domingo, 12 de janeiro de 2025

Elementos de Lógica - Anúncio, Conteúdos, Dedicatória e Prefácio

Elementos de Lógica


Por Richard Whately


[v]Anúncio para a Nona Edição


Na presente edição, umas poucas inserções e alterações de expressão foram introduzidas em alguns lugares. Nesta e na edição anterior, várias passagens foram transferidas dos locais que elas anteriormente ocupavam para outros que pareceram mais adequados. E uma breve, mas eu confio que clara, exposição foi adicionada (na Intr. §4 e L. Iv, cap. i § 1,2) do caráter insustentável de algumas objeções que foram recentemente revividas, de uma forma um pouco diferente, contra a utilidade da ciência de maneira geral, - contra a teoria silogística, - contra as explicações fornecidas neste tratado sobre o raciocínio a partir da indução.

Essas respostas (e também algumas observações adicionais sobre alguns dos mesmos pontos, no §4 da Introdução [vi]aos “Elementos de Retórica”) têm estado diante do público por alguns anos agora; e como nenhuma tentativa de resposta foi realizada, mesmo em edições subsequentes dos trabalhos mesmos contendo as objeções, uma forte pressuposição é proporcionada dessa maneira da correção das minhas visões.

O leitor deve observar que [colchetes] denotam que a palavra assim inclusa é equivalente em significado àquela que a precede.


CONTEÚDOS1


Introdução 1

Livro I Esboço Analítico da Ciência 25

Livro II Compêndio Sintético

Capítulo I Das Operações da Mente e dos Termos 60

Chapter II. Of Propositions 68

Chapter III. Of Arguments 86

Chapter IV. Supplement to Chapter III 107

Chapter V. Supplement to Chapter I 132

Livro III Sobre Falácias2

Introdução 168

§§1-2 173

§§3-4 177

§5 181

§6 186

§7 190

§8 192

§9 197

§10 200

§11 213

§§12-13 218

§14 223

§15 233

§§16-17 240

§§ 18-20 – Final do Livro 244

Book IV. Dissertation on the Province of Reasoning

Chapter I. Of Induction 252

Chapter II. Of the Discovery of Truth 262

Chapter III. Of Inference and Proof 290

Chapter IV. Of Verbal and Real Questions 297

Chapter V. Of Realism 305


[ix]Dedicatória ao Alto Reverendo Edward Copleston, D. D. Lorde Bispo de Llandaff, &c. &c.


Meu Querido Lorde,


Enumerar as vantagens que eu tenho derivado das suas instruções, tanto em preleções regulares quando em conversação privada, seria desnecessário para aqueles familiarizados com as partes e, para o público, desinteressante. Meu objetivo no presente é simplesmente reconhecer quão grandemente eu estou em débito com você com respeito à presente obra; não meramente como tendo transmitido para mim os princípios da ciência, mas também tendo contribuído com observações, explicações e ilustrações, relativas aos pontos mais importantes, a uma quantidade tão grande que eu dificilmente posso considerar a mim como o autor de mais do que metade daquelas porções do tratado que não são [x]emprestadas de publicações antigas. De fato, eu poderia ter desejado reconhecer isso mais explicitamente, marcando com alguma nota de distinção aquelas partes são menos minhas próprias. Mas eu descobri que isso não poderia ser feito. Na maioria dos casos, há alguma coisa pertencente a cada um de nós; e mesmo naquelas partes onde o seu quinhão é o maior, não seria justo que você devesse ser tornado responsável por qualquer coisa não inteiramente sua. Nem é possível, no caso de uma ciência, lembrar distintamente em cada instância quão longe alguém esteve em dívida com as sugestões de outro. Informação, quanto a questões de fato, facilmente pode ser referida na mente à pessoa a partir de quem nós a derivamos; mas verdades científicas, quando completamente adotadas, tornam-se muito mais partes da mente, por assim dizer; uma vez que elas dependem não da autoridade do instrutor, mas do raciocínio a partir dos dados, os quais nós mesmos fornecemos;3 elas são brotos enxertados nos troncos previamente enraizados no nosso próprio solo; e nós estamos inclinados a confundi-las com as produções indígenas dele.

Também você mesmo, eu tenho razão para acreditar, tenha esquecido da maior parte da assistência que você tem me propiciado no curso de conversações sobre o [xi]assunto; visto que, mais de uma vez, eu tenho descoberto que ideias que eu distintamente lembro de ter recebido de você, não têm sido reconhecidas por você quando lidas ou repetidas. Contudo até onde eu possa recordar, embora não haja parte das páginas seguintes nas quais eu não tenha, mais ou menos, recebido sugestões valiosa de você, eu acredito que você tenha contribuído menos para o Esboço Analítico e para o Tratado sobre Falácias, e mais para a Dissertação acrescentada, do que para o resto da Obra.

Por outro lado, eu tomo esta oportunidade para declarar publicamente que, por um lado, você não é responsável por nenhuma coisa contida nesta Obra, assim, por outro lado, deva alguma vez você favorecer o mundo com uma publicação própria sobre o assunto, a coincidência que, sem dúvida, será encontrada nela com muitas coisas aqui propostas como minhas próprias, não deve ser considerada como nenhuma indicação de plágio, pelo menos não do seu lado.


Acredite-me ser,

Meu querido Lorde,

Seu obrigado e afeiçoado

Pupilo e Amigo,

RICHARD WHATELY.


[xiii]Prefácio


O tratado seguinte contém a substância do artigo “Logic” na Encyclopaedia Metropolitana. Foi-me sugerido que uma publicação separada dele poderia provar-se aceitável, não apenas para aqueles que não são assinantes dessa obra, mas também para vários outros que são; mas quem, por conveniência de referência, prefeririam um volume mais portável. De fato, um número de indivíduos já tinha formado um desígnio (impedido apenas por esta publicação) de se juntarem para ter o artigo impresso para seu próprio uso privado.

Portante eu revisei-o e fiz certas adições, principalmente na forma de notas, conforme eu considerei prováveis de aumentarem a utilidade dele.

Quando aplicado a contribuir para o artigo, eu perguntei e obtive permissão do dr. Copleston (agora Bispo de Llandaff) para fazer uso de manuscritos compilados em grande medida a partir do que eu tinha ouvido dele em conversas sobre o assunto, ou que ele tinha lido para mim do caderno de notas (common-place book) dele, intercalado com minhas próprias observações. Eu baseei-me nesses manuscritos e fui do hábito de os empregar para o uso dos meus próprios pupilos.

