Por Richard Whately
[213]§11
Daqueles casos onde a ambiguidade surge a partir do contexto, há várias espécies; algumas das quais os Lógicos enumeraram, mas negligenciaram referi-las, em primeiro lugar, a uma classe comum (a saber, àquela sob a qual elas são colocadas aqui;) e mesmo organizaram algumas sob as categorias “in dictione” de Falácias, e outras sob aquela de “extra dictionem”.
Falácia da Divisão e Composição. Nós podemos considerar, como primeiro dessas espécies, a Falácia da “Divisão” e aquela da “Composição”, tomadas juntas; uma vez que, em cada uma dessas, o Termo médio é usado em uma das premissas coletivamente, em outra, distributivamente. Se o primeiro desses for a Premissa maior, e a segunda, a menor, esse é chamada de “Falácia da Divisão”; o Termo que é primeiro tomado coletivamente sendo depois divido; e vice-versa. Os exemplos ordinários são como estes: “Todos os ângulos de um triângulo são iguais a dois retos: A B C é um ângulo [214]de um triângulo; portanto, A B C é igual a dois ângulos retos”. “Cinco é um número; três e dois são cinco: portanto, três e dois são um número”; ou, “três e dois são dois números, cinco é três e dois, portanto, cinco são dois números”; é manifesto que o Temo médio, três e dois (neste último exemplo) é ambíguo, significando, na Premissa maior, “tomados distintamente”; na menor, “tomados conjuntamente”: e assim para o resto.
Para essa categoria pode ser referida a Falácia comum de superavaliar (over-rating), onde cada premissa de um argumento é somente provável, a probabilidade da conclusão; a qual, nesse caso, é menor que a menos provável das premissas.1 Pois, suponha que a probabilidade de uma dessas seja de 6/10, e da outra 7/10 (cada uma mais provável [do que não]) a probabilidade da conclusão será de somente 42/100 ou um pouco mais de 2/5; o que é menos do que uma chance igual. Esta Falácia pode ser mais facilmente expressa como uma condicional; uma forma na qual qualquer Falácia de Termo médio ambíguo pode ser facilmente expressa. Por exemplo, “Se é [215]mais provável [do que não] que essas premissas sejam verdadeiras; (ou seja, que ambas sejam verdadeiras) é mais provável [do que não] que a conclusão seja verdadeira: mas é mais provável [do que não] que as premissas sejam verdadeiras: (ou seja, que cada uma delas sejam assim) portanto, é mais provável [do que não] que a conclusão seja verdadeira.” Aqui, um termo no antecedente, a saber - “que as premissas são mais prováveis de serem verdadeiras [do que não]” - é tomado conjuntamente na Maior, e dividido na menor.
Para a mesma classe nós podemos referir a Falácia pela qual os homens algumas vezes foram levados a admitir, ou pretenderam admitir, a doutrina da Necessidade; a saber, “ele quem necessariamente vai ou permanece (a saber, na realidade, ‘quem necessariamente vai, ou quem necessariamente permanece’) não é um agente livre; você precisa necessariamente ir ou permanecer (ou seja, ‘você precisa necessariamente escolher a alternativa’), portanto, você não é um agente livre”. Tal também é a Falácia que opera na maioria dos aventureiros em loterias; por exemplo, “o ganho de um prêmio alto não é ocorrência incomum; e o que não é ocorrência incomum pode razoavelmente ser esperado; portanto, o ganho de um prêmio alto pode razoavelmente ser esperado”; a Conclusão, quando aplicado ao indivíduo (como na prática é), precisa ser entendida no sentido de “razoavelmente esperado por um certo indivíduo”; portanto, para que a Premissa maior seja verdadeira, o Termo médio precisa ser entendido significar “nenhuma ocorrência incomum para alguma pessoa particular”; onde, para a Menor (a qual foi colocada primeira) ser verdadeira, você precisa entendê-la como “nenhuma ocorrência incomum para alguém ou outro”; e desse modo você terá a Falácia da Composição.
Não há Falácia mais comum, ou mais provável de enganar, do que a que agora está diante de nós. A forma na qual ela é mais comumente empregada é, estabelecer alguma verdade separadamente, relativa a cada membro único de uma certa classe, e [216]daí inferir o mesmo para o todo coletivamente. Desse modo, alguns infiéis laboraram para provar, relativo a algum dos milagres de nosso Senhor, que ele poderia ter sido resultado de uma conjectura acidental das circunstâncias naturais; em seguida, eles tentaram provar alguma coisa relativo a outro; e assim por diante; e daí inferir que todos eles, ocorrendo como uma série, poderiam ter sido assim. Eles poderiam argumentar, de maneira semelhante, que, por que não é muito improvável que alguém possa tirar seis em qualquer um de cem lances, portanto, não é mais improvável que alguém possa tirar seis uma centena de vezes contínua.
