Contornos da História da Ética para Leitores Ingleses
Por Henry Sidgwick
[xvii]Introdução
Para auxiliar o leitor na apreensão e organização do material histórico um pouco comprimido apresentado a ele neste livro, eu considerei desejável prefixar uma breve sinopse dos três períodos tratados nos capítulos II, III e IV, respectivamente.
I. Ética Grega e Greco-romana
A primeira das três grandes divisões do meu assunto – a história da ética grega e greco-romana – naturalmente, está subdividida novamente em ética pré-socrática, ética socrático-platônico-aristotélica e ética pós-aristotélica. Se nós usarmos essas como divisões cronológicas definidas, o primeiro período pode ser aceito estender-se até aproximadamente 430 a.C., quando a nova dialética de Sócrates começou a impressionar o público ateniense: o segundo pode ser aceito terminar ou com a morte de Aristóteles (322 a.C.), ou com o aparecimento aproximadamente simultâneo de Zenão e Epicuro em Atenas como professores, perto do fim do século IV; o terceiro pode ser estendido, se nós desejarmos, até a supressão das escolas de filosofia em Atenas, pelo zelo ortodoxo de Justiniano, em 529 a.C.; mas eu não tentei levar o interesse do leitor, nesse último estágio, [xviii]além do século III a.C. Todavia, ao lidar com essa primeira divisão, eu não considerei desejável observar uma linha estritamente cronológica de demarcação; visto que eu inclui nela Demócrito, um contemporâneo mais jovem de Sócrates, sobre o fundamento de que o ensinamento de Demócrito está em estrita relação positiva com a filosofia pré-socrática, e não foi influenciado por nenhuma das novas linhas de pensamento que encontra ponto de partida comum em Sócrates.
Em qualquer caso, os três períodos acima distinguidos são de importância muito desigual. A característica principal do período primeiro ou pré-socrático da filosofia grega é que a investigação filosófica está principalmente concentrada na explicação do mundo externo; o interesse na conduta humana ocupa um lugar secundário e subordinado. É no e através do ensino de Sócrates que a filosofia moral vem a ocupar no pensamento grego a posição central que posteriormente ela nunca perdeu: Sócrates é o principal ponto de partida a partir do qual todas as linhas subsequentes do pensamento ético grego divergem: para a nossa apreensão, especulações sobre a conduta antes de Sócrates são meramente um tipo de prelúdio ao desempenho real. Além disso, os três pensadores desse período, a quem eu dirigi atenção – Pitágoras, Heráclito e Demócrito – são apenas conhecidos por nós de segunda mão, ou através de passagens fragmentárias citadas por outros escritores. Sobre ambos fundamentos, nós não podemos nos dar ao luxo de despender muito tempo no exame das doutrinas deles. Contudo, é interessante – e pode auxiliar o estudante a fixar as principais características deles em mente – observar as relações de afinidade nas quais esses três pensadores pré-socráticos estão a respeito de três importantes linhas do pensamento pós-socrático: Pitágoras para o platonismo, Heráclito com o estoicismo e Demócrito com o epicurismo.
[xix]O segundo período, embora muito mais curto no tempo do que o terceiro, ocupa, como o leitor verá, um espaço muito maior no meu capítulo. Isso é em parte porque as obras atuais de Platão e a parte mais interessante das obras de Aristóteles chegaram a nós, ao passo que os livros dos principais pensadores pós-aristotélicos pereceram quase inteiramente. Mas essa não é a explicação inteira: antes esse fato é em si mesmo uma indicação do interesse preeminente e permanente agregado aos escritos desses mestres iniciais. De qualquer maneira, para nós, Sócrates, Platão e Aristóteles, tomados juntos, possuem um lugar único na história da filosofia moral: e para entender os homens e a obra deles, nós deveríamos contemplá-las, tanto quanto possível, em relação unas com as outras. De fato, considerado à parte de Platão e Aristóteles, Sócrates seria uma figura de interesse no máximo histórico; mas a significância mais profunda do seu método dialético inevitavelmente seria perdida. A obra de Platão, como ele mesmo a apresenta, é essencialmente um prosseguimento de uma investigação iniciada por Sócrates; e a obra de Aristóteles, pelo menos na ética, é principalmente uma reformulação sistemática dos resultados definidos gradualmente descobertos pela pesquisa incansável e continuamente renovada de Platão, suplementada por aplicações adicionais do quê é essencialmente o método de Sócrates formalizado.
