O Manifesto Onlife: Sendo Humano em uma Era Hiperconectada
[7]O Manifesto Onlife
por A Iniciativa Onlife
Prefácio O desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação (TCIs) e a incorporação delas pela sociedade afetou radicalmente a condição humana, na medida em que elas modificam nossas relações com nós mesmos, com outros e com o mundo. A difusão sempre crescente das TCIs mexe com estruturas de referência estabelecidas através das seguintes transformações1:
i. o ofuscamento da distinção entre realidade e virtualidade;
ii. o ofuscamento das distinções entre homem, máquina e natureza;
iii. a inversão da escassez de informação à abundância de informação; e
iv. a mudança da primazia de entidades para a primazia de interações.
O mundo é apreendido pelas mentes humanas através de conceitos: percepção é necessariamente mediada por conceitos, como se eles fossem as interfaces através das quais a realidade é experienciada e interpretada. Conceitos fornecem um entendimento das realidades circundantes e meios pelos quais apreendê-las. Contudo, a atual caixa de ferramentas conceituais não é equipada para endereçar os novos desafios relacionados à TCI e leva a projeções negativas sobre o futuro: nós tememos e rejeitamos o que nós não conseguimos fazer sentido de ou dar sentido a.
A fim de reconhecer semelhante inadequação e explorar conceitualizações alternativas, um grupo de 15 estudiosos em antropologia, filosofia, ciência política, psicologia e sociologia fomentaram a Iniciativa Onlife, um exercício de pensamento coletivo para explorar as consequências relevantes dessas mudanças para a política. Este exercício de reengenharia conceitual busca inspirar reflexão sobre o que acontece a nós e repensar o futuro com confiança maior.
Este Manifesto pretende lançar um debate aberto sobre os impactos da era computacional sobre os espaços públicos, política e expectativas sociais relativamente à elaboração de políticas na Agenda Digital para a missão da Europa. Mais amplamente, este Manifesto ambiciona iniciar [8]uma reflexão sobre o modo pelo qual um mundo hiperconectado requer um repensamento das estruturas referenciais sobre as quais políticas são construídas. Isto é apenas o começo…
1 Fim de Jogo para a Modernidade?
Ideias que entravam a habilidade da elaboração de políticas para enfrentar os desafios de uma era hiperconectada
§1.1 Filosofia e literatura há muito desafiaram e revisaram algumas das premissas fundamentais da modernidade. Contudo, os conceitos políticos, sociais, legais, científicos e econômicos, bem como as narrativas relacionadas subjazendo à elaboração de políticas, estão profundamente ancoradas nas premissas questionáveis da modernidade. A modernidade foi de fato – para alguns ou muitos – uma jornada agradável e gerou múltiplas e grandes frutos em todas as caminhadas da vida. Ela também teve suas desvantagens. Independentemente desses debates, é compreensão nossa que as restrições e disponibilidades da era computacional desafiam profundamente algumas das premissas da modernidade.
§1.2 A modernidade foi a época de uma relação tensa entre os homens e a natureza, caracterizada pela busca humana para descobrir os segredos da natureza, enquanto, ao mesmo tempo, considerando a natureza tão passiva quanto um reservatório sem fim. Progresso era a utopia central, unida à busca por uma postura2 onipotente e onisciente. Desenvolvimentos no conhecimento científico (termodinâmica, eletromagnetismo, química, fisiologia…) trouxeram uma lista quase sem fim de novos artefatos em todos os setores da vida. Apesar da conexão profunda entre artefatos e natureza, uma alegada divisão entre artefatos tecnológicos e natureza continua a ser presumida. O desenvolvimento e desdobramento das TCIs contribuíram enormemente para o ofuscamento dessa distinção, na medida em que continuar a usá-la, como se ainda fosse operacional, é ilusória e torna-se improdutiva.
§1.3 Racionalidade e razão desencarnada eram os atributos especificamente modernos dos homens, fazendo-os distintos dos animais. Como um resultado, ética era um assunto de sujeitos autônomos desencarnados e racionais, em vez de uma questão de seres sociais. E a responsabilidade pelos efeitos provocados pelos artefatos tecnológicos era atribuída ao designer, produtor, revendedor ou usuário deles. TCIs desafiam essas premissas ao requererem noções de responsabilidade distribuída.
