quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Uma História da Estética II A Criação de um Mundo Poético, e o seu Primeiro Encontro com a Reflexão

Uma História da Estética


Por Bernard Bosanquet


Prefácio e Índice


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[10]Capítulo II A Criação de um Mundo Poético, e o seu Primeiro Encontro com a Reflexão


1. Se abordarmos os primeiros filósofos gregos, ou mesmo Platão, o profeta da beleza, esperando encontrar neles uma reflexão e apreciação simples da fantasia plástica e poética dos seus concidadãos, nós deveremos ficar seriamente desapontados. O pensamento da Hélade passa através de todas as fases que foram naturais para a inteligência profunda e ardente inicialmente voltada livremente para o mundo, e as verdades parciais que ele sucessivamente alcançou foram proferidas com uma definição e audácia que transmitem uma primeira impressão de alguma coisa como perversidade.

Quando um leitor moderno descobre que as belas humanidades da antiga religião excitaram entre os mais sábios dos primeiros filósofos ou a condenação implacável ou o equívoco alegórico, ele é forçado a convocar toda a sua simpatia histórica se não deseja concluir que Heráclito e Xenófanes e Platão, e os intérpretes alegorizantes de quem Platão nos conta, foram incapazes de crítica racional. Mas em realidade essa análise moral e metafísica, dirigida contra a substância de uma fantasia poética que, dessa maneira, desde o começo, devia ser distinguida da história prosaica, foi a sequência natural da criação artística, e o precursor natural da teoria mais apreciativa.

2. A criação da poesia e da arte formativa helênicas pode ser considerada como um estágio intermediário entre a religião prática popular e a reflexão filosófica ou crítica. O conteúdo lendário dessa arte não foi obra do poeta ou artista formativo, mas da mente nacional em seu longo desenvolvimento a partir da selvageria. Por outro lado, a sua forma imaginativa foi, de fato, devida à mente nacional, mas a essa mente principalmente enquanto ela agiu através do gênio poético, investindo o pensamento e emoção nacionais com significância e refinamento progressivos. Pois embora possa-se duvidar de se a palavra correspondendo [11]à beleza ou ao belo alguma vez foi usada na variação inteira da antiguidade helênica em um significado perfeitamente livre de confusão com verdade ou bondade, contudo, é certo que a arte é mais do que natureza, e que a apresentação definida de ideias em forma bela não pode senão preparar o caminho para um explícito julgamento estético através de um tipo distinto de sentimento e gozo.

Desse modo, na poesia e arte helênicas, como elas existiram no meio do século V a.C. nós encontramos corporificada uma consciência em relação à beleza, a qual, se muito menos do que teoricamente explícita, é muito mais do que prática e natural. Há uma apreensão ingênua de uma verdade profunda no dito familiar de Heródoto1 de que Homero e Hesíodo criaram a teogonia helênica e determinaram as formas e os atributos dos deuses para a crença helênica. A força completa dessa reflexão é medida pelo intervalo entre a primitiva imagem de madeira e a estátua fidiana, ou entre a superstição de um selvagem e a concepção de dever de Antígona. Foi no mundo das belas artes que o gênio helênico tinha principalmente registrado e, no registro, criado, essa transformação.

3. Portanto, quando o reconhecimento inicial da existência e significância da arte toma a forma de hostilidade contra o conteúdo antropomórfico que ela retém, nós não apenas vemos que a ideia reflexiva da beleza é ainda conspícua por sua ausência, mas que a teoria, ao avançar além da fé popular, falha em reconhecer o efetivo refinamento dessa fé pelo qual a fantasia poética pavimentou o caminho para a crítica especulativa que a condena.

Por outro lado, nós temos de observar que os critérios agora efetivamente aplicados – critérios inteiramente não estéticos de realidade e moralidade – brotam a partir de um princípio do qual nós apenas parcialmente escapamos dentro dos limites da antiguidade helênica.

Como nós deveremos ver, esse princípio é que uma representação artística não pode ser tratada como diferente em tipo ou em objetivo de uma realidade de vida ordinária. Fazer uma distinção entre elas é sempre uma lição difícil para a reflexão imatura; mas, para um pensador helênico, houve razões que tornaram tudo isso senão impossível. O mundo grego de ideias, antes ou fora das escolas filosóficas, era inteiramente livre de dualismo. As suas partes eram homogêneas. Por exemplo, o deus não era concebido como um [12]ser invisível meramente capaz de uma incarnação, tal como não poderia expressar ou exaurir sua completa natureza espiritual; antes, a sua forma real era humana, embora, revelá-la ao olho mortal poderia ser um favor raro, e ele vivia em uma colina particular ou em um templo particular. Para o grego, a representação de um ser divino não era um mero símbolo, mas uma semelhança (likeness); não um símbolo que poderia fracamente O sugerir, quem poderia ser apenas conhecido no espírito, mas uma semelhança de alguém que habitava sobre a terra, e cuja natureza devia ser visível, e não ser invisível. Dessa maneira, ao falar de uma questão sobre o sobrenatural em Homero, Schelling disse que não há sobrenatural em Homero, porque o deus grego é uma parte da natureza. E portanto, embora uma obra de idealização criativa sem paralelo na história do mundo tivesse sido realizada pela fantasia estética da Grécia na era que culminou com a arte mais elevada de Atenas, contudo, na ausência de qualquer sentido místico de uma ordem invisível de realidades, a impressão predominante produzida por esse mundo de beleza foi antes aquela de representação imitativa que de originação interpretativa.