[xiv]Ao combiná-las em uma forma adequada para a Encylopaedia, e, subsequentemente, ampliando o artigo no presente volume, eu tomei sem escrúpulo seja o que for que pareceu mais valioso nos trabalhos de outros escritores; especialmente o tratado conciso, mas no geral preciso, de Aldrich. Mas enquanto eu reconheça minhas obrigações com meus predecessores, dos labores dos quais eu fiz amplo uso, eu não professo estar completamente satisfeito com nenhum dos tratados que ainda têm aparecido; nem, por conseguinte, eu tenho julgado presunção não razoável apontar o que me parecem os erros que eles contêm. De fato, qualquer que seja a deferência que um autor possa professar pela autoridade daqueles que o antecederam, a circunstância mesma da publicação de uma obra sobre o mesmo assunto por ele, prova que ele considera as deles abertas a aperfeiçoamento. Portanto, censurando, como eu tive ocasião para o fazer, várias doutrinas e explicações de escritores em lógica, e de Aldrich, em particular, eu desejo ser entendido que isso não é por eu ter formado uma baixa estima dos méritos do Compêndio elaborado pelo autor há pouco mencionado, mas, pelo contrário, por causa da popularidade dele, (sendo aquele mais comumente usado em Oxford) – por causa da impossibilidade de notar particularmente todos os pontos nos quis nós concordamos, – e por causa da consideração de que erros devem ser mais cuidadosamente apontados em proporção à autoridade pela qual eles são sancionados.

Eu tenho de reconhecer a assistência recebida de vários amigos, quem, em vários momentos, sugeriram observações e alterações. Mas eu não posso evitar de particularizar o rev. J. Newman, Fellow do Oriel [xv]College, quem efetivamente compôs uma porção considerável da obra como ela está agora, a partir de manuscritos não projetados para publicação, e quem é o autor original de várias páginas. Algumas ilustrações valiosas da importância de conceder atenção à ambiguidade dos termos usados na economia política, foram providenciadas pela gentileza do meu amigo e antigo pupilo, o sr. Senior, da Magdalen College, e agora Mestre em Chancelaria, quem me precedeu no cargo de professor de economia política em Oxford e, posteriormente, foi indicado para o mesmo no King’s College, Londres. Eles estão impressos no apêndice. Mas o amigo que está inscrito contribuiu muito mais, e isso, nas partes mais importantes, mas do que todos os outros juntos; de fato, tanto que embora não haja no tratado nada dele que não tenha passado por expansão ou modificação tão grandes que me deixam unicamente responsável pelo todo, há um pouco do qual eu não posso reivindicar justamente ser o autor.

Cada edição sucessiva têm sido revisada com o cuidado máximo. Mas, apesar de o trabalho ter passado por não apenas o exame estrito de mim mesmo e de vários amigos, senão pelo escrutínio mais severo de oponentes determinados, eu estou feliz de descobrir que nenhum erro material tenha sido detectado, nem nenhuma alteração considerável considerada necessária.


Sobre a utilidade da lógica, muitos escritores têm dito muito com o qual eu não posso concordar, e que tendeu a trazer o estudo a um desrespeito imerecido. Representando a lógica como providenciando o instrumento único para a descoberta da verdade em todos os assuntos, e como o ensino [xvi]do uso das faculdades intelectuais em geral, eles elevaram expectativas que não poderiam ser realizadas e que naturalmente levaram a uma reação. O sistema inteiro, cujas pretensões infundados têm sido proclamadas dessa maneira, veio a ser comumente considerado como completamente fútil e vazio: como vários outros dos nossos medicamentos mais valiosos, os quais, quando primeiramente introduzidos, foram, cada um, proclamados como uma panaceia, infalíveis nas desordens mais opostas; e que, consequentemente, em muitos casos, caíram por um tempo em desuso total; embora, após um longo intervalo, eles foram estabelecidos em sua justa estima e empregados de acordo com suas propriedades reais.

Em uma das cartas (posteriormente publicadas) de lorde Dudley para o bispo de Copleston, da data de 1814, ele aduz uma pressuposição contra o estudo da lógica que foi diligentemente cultivada durante os períodos nos quais os poderes intelectuais da humanidade parecerem quase paralisados, - quando nenhuma descoberta foi realizada, e quando vários erros foram difundidos e estavam profundamente enraizados: e que quando a atividade mental do mundo reviveu, e a investigação filosófica floresceu e deu seus frutos, os estudos lógicos caíram em decadência e desdém. E isso eu introduzi nos “Elementos de Retórica,” (Parte II, Cap. iii, §2) entre outros exemplos de uma presunção não irrazoável em si mesma, mas capaz de ser refutada por uma presunção contrária. Quando qualquer estudo tem sido indevidamente ou não sabiamente cultivado à negligência de outros, e até mesmo tem se introduzido na província deles, há uma presunção de que uma reação4 se seguirá, e igualmente excessivos [xvii]desdém, ou pavor, ou desgosto, sucederam. E na presente instância, o cultivo equivocado e absurdo da lógica durante as épocas de grande escuridão intelectual, poderia ser esperado produzir, em um época subsequente de luz comparativa, uma associação nas mentes dos homens da lógica com a ideia de ignorância apática, preconceito e aderência a erro; de modo que os usos legítimos, e valor justo da ciência (supondo-a ter algum) seriam prováveis de serem desdenhosamente negligenciados. Nossos ancestrais, tendo negligenciado o cultivo de novas colheitas de milho, e contentado a si mesmo com debulhar em vão de novo e de novo a mesma palha e peneirar a mesma caca, poderiam ter sido antecipado que, por um tempo, os descendentes deles considerariam as operações de debulho e peneiragem com desdém, e tentariam moer, milho, palha e casca todos juntos.

O renascimento de um estudo que por um longo tempo tinha sido considerado como uma absurdidade obsoleta, provavelmente teria parecido para muitas pessoas, há trinta anos, como um empreendimento muito mais difícil do que a introdução de algum novo estudo; - visto que antes se assemelhando à tentativa de restaurar à vida uma das plantas fósseis antediluvianas, do que à criação de uma jovem plântula em uma árvore.

