Caminhos: Por que a Vida está Preenchida com tantos Desvios?
Por József Biró, András Gulyás e Zalán Heszberger
[1]Capítulo 1 Introdução: Caminhos Longos e Sinuosos
Era uma vez, havia um galo e um rato. Um dia o rato disse para o galo, “Amigo galo, devemos nós ir e comer algumas nozes na árvore acolá?” “Como você desejar.” Assim eles dois chegaram debaixo da árvore, e o rato escalou-a de uma vez e começou a comer. O pobre galo começou a pairar, e pairou e pairou, mas não conseguiu chegar aonde o rato estava. Quando ele viu que não havia esperança de chegar lá, ele disse, “Amigo rato, você sabe o que eu desejo que você faça? Jogue-me uma noz.” O rato foi e jogou uma e atingiu o galo na cabeça. O pobre galo, com sua cabeça quebrada e todo coberto de sangue, saiu e foi até uma velha mulher. “Velha tia, dê-me alguns trapos para curar minha cabeça.” “Se você der-me dois pelos, eu darei os trapos a você.” O galo saiu e foi até um cão. “Cão, dê-me alguns pelos. Eu darei os pelos à velha mulher. A velha mulher dar-me-á trapos para curar minha cabeça.” “Se você der-me um pão pequeno,” disse o cão, “eu te darei os pelos.” O galo saiu e foi até um padeiro. “Padeiro, dê-me pão. Eu darei pão ao cão. O cão dará pelos. Os pelos eu levarei até a velha mulher. A velha mulher dar-me-á trapos para curar minha cabeça. [5]…” (Fig. 1.1).
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[2]Fig.1.1 A capa dos contos populares italianos, por Thomas Frederic Crane [Publicado por Riverside Press, Cambridge, Massachusetts, 1885]
Nós poderíamos prosseguir com a história, apenas para assegurar rapidamente ao leitor que nós afirmamos que o pobre galo finalmente conseguiu curar sua cabeça depois de ter passado por várias outras aventuras interessantes na floresta. Contar esse contos cumulativos a crianças é sempre muito divertido. Elas rapidamente captam o ritmo da história e ouvem você com olhos curiosos do começo ao fim. Mas o que torna esses contos cumulativos, como o italiano acima, tão fascinantes que crianças sempre ouvem e observam atentamente? Bem, é claro, elas estão preocupadas com o pequeno galo e perguntam-se se ele pode curar cabeça dele. Mas se isso fosse tudo, então o conto poderia terminar depois que a noz atingisse o galo na cabeça dizendo que “O pobre galo, com sua cabeça quebrada e todo coberto de sangue, saiu e foi até uma velha mulher, quem lhe deu trapos, e o galo curou a cabeça dele.” Não tão brilhante. Se nós a colocássemos dessa maneira, a história perderia o seu significado – a sua essência. Mas, o que há no coração do conto que o torna excitante? Nós poderíamos dizer, uma longa cadeia de eventos que acontecem antes que o galo finalmente possa curar a cabeça dele. Um caminho intrincado de eventos que pode tomar voltas inesperadas e seguir para sempre. Um caminho que pode seguir com o pequeno galo e quase esquecer de porque ele desesperadamente necessita de todas [2]aquelas coisas. Quando ouvindo o conto, nós estamos tão preocupados em seguir o caminho dele, que o caminho quase desaparece do nosso horizonte.1 A inteira aventura lentamente começa a existir no seu próprio direito, talvez mais importante do que o objetivo mesmo, e ganha o seu próprio significado independente. Isso significa que nós evitamos alcançar o objetivo? Bem, não exatamente. Perambular de um lugar para o outro sem destino tornar-se-ia cansativo com o tempo. Mas nós parecemos ter um estranho desejo de perambular um pouco antes de terminar a história. Talvez seja para nos aquecer ou justificar para a história? Ou é simplesmente uma busca por um pouco de prazer? Ou nós necessitamos de tempo para nos preparar para uma mensagem importante? Independentemente das razões, o caminho eventualmente se tornar a essência da história, e o objetivo perde inteiramente o seu significado!
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[3]Fig. 1.2 Ma Yuan, “Walking on a Mountain Path in Spring” [Com a permissão do National Palace Museum de Taiwan.]
Se alguma vez você assistiu à série policial de Columbo com Peter Falk, você certamente entenderá essa ideia. Cada episódio de Columbo começa mostrando um assassinato exatamente como ele aconteceu. Assim, desde o começo mesmo, nós sabemos quem é a vítima, quem é o assassino, e como o assassinato foi cometido. O final da história não é uma questão: Columbo prenderá o assassino. Assim, nós não assistimos a essa séria pela excitação de se o assassino será ou não pego. Então, por que nós a assistimos? Bem, pela maneira (way) específica através da qual Columbo resolve o crime com todos os detalhes minúsculos, aparentemente insignificantes, que são lentamente reunidos para criar uma prova inabalável. Em resumo, nós assistimos pelo caminho particular de Columbo em direção à resolução do caso. E, é claro, por mais uma coisa: a personalidade rigorosamente engraçada de Columbo.
Quão universais são essas voltas aparentemente inúteis em caminhos que os humanos fazem em suas vidas cotidianas, e por que elas existem? Quão sinuosos eles deverão ser? Nós podemos coletar e analisar dados sobre eles para descobrir suas propriedades? E como nós usamos essa informação para predizer o comportamento de sistemas diversos, da vida real, que claramente implementam caminhos? Neste livro, nós tentamos endereçar essas essas questões. Nós procuramos por uma sequência funcional de passos que nós levem mais perto da natureza dos caminhos do mundo real. Procurando por um caminho para caminhos? Isso soa suficientemente maluco. Embarquemos logo na nossa jornada longa e sinuosa e comecemos…
ORIGINAL:
BIRÓ, J.; GULYÁS, A.; HESZBERGER, Z. Paths: Why is life filled with so many detours? Birkhäuser Cham, 2021. p. 1-3. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-47545-1>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1[2]Esse pensamento é belamente capturado pela pintura de Ma Yuan, onde a figura na pintura caminha em um caminho na montanha e rapidamente desaparece. (ver Fig. 1.2)


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