sexta-feira, 14 de abril de 2023

O Manifesto Onlife - Comentário ao Manifesto Onlife

O Manifesto Onlife: Sendo Humano em uma Era Hiperconectada


O Manifesto Onlife


Parte I Comentários


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[35]Comentário ao Manifesto Onlife


por Judith Simon


Na seção 2.1., o manifesto corretamente enfatiza as ligações entre conhecimento, poder e controle – um relacionamento que ocupou filósofos de Bacon todo o caminho até Michael Foucault. Historicamente, igrejas e, posteriormente, estados têm sido por muito tempo os principais agentes informacionais, coletando dados sobre os seus membros e cidadãos desde a data de nascimento até as mortes deles. Naturalmente, essa coleta de informação nunca parou nas fronteiras nacionais, uma vez que conhecimento sobre os inimigos tem sido exatamente tão essencial como um meio de se permanecer no controle.

Hoje em dia, como o Manifesto corretamente observa, novos agentes informacionais, novos jogadores poderosos surgiram no eixo conhecimento/poder: grandes empresas de internet, tais como Facebook, Google ou Amazon, assim como as mais ocultas controlando a espinhal dorsal do tráfico na internet. Esses atores ocupam nós enormemente poderosos e funcionam como “pontos de passagem obrigatórios” (Callon 1986), tanto em questões epistêmicas quanto em econômicas e políticas.

O Manifesto parece sugerir que nós entramos em um mundo pós-vestfaliano, no qual os nações-estados-nação parecem ter perdido muito do seu poder. Na superfície, essa observação quase parece senso comum: não apenas muitos desafios que nós encaramos requerem esforço multinacional – pense no protocolo de Kyoto como uma tentativa de lidar com a mudança climática. Nós também temos várias autoridades transnacionais que colocam restrições sobre a soberania dos estados-nação.

Apesar disso, revelações recentes em torno de Prism, Tempora e XKeystore, ou seja, a exposição de vigilância massiva através dos serviços secretos americano e britânico, parece questionar esse declínio de poder do estado-nação. Alguém pode dizer que os estados lutam as suas batalhas finais. Contudo, parece muito mais plausível reconhecer que os antigos e novos grandes jogadores (big players) no eixo poder/conhecimento formam alianças e trabalham agradavelmente juntos. É como tem sido: o poderoso constantemente recruta aliados para aumentar o seu poder: o que tinha sido perseguido através de casamento nos tempos [36]de reinos, agora simplesmente tem um novo rosto: contratos oficiais e acordos ocultos entre estados-nação e companhias multinacionais de internet são usados para consolidar a supremacia daqueles dominando o jogo do poder.

Contudo, culpar os agentes poderosos sozinhos, meramente demandando novas leis e regulações, falhará em oferecer um remédio para esses jogos de poder. Em vez disso, nós temos de entender o poder como um efeito de rede, poder como um resultado e uma causa de ação distribuída – e, portanto, aceitar responsabilidade parcial pelo estado de coisas nós mesmos. Como Evgeny Morozov aptamente colocou, nós – cada um e todos nós – também temos de nos confrontar com as tentações do consumismo de informação. Enquanto nós voluntariamente trocarmos os nossos dados por produtos gratuitos ou baratos, regulações não resolverão os problemas: nós conspiramos no jogo nós mesmos. Morozov (2013) escreve: “Políticos europeus podem tentar impor quaisquer leis que eles desejarem, mas, enquanto o espírito consumista continuar supremo e as pessoas não tiverem nenhuma explicação ética clara quanto a porque elas não deveriam se beneficiar da troca dos seus dados, o problema persistirá.”

Em nosso mundo hiperconectado, as alianças entre os poderosos dependem criticamente da conformidade das massas. Contudo, também nunca foi tão fácil deixar de jogar, mudar o jogo através de ação coletiva distribuída. Em princípio, nós temos acesso a uma ampla variedade de produtos e serviços, e nós podemos e devemos ser mais cuidadosos em nossas escolhas. Nós temos de entender o relacionamento entre comprar e ser vendido e agir de acordo. Como consumidores, nós temos de reconhecer que, uma vez que nós paramos de pagar por produtos e serviços, nós simplesmente estamos pagando com uma moeda diferente – os nossos dados. Nós também temos de agir como cidadãos. Nós temos de mobilizar nossos políticos para se erguerem em nossa defesa, para se oporem aos ataques contínuos à nossa privacidade e para cumprirem com suas responsabilidades como nossos representantes na preparação e aplicação de leis e regulações para assegurarem a nossa liberdade.


Acesso Aberto Este capítulo é distribuído sobre os termos da Licença Creative Commons Attribution Noncommercial, a qual permite qualquer uso não-comercial, distribuição, e reprodução em qualquer meio, provido que o(s) autor(es) original(is) e a fonte sejam creditados.


Referências


Callon, M. 1986. Some elements of a sociology of translation: Domestication of the scallops and the fishermen of St Brieuc Bay. In Power, action and belief: A new sociology of knowledge, ed. J. Law, 196–233. London: Routledge & Kegan Paul.

Morozov, E. 2013. The price of hypocrisy. Frankfurter Allgemeine Zeitung. http://www.faz.net/aktuell/feuilleton/debatten/ueberwachung/information-consumerism-the-price-of-hypocrisy-12292374.html. Acessado em 05 de agosto de 2013.


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ORIGINAL:

SIMON, J. Comments to the Onlife Manifesto. In: FLORIDI, L. (Editor). The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected Era. Spinger, 2015 (SpringerOpen). p.35-36. Disponível em: <https://www.springer.com/gp/book/9783319040929>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC 3.0

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