É uma circunstância curiosa que a pessoa mesma a quem a carta há pouco aludida foi endereçada devesse ter vivido para testemunhar uma mudança tão grande de opinião pública causada (em um grande grau através da sua própria instrumentalidade5) dentro de um curto intervalo – de fato, de uma pequena porção do intervalo – entre [xviii]a escrita daquela carta e a publicação dela, que o inteiro fundamento da presunção aludida tinha sido inteiramente removido. Durante esse intervalo, o tratado que foi composto com a ajuda dele, e pela sua permissão inserido na Encyclopaedia, atraiu tanta atenção quanto a ocasionar a sua publicação separada, em um volume que tem sido frequentemente reimpresso, não apenas na Inglaterra, mas nos Estados Unidos da América; onde, eu acredito, ele está em uso em todos os colégios deles. Adicione-se a isso as alusões frequentes (comparado com o que poderia ter sido encontrado há vinte ou trinta anos) ao assunto da lógica, por escritos sobre vários assuntos. E além disso, vários outros tratados sobre o assunto, ou originais ou resumos, têm aparecido com frequência continuamente crescente nos últimos anos. De fato, alguns deles têm pouco ou nada em comum com a obra presente, exceto o título. Mas mesmo essa circunstância mesma é até agora encorajadora, visto que indicando que o nome dessa ciência, em vez de excitar, como antigamente, um preconceito quase universal, é considerado como provável de experimentar uma recomendação. Certamente lorde Dudley, estivesse ele vivo agora, não falaria da negligência e do desdém gerais da lógica; embora cada ramo de ciência, filosofia e literatura tenham florescido durante o intervalo.

Explicar completamente a utilidade da lógica é o quê apenas pode ser feito no curso de uma explicação do sistema mesmo. Apenas uma observação preliminar (pela sugestão original da qual eu estou em dívida com o mesmo amigo a quem este livro está inscrito) pode ser digna de oferecer neste lugar. Se nós fossemos inquiridos [xix]qual deve ser considerada como a ocupação intelectual mais apropriada do Homem, como homem, qual seria a resposta? O estadista está engajado com questões políticas; o soldado, com as forças armadas; o matemático, com as propriedades de números e magnitudes; o mercador, com interesses comerciais, etc; mas, no que todos e cada um deles estão empregados? – empregados, eu quero dizer, como homens; pois há muitos modos de exercício das faculdades, tanto mentais quanto corporais, os quais são, em grande medida, comuns a nós e a aos animais inferiores. Evidentemente, no raciocínio. Todos eles estão ocupados em deduzirem, bem ou mal, conclusões a partir de premissas; cada uma dizendo respeito à sua própria tarefa particular. Portanto, se deve ser considerado que o processo que ocorrer diariamente, em cada uma de mentes tão diferentes, é, em qualquer aspecto, o mesmo, e se os princípios sobre os quais ele é conduzido podem ser reduzidos a um sistema regular, e se regras podem ser deduzidas a partir desse sistema, para a melhor condução do processo, então, dificilmente pode ser negado que um tal sistema e tais regas têm de ser especialmente dignos de atenção, - não dos membros desta ou daquela profissão, meramente, mas – de cada um que é desejoso de possuir uma mente cultivada. Entender a teoria daquela que é a ocupação intelectual apropriada do homem em geral, e aprender a fazer bem o que todos têm de fazer, se bem ou mal, certamente pode ser considerado como uma parte essencial de uma educação liberal.

Mesmo supondo que nenhuma melhoria prática na argumentação resultasse a partir do estudo da lógica, de maneira nenhuma se seguiria que ela é indigna de atenção. A busca de conhecimento em assuntos curiosos e [xx]interessantes, por si mesmos, não é usualmente reconhecida como nenhum mal emprego de tempo; e é considerada, incidentalmente se não diretamente, como útil para o indivíduo, pelo exercício propiciado dessa maneira às faculdades mentais. Todos que estudam matemática não estão treinando a si mesmos para serem agrimensores ou mecânicos; algum conhecimento de anatomia e química é até esperado em um homem liberalmente educado, embora sem nenhuma visão para ele praticar cirurgia ou medicina. E a investigação de um processo que é peculiar e universalmente a ocupação do homem, considerado como homem, dificilmente pode ser reconhecido como um estudo menos filosófico do que aqueles há pouco exemplificados.

No entanto, usualmente tem sido assumido que, no caso do estudo presente, uma teoria que não tenda ao aperfeiçoamento da prática é completamente indigna de consideração; e então, é argumentado que a lógica não tem essa tendência, a partir da alegação de que os homens podem raciocinar e raciocinam corretamente sem ela: uma objeção que igualmente se aplicaria ao caso da gramática, música, química, mecânica, etc, em todos os sistemas nos quais a prática tem de ter existido anteriormente à teoria.

Mas muitos quem admitem o uso de princípios sistemáticos em outras coisas estão acostumados a bradar o senso comum como o guia seguro suficiente e único no raciocínio. Agora, por senso comum é significado, eu entendo, (quando o termo é usado com qualquer significado distinto,) um exercício do julgamento não auxiliado por nenhuma arte ou sistema de regras: um exercício tal como nós necessariamente empregamos em inúmeros casos de ocorrência diária; nos quais, não tendo nenhum princípio estabelecido para nos guiar, - nenhuma linha de procedimento distintamente marcada a giz, por assim dizer, - nós [xxi]temos necessariamente de agir sobre as melhores conjecturas extemporâneas que nós podemos formar. Aquele que é eminentemente habilidoso em fazer isso é dito possuir um grau superior de senso comum. Mas que o senso comum é apenas o nosso segundo melhor guia – que as regras da arte, se judiciosamente estruturadas, são sempre desejáveis quando se pode tê-las, é uma afirmação em favor da verdade da qual eu posso apelar para o testemunho da humanidade em geral; o qual é tanto o mais valioso, na medida que ele pode ser considerado o testemunho de adversários. Pois a a maior parte tem uma forte predileção em favor do senso comum, exceto naqueles pontos nos quais eles, respectivamente, possuem o conhecimento de um sistema de regras; mas nesses pontos eles ridicularizam qualquer um que confie no senso comum não auxiliado. Por exemplo, um marinheiro, talvez desprezará as pretensões dos médicos, e preferirá tratar uma doença através do senso comum: mas ele ridicularizaria a proposta de navegar uma embarcação através do senso comum, sem consideração das máximas da arte náutica. Novamente, um médico talvez desdenhará dos sistemas de economia política,6 de lógica ou metafísica, e insistirá na sabedoria de confiar no senso comum em tais assuntos; mas ele nunca aprovaria confiar no senso comum no tratamento de doenças. Tampouco, novamente, o arquiteto recomendaria uma dependência apenas do senso comum na construção, nem o músico, na música, à negligência daqueles sistemas de regras que, sem suas respectivas artes, têm sido deduzidos a partir do raciocínio científico auxiliado pela experiência. E a indução poderia ser estendida a todo departamento da prática. [xxii]Portanto, uma vez que cada um concede preferência ao senso comum desassistido apenas naqueles caso onde ele mesmo não tem nada mais para confiar, e invariavelmente recorre às regras da arte, sempre que ele possui o conhecimento dela, é evidente que a humanidade universalmente testemunha, embora inconsciente e frequentemente involuntariamente, a preferência do conhecimento sistemático aos julgamentos conjecturais.