§1.4 Finamente, visões de mundo modernas e organizações políticas eram impregnadas por metáforas mecânicas: forças, causação e, acima de tudo, controle tinham uma importância primária. Padrões hierárquicos eram modelos-chave para a ordem social. Organizações políticas eram representadas por Estados westfalianos, exercendo poderes soberanos no interior de seus territórios. Dentro de tais estados, considerava-se que os poderes legislativo, executivo e judiciários equilibravam uns aos outros e protegiam contra o risco de abuso de poder. Ao possibilitar sistemas multiagente e abrir novas possibilidades para democracia direta, TCIs desestabilizam e requerem o repensamento das visões de mundo e das metáforas subjazendo as estruturas políticas modernas.
[9]2 No Recanto do Frankenstein e do Big Brother
Medos e riscos em uma era hiperconectada
§ 2.1 É digno de nota que a dúvida cartesiana, assim como suspeitas relacionadas sobre o que é percebido através dos sentidos humanos, levaram a uma confiança sempre crescente no controle em todas as suas formas. Na modernidade, conhecimento e poder estavam profundamente unidos ao estabelecimento e manutenção do controle. Controle é igualmente buscado e ressentido. Medos e riscos também podem ser percebidos em termos de controle: muito dele – à custa da liberdade – ou falta dele – à custa da segurança e sustentabilidade. Paradoxalmente, nestes tempos de crises econômicas, financeiras, políticas e ambientais, é difícil identificar que tem controle do que, quando e no interior de que escopo. Responsabilidades e obrigações são difíceis de alocar claramente e endossar inequivocamente. Responsabilidades emaranhadas e distribuídas podem ser entendidas erroneamente como uma licença para agir irresponsavelmente; essas condições podem tentar demais líderes governamentais e de negócios a postergar decisões difíceis e, desse modo, levar à perda de confiança.
§2.2 A experiência de liberdade, igualdade e alteridade em esferas públicas torna-se problemática num contexto de identidades cada vez mais mediadas e interações calculadas tais como criação de perfis, publicidade direcionada ou discriminação de preços. A qualidade das esferas públicas é enfraquecida demais pelo crescente controle social através de vigilância (souveillance) lateral ou mútua, a qual não é necessariamente melhor que a vigilância do “big brother”, como o crescente ciberbullying mostra.
§2.3 A abundância de informação também pode resultar em sobrecarga cognitiva, distração e amnésia (o presente esquecível). Novas formas de vulnerabilidades sistêmicas surgem a partir da confiança crescente em estruturas informacionais. Jogos de poder nas esferas online podem levar a consequências indesejáveis, incluindo o desempoderamento de pessoas, através da manipulação de dados. A repartição de poder e responsabilidade entre as autoridades públicas, agentes corporativos, e cidadãos deveria ser balanceada mais justamente.
3 O Dualismo está Morto! Vida Longa às Dualidades!
Compreendendo os desafios
§3.1 Por toda parte de nosso esforço coletivo, uma questão continuava retornando ao palco frontal: “Que significa ser humano numa era hiperconectada?” Esta questão fundacional não pode receber uma única resposta definitiva, mas enfrentá-la provou-se útil para abordar os desafios de nossos tempos. Nos pensamos que lidar com esses desafios pode ser feito melhor ao privilegiar-se pares duplos mais que dicotomias de oposição.
[10]3.1 Controle e Complexidade
§3.2 No mundo onlife, os artefatos cessaram de ser meras máquinas simplesmente operando de acordo com instruções humanas. Eles podem mudar de estado de modos espontâneos e podem assim fazer ao escavarem a riqueza exponencialmente crescente de dados, tornada cada vez mais disponível, acessível e processável por meio das TCIs sempre mais difusas e em rápido desenvolvimento. Dados são registrados, armazenados e supridos de volta em todas as formas de máquinas, aplicações e equipamentos de novas maneiras, criando oportunidades sem fim para ambientes personalizados e adaptativos. Filtros de muitos tipos continuam a erodir a ilusão de percepção imparcial, objetiva da realidade, enquanto, ao mesmo tempo, eles abrem novos espaços para interações humanas e novas práticas de conhecimento.
§3.3 Contudo, é precisamente no momento em que uma postura de onipotência/onisciência podia ser percebida como atingível que se torna óbvio que é uma quimera, ou ao menos um alvo sempre em movimento. O fato de que o ambiente é permeado por fluxos de informação e processos não o torna em um ambiente onipotente/onisciente. Em vez disso, ele pergunta por novas formas de pensamento e ação em múltiplos níveis, a fim de endereçar questões tais como posse, responsabilidade, privacidade e autodeterminação.
