segunda-feira, 3 de abril de 2023

Perspectivas sobre o Humanismo Digital - Prefácio

Perspectivas sobre o Humanismo Digital


[v]Prefácio


por Carlo Ghezzi, Edward A. Lee, Erich Prem e Hannes Werthner


Isso é um absurdo absoluto.” Essa foi a reação da audiência, tanto de acadêmicos quanto de não acadêmicos, participando da Primeira Conferência Internacional sobre TI e Turismo em Innsbruck, em 1994. Beat Schmid (Universidade de São Galo, Suíça) falou sobre mercados eletrônicos e Larry press (UCLA, EUA) sobre agentes digitais.

Agora, apenas 28 anos depois, esse “absurdo” faz o mundo funcionar, a tecnologia da informação e os seus artefatos agem como o sistema operacional da nossa vida, e é difícil distinguir o real e o virtual. Nós não podemos imaginar um mundo sem eles, e – além de fazer o mundo funcionar – eles contribuem e continuarão a contribuir para a resolução de problemas importantes. Contudo, isso também vem com deficiências interconectadas e, em alguns casos, até coloca em questão a soberania dos estados. Outros problemas críticos são as câmaras de eco (echo chambers) e as notícias falsas (fake news), o papel questionado dos humanos na IA e tomada de decisão, as preocupações cada vez mais urgentes com privacidade e o futuro do trabalho.

É por causa dessa “face dupla” que nós demos início à iniciativa do Humanismo Digital, com uma primeira oficina (workshop) em abril de 2019, em Viena. Mais de 100 participantes da academia, do governo, da indústria e da sociedade civil participaram desta oficina animada de dois dias. Nós conversamos sobre questões técnicas, políticas, econômicas, sociais e legais, beneficiando-nos de contribuições de diferentes disciplinas tais como ciência política, direito, sociologia, história, antropologia, filosofia, economia e informática. No centro da discussão estava a relação entre ciência da computação/informática e sociedade, ou, como expresso durante a oficina, a coevolução da tecnologia da informação e da humanidade. O resultado principal foi o Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital, agora disponível em sete idiomas, o qual estabelece os princípios centrais da nossa iniciativa.

Desde então, nós temos organizados um conjunto de oficinas e painéis de discussão. Esses eventos, forçados pela pandemia a serem online, atraíram uma crescente comunidade ao redor do mundo. Adicionalmente, nós sucedemos no estabelecimento de um grupo central de intelectuais, internacionalmente reconhecidos e de disciplinas diferentes, formando um comitê de programa que conjuntamente “governa” e dirige a iniciativa do Humanismo Digital.

[vi]Nós compartilhamos da visão de que necessitamos analisar e refletir sobre a relação entre humano e máquina e, igualmente importante, influenciar o seu desenvolvimento para uma vida e sociedade melhores. A tecnologia é para as pessoas e não o contrário. Nós escolhemos o termo Humanismo Digital, o qual foi introduzido – no mundo de fala alemã – por Julian Nida-Rümelin e Nathalie Weidenfeld com o livro deles Digitaler Humanismus (Piper Verlag, 2018). Nós queremos enfatizar que os humanos deveriam estar no centro do mundo digitial. O progresso tecnológico deveria aprimorar a liberdade, a paz e o progresso humanos em harmonia com a natureza.

Hoje em dia, o espírito do humanismo deveria inspirar os desenvolvimentos da nossa sociedade, a qual é largamente dependente das tecnologias digitais. Como tal, nós distinguimos o Humanismo Digital das Humanidades Digitais, o estudo da sociedade e cultura humanas buscado através de meios digitais. Em contraste, o Humanismo Digital visa ao repensamento das nossas práticas digitais correntes, incluindo a pesquisa, o desenvolvimento e a inovação no domínio digital. Como tal, ele sustenta um objetivo positivista para a tecnologia criar progresso social em vez de apenas inovação pelo bem do crescimento econômico.

O termo humanismo, tomando-se uma perspectiva histórica, refere-se a dois movimentos bastante diferentes. O primeiro denota o período entre o meio do século XV e o fim do século XVI (Humanismo Renascentista), com uma redescoberta da antiguidade nas artes e na filosofia, e no qual, estudiosos, filósofos e artistas eram chamados de, e chamavam-se a si mesmos de, “humanistas.” A estética e a ética tornaram-se centradas em humanos em vez de no sobrenatural ou divino. A mais conhecida representação icônica do Humanismo é o Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, onde um humano incluído em um círculo é mostrado como o arquétipo dos princípios de harmonia e proporção defendidos no livro De Architectura de Vitrúvio. Um segundo período do Humanismo floresceu na época do Iluminismo (final do século XVIII), e a Revolução Francesa foi largamente inspirada pelos princípios da liberdade humana e democracia enraizados no espírio humanista daquela época. O humanismo estava associado com ideias educacionais e pedagógicas que eram focados em valores tais como dignidade humana e humanidade. Naturalmente, os dois movimentos compartilhavam conceitos e interesses comuns, alguns dos quais permanecem relevantes para o Humanismo Digital hoje em dia, por exemplo, um foco forte sobre direitos humanos e como os conservar em um reino digital.

