sábado, 4 de janeiro de 2025

Filosofia Grega. Parte I: De Tales a Platão - Introdução

Filosofia Grega. Parte I: De Tales a Platão


Por John Burnet


Prefácio e Conteúdos


[1]Introdução


I


Ninguém nunca terá sucesso na escrita de uma história da filosofia; pois as filosofias, como as obras de arte, são coisas intensamente pessoais. De fato, foi crença de Platão que absolutamente nenhuma verdade filosófica poderia ser comunidade na escrita; era apenas através de um tipo contato imediato que uma alma poderia acender a chama em outra. Agora, lidando com a filosofia de uma época anterior, nós estamos inteiramente confinados aos registros escritos, e esses são usualmente fragmentários e frequentemente de segunda mão, ou de autoridade duvidosa. Também eles estão escritos em uma linguagem que, no melhor dos casos, nós apenas entendemos parcialmente, e que foi moldada por influências além do nosso conhecimento, pela maior parte. Portanto, será apenas até onde o historiador pode reproduzir o contato platônico de almas que esta obra terá valor. Em alguma medida isso é possível. A fé religiosa frequentemente parece ser capaz de ultrapassar as barreira de espaço e tempo e, dessa maneira, apreender o seu objeto diretamente; mas tal fé é algo pessoal e incomunicável, e, da mesma maneira, a reconstrução do passado pelo historiador é primariamente válida apenas para ele mesmo. Não é uma coisa que ele possa entregar pronta para uso a outros. Não há nada de misterioso sobre esse aspecto ou da fé religiosa ou da interpretação filológica. Pelo contrário, todo conhecimento tem o mesmo caráter. No caso presente é o único meio no qual um homem que tenta despender a sua vida em simpatia com os filósofos antigos1 encontrará algumas vezes uma convicção direta forçando a si mesma [2]sobre ele, os fundamentos da qual apenas podem ser representados muito imperfeitamente através de um número de referências em nota de rodapé. A menos que a enumeração de páginas esteja completa – e ela pode nunca ficar completa – e a menos que cada passagem fale exatamente da mesma maneira, o que depende dela ser lida à luz de inumeráveis outras passagens não conscientemente presentes à memória, as assim chamadas de provas não produzirão o mesmo efeito em duas mentes quaisquer. Esse é o sentido no qual a investigação filológica, como qualquer outra investigação, requer um ato de fé. Contudo, é claro que ninguém cuja experiência não tenha sido idêntica pode ser convocado para repetir esse ato depois de outro, e, por essa razão, professadas histórias da filosofia são frequentemente mais um impedimento do que uma ajuda. Elas apenas parecem interpôr outro obstáculo onde já há obstáculos suficientes.

Mas embora uma história da filosofia seja impossível, há algumas tarefas mais simples que podem, em certa extensão, ser realizadas, e a realização das quais pode ajudar a preparar o caminho para uma visão mais direta. Em primeiro lugar, há certas questões externas que podem ser determinadas com precisão considerável e que não são sem importância. É mais provável que nós entendamos um filósofo corretamente se nós conhecermos o tempo no qual ele viveu e os entornos que podem ter ajudado a dar forma ao pensamento dele, mesmo se esses nunca possam explicá-lo inteiramente. É particularmente útil conhecer com quais outros filósofos ele estava familiarizado, ou diretamente, ou através dos seus escritos. Em segundo lugar, o desenvolvimento da filosofia grega depende do progresso da descoberta científica e, especialmente, matemática, mais do que de qualquer outra coisa, e é possível determinar bastante precisamente o estágio que a ciência grega tinha alcançado em um dado momento. Os registros estão cheios e, quando usados criticamente, são dignos de confiança. É por essas razões que esta obra lida tão amplamente com questões que, inicialmente, parecem estar fora da província da filosofia. De fato, essa é a sua principal justificativa. É uma tentativa para conduzir o leitor ao ponto de vista correto, a partir do qual, então, ele pode enxergar por si mesmo. Por último, [3]há o que pode ser chamado de função catártica ou purgativa da história. O maior de todos os obstáculos que nós temos de superar é exatamente a massa de explicação e dogma escolástico que tão frequentemente sobrecarrega o ensino de qualquer gênio original. Limpar esse caminho talvez seja o maior serviço que possa ser rendido nesse campo. Nós não desejamos ver Platão com os olhos de Aristóteles, ou mesmo de Plotino, mas, se possível, face a face, e quem quer que possa nos ajudar aqui merece os nossos agradecimentos. Isso pode parecer um serviço puramente negativo, mas isso jaz na natureza do caso. A longo prazo, a construção positiva tem de ser deixada para o estudante individual, e nenhum par de estudantes será bastante semelhante. Tudo que o historiador pode fazer é apontar o caminho, e avisar a outros das trilhas que já foram descobertas levar a lugar nenhum.

