Caminhos: Por que a Vida está Preenchida com tantos Desvios?
Por József Biró, András Gulyás e Zalán Heszberger
[5]Capítulo 2 Todos amam Desvios
Em um dia típico, antes de começarmos uma atividade, nós estabelecemos um objetivo explícito ou implícito. O caminho que conduz na direção desse objetivo frequentemente é selecionado sem cuidadosamente o projetar. Apenas vem naturalmente selecionar a rota correta para o trabalho ou a série apropriada de ações para preparar o café da manhã. Não é de surpreender que uma execução ótima raramente seja considerada. Contudo, há casos onde o nosso alvo está em algum futuro distante, concedendo-nos uma oportunidade para refletir sobre ele e descobrir uma solução poupadora de energia. É surpreendente que nós raramente tiremos vantagem disso. Para nós, o caminho adotado parece conter passos supérfluos requerendo esforço extra. Aliás, algumas vezes as pessoas não podem suportar tornas as coisas mais complicadas. Isso é simples negligência humana ou há mais a ser descoberto? No que se segue, façamos uma tentativa para desvendar o mistério através de uma série de exemplos do mundo real. Nós primeiro, começamos com uma história da América pós-guerra e, em seguida, nós estudamos as atividades humanas na Internet e, finalmente, nós discutimos uma ideia esplêndida para apresentações de projeto.
2.1 Escondendo-se atrás de Proxies (Substitutos)
1947-1960 não foi um período fácil para artistas, escritores e diretores de Hollywood. Depois do começo da guerra fria, a caça às bruxas política em busca de comunistas culminou no ato primitivo de colocar em lista negra mais de 300 artistas, visto que eles eram acusados de terem vínculos ou simpatias comunistas. Orson Welles, Arthur Miller, Charlie Chaplin são apenas alguns dos nomes que perderam seus empregos e reputações porque eles estavam em lista negra. Para continuarem com suas carreiras, muitos dos que estavam em lista negra escreviam sob os nomes de amigos que posavam como escritores reais. Esses amigos eram chamados de “fachadas (fronts).” O filme intitulado de “The Front” (1976), dirigido por Martin Ritt, foi baseado nesses eventos lamentáveis. Howard Prince (Woody Allen) (Fig. 2.1), o caixa do restaurante e apostador ilegal, é pedido pelo seu amigo Alfred Miller (Michael Murphy), o escritor em lista negra, para assinar seu nome no roteiros para a televisão de Miller. Howard é um bom amigo e está desesperado por dinheiro e sucesso, assim ele concorda. Os [6]roteiros de Miller tornam-nos ambos ricos e Howard torna-se um roteirista famoso. Howard prova ser uma boa “fachada” para Miller e atrai outros “clientes.” Ele prossegue para publicar seus próprios roteiros sob o seu próprio nome. O negócio está crescendo e Howard torna-se um dos roteiristas mais proeminentes em Hollywood.
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[6]Fig. 2.1 Retrato de Howard Prince (interpretado por Woody Allen), desenhado à mão por Lajosné F. Kiss [Com a permissão de Lajosné F. Kiss]
Mas que caminho surreal para se tornar exitoso e famoso! Se nós começarmos a pensar um pouco mais profundamente sobre o sucesso de Howard, ele torna-se ainda mais surreal. Por que os escritores se voltavam para ele com seus problemas? Caixas de restaurante não são os apoiadores típicos de escritores em Hollywood. É mais provável que diretores, artistas e executivos tenham os recursos dos quais os escritores necessitam. Eles têm dinheiro, contatos sociais, influência e reputação. Howard não tem nada disso. A despeito disso, muitos escritores se voltavam para Howard em busca de ajuda. Então, o que Howard pode prover que é tão valioso para os famosos escritores de Hollywood? Em vez de dinheiro, contatos ou influência, ele poderia ter oferecido a sua personalidade inofensiva. Ele era um ninguém e era exatamente disso que os escritores necessitavam. Através desse representante, os escritores desesperados alcançavam seus objetivos: publicavam seus roteiros e continuavam com suas carreiras. Atuando como uma fachada para outros, Howard simplesmente providenciava um caminho; um caminho para objetivo, os quais, caso contrário, teriam sido inalcançáveis.