Contudo, há críticas a essas noções clássicas de humanos. Especialmente, o ideial educacional dos humanistas tem sido criticado como suportando as crenças de supremacia cultural europeia. Além disso, um foco sobre o sujeito humano sempre requer exame crítico relativo a quem esse sujeito precisamente é e quais de seus muitos traços deveriam ser considerados essenciais. Contudo, o Humanismo Digital hoje em dia, certamente, não tem supremacia ou missão colonial; muito pelo contrário, ele é crítico das tendências coloniais já existentes nas tecnologias digitais de hoje. Isso é evidenciado pela nossa posição sobre soberania digital e geopolítica, por exemplo. Similarmente, a questão de sobre em quais traços da natureza humana dever-se-ia focar-se é um tema de discussão no Humanismo Digital, especialmente uma vez que a relação entre o indivíduo e a sociedade é um interesse pincipal para os humanistas digitais.

No contexto do Iluminismo, os proponentes do Humanismo Digital também estão cientes da teoria crítica da Escola de Frankfurt de filosofia. Seus membros proeminentes Adorno e Horkheimer forneceram uma análise crítica do processo de [vii]empoderamento a partir da racionalidade, e, em princípio, a resultante desmitificação aplicar-se-ia a qualquer processo tecnológico que visasse ao aumento do poder do indivíduo. Isso certamente se aplica a maior parte das tecnologias digitais. Mas já Habermas, um membro posterior da Escola de Frankfurt, indicou que jogar fora o racionalismo também significa descartar as suas muitas contribuições importantes ao direito, à democracia e à ciência – e, dessa forma, também à tecnologia. Alguém pode mesmo desenhar uma interessante ligação de reforço do Humanismo Digital à dialética do Iluminismo: decisões individuais são uma fonte importante de inovação digital, mas essa fonte também pode conduzir a um perigoso ganho em poder para manipular coletivamente as massas. Adicionalmente, os humanistas digitais também advertem sobre o poder da casta conhecedora (knowing caste)(como indicada por Horkheimer e Adorno) ou, como um humanista digital poderia dizer, o poder das plataformas. E onde a abstração foi identificada como uma ferramenta para manipular, e as fórmulas como ferramentas para criar previsibilidade, os humanistas digitais agora estão cautelosos de abstrações de ferramentas digitais e dados massivos (big data) com interesses muito similares. A abstração baseada em máquina tornou-se um pré-requisito para lidar com as complexidades do nosso mundo. O alinhamento de semelhantes abstrações em Tecnologia da Informação com valores humanos e com a complexidade de nosso ambiente natural são objetivos centrais de Humanismo Digital, e eles permanecem uma tarefa adiante.

O Digital Humanismo é jovem, assim, compreensivelmente, há definições, entendimentos e perspectivas diferentes e ele tem raízes históricas diferentes. Em alguma acepção, nós ainda estamos no processo de construção de teoria, com respeito ao entendimento da interação entre homem e tecnologia moderna, assim como à estruturação de abordagens possíveis para designs alternativos. Com este livro, nós damos um passo nessa direção, onde nós visamos a sermos inclusivos e integrativos. Nós convidadmos renomados colegas internacionais com variados contextos institucionais e disciplinares para contribuir de uma maneira aberta com seus pensamentos e suas ideias. No fim, nós recebemos 46 contribuições de 60 colegas, fornecendo suas visões sobre o presente e o futuro do mundo digital. Nós pensamos que essa abordagem (incluindo também uma fase de revisão por pares) funcionou bem; a abordagem de formato livre e a brevidade das contribuições produziram uma variedade acessível de perspetivas. Aqui nós oferecemos a vocês o resultado desse empreendimento.

Embora nenhum agrupamento seja perfeito, nós tentamos atribuir os contribuintes a 11 partes. Nós começamos com o Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital, visto que ele é a base do nosso empreendimento conjunto e estabelece princípios centrais.

  • A primeira parte, Inteligência Artificial, Humanos e Controle, examina a tensão entre a tomada de decisão dirigida pela tecnologia e a dirigida por humanos; ela examinha a diferença entre humanos e máquinas e pergunta se nós estamos perdendo o controle.

  • Participação e Democracia examina a interação entre tecnologias digitais e práticas democráicas e leva em consideração as questões de diversidade, também em um contexto geográfico.