Todavia, há espaço abundante para o emprego do senso comum na aplicação do sistema. É claro, extrair argumentos, a partir da forma na qual eles estão expressos em conversação e livros, para a forma lógica regular, tem de ser a tarefa do senso comum auxiliado pela prática: pois, por suposição, esses argumentos não estão no interior da ciência; senão eles não seriam irregulares, mas já seriam silogismos estritos. Para exercitar o leitor nessa operação, eu tenho acrescentados no apêndice alguns exemplos, tanto de argumentos isolados quanto (nas edições posteriores) de análise de obras argumentativas. Contudo, deveria ser acrescentado que uma grande parte do que é comumente introduzido relativo à descoberta de argumentos, - os tipos diferentes deles, etc, eu referi à categoria da retórica e tratei na obra sobre os elementos daquela arte.


Foi sem dúvida a partir de uma convicção forte e deliberada das vantagens, diretas e indiretas, advindo a partir de uma familiaridade com a lógica, que a Universidade de Oxford, quando remodelando seu sistema, não apenas reteve esse ramo de estudo, independentemente dos clamores [xxiii]de muitos dos meio instruídos, mas mesmo atribuiu um lugar proeminente a ele, tornando-o uma parte indispensável do Exame para o primeiro Grau. Contudo, eu estou convencidos de que, em um grande grau, essa última circunstância tem produzido um efeito oposto ao quê foi intencionado. Ela tem contribuído para rebaixar, em vez de exaltar a estima do estudo; e para retirar dele a atenção mais firme de muitos estudantes que poderiam ter se aplicado a ele com vantagem. Eu não sou tão fraco quanto a imaginar que qualquer sistema possa assegurar grande proficiência em qualquer pesquisa que seja, quer em todos os estudantes, quer em uma porção muito grande deles: “nós semeamos muitas sementes para obtermos poucas flores:” mas poderia ter sido esperado (e sem dúvida foi esperado) que uma maioria de candidatos pelo menos exitosos derivaria algum benefício digno de menção a partir de seus estudos lógicos; e que uma proporção considerável dos candidatos distinguidos provar-se-iam lógicos respeitáveis, se não eminentes. Essas expectativa eu não censuro como irracionais, ou tais como eu poderia ter formado por mim mesmo, tivesse eu sido convocado para julgar naquele período quando a nossa experiência devia resultar toda. Subsequentemente, todavia, experiência tem mostrado que aquelas expectativas tinham sido realizadas muito inadequadamente. A verdade é que uma proporção muito pequena, mesmo de estudantes distinguidos, nunca se torna proficiente em lógica; e que de longe a grande maior parte atravessa a universidade sem conhecer absolutamente nada do assunto. Eu não quero dizer que eles não tenham aprendido de cor uma sequência de termos técnicos; mas que eles não entenderam absolutamente nada de seja quais forem os princípios da ciência.

[xxiv]Eu estou ciente de que alguns amigos injudiciosos de Oxford censurarão a franqueza dessa confissão. Eu apenas tenho de responder que tal é a verdade; e que eu penso muito bem da, e conheço muito bem, a Universidade na qual eu tenho estado empregado em várias ocupações acadêmicas por mais de um quarto de século, para apreender o perigo para a reputação dela de declarar a verdade exata. Com todos os seus defeitos, e nenhuma instituição humana é perfeita, eu estou convencido de que a Universidade se ergueria mais alto na estima pública do que ela o faz, fosse a inteira verdade, e nada exceto a verdade, em todos os pontos respeitantes a ela, mais completamente conhecida. Mas eu aprendo que a escassez e o sucesso parcial de medidas empregadas para promover os estudos lógicos são a consequência das universalidade do requerimento. Que aquilo que tem de ser feito por todos, é claro, será frequentemente feito apenas indiferentemente; e uma vez quando a crença esteja completamente estabelecida, o que ela certamente a muito tem estado, de que qualquer coisa que é indispensável para um testemunho, tem pouco ou nada a ver com a obtenção de honras,7 o padrão mais baixo logo se torna o estabelecido nas mentes do maior número; e, com a condição que o padrão seja uma vez alcançado, assim quanto a assegurar o candidato contra rejeição, uma proficiência maior ou menos em qualquer de tal ramo de estudo é considerada como uma questão de indiferença, até onde se diz respeito a quaisquer visões de distinção acadêmica.