“Fachadas,” como Howard Prince, também são amplamente utilizados na Internet. Eles são chamados de proxies, e, na configuração mais básica, eles podem ser usados para agirem como “espantalhos” para usuários quando acessando um serviço de Internet. No exemplo da Fig. 2.2, Bob está tocando serviço de hora atual, significando que ele diz a hora atual por uns poucos centavos se alguém pergunta. Alice usa um proxy para perguntar a hora a Bob. Por que ela faz isso? Primeiro de tudo, para poupar algum dinheiro. Alice tem uma amiga chamada de Carol, quem também usa o serviço de Bob muito frequentemente. Elas concordam em usar o mesmo proxy para perguntar a hora a Bob. Se Alice e Carol estão curiosas sobre o tempo quase simultaneamente, então o proxy pode perguntar a Bob uma vez e contar às duas garotas. Quanto mais pessoas estão ansiosas para saberem a hora, mais dinheiro elas podem poupar usando o proxy. Segundo, como o proxy age em nome de Alice, Bob nunca saberá que Alice usa o serviço dele; ele apenas conhece o proxy.
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[7]Fig. 2.2 O funcionamento de um servidor de proxy
[7]Em 2003 Vivek Pai e seus colegas na Universidade de Princeton decidiram estabelecer proxies abertos [22] por toda a Internet para propósitos de pesquisa. Abertos significa que os proxies podem ser usados por qualquer um para acessarem indiretamente serviços de Internet, como Alice e Carol fizeram. Infelizmente, servidores abertos são um deleite de hackers, assim, o seu lançamento intencional não foi uma boa ideia. Os pesquisadores presumiram que “uma rede de pesquisa não publicizada, experimental, de proxies não seria de muito interesse para ninguém.” Eles estavam errados. Eles subestimaram quanto tempo levaria para outros descobrirem o sistema deles, e o escopo das atividades para as quais as pessoas buscavam os proxies abertos. Vivek e seus colegas experienciaram extraordinária atenção no seu sistema imediatamente após o lançamento. Eles rapidamente detectaram um volume muito grande de tráfego (e-mails, chats, downloads, casts) atravessando seus proxies abertos.
A questão é, pode uma fazenda de servidores de proxy aberto sem anúncios atrair a atenção de alguém? Nós podemos concordar com os pesquisadores que é difícil imaginar que uma coisa tão aparentemente sem valor interessaria mais do que alguns poucos companheiros de rede atordoados. O que há nesse sistema que é tão atraente para uma quantidade surpreendentemente grande de pessoas? O que esse sistema fornece que é útil para tantas pessoas com propósitos tão diversos?
Em meio às atividades imprevistas do experimento do proxy aberto, os pesquisadores observaram que os proxies em Washington e Califórnia receberam um montante muito elevado de conexões, tanto com fontes quanto destinos localizados ao longo do anel oriental da Ásia. Os downloads de multimegabytes pareciam ser filmes, embora a razão desses clientes escolheram acesso ida e volta (round-trip) através do oceano pacífico não foi clara. Presumivelmente uma conexão direta seria muito mais rápida. Uma explicação razoável para esse comportamento é que esses clientes foram banidos de alguns sites web e requeriam proxies rápidos para os acessar sem revelarem sua identidade. Dados os altos custos internacionais de Internet na Ásia, proxies no ocidente dos Estados Unidos provavelmente foram mais fáceis de encontrar. Independentemente da motivação real desses usuários, eles escolheram caminhos característicos através da Internet para alcançarem os serviços deles, seus objetivos. De fato, nessa história, os caminhos desempenham um papel mais importante do que os usuários e serviços que eles conectam. O caminho, visível em um mapa de Internet, em si mesmo quer dizer alguma coisa. Ele tem a sua própria razão [8]para existência e conta-nos como as pessoas tentam resolver seus problemas, como elas pensam e como elas gerenciam suas vidas. Além de causas financeiras e legais, pode haver motivações humanas mais elusivas para criar sistemas perplexos de caminhos, como a apresentação de ideias complexas.
2.2 Mapas Mentais: A Revolução da Apresentação de Ideias
Mostrar uma sequência de slides é a maneira mais difundida de apresentar ideias para uma audiência. Em uma apresentação baseada em slides, o apresentador passa pelos slides apoiando a fala, de uma maneira linear. Além dessa abordagem convencional orientada a slides, uma nova onda de ferramentas de contação de histórias (storytelling) apareceu no mercado, centrada em torno dos assim chamados de mapas mentais. Os usuários dessas ferramentas (por exemplo, Prezi, Mindmeister) podem coletar vários materiais (textos, imagens, vídeos, slides) relacionados a um tópico específico e organizá-los como um “mapa mental (mind map).” Um mapa mental é um desenho que organiza visualmente a informação. Ele geralmente é hierárquico e mostra os relacionamentos entre as partes do todo (ver Fig. 2.3). Frequentemente ele é criado em torno de um único conceito, desenhado no centro do mapa, ao qual as representações associadas de ideias, tais como imagens, textos, vídeos e slides são acrescentadas. As ideias principais estão conectadas diretamente ao conceito central, e outras ideias se ramificam a partir delas.
