sábado, 9 de agosto de 2025

Uma Exposição Crítica da Filosofia de Leibniz - Prefácio & Conteúdos

Uma Exposição Crítica da Filosofia de Leibniz com um Apêndice de Passagens Principais


Por Bertrand Russell


[v]Prefácio


A história da filosofia é um estudo que propõe a si mesmo dois objetivos um pouco diferentes, dos quais o primeiro é principalmente histórico, enquanto o segundo é principalmente filosófico. Por causa disso, ela está inclinada para resultar que, onde nós procuramos por história da filosofia, nós antes encontramos história e filosofia. Questões relativas à influência dos tempos ou de outros filósofos, relativas ao crescimento do sistema de um filósofo e às causas que sugeriram suas ideias principais – todas essas são verdadeiramente históricas: para sua resposta elas requerem um conhecimento considerável da educação predominante, do público a quem era necessário apelar e dos eventos científicos e políticos do período em questão. Mas pode-se duvidar de até onde os tópicos lidados em obras onde esses elementos predominam podem ser chamados propriamente filosóficos. Há uma tendência – a qual o espírito assim chamado de histórico tem intensificado grandemente – de prestar muita atenção às relações das filosofias, de modo que as filosofias mesmas são negligenciadas. Filosofias sucessivas podem ser comparadas, como nós comparamos formas sucessivas de um padrão ou design, com pouca ou nenhuma consideração pelo significado delas: uma influência pode ser estabelecida por evidência documental, ou pela identidade de frases, sem nenhuma compreensão dos sistemas cujas relações causais estão sob discussão. Mas aí sempre permanece uma atitude puramente filosófica em relação a filósofos anteriores – uma atitude na qual, [vi]sem consideração por datas ou influências, nós simplesmente buscamos descobrir quais são os grandes tipos de filosofias possíveis, e guiar a nós mesmos na busca pela investigação dos sistemas defendidos pelos grandes filósofos do passado. Ainda há nessa investigação – a qual é, afinal, talvez a mais importante das questões históricas – o problema quanto às visões reais do filósofo que deve ser investigado. Mas agora essas visões são estudadas em um espírito diferente. Onde nós estamos investigando as opiniões de um filósofo verdadeiramente eminente, é provável que essas opiniões formarão, no principal, um sistema estritamente conectado, e que, aprendendo a entendê-las, nós mesmos deveremos adquirir conhecimento de importantes verdades filosóficas. E uma vez que as filosofias do passado pertencem a um outro de uns poucos grandes tipos – tipos os quais, nos nossos próprios dias, estão perpetuamente se repetindo – nós podemos aprender, a partir do exame do grande representante de qualquer tipo, quais são os fundamentos para uma tal filosofia. Nós até podemos aprender, observando as contradições e inconsistências das quais nenhum sistema proposto até agora está livre, quais são as objeções fundamentais ao tipo em questão, e como essas objeções devem ser evitadas. Mas nessas investigações o filósofo não é mais explicado psicologicamente: ele é examinado como o defensor do que ele considera ser um corpo de verdade filosófica. Através de qual processo de desenvolvimento ele chegou a essa opinião, embora em si mesma uma questão importante e interessante, é logicamente irrelevante para a investigação até onde a opinião mesma está correta; e entre essas opiniões, quando essas foram determinadas, torna-se desejável podar aquelas que parecem inconsistentes com as suas doutrinas principais, antes que essas doutrinas mesmas sejam sujeitadas a um escrutínio crítico. Em resumo, verdade e falsidade filosóficas, em vez de fato histórico, são o que primariamente demanda a nossa atenção nesta investigação.

É essa segunda tarefa, e não a estritamente histórica, que eu tentei realizar em relação a Leibniz. A [vii]tarefa histórica foi admiravelmente realizada por outros, notavelmente pelo professor Stein, em obras às quais eu nada tenho a acrescentar; mas a tarefa mais filosófica ainda parece estar não realizada. A excelente explicação de Leibniz por Erdmann em sua história mais ampla (1842), a partir da qual eu aprendi mais do que qualquer outro comentário, foi escrita em ignorância das cartas para Arnauld, e de outro material muito importante que tem sido publicado desde a edição de Leibniz (1840) por Erdmann. E desde a época dele, a visão tradicional do sistema do nosso filósofo parece ter estado tão profundamente enraizada nas mentes de comentadores que eu considero que a importância dos novos manuscritos não tem sido devidamente reconhecida. É verdadeiro que Dillmann escreveu um livro cujo objeto é similar àquele da obra presente, e enfatizou – corretamente, como me parece – o perigo de obter as nossas opiniões sobre Leibniz a partir da Monadology. Mas pode ser duvidado de se Dillmann também teve tanto sucesso no entendimento do significado de Leibniz quanto no domínio do texto dos seus escritos.