Teologia (Divinity) é um desses ramos, e para ele também [xxv]a maioria do que tem sido dito sobre a lógica poderia ser considerado como igualmente aplicável; mas, de fato, há várias diferenças entre os dois casos. Em primeiro lugar, a maioria dos estudantes que são designados para a igreja, e muitos que não são, têm um valor para o conhecimento teológico, independentemente da requisição das escolas; e sobre esse fundamento não confinam suas visões ao menor grau admissível de proficiência; ao passo que isso pode ser dito de muitos poucos no caso da lógica. E além disso, tal como o desígnio para se tornarem candidatos para ordens sagradas, sabem que outro exame em teologia aguarda-os. Mas uma consideração, a qual é ainda maior para o propósito presente, é que a teologia, não sendo uma ciência, admite graus infinitos de proficiência, desde aquele que está dentro do alcance de uma criança, até o mais elevado que é alcançado pelo gênio mais exaltado; cada um dos quais é inestimavelmente valioso até onde vai. Se qualquer um entende toleravelmente o catecismo da igreja, ou mesmo metade dele, ele conhece alguma coisa de teologia; e essa alguma coisa é incalculavelmente preferível a nada. Mas não é assim com uma ciência: alguém que não entenda os princípios das demonstrações de Euclides, qualquer que seja o número de questões e respostas que ele possa ter aprendido de cor, não conhece absolutamente nada de geometria; a menos que ele alcance esse ponto, todo o labor dele está completamente perdido; pior do que perdido, talvez, se ele é levado a acreditar que aprendeu alguma coisa de matemática, quando, na verdade, ele não o fez; e o mesmo é o caso com a lógica, ou qualquer outra ciência. Ela não admite graus tão vários, como um conhecimento de religião. É claro, eu estou [xxvi]longe de supor que todos que entendem qualquer coisa, mais ou menos, de uma certa ciência, estão no mesmo nível; mas eu quero dizer que certamente é inegável que alguém não adote os princípios fundamentais de uma ciência, seja o que for que ele possa ter aceito por autoridade, e aprendido de cor, não conhece nada dessa ciência, propriamente falando. E tal, eu não tenho hesitação em dizer, é o caso com uma proporção considerável mesmo daqueles que obtêm testemunhos, incluindo muitos que obtêm distinção. Há algumas pessoas (provavelmente não tantas quanto uma em dez, daquelas que tem, em outros aspectos, habilidades toleráveis,) que são fisicamente incapazes do grau de abstração firme necessário para realmente adotarem os princípios da lógica ou de qualquer outra ciência, sejam quais forem as dificuldades que possam ser enfrentadas por eles mesmos ou seus professores. Mas há um número muito maior para quem isso é uma grande dificuldade, embora não uma impossibilidade; e quem tendo, é claro, uma forte desinclinação para um semelhante estudo, procuram o padrão mais baixo admissível. E o exemplo de tais exames na lógica como tem de ser esperado no caso de homens dessas descrições, tende, em combinação com o preconceito popular, a degradar completamente o estudo na mentes da generalidade.

Talvez foi a partir dessas considerações que, há poucos anos, foi proposto deixar o estudo da lógica completamente à opção dos candidatos; mas a sugestão foi rejeitada; a maioria parecendo pensar (opinião com a qual eu mais completamente concordo) que, tão fortemente quanto a maré de opinião popular colocada contra o estudo, o resultado teria sido, dentro de uns [xxvii]poucos anos, uma negligência quase universal dessa ciência. Àquela época, portanto, as matérias foram deixadas em sua situação antiga com respeito a esse ponto; do que eu estou convencido que foi muito preferível à alteração proposta.

Mas um curso intermediário entre esses dois foi sugerido, o qual, eu fui persuadido, seria infinitamente preferível a qualquer um dos dois; uma persuasão que há muito eu tinha concebido, e a qual está confirmada por observações e reflexões cotidianas; das quais, poucas pessoas, eu acredito, tenham concedido mais a esse assunto. Insistiu-se que se deixe o estudo da lógica ser tornado opcional para aqueles que são meramente candidatos a uma graduação, mas indispensável para a obtenção de honras acadêmicas; e a consequência seria que ela rapidamente começaria e progressivamente continuaria a subir em estima e a ser estuda com proveito real. Então, insistiu-se, o exame poderia, sem nenhuma dificuldade, ser tornado algo estrito; uma vez que ninguém poderia reclamar de que um grau moderado de habilidade científica, e uma resolução para se aplicar a um certo estudo prescrito, deveriam ser as condições de obtenção de distinção. A grande maior parte ainda estudaria a lógica; uma vez que haveria (como antes) apenas poucos que estariam desejosos de excluírem a si mesmos da possibilidade de obterem distinção; mas ela seria estudada com uma mente muito diferente, quando enobrecida, por assim dizer, ao ser tornada parte do passaporte para as honras da Universidade, e quando uma proficiência nela veio a ser considerada geralmente como uma distinção honorável. E na proporção que o número daqueles que realmente entendesse a ciência aumentasse, o número, argumentou-se, [xxviii]aumentaria, visto que o valorizaria em fundamentos mais elevados e melhores. Com o tempo, ela chegaria a ser melhor conhecida e melhor apreciada por toda a parte melhor informada da sociedade: e preleções em lógica na Universidade, talvez, não mais consistiriam exclusivamente na explicação dos meros elementos. De fato, isso seria necessário para principiantes; mas, para estudantes mais avançados, os tutores não mais pensariam em prelecionar nos rudimentos crus, do que em prelecionar em gramática latina ou grega; mas, da mesma maneira que eles exercitam os pupilos deles em gramática, lendo com eles autores latinos e gregos com referência contínua às regras da gramática, assim, eles exercitá-los-iam em lógica lendo algum trabalho argumentativo, requerendo uma análise dele sobre princípios lógicos.

De fato, foi reconhecido que esses efeitos não poderiam ser esperados revelarem-se completamente até depois de um lapso considerável de tempo; mas que a mudança começaria a aparecer, (e isso muito decididamente) dentro de três ou quatro anos, foi confiantemente antecipado.

A isso foi respondido que era mais desejável que a ninguém devesse ser permitido obter o Grau de B.A. sem um conhecimento de lógica. Essa resposta porta uma aparência plausível para aqueles não familiarizados com o estado atual da universidade, embora, de fato, ela seja totalmente irrelevante. Pois ela segue sobre a suposição de que até aqui esse objeto tenha sido alcançado; - que todos que passaram no seu exame possuam um conhecimento de lógica; o que notoriamente não é um fato, nem nunca pode ser, sem [xxix]alguma mudança importante em alguma parte do nosso sistema. Portanto a questão não é, como a objeção acima pareceria implicar, se um conhecimento real, útil, de lógica deveria ser estritamente requerido de todo candidato a uma graduação, (pois de fato isso nunca foi feito) mas se, na tentativa de alcançar isso requerendo a forma de um exame lógico de cada candidato sem exceção, nós deveríamos continuar a degradar a ciência, e deixar essa parte do exame ser considerada como mera forma, por muitos que, de outra maneira, poderiam ter estudado lógica com afinco, e com alguma vantagem: - se a grande maioria dos candidatos, e também aqueles de variedade mais promissora, deverão perder um benefício real e importante através da tentativa (a qual, afinal, a experiência provou ser uma tentativa vã) para incluir nesse benefício um número muito pequeno e dos menos promissores.

