O Manifesto Onlife: Sendo Humano em uma Era Hiperconectada
Parte I Comentários
[27]O Dualismo está Morto. Longa Vida à Pluralidade (em vez da Dualidade)
por Mireille Hildebrandt
O que significa ser humano em uma época computacional? O Manifesto corretamente sugere que, embora uma semelhante questão não possa gerar respostas finais, ela deve ser endereçada para se chegar a um entendimento com a experiência Onlife.
O Manifesto formula que nós preferimos pares duais (dual pairs) a dicotomias oposicionais, explicando isso em termos dos pares duais do controle e da complexidade, taxis e kosmos, e do público e do privado. Isso é de particular interesse porque o conceito de pares duais tem um significado muito específico na matemática e é relevante para as técnicas de aprendizagem de máquina, as quais estão no coração da infraestrutura computacional emergente.
Ao passo que uma dicotomia tem sido definida como ‘um conjunto de duas alternativas mutuamente exclusivas e conjuntamente exaustivas’,1 um par dual tem sido definido como ‘um par de espaços vetoriais com uma forma bilinear associada’.2 Embora seria interessante investigar o que isso significa em relação a controle, complexidade, taxis, kosmos, público e privado, eu prefereria investigar como nós podemos prosseguir a partir do pensamento em termos de dicotomias e se isso, de qualquer maneira, requer o pensamento em termos de pares.
O primeiro problema com uma dicotomia é que ela requer definições mutuamente exclusivas, o que pressume que ela ajude a dividir a realidade em pedaços discretos e separados. Embora técnicas computacionais de fato requerem tal digitalização, a redução do fluxo analógico da vida a pedaços (bites) digitalizáveis tem suas próprias desvantagens. Hayles (1999) descreveu as falhas e os custos dos cibernática inicial em seu How we became posthuman, focando-se na tentativa de desincorporar e desmaterializar a informação, abstraindo do conteúdo e da semântica para obter uma visão melhor do seu processamento e sintaxe.
[28]Embora nós não possamos negar que essa tentativa produziu resultados sem precedentes, nós também temos de reconhecer que, em algum ponto, a informação processada tem de ser reintegrada no que Stiegler (com todo respeito a Husserl) chamou de nossa retenção primária (memória individual), para adquirir sentido e ser parte do nosso mundo da vida (lifeworld) (Stiegler 2013).
Portanto, é importante notar que a era computacional está enraizada no tipo mais extremo de pensamento dicotômico: aquele dos bits discretos, legíveis por máquinas. Aqui, ser humano significa lembrar que a vida é contínua, plural e experienciada, em vez de calculada.
O segundo problema com uma dicotomia é que ela assume alternativas conjuntamente exaustivas, o que implica que os pares formando a dicotomia cobrem tudo o que há para ser dito sobre o que quer que eles visem a descrever. Em seu essencial ‘The duailty of risk assessment’, Ciborra (2004) elucidou como a pressuposição oculta de que, por exemplo, uma análise risco exaustivamente descreva uma realidade em desenvolvimento coloca em perigo quem quer que dependa dessa análise para permaneceer seguro.
Redes elétricas inteligentes (Smart Grids), policiamento, tratamento médico ou a indústria alimentícia nunca deveriam assumir que os derivados de dados que infomam as suas análises de risco cobrem tudo o que é relevante. Em vez disso, para evitar o tipo de devastação que aflige o nosso sistema financeiro, nós temos de manter uma mente aberta, assumindo que os sistemas computacionais de decisão que alimentam tal infraestrutrua crítica são tão enviesados e falíveis quanto qualquer sistema inteligente necessariamente tem de ser. Aqui, ser humano significa admitir tal falibilidade como central para a fragilidade incrível da vida.
Um exemplo interessante de uma dicotomia que confunde em vez de clarificar o que ela significa para ser humano na era computacional, é o dualismo que impregna o domínio da filosofia da mente. A ideia cartesiana de uma res extensa e uma res cogitans separadas e que juntas descrevem a realidade deu origem a uma série de problemas interrelacionados de, por exemplo, responsabilidade (responsability) e responsabilização (accountability) em um mundo de causação distribuída. Para superar a confusão que resulta a partir desse tipo de dualismo, eu acredito que nós não devemos meramente nos voltar para pares duais sobrepostos em vez de mutuamente exclusivos, mas nos despedirmos completamente da ideia de que a realidade deveria necessariamente ser descrita em pares.
Se faz sentido pensar em pares ou em outros tipos de distinções, isso deveria depender do contexto e do objetivo do nosso pensamento, não de uma propensão para manter as coisas simples. Portanto, eu prefereria rearticular o título e falar em: Além das dualidades. Longa vida à pluralidade.
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[29]Referências
Ciborra, C. 2004. “Digital technologies and the duality of risk.” Digital technologies and the duality of risk. Centre for Analysis of Risk and Regulation, London School of Economics and Political Science. http://csrc.lse.ac.uk/idm/DualityOfRisk.pdf.
Hayles, N. K. 1999. How we became posthuman. Virtual bodies in cybernetics, literature, and informatics. Chicago: University of Chicago Press.
Stiegler, B., Hildebrandt M., O’Hara K., Waidner M. (eds.) 2013. Die Aufklärung in the Age of Philosophical Engineering. In The value of personal data. Digital Enlightenment Forum Yearbook 2013. Amsterdam: IOS Press 2013, p. 29–39.
ORIGINAL:
HILDEBRANDT, M. Dualism is Dead. Long Live Plurality (Instead of Duality). In: FLORIDI, L. (Editor). The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected Era. Spinger, 2015 (SpringerOpen). p.27-29. Disponível em: <https://www.springer.com/gp/book/9783319040929>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC 3.0
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