Falácia do Taumatrópio. Frequentemente ocorrerá que quando dois objetos são incompatíveis, embora qualquer um deles, separadamente, possa ser alcançado, a incompatibilidade é disfarçada por uma transição rápida e frequente de um ao outro, alternadamente. Você pode provar que 100l. obteria este objeto; em seguida, que isso obteria aquilo: e então, você recorre ao primeiro; e de volta: até que, por fim, uma noção é gerada da possibilidade de obter os dois por esses 100l. “Dois objetos distintos podem, ao serem habilmente apresentados, de novo e de novo, em rápida sucessão, à mente de um leitor apressado, ser associados em conjunto em seus pensamentos, como a serem concebidos capazes, quando de fato eles não estão, de estarem realmente combinados na prática. A crença falaciosa desse modo induzida comporta uma semelhança impressionante com a ilusão de ótica efetuada por aquele brinquedo engenhoso e filosófico chamado de Taumatrópio; no qual dois objetos pintados em lados oposto de um cartão, - por exemplo, um homem e um cavalo, - um pássaro e uma gaiola, são, através de um movimento rotatório rápido, arranjados para impressionarem o olho em combinação, de modo a formarem uma imagem, de um homem sobre as costas do cavalo, do pássaro na gaiola, etc. Tão logo ao cartão seja permitido permanecer em repouso, as [217]figuras, é claro, aparecem como elas realmente são, separadas e em lados opostos. Uma ilusão mental estritamente análoga a essa é produzida, quando, através de rápida e repetida transição de um assunto a outro, alternadamente, a mente é iludida em uma ideia de combinação real de coisas que são realmente incompatíveis. A parte principal da defesa, na qual vários autores têm avançado, em favor do sistema de Colônias Penais, consiste, na verdade, em um tipo de Taumatrópio intelectual. A prosperidade da Colônia, e a repressão do crime, são, através de um tipo de rotação rápida, apresentados à mente como combinados em uma única imagem. Um grau muito moderado de calma e atenção fixa logo mostra que os dois objetos estão pintados em lados opostos do cartão.”2
Ambiguidade da palavra “Tudo (All)”. A Falácia da Divisão pode ser considerada como dependendo da ambiguidade da palavra “tudo (all)”; a qual pode facilmente ser dissipada pela substituição dela pelas palavras “cada (each)” ou “cada/todos (every)”, onde essas forem suas significações. Por exemplo, “todas essas árvores fazem uma sombra espessa” é ambíguo; significando, ou que “cada (every) uma delas”, ou “todas (all) juntas”.
Essa é uma Falácia a qual os homens estão extremamente aptos a enganarem a eles mesmos: pois, quando uma multitude de particulares é apresentada à mente, muitos são muito fracos ou indolentes para se contrair uma visão compreensiva deles. Mas limite a atenção a eles em cada ponto singular, em turnos e, em seguida, decida, infira, e aja de acordo. Por exemplo, o perdulário imprudente, considerando que ele pode permitir-se isso, ou aquilo, ou a outra despesa, esquece-se de que todas elas juntas podem arruiná-lo.
Para a mesma categoria pode ser reduzida aquele raciocínio falacioso pelo qual os homens justificam ele mesmos, perante sua própria consciência [218]e outros, por causa da negligência daqueles deveres indefinidos, os quais, embora indispensáveis, e portanto, não deixados à nossa escolha se nós os praticamos ou não, são deixados à nossa discrição quanto ao modo, e as ocasiões particulares de praticá-los. Por exemplo, “eu não estou obrigado a contribuir para esta caridade em particular; nem para aquela; nem para a outra”: a conclusão prática que eles extraem é, que toda caridade pode ser assim dispensada.
Como os homens estão aptos a se esquecerem de que quaisquer duas circunstâncias (não naturalmente conectadas) devem ser mais raramente encontradas em combinação do que separadas, embora elas não sejam completamente incompatíveis; assim, eles também estão aptos a imaginarem, após descobrirem que eles raramente estão combinados, que há uma incompatibilidade. Por exemplo, se as chances são de dez para um contra um homem possuindo grandes poderes de raciocínio, e de dez para um contra o gosto esquisito, as chances contra a combinação das duas (supondo-as nem conectadas, nem opostas) serão de cem para um. Muitos, portanto, após as descobrirem tão raramente unidas, inferirão que elas são incompatíveis em certa medida; Falácia que pode ser facilmente exposta na forma do Termo médio não distribuído: “qualidades hostis uma a outra estão raramente combinadas; excelência nos poderes de raciocínio e no gosto são raramente combinadas; portanto, elas são qualidades hostis uma a outra.”
ORIGINAL:
WHATELY, R. Elements of Logic. New Edition. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p.213-218. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/213/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 Ver abaixo, §14. Algumas pessoas professam desprezo por todos esses cálculos, partindo do fundamento de que nós não podemos estar bem certos do grau exato de probabilidade de cada premissa. E isso é verdadeiro; mas essa incerteza inevitável não é razão para que nós não nos guardemos contra uma fonte adicional de incerteza que pode ser evitada. É alguma vantagem não ter mais dúvidas quanto ao grau de probabilidade da Conclusão, do que nós temos com respeito àquele das premissas. E de fato há Escritórios, mantidos por pessoas cujo negócio, no qual cálculos dessa natureza são feitos, está na aquisição de reversões contingentes, dependendo, algumas vezes, de uma grande variedade de riscos, que somente conjecturalmente podem ser estimados; e em Seguros, não somente contra riscos ordinários (os cálculos dos quais são extraídos de tábuas Estatísticas), mas também contra cada variedade e grau de risco extraordinário; sobre a quantidade exata do qual, ninguém confidentemente pode pronunciar-se. Mas os cálculos são baseados na melhor estimativa que pode ser formada.
2 Remarks on Transportation, pp. 25, 26.
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