Contudo, mesmo isso implica que nós já conheçamos o que é filosofia, e claramente, a menos que nós tenhamos alguma noção disso, nós deveremos estar em perigo de perder o fio da nossa história. Mesmo assim, nós podemos dispensar uma tal definição que seria aplicável à filosofia de todas as épocas e povos, pois nós deveremos descobrir uma noção bastante clara do que a filosofia foi durante o período helênico emergindo conforme nós progredimos. Isso pelo menos fará justiça a um aspecto do assunto, e é nesse que nós estamos imediatamente interessados. Portanto, será conveniente afirmar de uma vez que, pelo propósito dessa obra, eu quero dizer por filosofia tudo o que Platão queria dizer por ela, e nada que ele não quis dizer por ela. O ponto posterior é importante; pois ele quer dizer que filosofia não é mitologia, e, por outro lado, que ela não é ciência positiva, por mais que estritamente ela possa estar relacionada com ambas.


II


Em primeiro lugar, filosofia não é mitologia. É verdadeiro que há bastante mitologia em Platão, e nós deveremos ter de considerar o significado disso depois. Também é verdadeiro que nós deveremos ter de levar em conta desde o início [4]uma massa de especulação cosmogônica e escatológica que influenciou a filosofia de muitas maneiras. Contudo, essas coisas mesmas não são filosofia, e não pode nem mesmo ser dito que elas são o germe a partir do qual a filosofia se desenvolveu. É importante estar bastante claro sobre isso; pois, em alguns quartéis, cosmogonias orientais ainda são exibidas como a fonte da filosofia grega. A questão absolutamente não é de cosmogonias. Os gregos mesmos tinham cosmogonias muito antes dos dias de Tales, e os egípcios e os babilônios tinham cosmogonia que podem ser ainda mais antigas. Até os selvagens têm cosmogonias, e elas são quase tão avançadas quanto aquelas dos povos mais civilizados. É possível, embora isso certamente não tenha sido provado, que as mais antigas cosmogonias dos gregos, ou algumas delas, venham do Egito ou da Babilônia. É ainda mais provável que sistemas tão como aquele de Ferécides tenham preservado fragmentos de especulação “minoica,” a qual pode ser de antiguidade indefinida. Contudo, essas coisas não têm diretamente nada a ver com filosofia. A partir do ponto de vista platônico da filosofia, não pode haver filosofia onde não haja ciência racional. É verdadeiro que não é requerido muito – umas poucas proposições de geometria elementar servirão para se começar – mas tem de haver algum tipo de ciência racional. Agora, a ciência racional é a criação dos gregos, e nós sabemos onde ela começou. Nós não contamos como filosofia nada anterior a isso.


