terça-feira, 11 de abril de 2023

O Manifesto Onlife - Comentários ao Manifesto Onlife

O Manifesto Onlife: Sendo Humano em uma Era Hiperconectada


O Manifesto Onlife


Parte I Comentários


Comentário anterior


[33]Comentários ao Manifesto Onlife


por Ugo Pagallo


§0 Eu amo o “Manifesto Onlife,” embora eu ainda tenha alguns problemas com ele. É claro, isso é compreensível, uma vez que outros manifestos tiveram, digamos, apenas dois autores, tal como aquele de Friedrich Engels e Karl Marx, ao passo que o nosso manifesto tem mais do que doze mães e pais. Para ir direto ao ponto, permita-me insistir nos meus dois problemas.

§1.1 Primeiro, é tudo sobre o nosso entendimento do passado e, consequentemente, da noção mesma de “modernidade.” Eu concordo com que algumas suposições da modernidade estão simplesmente mortas e, contudo, pensando sobre a obra de Spinoza, ou de Leibniz, em vez da de Descartes e alguns proponentes do Iluminismo, eu diria “A modernidade está morta” e, não obstante, longa vida à modernidade e alguns dos seus frutos veneráveis”! Em termos heideggerianos, nós deveríamos conceber o passado como uma questão de Gewesenheit, em vez de Vergangenheit: Zuhanden, em de passé depassé (Heidegger 1996). Essa maneira diferente de compreender o que se passou reverbera em como nós pretendemos tratar e projetar o futuro, a saber, o segundo dos meus problemas: “este Manifesto tem por objetivo iniciar uma reflexão sobre a maneira pela qual o mundo hiperconectado demanda o repensamento das estruturas referenciais sobre as quais as políticas são construídas” (ver o prefácio).

§4.6 Enquanto a conclusão do nosso manifesto menciona a relevância de “configurações padrão e outros aspectos projetados de nossas tecnologias,” para “respeitar e proteger as nossas capacidades atencionais,” nós deveríamos insistir adicionalmente neste ponto, assim como no nosso débito com a Modernidade e, consequentemente, avaliar o que é específico à dimensão normativa do nosso exercício de reengenharia conceitual. A modernidade legou-nos a ideia mesma de governo limitado e responsável, muito como a noção de governo constitucional da lei. Todavia, através das décadas passadas, um número cada vez maior de questões têm se tornado sistemáticas e os poderes constitucionais dos governos nacionais têm sido combinados – e mesmo substituídos por, em um tipo de Aufhebung hegeliana – em uma rede de competências e instituições conjuradas pela ideia de governança, boa governança e governança suficientemente boa. Esse tem sido um tópico intenso na ONU desde os últimos anos de 1990 e, equivalentemente, é por isso que eu analiso muitos desses desafios em meu capítulo neste volume: de fato, o tempo está maduro para tratar do que é específico à [34]boa governança onlife, a saber, dos processos evolucionários de ordens espontâneas e sistemas multiagentes que:


  1. São dependentes das TCIs e ubíquos, quer dizer, transnacionais; e,

  2. Em última instância, não podem ser reduzidos ao tradicional planejamento político, ou seja, ao lado taxis do direito.


Em adição às usuais ferramentas rígidas e flexíveis de governança, tais como regras nacionais, tratados internacionais ou códigos de conduta, eu estou convencido de que atenção particular deveria ser atraída para os atores de governança sub specie designers de jogos: a governança de complexos sistemas multiagentes interagindo “onlife” cada vez mais depende das tecnicalidades de mecanismos de design (Pagallo 2012a, b).


Acesso Aberto Este capítulo é distribuído sobre os termos da Licença Creative Commons Attribution Noncommercial, a qual permite qualquer uso não-comercial, distribuição, e reprodução em qualquer meio, provido que o(s) autor(es) original(is) e a fonte sejam creditados.


Referências


Heidegger, M. 1996. Being and time. Trad. Joan Stambaugh. Albany: State University of New York Press.

Pagallo, U. 2012a. Complex systems, simple laws: A normative approach to ICTs and the internet. In Politiques publiques, systèmes complexes, ed. Danièle Bourcier, Romain Boulet e Pierre Mazzega, 93–105. Paris: Hermann.

Pagallo, U. 2012b. Cracking down on autonomy: Three challenges to design in IT law. Ethics and Information Technology 14 (4): 319–328.


Próximo comentário


ORIGINAL:

PAGALO, U. Comments to the Onlife Manifesto. In: FLORIDI, L. (Editor). The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected Era. Spinger, 2015 (SpringerOpen). p.33-34. Disponível em: <https://www.springer.com/gp/book/9783319040929>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC 3.0

Nenhum comentário:

Postar um comentário