Algo de uma abordagem para a alteração proposta foi introduzido no estatuto de exame aprovado em 1830; no qual, permissão foi concedida àqueles que são candidatos para, meramente por um testemunho, substituírem por lógica uma porção de Euclides. Contudo, eu temo que pouco ou nada será ganho por isso; a menos que, de fato, os examinadores resolvam tornar os exames em lógica mais estritos do aqueles em Euclides. Pois, uma vez que qualquer um que realmente seja capaz de entender Euclides também tenha de ser capaz de lógica, a alteração não satisfaz o caso daqueles cuja inaptidão para a lógica é invencível; e esses são a variedade mesma de homens cujos (os assim chamados) exames lógicos tendem a deprimir a ciência. Aqueles poucos que realmente são fisicamente incapazes de raciocínio científico, e o [xxx]número muito maior que fantasia a si mesmo assim, ou que, pelo menos, antes correrão um risco do que superarão sua aversão e colocarão a si mesmos para estudar com afinco, - será provável que todos esses, quando a alternativa é proposta, preferiram lógica a Euclides; porque na segunda, dificilmente é possível, pelo menos não tão possível quanto na lógica, apresentar a semelhança de preparação ao aprender questões e respostas de cor: - na frase de jargão dos graduandos, ficando abarrotado. A experiência tem provado isso, no caso dos exames de respostas (Responsion-examinations), onde a alternativa entre lógica e Euclides sempre tem sido proposta aos candidatos; de quem, aqueles mais aversos à ciência, ou incapazes dela, são sempre descobertos preferirem a lógica.

De fato a determinação pode ser formada, e doravante agir-se a partir dela, de que todos que realmente não conheçam nada, apropriadamente falando, de qualquer ciência, deverão ser rejeitados; tudo que eu sei é que esse nunca tem sido o caso até agora.

Ainda assim, é uma satisfação para mim que atenção tenha sido chamada para o mal em questão, e uma medida experimental adotada para o seu abatimento. Dessa forma, uma esperança confiante é propiciada de que no evento (o qual eu muito temo) da falha do experimento, possa se recorrer a alguma outra medida mais efetiva.8

Eu estou ciente de que muitos podem objetar que este não é o lugar apropriado para observações tais como as acima: eles podem dizer, o que tem o público no geral a ver com [xxxi]os estatutos da Universidade de Oxford? A isso poderia ser justamente respondido que não apenas todos que consideram enviar seus filhos ou outros parentes próximos para Oxford, mas, da mesma maneira, todos que estão sob o ministério daqueles que foram educados lá, estão indiretamente interessados, em um certo grau, no sistema ali perseguido. Mas a consideração que teve a parte principal ao induzir-me a dizer o que eu disse é que a vindicação da lógica do desrespeito e desdém sob o qual ela labora, teria sido completamente incompleta sem ela. Pois que seja lembrado que a ciência é julgada pelo público neste país, em um grande grau, a partir dos exemplos exibidos, e os relatórios produzidos, por aqueles a quem Oxford envia. Qualquer um, ao olhar no calendário da Universidade ou no livro de estatutos, sente-se justificado ao assumir que, quem quer que tenha se graduado em Oxford tem de ser um lógico; não, de fato, necessariamente um lógico de primeira classe; mas tal como a satisfazer os examinadores públicos que têm um conhecimento competente da ciência. Agora, se uma proporção muito grande dessas pessoas nem são, nem consideram a si mesmas, absolutamente, beneficiadas pelo (assim chamada de) educação lógica delas, e representam-na como um mero tecido de jargão obsoleto e vazio, o qual é um mero desperdício de tempo frequentar, que qualquer um julgue quais conclusões respeitantes à utilidade do estudo, e à sabedoria da Universidade ao sustentá-la, são prováveis de ser o resultado.

Que preconceitos tão duplamente enraizados como aqueles aos quais eu tenho aludido, e suportados pela autoridade de [xxxii]nomes tão eminentes, especialmente aquele de Locke e (como é comumente, embora não muito corretamente, suposto) Bacon, deveriam derrubados de uma vez pelo tratado presente, eu não sou tão sanguíneo quanto a esperar; mas, se eu tiver sido exitoso na refutação de algumas das objeções mais populares, e na explicação de alguns princípios que, no geral, são mal-entendidos, pode ser esperado que noções justas sobre o assunto possam continuar (como elas já têm começado) a ganhar mais e mais terreno.

Pode ser-me permitido mencionar que, como eu tenho me dirigido às classes mais variadas de estudantes, desde o principiante mais não instruído, até o lógico mais avançado, e portanto tenha tocado tanto nos princípios mais elementares quanto em algumas das deduções mais remotas a partir deles, tem de ser esperado que leitores de cada classe encontrarão algumas partes não bem calculadas para eles. Algumas explicações parecerão muito simples e pueris para uma; e para a outra, algumas das disquisições serão abstrusas demais inicialmente. Se para cada descrição algumas porções sejam consideradas interessantes, é tanto quanto eu posso esperar.

Com respeito ao estilo, eu considerei a perspicácia (perspicuity) não apenas, como sempre tem de ser, o primeiro ponto, mas como um de importância tão primordial nesse assunto, quando a justificar a negligência de todos os outros. Prolixidade de explicação, - simplicidade em ilustração, - e ousadia de expressão, eu considerei como deformidades indignas de consideração, quando qualquer coisa devesse ser ganha a despeito da clareza. Para alguns de meus leitores, alguma dificuldade ocasionalmente pode ocorrer a partir do uso de alguns termos técnicos diferentes, ou [xxxiii]diferentemente aplicados, a partir do que eles têm estado acostumados.9 Contudo, eles têm de considerar que a tentativa de se conformar com o uso de cada escritor lógico nesse ponto teria sido, por conta das variações de cada um, complemente desesperançada. Nos termos empregados, eu tentei não produzir inovações vazias, mas conformar-me com o uso estabelecido, exceto quando há alguma objeção muito forte a ele; - e, acima de tudo, explicar distintamente o sentido no qual cada um é empregado na presente obra.