III


É claro, é verdadeiro que a ciência se originou em um tempo quando a comunicação com o Egito e Babilônia era mais fácil, e exatamente onde a influência desses países era mais provável de ser sentida, é uma inferência perfeitamente justa que isso tenha tido algo a ver com o surgimento dela. Por outro lado, o fato mesmo de que, por duas ou três gerações a ciência grega permaneceu em alguns aspectos em um estágio muito primitivo propicia a suposição mais fortes de que o quê veio à Hélade do Egito e da Babilônia não foi realmente ciência racional. Se os [5]egípcios tivessem possuído qualquer coisa que poderia corretamente ser chamada de matemática, é difícil entender como foi deixado para Pitágoras e os seus seguidores estabelecerem as proposições mais elementares em geometria plana; e, se os babilônios tivessem realmente qualquer concepção do sistema planetários, não é fácil de ver porque os gregos tiveram de descobrir pouco a pouco o verdadeiro formato da terra e a explicação de eclipses. É claro que essas coisas não foram conhecidas na Babilônia; elas foram gradualmente descobertas no Sul da Itália, onde nós dificilmente podemos presumir influências orientais. Se nós estamos preparados para dar esse nome a um elaborado registro de fenômenos celestes feitos para o propósito de adivinhação, então os babilônios tiveram ciência e os gregos emprestaram-na deles. Ou, se nós estamos preparados para chamar regras práticas (rules of thumb) grosseiras para mensuração de campos e pirâmides de ciência, então os egípcios tiveram ciência, e ela veio deles para a Jônia. Mas, se nós queremos dizer por ciência o que Copérnico e Galileu e Kepler e Leibniz e Newton quiseram dizer, não há o mais leve traço disso no Egito ou mesmo na Babilônia, embora as aventuras gregas muito primitivas são inequivocamente os seus precursores. A ciência moderna começa onde a ciência grega parou, e os seu desenvolvimento claramente deve ser traçado de Tales até os dias presentes. Copérnico disse que ele mesmo tinha sido colocado no caminho pelo que ele leu sobre os pitagóricos no Placita atribuído a Plutarco.2

As únicas relíquias que chegaram até nós mostram que os egípcios não estavam sem uma certa ingenuidade na solução de problemas aritméticos e geométricos particulares, mas não há o menor traço de qualquer coisa como métodos gerais.3 Se resíduos inconvenientes ocorrem, eles são simplesmente abandonados. Da mesma maneira, as regras [6]dadas para a redução de triângulos a retângulos são apenas corretas se triângulos são de ângulo reto, embora aqueles dados nos diagramas aparentemente eram significados ser equiláteros. De fato, o sistema inteiro assemelha-se muito mais aos métodos grosseiros e práticos dos agrimensores romanos do que a qualquer coisa que nós poderíamos chamar de científica. Nem há o mais leve fundamento para a afirmação algumas vezes feita de que os egípcios tiveram uma geometria altamente desenvolvida que eles guardaram como um mistério. Isso está baseado principalmente na história de que Platão foi a Mênfis para estudar com sacerdotes, uma história para a qual não há boa evidência. Em qualquer caso, nós conhecemos a opinião de Platão sobre a matemática egípcia, e é que havia um elemento de iliberalidade nela devido à sua preocupação com fins meramente práticos.4 É afirmado que, embora hexágonos sejam comuns nos monumentos egípcios, o pentágono nunca é encontrado.5 Se é assim, isso é muito significante. Qualquer um pode produzir hexágonos, mas a construção do pentágono regular é uma questão diferente. Nós deveremos ver que isso era conhecido dos pitagóricos, para quem o pentágono era de interesse como o lado do dodecaedro regular, a mais importante figura geométrica no sistema deles. Deveria ser acrescentado que todos os termos matemáticos, ‘pirâmide’ incluso, são de pura origem grega.6

É claro, é verdadeiro que, nos tempos helenísticos, um certo número de sacerdotes egípcios aplicou os métodos da ciência grega ao conhecimento tradicional (lore) do seu próprio país. A literatura hermética prova isso, e assim o faz o elaborado sistema astrológico dos egípcios posteriores, erigido sobre um fundamento estoico. Contudo, tudo isso não lança nenhuma luz sobre as origens da ciência grega. Pelo contrário, se os egípcios desses dias adotaram a ciência e filosofia gregas contemporâneas [7]isso é apenas outra indicação da própria pobreza deles em tais coisas.