4. De fato, mesmo a ideia de imitação contém o germe de uma verdade estética mais completa do que alguma vez alcançada pelo pensamento helênico; pois a tradução de um objeto em meio plástico envolve um elemento duplo e não meramente um único, - não meramente uma consideração do objeto a ser representado, mas uma consideração do ato de produção imaginativa através do qual ele é nascido novamente sob as novas condições impostas por outro meio. O senso comum expressou essa verdade em um dos primeiros julgamentos estéticos que a literatura ocidental contém, quando, sobre o escudo de Aquile, o poeta homérico diz,2 “a terra parecia escura atrás do arado, e semelhante ao chão que tivesse sido arado, embora ela fosse feita de ouro; essa era uma maravilhosa peça de arte.”

A “maravilha” é que a mente pode conferir ao meio da sua própria escolha a semelhança característica do que ele deseja representar. Mas de tudo que depende desse lado da imitação – o espiritual segundo nascimento da beleza – nós ouvimos bastante pouco explicitamente na ciência homérica, embora, no interior de fórmulas defeituosas, alguns vislumbres disso forçaram a si mesmos sobre Aristóteles. Pelas razões que foram indicadas – a tendência de toda [13]reflexão imatura para julgar segundo realidade e utilidade, e a ausência de uma crença em qualquer coisa que não pudesse ser visivelmente imitada – o lado poético ou criativo da representação artística não alcançou inteiramente o seu direito na antiguidade. Talvez ele fosse até menos considerado pelos filósofos do que ele foi, na consciência da inspiração poética, pelos poetas épicos e líricos, ou por Platão mesmo, fora do seu tratamento formal da metafísica da arte imitativa.

5. Contudo, é o caso que o termo imitação na teoria estética antiga é oposto antes à produção industrial do que à origem artística, e é compatível com uma variação e expansão consideráveis de importância, as quais eu deverei traçar em um capítulo separado. É natural que a primeira fórmula adotada pela reflexão deveria ser tensionada até o ponto de ruptura antes que ela fosse abandonada.

6. Depois de tudo o que está dito, ainda pode parecer extraordinário para nós que a arte que contrasta com a nossa própria como em um sentido ideal peculiar, e igualmente como distante da tentativa vicioso na ilusão, e a partir de um deleite justificável no detalhe, devesse ter sido caracterizada na sua própria época como um modo de imitação ou mera representação.

Se esse for o nosso sentimento, nós podemos considerar com proveito em dois aspectos a natureza da arte que nós estamos discutindo.

i. Em primeiro lugar, exatamente porque o artista ou poeta helênico estava livre do senso esmagador de significância espiritual, ele foi capaz de delinear em contornos largos e “ideias” as impressões gerais que ele recolhia a partir da vida através de um escrutínio não muito microscópico. É natural que a arte que se determina a retratar o que a atrai em um mundo completo e atual deva ser mais cheia de repouso e menos atormentada com as sutilezas de expressão do que uma arte para qual cada característica humana ou natural mais minúscula pode ser de improferível significância simbólica.