Se alguém devesse reclamar de eu não ter fornecido uma história de todos os sentidos nos quais cada termo técnico tem sido usado por cada escritor desde a sua primeira introdução, e uma análise das obras de cada um, eu apenas posso responder que meu desígnio não foi escrever uma arqueologia lógica, ou um comentário das obras de lógicos antigos, mas uma introdução elementar à ciência. E, por exemplo, eu suponho que poucos considerariam um tratado sobre agricultura incompleto que devesse deixar intocadas questões tais como, quem foi o inventor do arado (plough), - por quais alterações sucessivas aquele implemento pode passar, - e a partir de que região o trigo (wheat) foi primeiro introduzido.

E novamente, se alguém devesse reclamar da omissão daquelas disquisições metafísicas sobre as leis de pensamento, e a constituição da mente humana de maneira geral, como eles têm estado acostumados a incluírem sob a categoria de Lógica, minha resposta tem de ser que [xxxiv]o termo tem sido empregado por mim em um sentido diferente; por razões que eu formulei em várias partes deste tratado, e especialmente no Livro IV, cap. iii..; e que, portanto, eu apenas devo ser censurado, no máximo, como não tendo me comprometido com uma obra de um tipo diferente e sobre um assunto diferente.

Por outro lado, eu não desejo ser entendido como reclamando daqueles que têm usado a palavra lógica em um sentido mais extenso, ou como menosprezando o valor dos trabalhos deles. Apenas que o leitor deveria estar acautelado contra o erro – muito mais comum, eu acredito, do que é geralmente pensado – de confundir a extensão da aplicação de um nome, com o alargamento das fronteiras de uma ciência.

Ainda assim, é apropriado mencionar que a primeira parte dos “Elementos de Retórica” contém uma discussão daqueles pontos que muitos escritores têm tratado sob o departamento de lógica.

A linguagem técnica empregada neste tratado é, do começo ao fim, com a exceção de umas passagens muito poucas onde algum distanciamento do uso antigo pareceu indispensável, aquela dos antigos trabalhos sobre o assunto. Talvez algum grau de preconceito possa ter sido evitado, no início, e uma aparência muito maior de originalidade produzida, adotando-se novas formas de expressão. Também há muito escritores que encontraram falta na técnica de linguagem estabelecida, vista como pesada e desconcertante. Contudo, eu sempre considerei aquela fraseologia que eles adotam no lugar dela uma circunlocução muito mais tediosa do que aquela que eles censuram; enquanto ela frequentemente é menos clara e menos correta.

[xxxv]Contudo deveria ser observado que toda a linguagem técnica (assim como todas as regras da arte) tem de ser esperada apresentar, inicialmente, uma dificuldade para o estudante superar; embora no fim, isso facilitará grandemente o procedimento dele. Mas, com essa visão, é necessário que tal linguagem e tais regras devam ser não apenas distintamente entendidas, mas também aprendidas, e relembradas tão familiarmente quanto o alfabeto, e empregadas constantemente, e com exatidão escrupulosa. Caso contrário, a linguagem técnica provar-se-á um embaraço em vez de uma vantagem; exatamente como seria com um conjunto de roupas se, em vez de as colocar e usar, alguém devesse carregá-las de um lado para o outro em suas mãos.

Sobre a correção das doutrinas fundamentais sustentadas no trabalho, eu posso ser admitido sentir alguma confiança; não tanto a partir da extensão do tempo que eu tenho estado mais ou menos ocupado com elas, - desfrutando, ao mesmo tempo, da vantagem de sugestões e correções frequentes de vários amigos judiciosos, - como a partir da natureza do assunto. Em obras de gosto, um autor não pode estar certo de que o julgamento do público coincidirá com o seu próprio; e se ele falha em proporcionar prazer, ele falha no seu objeto único e mais apropriado. Mas no caso das verdades que admitem demonstração científica, é possível chegar através do raciocínio a uma segurança tão completa da justeza das conclusões estabelecidas quanto a imperfeição das faculdades humanas admitirá; e a experiência, acompanhada por observação atenta e com tentativas repetidas de vários métodos, pode possibilitar a alguém há muito acostumado com ensino a determinar com certeza considerável quais explicações são melhor compreendidas. [xxxvi]Contudo, muitas partes do detalhe provavelmente podem estar abertas a objeções; mas se (como a experiência agora me autoriza a esperar confiantemente) nenhum erro for descoberto, o qual materialmente afete a utilidade substancial da obra, mas apenas tal como a detratar do crédito do autor, o objetivo que eu tinha principalmente em vista terá sido alcançado.

Eu estou ciente de que nenhum crédito seja dado à própria retratação de motivos pessoais pelo autor, e a profissão de consideração exclusiva pela utilidade pública; uma vez que, nesse ponto, mesmo a sinceridade não pode assegurar que ele não engane a si mesmo; mas pode ser admissível observar que alguém cujo objeto fosse o aumento da sua reputação como um escritor dificilmente poderia ter escolhido um assunto menos adequado para esse propósito do que o presente. À época da publicação inicial, o estudo não foi nem popular, nem, aparentemente, provável de se tornar popular. A ignorância, fortificada pelo preconceito, opôs-se à sua recepção, mesmo nas mentes daqueles que são considerados tanto cândidos quanto bem informados. E como, por um lado, uma grande classe de filósofos modernos poderia ser esperados erguerem um clamor contra “prejuízos obsoletos;” “devoção fanática aos decretos de Aristóteles;” “confinamento da mente humana nos estorvos dos escolásticos,” etc, assim por outro lado, todos que realmente são intolerantes dessa maneira com toda coisa que há muito foi estabelecida, meramente porque ela foi estabelecida há muito tempo, seriam prováveis de exclamar contra a presunção do autor, quem proclama se afastar da trilha dos seus predecessores em vários pontos.