Uma porção subordinada de atenção é devida ao desenvolvimento das escolas cínica e cirenaica dentro desse período: isso é principalmente interessante enquanto apresentando para nos uma forma mais primitiva e crua daquela oposição inflexível entre virtude e prazer, a qual, posteriormente, no período pós-aristotélico, é continuada entre estoicismo e epicurismo. Tanto a escola cínica quando a cirenaica perduraram por um tempo, depois da fundação das escolas posteriores e mais importantes de Zenão e Epicuro; mas nós não podemos rastrear a doutrina cirenaica além [xx]do meio do terceiro século a.C.; e pelo final desse século, o cirenaísmo, como uma escola independente, parece ter se tornado extinta, embora ela reviva posteriormente como uma ramificação ou modificação do estoicismo.
O terceiro e concludente período da ética grega e greco-romana pode ser considerado estender-se, grosseiramente falando, através de seis séculos – metade antes e metade depois da era cristã. Mas o interesse filosófico nesse período é distribuído muito desigualmente. O ponto mais interessante nele é o começo mesmo; uma vez que Zenão e Epicuro parecem ter fundado as escolas estoica e epicureia respectivamente por volta do mesmo tempo, exatamente antes do fim do século IV a.C. Absolutamente nenhum evento de importância igual a essa origem dupla de doutrinas ocorre na história da filosofia moral pelos seis séculos subsequentes; - de nenhuma maneira até a fundação do neoplatonismo no terceiro século d.C.; e mesmo esse é de importância menor na história da ética do que é na história da filosofia de maneira geral. Consequentemente, no estudo desse período, é conveniente dividi-lo – se eu posso falar assim – longitudinalmente em vez de transversalmente; primeiro considerando cada uma das quatro escolas fundadas por Platão, Aristóteles, Zenão e Epicuro respectivamente, e então examinando suas relações mútuas. O estoicismo toma a liderança, e por toda parte reivindica a primeira e maior parte da nossa atenção até o fechamento do II século d.C., quando o interesse é transferido para os desenvolvimentos posteriores do platonismo. A relação antitética do estoicismo com o epicurismo é simples, permanente e facilmente apreendida; enquanto a atitude da escola peripatética ou aristotélica, passando por mudanças menores, pode ser brevemente caracterizada como aquela de “ortodoxia moderada,” tentando sustentar as alegações proeminente de virtude adequadamente, contudo, de modo a evitar [xxi]as extravagâncias estoicas. A história inicial do estoicismo mesmo é um assunto obscuro, no qual eu não adentrei mais do que para apenas notar a importância da obra de Crisipo, o “segundo fundador” do estoicismo (cerca de 280-206 a.C.); depois disso, os pontos principais a observar no desenvolvimento são a tendência ao ecletismo ou sincretismo próximo do fim do II século d.C. representada por Panacio, a influência do estoicismo sobre o pensamento romano como traçada nos escritos de Cicero, e as características do estoicismo romano posterior, que nós conhecemos a partir dos escritos de Sêneca e Marco Aurélio. As variações na escola de Platão são mais marcadas: falando de modo geral, nós podemos distinguir três transições principais na sua história; a primeira mudança é para o período de ceticismo filosófico (cerca de 250-100 a.C.), no qual o pensamento ético é dúbio; então o ceticismo extingui-se durante o século I a.C., e a visão predominante da escola torna-se amplamente similar à ortodoxia moderada dos peripatéticos – até que, no final do século II d.C., uma tendência ao misticismo aparecer, a qual alcança o seu desenvolvimento mais completo no neoplatonismo de Plotino no século III a.C.