IV


No caso da Babilônia, é ainda mais importante distinguir os tempos antes e depois de Alexandre o Grande. No período posterior, Babilônia tinha se tornado uma cidade helenística, e havia relação livre entre os astrônomos da Mesopotâmia e Alexandria. Por exemplo, é certo que Hiparco fez uso de observações babilônicas. Mas a ciência grega estava completamente constituída antes dessa época, e dificilmente pode haver qualquer dúvida de que a astronomia babilônica alcançou o seu desenvolvimento mais elevado sob a influência grega.7 O que nós realmente temos de considerar é se há qualquer traço dela em Hélade em uma época muito anterior. Agora, nós conhecemos uns poucos fatos sobre isso, e eles são instrutivos. De acordo com Heródoto (ii, 109), foi a partir da Babilônia que os gregos obtiveram o instrumento chamado de gnomon, o qual indicava os solstícios e equinócios por uma sombra. Se esse é ou não um instrumento científico depende do que você faz com ele. Os gregos também foram familiares, em um período anterior, com os sistemas duodecimal e sexagesimal babilônicos de numeração, mas o uso desses era limitado a pesos, medidas e moeda, ou, em outras palavras, a propósitos comerciais. Eles não foram empregados na ciência até tempos helenísticos, quando o círculo foi dividido em graus. A própria aritmética usava apenas o sistema decimal. Se eles tivessem se importado, os gregos poderiam ter aprendido dos babilônicos a distinguir os planetas. Esses eram de grande importância para propósitos de adivinhação, mas os gregos não prestaram nenhuma atenção à astrologia antes do terceiro século a.C.8 Enquanto não houve nenhum [8]sistema cosmológico no qual as “estrelas errantes (tramp-stars)” (πλανται), como os gregos irreverentemente os chamavam, puderam encontrar um lugar, eles não os impressionaram como de maios consequência do que estrelas cadentes e semelhantes. Os pitagóricos parecer ter inventado sua própria teoria planetária bastante independentemente, depois deles terem descoberto a natureza real da terra. Era dito ser Pitágoras ou Parmênides que primeiramente identificou a estrela da noite e a da manhã. Os equivalentes gregos para os nomes babilônios dos planetas, os quais nós ainda usamos na sua forma latina, aparecem pela primeira vez no Epinomis platônico (987b sq.). Portanto, evidentemente, os gregos não aprenderam dos babilônios nenhuma única peça de conhecimento astronômico real que eles possuíam.

Contudo, eles não fizeram uso de uma realização importante deles nesse campo, a saber, os seus registros dos eclipses, e os vários ciclos estabelecidos sobre a base desses registros. Eles usavam-nos para os propósitos do calendário, e, como nós deveremos ver, para a predição de eclipses. Se tais observações e cálculos são científicos ou não depende inteiramente do propósito com o qual eles são feitos, e dos usos nos quais eles são colocados. Em si mesmo um eclipse do sol é um fenômenos de interesse puramente local, e não é mais científico registrá-lo do que seria registrar arco-íris. Se o registro sugere que alguma coisa realmente aconteceu ao sol, e que, portanto, alguma coisa pode acontecer ao rei, isso não apenas não é ciência, mas um instrumento de positiva ausência de conhecimento. Essa, contudo, foi a visão adotada pelos astrônomos da Babilônia.

O único povo oriental que pode comportar comparação com os gregos em ciência e filosofia são os indianos. [9]Quanto da ciência indiana é original, e quanto pode ser rastreada de volta à influência grega, é uma questão muito difícil em vista da incerteza da cronologia indiana. Contudo, parece certo que nenhuma obra científica indiana, e, portanto, nada que nós possamos contar como filosofia, pode ser datada com probabilidade antes do tempo de Alexandre. Em particular, não há fundamento para acreditar que o livro matemático intitulado de Śulba-sūtras, ou “regras de cordas (rules of cord),” seja de data anterior, e, em qualquer caso, ele está muito abaixo do nível da ciência grega.9 A analogia com o Egito e a Babilônia certamente sugere que ele alcançou a Índia a partir do reino helenísticos do nordeste.


