A Descendência do Homem e a Seleção com Relação ao Sexo
Por Charles Darwin
[1]Introdução
A natureza da obra seguinte será melhor entendida através de uma breve explicação de como ela chegou a ser escrita. Durante muitos anos eu reuni notas sobre a origem ou descendência do homem, sem qualquer intenção de publicação sobre o assunto, mas antes com a determinação de não publicar, visto que pensava que, dessa maneira, eu apenas deveria acrescentar aos preconceitos contra minhas visões. Pareceu-me suficiente indicar, na primeira edição de minha ‘Origin of Species,’ que, através dessa obra, “luz seria lançada sobre a origem do homem e da sua história;” e isso implica que o homem tem de ser incluído com outros seres orgânicos em qualquer conclusão geral relativa ao modo do seu aparecimento sobre esta terra. Agora o caso usa um aspecto inteiramente diferente. Quando um naturalista como Carl Vogt aventura-se a dizer em seu discurso como Presidente da Instituição Nacional de Genebra (1869), “personne, em Europe au moins, n’ose plus soutenir la création [2]indépendante et de toutes pièces, des espèces,” é manifesto que pelo menos um grande número de naturalistas tem de admitir que espécies são os descendentes modificados de outras espécies; isso geralmente vale com os naturalistas mais jovens e ascendentes. O maior número aceita a ação da seleção natural; embora alguns insistam, se com justiça o futuro tem de decidir, que eu tenha superestimado grandemente a importância dela. Dos chefes mais antigos e honrados em ciência natural, muitos, infelizmente, ainda estão opostos à evolução em qualquer forma.
Em consequência das visões agora adotadas pela maioria dos naturalistas, e as quais, por fim, como em todo outro caso, serão seguidas por outras que não são científicas, eu fui conduzido a reunir minhas notas, de modo a ver até onde as conclusões alcançadas em meus trabalhos anteriores eram aplicáveis ao homem. Isso me pareceu ainda mais desejável, visto que eu nunca tinha deliberadamente aplicado essas visões a uma espécie tomada isoladamente. Quando nós confinamos nossa atenção a qualquer forma única, nós somos privados dos argumentos importantes derivados a partir da natureza das afinidades que conectam grupos inteiros de organismos – a sua distribuição geográfica no tempo passado e no presente e a sua sucessão geológica. A estrutura homóloga, o desenvolvimento embriológico e os órgãos rudimentares de uma espécie restam para ser considerados, seja for o homem ou qualquer outro animal, ao qual a nossa atenção pode ser dirigida; mas, como me parece, essas grandes classes de fatos proporcionam evidência ampla e conclusiva em favor do princípio de evolução gradual. Contudo, o apoio forte derivado a partir dos outros argumentos sempre deveria ser mantido diante da mente.
[3]O objetivo único desta obra é considerar, primeiro, se o homem, como qualquer outra espécie, descendeu de alguma forma preexistente; segundo, a forma do seu desenvolvimento; e terceiro, o valor das diferenças entre as assim chamada raças de homem. Visto que eu deverei me confinar a esses pontos, não será necessário descrever em detalhe as diferenças entre as várias raças – um assunto enorme que tinha sido completamente discutido em muitas obras valiosas. A elevada autoridade do homem recentemente foi demonstrada pelos labores de uma legião de homens eminentes, começando com M. Boucher de Perthes; e isso é a base indispensável para o entendimento da origem dele. Portanto, eu deverei aceitar essa conclusão como certa, e posso referir meus leitores aos tratados admiráveis de sir Charles Lyell, sir John Lubbock e outros. Nem eu deverei ter ocasião para fazer mais do que aludir ao montante de diferença entre o homem e os macacos antropomórficos; pois o professor Huxley, na opinião dos juízes mais competentes, revelou conclusivamente que em cada característica visível, o homem difere menos dos macacos superiores do que esses a partir dos membros inferiores da mesma ordem de primatas.