II Cristandade e Ética Medieval
Quando, no final do século III d.C., afastamos a nossa atenção do neoplatonismo, nós encontramos a cristandade já dominante no pensamento europeu: portanto, eu comecei meu segundo capítulo com uma breve caracterização das características distintivas da moralidade cristã e, em seguida, prossegui para um esboço resumido do desenvolvimento da [xxii]doutrina ética na igreja ocidental. Se o leitor devesse ficar sobressaltado pela rapidez com a qual ele é levado através de mais de seis séculos, de Agostinho até Anselmo, ele deve ter em mente a longa suspensão das atividades intelectuais superiores que ocorreu durante essas épocas de dissolução e reconstrução sociais; e ele pode notar que o único escritor original que reivindica a nossa atenção durante essas “idades das trevas,” Johannes Erigena, está conectado com o brilho parcial de luz e ordem que a Europa deveu a Carlos Magno; uma vez que a única parte da vida de Erigena da qual nós podemos ter qualquer conhecimento preciso é aquela que ele despendeu como líder da escola da corte (Schola Palatina) sob Carlos o calvo, de 843 adiante. Além disso, é digno de nota que o desenvolvimento importante da filosofia medieval, o qual começa com Anselmo, e que é chamado de Escolástica, quase coincide com o grande esforço de estabelecer ordem social e política na Europa ocidental sob a base da supremacia eclesiástica, a qual começa com Hildebrando; e que a escolástica, como o poder do papado, culmina no século XIII com Tomás de Aquino – o único escritor com as doutrinas do qual eu considerei desejável expandir qualquer extensão neste capítulo. No século XIV, a escolástica passou do seu auge, embora o seu método ainda dominasse a Europa educada; no século XV, a autoridade do pensamento medieval é assediada e enfraquecida pela Renascença; no século XVI, a Reforma e o crescimento da ciência física combinaram-se para a despedaçar; com o século XVII, o período do pensamento moderno efetivamente começou.
[xxiii]III Ética Moderna, principalmente Inglesa
Este capítulo concludente está principalmente ocupado com o processo do pensamento ético inglês desde Hobbes até J. S. Mill: mas, para explicar o hobbismo, pareceu desejável começar descrevendo a visão prévia de direito natural, a partir da qual o hobbismo é formado por antítese, e a qual foi tomada como a base do direito internacional na obra histórica de Grotius, uns quinze anos antes que visão de Hobbes tomasse forma escrita. Pelo século e meio que intervém entre Hobbes e Bentham, o desenvolvimento da ética inglesa prossegue sem receber nenhuma influência material a partir de fontes estrangeiras. Esse processo pode ser convenientemente dividido em partes, como se segue; mas o leitor tem de observar que as divisões não podem se completamente tratadas como cronologicamente sucessivas.
No primeiro período, o aspecto do hobbismo ao qual os moralistas ortodoxos se opõem é a dependência da moralidade social sobre o estabelecimento da ordem política. Desprezando diferenças menores, nós podemos distinguir amplamente duas linhas de oposição: (1) aquela dos “moralistas de Cambridge” e Clarke, a qual colocava ênfase na autoevidência dos princípios morais vistos abstratamente, e na obrigação intrínseca deles para as vontades racionais, à parte de qualquer consideração deles como leis estabelecidas para os homens por um soberano onipotente; (2) aquela de Cumberland e Locke, a qual trata a moralidade como um código de legislação divina a ser determinada através da consideração das relações dos seres humanos como projetados e criados por Deus. A primeira linha eu posso chamar daquelas dos intuicionistas racionais primitivos, para a distinguir de uma linha de pensamento um pouco similar introduzida no próximo século por Price e [xxiv]Reid; enquanto os moralistas jurídicos, Cumberland e Locke, são talvez mais instrutivamente vistos como precursores do utilitarismo posterior de Paley – embora, como eu mostrei, o método de Locke para a determinação das leis da natureza é antes intuitivo do que utilitário. Contudo, deveria ser acrescentado que essas duas linhas de pensamento não estão definitivamente opostas uma a outra nesse período: Cumberland, especialmente, é considerado por Clarke como um aliado completo e, de algumas maneiras, está mais próximo dele do que ele de Locke.