V


A verdade é que nós somos muito mais prováveis de subvalorizar a originalidade dos gregos do que de a exagerar, e nós nem sempre nos lembramos do período muito curto que eles levaram para estabelecer as linhas da investigação científica que desde então sempre foram seguidas. Pela primeira parte do século VI a.C. eles tinham aprendido o sistema grosseiro e prático de mensuração, o qual era tudo que o Egito poderia ensinar a eles, e, cem anos depois, nós encontramos o estudo de progressões aritméticas e geométricas, geometria plana e os elementos da harmônica firmemente estabelecidos sobre uma base científica. Outro século viu a ascensão da geometria sólida e esférica, e as secções de cones logo foram acrescentadas. Os gregos aprenderam, direta ou indiretamente, a partir da Babilônia que certos fenômenos celestes recorrem em ciclos e, portanto, podem ser preditos. Dentro de cinquenta anos eles tinham descoberto que a terra gira livre no espaço, e o conhecimento da sua forma esférica logo se seguiu. Um século viu claramente formulada a verdadeira explicação de eclipses, e isso levou à [10]descoberta de que a terra era um planeta. Um pouco depois, alguns gregos até ensinavam que o sol não era um planeta, mas o centro do sistema planetário. Nem nós devemos nos esquecer de que, de mãos dadas com o notável desenvolvimento da ciência matemática e astronômica seguiu-se um avanço igualmente impressionante no estudo do organismo vivo. A maior parte dos escritos que chegaram a nós sob o nome de Hipócrates pertencem ao quinto século a.C., e enquanto alguns deles mostrassem uma tendência para a interpretação especulativa de fenômenos vitais naturais em uma era de rápido progresso científico, há outros que exibem, em uma forma quase perfeita, o método de observação minuciosa e meticulosa que é o único apropriado para lidar com fatos de complexidade tão grande. Os médicos de Alexandria descobriram o sistema nervoso, mas os egípcios nativos, embora acostumados com alguns milhares de anos para embalsamar corpos mortos, mostram ignorância surpreendente dos fatos anatômicos mais simples.

Em primeiro lugar, os gregos alcançaram o que eles alcançaram porque eles foram observadores natos. A precisão anatômica da escultura deles no seu melhor período prova isso, embora eles nunca digam nada sobre isso na literatura deles, aparentemente a tomando como certa. Os egípcios, nós podemos lembrar, nunca aprenderam a desenha um olho em perfil. Mas os gregos não descansaram contentes na mera observação; eles prosseguiram para fazerem experimentos de um caráter bastante moderno. Aquele através do qual Empédocles ilustrou o fluxo e o refluxo do sangue entre o coração e a superfície do corpo é o melhor conhecido; pois nós temos uma descrição dele nas suas próprias palavras.10 Ele também estabeleceu a natureza corpórea do ar atmosférico. Certamente nós deveríamos ouvir de muitos mais experimentos semelhantes se nossas fontes fossem menos escassas e mais inteligentemente compiladas. Além disso, os gregos sempre tentavam dar uma explicação racional (λογον διδόναι) das aparências que eles tinham observado. Os poderes de raciocínio deles eram excepcionais, como nós podemos ver a partir do trabalho matemático que eles nos deixaram. [11]Por outro lado, eles também estavam bastante cientes da necessidade de verificação. Isso eles expressavam dizem do que toda hipótese tem de “salvar as aparências (save the appearances)” (σῴζειν τὰ Φαινόμενα); em outras palavras, que ela tem de fazer justiça a todos os fatos observados.11 Esse é o método da ciência, como nós ainda o entendemos. Deveria ser acrescentado que o desenvolvimento da ciência matemática e biológica em um dado momento determina, em uma grande extensão, o caráter da sua filosofia. Nós deveremos ver como a influência matemática culmina em Platão, e a biológica, em Aristóteles.


VI


Mas, enquanto a filosofia está intimamente vinculada com a ciência positiva, ela não está identificada com ela. É verdadeiro que, em épocas antigas, a distinção entre as duas não foi compreendida. A palavra σοΦία cobria tudo que nós queremos dizer por ciência e uma bem mais além, tais como as artes de criar pontões (pontoon) e adivinhar charadas. Mas a distinção estava lá da mesma maneira. Se olharmos para a filosofia grega como um todo, nós deveremos ver que ela é dominada, desde o começo até o fim, pelo problema da realidade (τὸ ὄν). No último recurso, a questão é sempre, “O que é real?” Tales perguntou isso não menos do que Platão ou Aristóteles; e não importa qual a resposta dada possa ser, onde essa questão é perguntada, aí nós temos filosofia. Não é parte da tarefa do historiador decidir se ela é uma questão que pode ser respondida, mas há um comentário que pode ser justamente feito. É que a ascensão e o progresso das ciências especiais dependem, até onde nós podemos ver, dela sendo feita. Nós descobrimos que toda tentativa séria para abordar o problema último da realidade traz com ela um grande avanço em ciência positiva, e que esse tem [12]cessado de florescer quando o interesse nesse problema foi fraco. Isso aconteceu mais de uma vez na história da filosofia grega, quando problemas subordinados de conhecimento e conduta vieram ocupar o primeiro lugar, embora, ao mesmo tempo, seja exatamente o levantamento desses problemas que mais fez para transformar o problema da realidade mesma.