§3.4 Até certo ponto, complexidade pode ser vista como outro nome para contingência. Longe de desistir da responsabilidade em sistemas complexos, nós acreditamos que há uma necessidade de reavaliar noções recebidas de responsabilidade individual e coletiva. A complexidade mesma e emaranhamento de artefatos e seres humanos convidam-nos a repensar a noção de responsabilidade em tais sistemas sociotécnicos distribuídos.
§3.5 A clássica distinção de Friedrich Hayek entre kosmos e taxis, isto é, evolução vs. construção, desenha uma linha entre ordens espontâneas (supostamente naturais) e o planejamento (tecnológico e político) humano. Agora que artefatos tomados globalmente chegaram a escapar ao controle humano, mesmo embora eles originaram-se em mão humanas, metáforas biológicas e evolucionárias podem ser aplicadas a eles. A consequente perda de controle não é necessariamente dramática. Tentativas de recuperar o controle de uma maneira irreflexiva e compulsiva são um desafio ilusório e estão destinadas a falhar. Consequentemente, a complexidade das interações e densidade dos fluxos de informações não são mais redutíveis à taxis sozinha. Portanto, intervenções de diferentes agentes nesses sistemas sociotécnicos emergentes requerem aprender a distinguir o que deve ser considerado como semelhante ao kosmos, isto é, como um ambiente dado seguindo seu padrão evolucionários, e o que deve ser considerado como semelhante a taxis, isto é, no alcance interior de uma construção respondendo efetivamente às intenções e / ou aos propósitos humanos.
3.2 Público e Privado
§3.6 A distinção entre público e privado tem sido frequentemente compreendida em termos opostos e espaciais: a casa versus a agora, a companhia privada versus a instituição pública, a coleção privada versus a biblioteca pública, e assim por diante. O desdobramento das TCIs intensificou o ofuscamento da distinção quando expressa em termos dualísticos e espaciais. A Internet é uma importante extensão do espaço [11]público, mesmo quando operada e possuída por atores privados. As noções de públicos fragmentados, de terceiros espaços, de comuns e do foco aumentado no uso à custa da propriedade; todos desafiam nosso entendimento corrente da distinção público-privada.
§3.7 Porém, nós consideramos a distinção entre privado e público ser mais relevantes que nunca. Hoje, privacidade é associada com intimidade, autonomia e abrigo do olhar público, enquanto que público é visto como o reino da exposição, transparência e prestação de contas. Isso pode sugerir que dever e controle estão no lado do público e liberdade está do lado do privado. Esta visão nos cega para as deficiências do privado e para as disponibilidades do público, onde as últimas também são constituintes de uma boa vida.
§3.8 Nós acreditamos que todo mundo necessita de ambos, abrigo do olhar público e exposição. A esfera pública deve alimentar uma variedade de interações e compromissos que incorporam uma opacidade empoderada do eu, a necessidade de autoexpressão, a realização da identidade, a oportunidade de reinventar a si mesmo, assim como a generosidade do esquecimento deliberado.
4 Propostas para Políticas de melhor Emprego
Mudanças Conceituais com Consequências relevante para a Política para uma Boa Governança Onlife
4.1 O Eu Relacional
§4.1 É uma dos paradoxos da modernidade que ela ofereça duas explicações contraditórias sobre o que o eu é. Por um lado, no reino da política, o eu é considerado livre, e “livre” é entendido frequentemente como sendo autônomo, desencarnado, racional, bem informado e desconectado: um eu atomístico e individual. Por outro lado, em termos científicos, o eu é um objeto de investigação em meio a outros e, a esse respeito, é considerado ser completamente analisável e previsível. Ao focar-se nas causas, incentivos ou desincentivos numa perspective instrumental, essa forma de conhecimento frequentemente visa influenciar e controlar comportamentos, nos níveis individual e coletivo. Por isso, há uma constante oscilação entre uma representação política do si como racional, desencarnado, autônomo e desconectado, por um lado, e uma representação científica do si, como heterônomo, e resultante de contextos multifatoriais completamente explicáveis pela variedade de disciplinas científicas (social, natural e tecnológica).