No segundo período, a resposta ao hobbismo toma uma nova partida, e penetra em sua base do egoísmo psicológico. Essa linha de pensamento é iniciada por Shaftesbury e desenvolvida em direções diferentes por Butler e Hutcheson: todos os três concordam em sustentar contra Hobbes que (a) a benevolência desinteressada e a consciência ou senso moral são as fontes naturais da ação, não redutíveis ao amor-próprio; e que (b) elas incitam, sempre ou pela maior parte, à conduta que o autointeresse iluminado ditaria e, portanto, são harmoniosas com, embora distintas de, o amor-próprio. Eu digo “sempre ou pela maior parte”; pois, nesse ponto, a cautela maior de Butler leva-o a uma maneira de pensar suficientemente distinta daquela de Shaftesbury ou Hutcheson para constituir uma nova partida. Na visão de Shaftesbury e Hutcheson, o sentido moral, a benevolência compreensiva e o autointeresse iluminado combinam-se uma faixa tripla para nos atrair, se nós virmos apenas os fatos empíricos como eles são, para a boa conduta: na visão de Butler é necessário (1) encarar a possibilidade de um conflito aparente entre consciência e amor-próprio e, portanto, colocar ênfase na autoridade da primeira; e (2) notar que os ditados da consciência divergem importantemente daquelas direções que uma mera consideração pela felicidade geral concederia. No primeiro desse [xxv]pontos ele coloca ênfase no prefácio aos seus Sermons (1726); o segundo apenas se torna perfeitamente claro para ele posteriormente, e é enfatizado na dissertação On the Nature o Virtue adicionada à Analogy (1736); essa última data, portanto, pode ser tomada como o ponto de partida da controvérsia entre ética intuicionista e utilitaristas, a qual posteriormente se tornará proeminente. A próxima divisão do assunto é caracterizada pela preponderância da psicologia sobre a ética: a questão que é tanto mais originalmente quanto mais efetivamente tratada não é (a) Como a conduta correta deve ser determinada, mas (b) Como os sentimentos morais devem ser cientificamente explicados. Três linhas de explicação – todas as quais fornecem elementos para o associacionismo posterior de James e John Mill e outros – são desenvolvidas por Hume, Hartley e Adam Smith, respectivamente. Dessas, a de Hume, a qual resolve o sentimento moral em simpatia com efeitos prazerosos e dolorosos da ação, leva naturalmente a uma solução utilitária da questão estritamente ética (a): mas o interesse de Hume é primariamente a explicação psicológica, não a construção ética.
Finalmente, quando o interesse principal volta-se novamente para a determinação sistemática da conduta correta, nós encontramos a oposição entre a consciência e benevolência compreensiva do homem comum, a qual Butler observou em 1736, desenvolvida na antítese entre a moralidade intuitiva e utilitária, a qual tem perdurado até a nossa própria época. Meu esboço histórico foi intencionado para terminar com o utilitarismo de Mill; mas eu considerei bom incluir uma breve nota de dois modos correntes de pensamento não representados no esboço histórico, os quais eu chamei de ética “evolutiva” e “transcendental.” Além disso, antes do final do último século, nós notamos uma reintrodução da influência estrangeira: os [xxvi]sistemas utilitaristas de Bentham e Mill mostram influência respectivamente dos escritores franceses Helvetius e Comte: enquanto que, novamente, a influência do kantismo foi parcialmente misturada, parcialmente contrastada com o intuicionismo do senso comum que é comumente conhecido como a escola escocesa1, representada principalmente por Reid e Stewart; e, posteriormente, no terceiro quarto do século presente, uma nova forma de pensamento ético que eu chamei de transcendentalismo tem sido desenvolvida sob a influência combinada de Kant e Hegel; e o pessimismo2 fracamente discernível no pensamento inglês corrente pode ser parcialmente rastreável até uma origem alemã. Portanto, eu conclui o capítulo com uma breve consideração de certos sistemas de ética franceses e alemães, considerados em relação com o pensamento inglês.
ORIGINAL:
SIDGWICK, H. Outlines of the History of Ethics for English Readers. London: MacMillan and Co., Limited, New York: The MacMillan Company, 1906. p.xvii-xxvi. Disponível em: <https://archive.org/details/outlinesofthehis00sidguoft/page/xvii/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[xxvi]Esse termo é passível de enganar, visto que a atividade intelectual da Escócia desempenha uma parte proeminente no movimento do pensamento ético inglês de Hutcheson adiante; mas o que é mais amplamente conhecido como escola escocesa foi fundada por Reid.
2Eu uso o termo pessimismo em seu sentido popular, para denotar a visão de que o mundo é tão ruim que a sua não existência seria preferível à sua existência – não necessariamente que ele seja o pior mundo possível.
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