Por Richard Whately
[197]§9
Falácia dos Interrogatórios. Deve ser observado, que ao termo médio Ambíguo deve ser referido o que é chamado de “Fallacia plurium interrogationum”, a qual pode ser chamada simplesmente de “a Falácia do Interrogatório”; nomeadamente, a Falácia de perguntar várias questões que parecem ser apenas uma; de modo que, qualquer que seja a resposta dada, sendo é claro aplicável a somente uma das questões implícitas, pode ser interpretada [198]como aplicada a outra: a refutação tem de ser, é claro, responder separadamente a cada questão, ou seja detectar a ambiguidade.
Eu disse, várias “questões que parecem ser apenas uma,” pois do contrário não há Falácia; portanto, um exemplo tal como “O homem é animal e pedra? (estne homo animal et lapis?)” que Adrich dá, é estranho ao assunto em mãos; pois não há nada injusto em perguntar duas questões distintas (não mais que em afirmar duas proposições distintas) distinta e declaradamente.
Esta Falácia, como já foi dito, pode ser referida à categoria do termo médio Ambíguo. Em todo raciocínio é muito comum exprimir uma das Premissas em forma de uma questão e, quando isso é admitido, ou suposto ser admitido, então preencher o resto: se um dos Termo dessa questão for ambíguo, seja qual for o sentido que o oponente responda, o Sofista assume o outro sentido do Termo na Premissa restante. Portanto, é muito comum exprimir um argumento equívoco, na forma de uma questão assim formulada, que deverá haver pouca dúvida de qual resposta deverá ser dada; pois, se houver tal dúvida, o Sofista deve ter duas Falácias de equívoco prontas; por exemplo, a questão “Se alguma coisa viciosa é conveniente?”, discutida em Cic. Off. Book III. (onde, a propósito, ele mesmo não parece nenhum pouco perplexo com ela) é da característica em questão, da ambiguidade da palavra, “conveniente (expedient)”, a qual, algumas vezes significa “conducente à prosperidade temporal”, algumas vezes “conducente ao bem maior”: portanto, qualquer que seja a resposta dada, o Sofista poderia ter encontrado uma Falácia de equívoco nesse termo; a saber, se a resposta for no negativo, seu argumento, logicamente desenvolvido, erguer-se-á deste modo, - “O que é vicioso não é conveniente; o que quer que conduza à aquisição de riqueza e engrandecimento é conveniente; portanto, não pode ser vicioso”: se no positivo, então deste modo, - “O que quer que seja conveniente é [199]desejável; alguma coisa viciosa é conveniente, portanto, desejável”.1
Novamente, uma testemunha uma vez foi perguntada por uma Comissão do Parlamento (em 1832) se ela sabia “Há quanto tempo a prática de dividir os dízimos em quatro porções, uma para o pobre, tinha cessado na Irlanda,” etc. Isso parece o exemplo banal de perguntar a um homem “Se ele deixou de bater em seu pai”. [Ver Vol. of Charges and Tracts, p.379.] O celebrado inquérito do Rei Charles II – da Sociedade Real (considerado abaixo, §14) pode ser referido a esta categoria. Ele perguntou a causa de um peixe morto não adicionar [nada] ao peso de um vaso de água (embora um peixe vivo adicione). Isso implica duas questões; a primeira das quais muitos filósofos por um tempo negligenciaram: a saber, 1) Isso é um fato? 2) Se é um fato, qual pode ser a causa disso?2
Distribuição e não distribuição. Esse tipo de Falácia é frequentemente empregado de uma maneira tal que a incerteza deverá ser não sobre o sentido, mas [sobre] a extensão de um Termo, ou seja, se ele está distribuído ou não: por exemplo, “A B agiu neste caso a partir de tal e tal motivo?” O que pode implicar ou “foi esse o único motivo?”, ou “foi esse um de seus motivos?”, no primeiro caso o termo [“aquilo no que atuou A B”] está distribuído; no segundo, não; agora se ele atuou a partir de uma mistura de motivos, qualquer resposta que você dê pode ser deturpada e sua conclusão, desse modo, contestada.
[200]Novamente, aqueles que disputam o direito de um Estado de impor a profissão de uma certa religião, têm sido confrontados com a questão, “tem o Estado o direito de impor Leis?” Se nós respondermos no negativo, nós podemos ser interpretados como negando que lei alguma pode ser justamente imposta; o que, é claro, destruiria a existência mesma da comunidade Política; Se na afirmativa, nós podemos ser interpretados como sancionando a aplicação de quaisquer leis que sejam que a Legislatura pode ver como apropriadas decretar: quer instruindo os homens a adorarem um Crucifixo, ou a pisarem nele; - a reverenciarem Cristo ou Maomé, etc. A ambiguidade da questão está em “Leis”; entendida quer como “algumas leis”, ou, como “quaisquer leis sem exceção”.3
ORIGINAL:
WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.197-200. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/197/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 Muito da declamação pela qual as assembleias populares são frequentemente induzidas ao erro, contra o que é chamado, sem nenhum sentido distinto, da “doutrina da conveniência (expediency)”, (como se o “certo” e o “conveniente (expedient)” estivessem em oposição) poderia ser silenciado ao se perguntar a simples questão, “Você então admite que o curso de que você recomendou é inconveniente (inexpedient)?”
2 Ver Historic Doubts relative to Napoleon.
3 Ver “Essays on the Kingdom of Christ.” Note A. to Essay I.
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