Umas poucas observações pessoais podem servir para explicar porque eu acredito que um livro sobre Leibniz não ser inteiramente não necessitado. No Lent Term de 1899 eu apresentei um curso de preleções sobre a filosofia de Leibniz no Trinity College, Cambridge. Na preparação dessas preleções, eu encontrei-me, após a leitura da maior parte dos comentadores padrões e da maior parte dos tratados conectados de Leibniz, ainda completamente no escuro quanto aos fundamentos que o levaram a muitas das suas opiniões. Porque ele pensava que as monadas não podem interagir; como ele se tornou persuadido da identidade dos indiscerníveis; o que ele queria dizer pela lei da razão suficiente – essas e muitas outras questões pareciam demandar uma resposta, mas não encontrar nenhuma. Eu senti – como muitos outros sentiram – que a Monadology foi um tipo de fantástico conto de fadas, talvez coerente, mas inteiramente arbitrário. Nesse ponto eu li o Discours de Métaphysique e as cartas para Arnauld. Subitamente, uma enchente de luz foi lançada sobre todos os recessos mais íntimos [viii]do edifício filosófico de Leibniz. Eu vi como seus fundamentos foram estabelecidos, e como a sua superstrutura ergueu-se a partir deles. Parecia que esse sistema aparentemente fantástico poderia ser deduzido a partir de umas poucas simples premissas, as quais, senão pelas conclusões que Leibniz tinha extraído delas, muitos, se não a maioria, dos filósofos teria estado propensos a admitir. Não parecia ser irracional esperar que as passagens que tinham parecido iluminadoras para mim também o pareceriam para outros. Portanto, no que se segue, eu comecei com as doutrinas contidas nessas passagens e tentei, até onde possível, exibir a teoria das monadas como uma dedução rígida a partir de um número pequeno de premissa. Dessa maneira, a monada aparece não no começo da exposição, mas após uma longa sequência preliminar de raciocínio. E eu penso que tem de ser admitido que, se essa explicação estiver correta, o valor de Leibniz como um filósofo é muito maior do que aquele que resulta a partir das exposições costumeiras.

Eu acrescentei um apêndice de extratos classificados, no qual foi meu objetivo incluir pelo menos um pronunciamento definido, sempre que um pôde ser encontrado, sobre cada ponto na filosofia de Leibniz. Sobre pontos discutíveis, ou pontos sobre os quais ele é inconsistente, eu no geral forneci várias citações. Eu forneci a data de uma passagem sempre que ela não é posterior a 1686, ou parece importante por alguma outra razão. Passagens referidas no texto são geralmente citadas no parágrafo correspondente do apêndice, exceto quando elas já foram referidas e citadas em um parágrafo anterior; mas passagens citadas no texto não são repetidas no apêndice, no geral. Por conveniência de referência, eu fiz um índice do apêndice, de modo que qualquer passagem contida nele pode ser encontrada imediatamente por referência. Eu traduzi todas as palavras citadas, e em nenhum lugar presumi qualquer conhecimento de uma linguagem estrangeira. Eu também não presumi nenhuma familiaridade com Leibniz além da que pode ser obtida a partir das [ix]traduções excelentes do sr. Latta. No geral, ao citar passagens traduzidas por ele eu segui a sua tradução; mas as traduções do sr. Duncan e do sr. Langley eu usualmente considerei necessário corrigir. Ao citar a partir de artigos contra Clarke, eu segui a tradução de Clarke sempre que ela não foi seriamente imprecisa.

Eu tenho de agradecer ao sr. G. E. Moore, do Trinity College, Cambridge, pela leitura das provas e por muitas sugestões valiosas, como também pelo labor sério de revisar todas as traduções a partir do latim, tanto no texto quanto no apêndice. Eu também tenho de agradecer ao professor James Ward pela leitura de uma porção da obra em manuscrito e por várias críticas importantes.


Setembro de 1900.


[xi]Índice


Chapter I. Leibniz’s Premisses. 1

Chapter II. Necessary Propositions and the Law of Contradiction. 8

Chapter III. Contingent Propositions and the Law of Sufficient Reason. 25

Chapter IV. The Conception of Substance. 40

Chapter V. The Identity of Indiscernibles and the Law of Continuity. Possibility and Compossibility. 54

Chapter VI. Why did Leibniz believe in an External World? 70

Chapter VII. The Philosophy of Matter: (a) As the Outcome of the Principles of Dynamics. 75

Chapter VIII. The Philosophy of Matter (continued), (b) As explaining Continuity and Extension. 100

Chapter IX. The Labyrinth of the Continuum. 108

Chapter X. The Theory of Space and Time and its Relation to Monadism. 118

Chapter XI. The Nature of Monads in General. 131

Chapter XII. Soul and Body. 139

Chapter XIII. Confused and Unconscious Perception. 155

Chapter XIV. Leibniz’s Theory of Knowledge. 160

Chapter XV. Proofs of the Existence of God. 172

Chapter XVI. Leibniz’s Ethics. 191


[xvii]Abreviaturas


G. → Die philosophischen Schriften von G. W. Leibniz, herausgegeben von C. J. Gerhardt. Berlin, 1875 — 90.

G. M.Leibnizens mathematische Schriften, herausgegeben von C. J. Gerhardt. Halle, 1850—63.

F. de C.Réfutation inédite de Spinoza par Leibniz, précédée d'un mémoire par A. Foucher de Careil. Paris, 1854.

D.The Philosophical Works of Leibnitz, with notes by George Martin Duncan. New Haven, 1890.

L.Leibniz: The Monadology and other philosophical writings, translated, with introduction and notes, by Robert Latta. Oxford, 1898.

N. E.New Essays concerning human understanding by Gottfried Wilhelm Leibnitz, together with an Appendix consisting of some of his shorter pieces, translated by Alfred Gideon Langley. New York and London, 1896.


ORIGINAL:

RUSSELL, B. A Critical Exposition of the Philosophy of Leibniz with an Appendix of Leading Passages. Cambridge: At the University Press, 1900. p. v-xvii. Disponível em: <https://archive.org/details/cu31924052172271/page/n10/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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