquidade e dissimilação sendo, é claro, muito importantes para o sucesso da petitio principii, assim como de outras Falácias, o Sofista no geral terá ou o recurso ao “Círculo”, ou senão, não se arriscará a declarar distintamente sua suposição do ponto em questão, mas, em vez disso, afirmará alguma outra proposição que a implica;2 desse modo, mantendo fora de vista (como um ladrão habilidoso que [223]rouba bens) o ponto em questão, no momento mesmo quando ele está tomando-a como certa. Consequentemente, a união frequente dessa Falácia com “ignoratio elenchi” [vide §15]. A língua inglesa é talvez a mais apropriada à Falácia de petitio principii, sendo formada a partir de duas línguas distintas, e, desse modo, abundando em expressões sinônimas, as quais não têm semelhança em som, e nenhuma conexão na etimologia; de modo que um Sofista poderia apresentar uma proposição expressa em palavras de origem saxônica, e dar como uma razão a mesma proposição expressa em palavras de origem normanda; por exemplo, “permitir a cada homem uma liberdade ilimitada de expressão deve sempre ser, no todo, vantajoso para o Estado; pois ela é altamente propícia aos interesses da Comunidade, que cada indivíduo deveria desfrutar de uma liberdade perfeitamente ilimitada, para expressar seus sentimentos.”
ORIGINAL:
WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.218-223. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/218/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 Pois de duas proposições, uma pode ser mais evidente para alguns, e a outra, para outros.
2 Gibbon proporciona os mais notáveis exemplos desse tipo de estilo. Do que ele pretende realmente falar dificilmente alguma vez é feito o Assunto de sua Proposição. A maneira dele escrever lembra uma daquelas pessoas que nunca se atrevem a olhar você bem no rosto.
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