ii. E se dessa maneira nós vemos como uma arte imitativa, não sobrecarregada com uma “missão” ou revelação, pode ser ideal simplesmente porque ela está em paz; por outro lado, em alguma extensão, nós temos de corrigir a nossa concepção tradicional do grau no qual a beleza helênica foi destituída de estranheza, e humor, e expressão animada. É claro, os [14]críticos a partir de quem nós derivamos as nossas noções correntes do “clássico” e do “antigo” realizaram uma tarefa necessária, e revelaram uma distinção tão profunda a vida entre o mundo antigo e o moderno. Todavia, depois de tudo, o mundo antigo também foi vivo, e possuiu uma variedade de expressividade simpática, a qual foi apenas inadequadamente apresentada na primeira impressão produzida sobre os teóricos modernos pelos fragmentos da sua escultura monumental. A identificação do ideal antigo com o geral ou abstrato, a qual uma consideração devida da literatura grega imediatamente poderia ter provado ser uma verdade muito parcial, foi mais modificada pelo labor de mais de um século na combinação dos contornos plásticos dessa vida antiga, e na apreciação das descrições que nos auxiliam a compreendê-las. “A tarefa diante de mim,”3 escreve alguém cujo trabalho nessa direção tem de ser uma revelação para todos que não são especialistas em arqueologia, “A tarefa diante de mim é tocada por tristeza inevitável. O registro que nós temos de ler é o registro do quê nós perdemos. Essa perda, senão por Pausânias, nós nunca deveríamos ter compreendido. Ele, e apenas ele, concede-nos uma vivo retrato real do quê foi a arte na antiga Atenas. Mesmo o bem equipado erudito clássico representa a Acrópole como uma colina majestática aproximada pela Propileu, coroada pela beleza austera do Partenon, e acrescenta a esse retrato talvez a lembrança de alguma forma de Erecteion, uma visão de mármore incolor, de assombro, restrição, seleção severa. Apenas Pausânias conta-lhe da cor e vida, o realismo, a singularidade, a floresta de estátuas votivas, o ouro, o marfim, o bronze, as pinturas nas paredes, as lâmpadas douradas, as palmeiras de bronze, o estranho Hermes antigo oculto em folhas de mirto, a estranha pedra antiga sobre a qual Sileno sentou-se, as imagens escurecidas por fumaça de Atena, Diótrefes todo perfurado por flechas, Cleoetas com suas unhas prateadas, os heróis espreitando a partir do cavalo de Troia, Anacreonte contando seus copos, tudo isso, se nós desejássemos retratar a verdade e não a nossa própria imaginação, nós temos de aprender, e aprender a partir de Pausânias.”

Mas, se o registro da nossa perda é algo triste, ele tem o seu galardão de alegria sóbria; ele também é o registro do que – se é que é tão pouco – nesses dias posteriores nós encontramos.”

Não é uma falsa opinião que harmonia, severidade e repouso [15]são os carácteres da arte (craft) e fantasia helênicas; a história de uma única forma decorativa, tal como a folhagem de acanto, é suficiente para ilustrar a profundidade do contraste indicado dessa maneira entre o antigo e o moderno. Mas nós temos de dominar e aderir ao princípio de que, embora as fronteiras concedidas à teoria estética grega possam, em algum grau, ser justificadas pelas limitações comparativas da arte que foi o seu material, contudo, essa justificação é apenas relativa, e não significa que a estética grega foi uma explicação adequada da arte grega, mas apenas que foi algo natural e óbvio.

Dessa maneira, nós deveremos descobrir que a verdadeira análise estética entre os gregos estende-se apenas até o elemento formal que entra na beleza helênica; enquanto a sua paixão e a sua significância humana e seus toques de coisas comuns atraíram a censura de uma crítica não estética e suportaram a classificação da variedade inteira do proferimento artístico sob o título superficial de “imitação.” Tivesse o realismo do antigo sido menos modesto e refinado, ele teria desafiado uma análise que teria substituído censura por explicação. Mas ainda não era o tempo para isso; e será visto que, a despeito dos protestos do filósofo e do comediante satírico, a teoria foi forçada a longo prazo a tornar-se mais sutilmente apreciativa conforme a arte se tornou menos severamente nobre.

7. Agora nós chegamos ao ponto onde a consideração esteticamente filosófica dos fenômenos estéticos pode ser esperada começar. Um mundo de formas e fantasias belas foi trazido à existência, a qual tem a necessidade de ter treinada a percepção para reconhecer a beleza como exibida na província correspondente da natureza, quer dizer, principalmente na forma humana, e tem de ter desenvolvida algum sentimento parcialmente consciente do belo enquanto distinguível do bom e do verdadeiro. Esse mundo imaginário foi reconhecido como uma nova criação tanto negativamente, pelas alegações do metafísico e do moralista, quanto positivamente, pela apreciação ingênua do historiador e a construção alegorizante do místico. O místico é um precursor de uma época posterior; mas o historiador e o filósofo concordam, através de sua aquiescência e sua censura, respectivamente, ao tratá-lo como alegando passar por uma simples reprodução da realidade natural. E dessa maneira, o panorama imenso representado pela imaginação helênica entra no alcance da visão filosófica sob o título de arte mimética ou representativa.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

BOSANQUET, B. A History of Aesthetic. London: George Allen & Unwin LTD. New York: The MacMillan Company, 1904. p. 10-15. Disponível em: <https://archive.org/details/historyofaesthet003174mbp/page/10/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[11]Hdt. 2.53

2[12]Il. 17.548.

3[14]Mythology and Monuments of Anct. Athens, por Miss. J. E. Harrison, xi., xii.

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