A abordagem de apresentação orientada a mapa mental rapidamente se tornou popular entre apresentadores e continua a atrair milhões de usuários. De fato, mapas mentais são belos e de encher os olhos, mas é difícil considerar que a motivação principal de milhões de usuários seja desenhar e apresentar mapas mentais didáticos e esteticamente atraentes. É o puro conceito de mapas mentais que possibilitou a pequenas startups competirem com gigantes da indústria de TI como Microsoft, Google e Apple na área de softwares de apresentação? Ou a mais nisso do que está diante dos olhos?
Quando você apresenta usando uma ferramenta de mapa mental, você pode definir um caminho de apresentação através do seu mapa mental e focar apenas nas partes do mapa inteiro que estão relacionadas com a sua fala específica. A sua mensagem particular depende da audiência. Por exemplo, explicar a segunda lei de Newton para estudantes de escola elementar requer um caminho fundamentalmente diferente do que a apresentação da mesma em uma preleção universitária, embora elas também possam compartilhar partes comuns (por exemplo, figuras ilustrativas, descrições de experimentos). A identificação de caminhos como as principais ferramentas da contação de histórias é uma das inovações centrais de abordagens baseadas em mapas. Possivelmente essa característica é o que atrai a atenção de milhões de usuários. Uma história pode ser contada de muitas maneiras, e cada versão contém uma pegada específica, um caminho particular estendendo-se em segundo plano. Há caminhos bons ou maus em contação de histórias? Qual é a diferença entre eles? Essa é a questão de um milhão de dólares a responder. Uma coisa é certa: ir diretamente ao ponto raramente é didático; fazer desvios através de exemplos instrutivos pode ser chave para uma apresentação exitosa. Todos amam desvios!
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[9]Fig. 2.3 Um mapa mental sobre aquecimento global, por Jane Genovese [Com a permissão de Jane Genovese.]. http://learningfundamentals.com.au/
2.3 Caminhos Curtos mas Sinuosos
A despeito da sua independência aparente, o nosso conto de fadas sobre o pequeno galo, Howard Prince, o sistema de proxy aberto e ferramentas de apresentação baseadas em mapa mental compartilham uma coisa que as torna tão atraentes para que atraiam muita atenção. Revela-se que, embora em formas diferentes de aparência, todos eles fornecem formas diferentes de caminhos. Caminhos para nos entreter, caminhos para alcançar nossos objetivos, caminhos para resolver nossos problemas e caminhos para transmitir nossas mensagens. Esses exemplos indicam que caminhos desempenham um papel importante em áreas diversas da vida. Parece que caminhos são um pouco universais. Eles são abstrações que podem emergir em vários tipos de formas. É possível que caminhos vindo de áreas diferente compartilhem algumas propriedades comuns? É possível que esses caminhos sejam o produto de algumas leis gerais que podem ser identificadas? Quais são os passos possíveis que um caminho poderia incluir? Essas são questões difíceis de enfrentar. Primeiro, nós podemos fazer uma observação interessante. O senso comum sugere que nós deveríamos favorecer caminhos “curtos.” Nós não gostamos de caminhos compridos, nós não queremos esquecer dos nossos objetivos quando procurando um caminho, e nós não temos tempo e energia infinitos para resolvermos nossos problemas. Os nossos exemplos anteriores insinuam que o caminho mais curto nem sempre pode ser a melhor escolha, tampouco. O encurtamento do conto de fada diminuirá o seu valor de entretenimento, os usuários asiáticos do sistema de proxy aberto não usam um caminho direto mais curto e uma fala curta concentrando-se exclusivamente nos essenciais de um tópico pode ser entendiante ou difícil de interpretar. Eles não deveriam ser longos demais, mas algumas sinuosidades podem ser necessárias para alcançarem seus objetivos. Para analisarmos nossos caminhos nos capítulos seguintes, nós necessitamos de conceitos formais apreendermos suas propriedades mais essenciais.
ORIGINAL:
BIRÓ, J.; GULYÁS, A.; HESZBERGER, Z. Paths: Why is life filled with so many detours? Birkhäuser Cham, 2021. p. 5-10. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-47545-1>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0



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