Dificilmente esta obra contém quaisquer fatos originais com respeito ao homem; mas, visto que as conclusões às quais eu cheguei, após elaborar um rascunho, pareceram-me interessantes, eu pensei que elas poderiam interessar a outros. Frequente e confiantemente tem sido afirmado que a origem do homem nunca pode ser conhecida: mas a ignorância mais frequentemente gera confiança do que conhecimento: são aqueles que conhecem pouco, e não aqueles que conhecem muito, quem tão positivamente afirmam que este ou aquele problema nunca será resolvido pela ciência. A [4]conclusão de que o homem é o co-descendente com outras espécies de alguma forma antiga, inferior e extinta, não é nova de nenhuma maneira nova. Há muito Lamarck chegou a essa conclusão, a qual recentemente tem sido sustentada por vários naturalistas e filósofos eminentes; por exemplo, por Wallace, Huxley, Lyell, Vogt, Lubbock, Büchner, Rolle, etc.1, e especialmente por Häckel. Esse último naturalista, além da sua grande obra, ‘Generelle Morphologie’ (1866), recentemente publicou (1868, com uma segunda edição em 1870) sua ‘Natürliche Schöpfungsgeschichte,’ na qual ele discute completamente a genealogia do homem. Se essa obra tivesse aparecido antes que o meu ensaio tivesse sido escrito, eu provavelmente nunca deveria tê-lo completado. Quase todas as conclusões às quais eu cheguei aqui eu encontro confirmadas por esse naturalista, cujo conhecimento em muitos pontos é muito mais completo do que o meu. Sempre que eu acrescentei qualquer fato ou visão a partir dos escritos do prof. Häckel, eu forneci sua autoridade no texto; outras afirmações eu deixo como elas originalmente estavam no meu manuscrito, ocasionalmente fornecendo em notas de rodapé referências para as obras dele, como uma confirmação dos pontos mais duvidosos ou interessantes.
[5]Durante muitos anos me pareceu altamente provável que a seleção sexual tem desempenhado uma parte importante na diferenciação das raças de homem; mas, em meu ‘Origin of Species’ (primeira edição, p. 199), eu contentei-me meramente em aludir a essa crença. Quando cheguei a aplicar essa visão ao homem, eu considerei indispensável tratar o assunto todo em detalhe completo.2 Consequentemente, a segunda parte da presente obra, tratando da seleção sexual, foi estendida a um comprimento excessivo, comparada com a primeira parte; mas isso não pôde ser evitado.
Eu tinha intencionado acrescentar aos volumes presentes um ensaio sobre a expressão das várias emoções pelo homem e pelos animais inferiores. Minha atenção foi chamada a esse assunto há muitos anos, pela obra admirável de sir Charles Bell. Esse anatomista ilustre sustenta que o homem é dotado de certos músculos apenas para expressar suas emoções. Visto que essa visão é obviamente oposta à crença de que o homem descendeu a partir de alguma forma outra e inferior, foi necessário que eu a considerasse. De modo similar, eu desejava determinar quão distantes as emoções são expressas da mesma maneira pelas diferentes raças de homem. Mas, devido à extensão da obra presente, eu considerei melhor reservar meu ensaio para publicação separada.
Primeiro capítulo
ORIGINAL:
DARWIN, C. The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex. London; John Murray, Albermarle Street, W.: 1922. p. 1-5. Disponível em: <https://archive.org/details/descentofmansele00darw_0/page/1/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[4]Visto que as obras dos autores nomeados primeiramente são bem conhecidas, eu não necessito fornecer os títulos, mas visto que aquelas mais recentes são menos bem conhecidas na Inglaterra, eu os fornecerei: - ‘Sechs Vorlesungen über die Darwin’sche Theorie:’ zweite Auflage, 1868, do dr. L. Büchner; traduzida para o francês sob o título de ‘Conférences sur la Théorie Darwinienne,’ 1889. ‘Der Menshc, im Lichte der Darwin’sche Lehre,’ 1865, do dr. F. Rolle. Eu não tentarei fornecer referências para todos os autores que têm adotado o mesmo lado da questão. Desse modo, G. Canestrini publicou (‘Annuario della Soc. d. Nat.,’ Modena, 1867, p. 81) um artigo muito conspícuo sobre características rudimentares enquanto influenciando sobre a origem do homem. Outra obra foi publicada (1869) pelo dr. Francesco Barrago, portando em italiano o título de “O homem, criado à imagem de Deus, também foi criado à imagem do macaco.”
2[5]O prof. Häckel foi o único autor que, à época quando está obra inicialmente apareceu, tinha discutido o assunto da seleção sexual e tinha visto a sua importância completa, desde a publicação da ‘Origin’; e isso ele fez de uma maneira muito capaz em suas várias obras.
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