Também há outra circunstância que tende [xxxvii]materialmente a diminuir o crédito de um escritor sobre este e outros assuntos irmanados. Nós não podemos fazer descobertas de novidades impressionantes: os sentidos dos nossos leitores não são impressionados, como com o retorno de um cometa que tenha sido previsto, ou a extinção de uma vela fina em gás de ácido carbônico: os materiais sobre os quais nós trabalhamos são comuns e familiares para todos e, portanto, supostos serem bem entendidos por todos. E não apenas é a deficiência de alguém no uso desses materiais, tais como geralmente não é sentida por si mesmo, mas quando ela é removida por explicações satisfatórias – quando as noções, as quais têm sido perplexas e emaranhadas, são clareadas pela introdução de uns princípios simples e aparentemente óbvios, ele geralmente esquecerá que qualquer explicação foi de qualquer maneira necessária, e considerará tudo que foi dito como mero truísmos, o qual até uma criança poderia suprir a si mesmas. Tal é a natureza dos princípios fundamentais de uma ciência – eles estão tão completamente implícitos nas verdades mais evidentes e bem conhecidas, que, no momento em que eles são completamente adotados, torna-se uma dificuldade conceber que alguma vez nós alguma vez não tenhamos estado cientes deles. E consequentemente, quanto mais simples, claro e óbvio qualquer princípio for tornado, mais é provável é que a exposição dele elicite aquelas observações comuns, “É claro! É claro!” “Ninguém nunca poderia duvidar disso;” “Isso é tudo muito verdadeiro, mas não há nada novo trazido à luz; nada que não fosse familiar a todo,” “Não há necessidade de nenhum fantasma nos dizer isso.Eu estou convencido de que uma maneira verbosa, mística e parcialmente obscura de falar sobre um assunto é a mais provável de capturar a atenção da multidão A generalidade verifica a observação de Tácito, “omne [xxxviii]ignotum pro mirifico;” e quando qualquer coisa é tornada muito evidente para eles, ficam inclinados a fantasiarem que eles já a conheciam; de modo que as explicações de verdades científicas são prováveis, por um tempo considerável, pelo menos, de serem, pela maioria dos homens, mais desprezadas quanto mais perfeitamente elas alcancem seu objetivo.

Portanto, um progresso muito lento (muito mais lento do que, de fato, tem ocorrido) na direção da popularidade é o máximo que eu espero para um tratado tal como eu tenho tentado tornar presente. Contudo, eu sinto-me obrigado, não apenas como um membro da sociedade, mas mais especialmente como um ministro do Evangelho, para usar meus esforços na direção da promoção de um objeto que para mim parece altamente importante, e (o que é muito mais) cuja importância foi apreciada por muitos poucos além. A causa da verdade universalmente, e não menos, da verdade religiosa, é beneficiada por toda coisa que tende a produzir raciocínio correto e facilitar a detecção de falácia. Eu estou convencido de que os adversários da nossa fé teriam sido mais satisfatoriamente respondidos em muitas ocasiões, e teriam tido menos aberturas para sofisma, tivesse uma familiaridade completa com a lógica sido uma qualificação mais comum do que ela é. Portanto, ao emprestar meus esforços, se com sucesso maior ou menor, na direção desse objeto, eu confio que eu não seja nem inutilmente nem inadequadamente empregada.

Aqueles que estão engajados com, ou designados para, o Ministério Sagrado, e todos os outros que estão cientes de que a causa da verdadeira religião não é uma preocupação apenas do ministério, deveriam lembrar-se de que este não é o momento para renunciar a nenhuma das vantagens que a causa pode derivar a partir de um cultivo ativo e judicioso das [xxxix]faculdades. Entre os inimigos da Cristandade nos dias de hoje estão incluídos, se eu não me engano, uma variedade muito diferente de pessoas daquelas que deviam ser encontradas há um século ou mesmo há um meio século: os quais eram chamados de “homens de inteligência e prazer ao redor da cidade;” - declamadores ignorantes, rasos, superficiais, ou pretendentes monótonos e impotentes a filosofia. Entre os inimigos do Evangelho hoje em dia devem ser encontrados homens não apenas de conhecimento e ingenuidade, mas de poderes argumentativos cultivados, e versados nos princípios da lógica. Se os defensores da nossa religião consideram apropriado desprezar esse auxílio, eles descobriram, em investigação cuidadosa, que os oponentes deles não o fazem. E que eles não confiem tão descuidadamente na força da causa deles. De fato, a verdade prevalecerá, onde todos os outros pontos forem quase iguais; mas ela pode sofrer uma derrota temporária, se suposições apresadas, argumentos incorretos e declamação vaga e vazia, ocuparem o lugar de um fluxo de raciocínio estrito, preciso e luminoso.

Contudo, não é unicamente, ou principalmente, para propósitos polêmicos que o cultivo da faculdade de raciocínio é desejável, na persuasão, na investigação, no aprendizado ou ensino, em toda multitude de casos nos quais é o nosso objeto chegar a conclusões justas, ou levar outros a elas, ela é a mais importante. De fato, um conhecimento das regras lógicas não suprirá a carência de qualquer outro conhecimento; tampouco alguma vez foi proposto, por qualquer um que realmente entendeu essa ciência, substitui-lo por qualquer outro: mas não é menos verdadeiro que nenhum outro pode ser substituído por isso; que ele é valioso em todo ramo de estudo; e que ele nos capacita a usarmos para a maior vantagem o conhecimento que nós possuímos. [xl]Portanto, deve ser esperado que aqueles corpos acadêmicos que foram suficientemente sábios para reterem essa ciência, em vez de serem persuadidos a abandoná-la, concederão sua atenção antes ao seu aperfeiçoamento e cultivo mais efetivo.


ORIGINAL:

WHATELY, R. Elements of Logic. Comprising the Substance of the Article in the Encyclopedia Metropolitana with Additions, &c. New Edition, Revised by the Author. Boston and Cambridge: James Munroe and Company, 1859. p. v-xl. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsoflogicc00whatuoft/page/n4/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1Esta seção serve como índice para as postagens com os capítulos, livros e partes de livros. A medida que as traduções forem postadas, links para as mesmas serão adicionados nos locais correspondentes.

2Este livro já foi traduzido anos atrás, mas precisamente entre 13 de setembro de 2020 (Introdução ao livro) e 07 de dezembro de 2020 (§§18 a 20, os últimos parágrafos, do livro); com isso em mente, links para as postagens com textos dos parágrafos traduzidos estão adicionados!

3[x]Ver Livro IV, Cap. ii, §1.

4[xvi]Ver “Acusação (Charge),” 1843.

5[xvii]Ver Dedicatória.

6[xxi]Ver Introductory Lecture on Political Economy, de Senior, p.28

7[xxiv]No último estatuto de exame planejado uma declaração expressa foi inserida de que proficiência em lógica dever ter um peso na atribuição de honras.

8[xxx]Desde que isso foi escrito, o experimento tem sido testado. Na primeira lista de exame sob o novo estatuto (Easter, 1831), dos 125 candidatos que não aspiravam a turmas superiores, vinte e cinco preferiram Euclides para o seu exame, e cem, Lógica!

9[xxxiii]Ver Livro II, Cap. i, §1.

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