§4.2 Nós acreditamos que é tempo de afirmar, em termos políticos, que nossos eus são ambos livres e sociais, isto é, que liberdade não ocorre em um vácuo, mas num espaço de disponibilidades e limites: junto a liberdade, nossos eus derivam de e aspiram a relações e interações com outros eus, artefatos tecnológicos e o resto da natureza. Assim sendo, seres humanos são “livres com elasticidade”, para tomar emprestado [12]uma noção econômica. A natureza contextual da liberdade humana explica igualmente o caráter social da existência humana, e a abertura dos comportamentos humanos que permanece até certo ponto teimosamente imprevisível. Dar forma a políticas na missão da experiência Onlife significa resistir à suposição de um eu racional e desencarnado e, em vez disso, estabelecer uma concepção política do eu como eu livre inerentemente relacional.
4.2 Tornando-se uma Sociedade Digitalmente Letrada
§4.3 A utopia da onisciência e onipotência frequentemente implica numa atitude instrumental em relação aos outros e numa compulsão para transgredir fronteiras e limites. Essas duas atitudes são obstáculos sérios ao pensar e experienciar as esferas públicas na forma da pluralidade, onde outros não podem ser reduzidos a instrumentos e onde autodomínio e respeito são requeridos. Políticas precisam ser construídas sobre investigação crítica de como assuntos humanos e estruturas políticas são profundamente mediadas por tecnologias. A responsabilidade de endossar em uma realidade hiperconectada requer o reconhecimento de como nossas ações, percepções, moralidade, corporalidade mesma estão entrelaçadas com tecnologias em geral e TCIs em particular. O desenvolvimento de uma relação crítica com tecnologias não deve visar encontrar um lugar transcendental fora dessas mediações, mas, ao invés disso, um entendimento imanente de como tecnologias nos dão forma como humanos, enquanto que nós humanos criticamente damos formas a tecnologias.
§4.4 Nós achamos útil pensar na reavaliação dessas noções recebidas e desenvolver normas formas de prática e interações in situ na frase seguinte: “construindo a jangada enquanto boiando.”
4.3 Cuidando de Nossas Capacidades de Atenção
§4.5 A abundância de informação, incluindo desenvolvimentos em “big data”, provoca mudanças maiores em termos práticos e conceituais. Noções antigas de racionalidade presumiam que informação duramente conquistada acumulada e conhecimento levariam a um melhor entendimento e por esse meio controle. O ideal enciclopédico permanece por aí, e o foco permanece primariamente na adoção de capacidades cognitivas através da expansão delas na esperança de seguir uma infosfera sempre crescente. Mas essa expansão sem fim já está tornando-se menos significante e menos eficiente para descrever nossas experiências diárias.
§4.6 Nós acreditamos que sociedades precisam proteger, estimar e nutrir as capacidades de atenção dos seres humanos. Isso não significa desistir da busca por melhorias: que sempre devem ser úteis. Em invés disso, nós afirmamos que capacidades de atenção são um ativo raro, precioso e finito. Na economia digital, atenção é tratada como uma mercadoria a ser trocada no mercado, ou canalizada em processos de trabalho. Mas essa abordagem instrumental da atenção negligencia as dimensões políticas e sociais dela, isto é, o fato de que a habilidade e o direito de focar nossa própria atenção é uma condição necessária e crítica para autonomia, responsabilidade, reflexividade, pluralidade, presença [13]engajada e um senso de significado. Na mesma medida que órgãos não devem ser trocadas no mercado, nossas capacidades de atenção merecem tratamento protetor. O respeito pela atenção deve estar unido aos direitos fundamentais como privacidade e integridade corporal, visto que capacidade de atenção é um elemento inerente do eu relacional devido o papel que ela desempenha no desenvolvimento da linguagem, empatia e colaboração. Nós acreditamos que, em adição à oferta de escolhas informadas, as configurações padrão de nossas tecnologias deviam respeitar e proteger nossas capacidades de atenção.
§4.7 Em resumo, nós afirmamos que mais atenção coletiva deva ser concedida à atenção mesma como um atributo inerentemente humano que condiciona o florescimento das interações humanas e de capacidades para engajar-se em ações significantes na experiência onlife.
Este Manifesto é apenas um começo…
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ORIGINAL:
INICIATIVA ONLIFE. The Onlife Manifesto. In: FLORIDI, L. (Editor). The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected Era. Spinger, 2015 (SpringerOpen). p.7-13. Disponível em: <https://www.springer.com/gp/book/9783319040929>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC 3.0
1 [7]Essas transformações são descritas completamente no Documento de Contexto da Iniciativa Onlife disponível em https://ec.europa.eu/digital-agenda/en/onlife-initiative.
2 [8]Por postura nós queremos dizer a noção dupla de posição e posar, ou, em outras palavras, de ocupar uma posição e ser visto ocupando-a.
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