  • Ética e Filosofia da Tecnologia estuda a extensão à qual as tecnologias digitais mudam as nossas perspectivas éticas e epistemológicas, e também o contrário: que papel considerações éticas deveriam desempenhar no desenvolvimento da tecnologia.

  • Tecnologia da Informação e as Artes trata de como a noção de criatividade é mudada pela tecnologia. Ela conecta o Humanismo Digital com práticas artísticas assim [viii]como com a nossa herança cultural, enquanto, também, ressaltando a importância da cultura e arte para a inovação digital. Por exemplo, a ficção científica é um motor da inovação digital.

  • Dados, Algoritmo e Justiça examina o potencial que as tecnologias digitais têm tanto para reforçar como para mitigar o tratamento injusto de grupos humanos. Ela lida com questões complexas que podem surgir a partir de um foco exageradamente forte sobre uma perspectiva individual em vez de uma social. Ela considera a economia da atenção e os efeitos que surgem a partir das características da busca na internet.

  • Poder de Plataforma examina o papel econômico e social das megaplataformas de hoje em dia, tais como Google, Facebook e Twiter, examinando as suas dinâmicas, sobre o papel importante que elas desempenharam na pandemia, e o impacto delas em indústrias específicas e seus modelos de negócio.

  • Educação e Habilidades do Futuro considera como o futuro do trabalho afetará a educação, o impacto da tecnolgia sobre as habilidades necessárias no futuro e o que (e como) nós deveríamos ensinar aos nossos jovens.

  • Geopolítica Digital e Soberania examina a contradição entre a inerente dimensão global do mundo digitial e os limites das estruturas de governança nacionais. Qual é o futuro da soberania em tempos digitais?

  • Sistemas e Sociedade trata de questões sociais tais como o trabalho futuro, como lidar com as mudanças impostas pelo mundo digitial, como estruturar o design tecnológico e como formular respostas políticas correspondentes.

  • Aprendendo a partir da Crise trata do papel da tecnologia na reação humana à pandemia global de 2020-2021, e extrai lições importantes para uma provável próxima crise (global).

  • Realizando o Humanismo Digital reflete sobre os possíveis próximos passoas e sobre o nível de pesquisa, escrevendo sobre um nível social e político mais geral. Como uma contribuição formula, parece fácil descrever o problema, mas é difícil resolvê-lo.

O Humanismo Digital é um conceito fundamental; é sobre o nosso futuro como humanos e como sociedade, não apenas no mundo digital. Como tal, não é apenas um empreendimento acadêmico, também é uma questão política. Nós temos de nos engajar com a sociedade, tendo uma audiência mista, de acadêmicos a tomadores de decisão políticos, da indústria e instituições a organizações da sociedade civil e não governamentais, e não é apenas sobre ciência, pesquisa e inovação. Igualmente importantes são educação, comunicação e influenciando o público para a participação democrática. Nós esperamos que esta coleção de ensaios forneça uma contribuição essencial para esse importante empreendimento.

Nós gostaríamos de agradecer aos nossos colegas pelas contribuições deles, também por responderem a tempo (pelo menos, na maior parte do tempo) às nossas requisições usualmente “urgentes.” Foi um prazer trabalhar com vocês – obrigado. Nós também agradecemos aos nossos doadores, quem tornaram este volume possível. Nós seguimos uma estratégia de acesso aberto, com o conteúdo estando acessível tanto via nosso website quanto sendo publicado pela Springer. Os doadores são, a cidade de Viena (Kulturabteilung), WWTF (Fundo para Ciência e Cultura de Viena), Ministério Austríaco de Assuntos Europeus e Internacionais, iCyPhy (o Centro de Pesquisa Ciber-Física Industrial, na UC Berkeley) e o Grupo de Inteligência Artificial e Bancos de Dados, na Universidade Técnica de Viena. Finalmente, nós queremos agradecer a Mete Sertkan e [ix]Stephanie Wogowitsch, do grupo de comércio eletrônico da Universidade Técnica de Viena. Sem o suporte e comprometimento delas, este empreendimento não teria sido possível.

O trabalho aqui é sobre a necessidade de interferir com o processo de digitalização, para mudar essa prática. Mas quem será o agente da mudança? A nossa esperança é que este livro motivará vocês, nossos leitores, a contribuírem e participarem da nossa jornada para o futuro. No fim, depende de nós, os cidadãos do mundo.


Hannes Werthner – Viena, Áustria

Erich Prem – Viena, Áustria

Edward A. Lee – Berkeley, CA, EUA

Carlo Ghezzi – Milão, Itália


Manifesto de Viena sobre o Humanismo Digital


ORIGINAL:

GHEZZI, C. et al. Preface. In:______ (eds.). Perspective on Digital Humanism. Springer Cham: 2022. p.v-ix. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-86144-5>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

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