E isso ajuda a explicar porque a filosofia não pode ser simplesmente identificada com a ciência. De fato, o problema da realidade envolve o problema da relação do homem com ela, o qual, imediatamente, leva-nos para além da ciência pura. Nós temos de perguntar se absolutamente a mente do homem pode ter qualquer contato com a realidade, e, se pode, que diferença isso fará para a vida dele. Para qualquer um que tentou viver em simpatia com os filósofos gregos, a sugestão de que eles foram “intelectualistas” tem de parecer lúdicra. Pelo contrário, a filosofia grega é baseada na fé de que a realidade é divina, e que a única coisa necessária para a alma, a qual é aparentada ao divino, é entrar em comunhão com ela. Verdadeiramente ela foi um esforço para satisfazer o quê nós chamamos de o instinto religioso. A religião antiga era uma coisa um pouco externa, e fazia pouco apelo a isso, exceto nos “mistérios,” e mesmos os mistérios estavam aptos a tornarem-se externos, e forma peculiarmente passíveis à corrupção. Nós devermos ver de novo e de nodo que a filosofia buscou fazer pelo homem o quê os mistérios apenas puderam fazer em parte, e, portanto, isso inclui a maior parte do quê nós deveríamos chamar agora de religião.

Agora, essa religião foi uma quietista ou puramente contemplativa, pelo menos nos seus melhores dias. Os mistérios tinham tentado regular as vidas dos homens, e a filosofia tinha tentado fazer o mesmo. Quase desde o começo ela foi considerado como uma vida. Tampouco era a busca autocentrada de santidade pessoal. O homem quem acreditava que tinha visto a visão da realidade sentia-se obrigado a comunicá-la, algumas vezes a um círculo de discípulos, algumas vezes à raça humana inteira. O espírito missionário foi forte desde o início. O filósofo acreditava que era apenas através do [13]conhecimento da realidade que os homens poderiam conhecer o seu lugar no mundo, e assim se ajustaram a ser companheiros de trabalho de Deus, e acreditando nisso ele não poderia descansar até que tivesse espalhado o conhecimento disso para outros. A morte de Sócrates foi aquela de um mártir, e “intelectualismo,” se há uma tal coisa, não pode ter mártires.


Capítulo I


ORIGINAL:

BURNET, J. Greek Philosophy. Part I Thales to Plato. London: MacMillan and Co., Limited, 1928. p. 1-13. Disponível em: <https://archive.org/details/greekphilosophyp0000burn/page/1/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[1]Isso é o quê Platão chama de (τὸ συζ̂ν)(Ep. vii. 341c), mas ele está pensando nos vivos, não nos mortos.

2[5]E. GR. Ph.2 p. 349, n.2. Foi “foi a doutrina pitagórica, também ensinada por Nicolau Copérnico,” que foi condenada pela Congregação do Índice em 1616.

3Sobre o papiro de Rhind, ver E. GR. Ph.2 pp. 22ff., e, para uma discussão posterior, ver Bissing em Neue Jahrbücher, xxv. (1912), pp. 81 ff.

4[6]Platão, Laws, 747b, 6 sqq.

5Zeuthen, Histoire des mathématiques (Paris 1902), p. 5.

6As palavras (πνραμίς), (πνραμος), as quais significam um bolo feito de trigo e mel, são claramente derivadas a partir de (πνροί), ‘trigo,’ embora a forma delas tenha sido influenciada pela analogia de (σησαμίς), (σησαμος). Ver também E. Gr. Ph.2 p.25, n. 1.

7[7]Para afirmações recentes sobre esse assunto, ver Jastrow em Enc. Brit. (11ª Edição), vol. ii, pp. 796 f.; Boll em Neue Jahrbücher, xxi. (1908), p. 116.

8Ver Cumont em Neue Jarhbücher, xxiv. (1911), pp. 1 ff. Ele diz (p. 4): “A curiosidade universal dos helenos de modo nenhum ignorou a astrologia, [8]mas o sóbrio entendimento deles rejeitou suas doutrinas aventurosas. O agudo senso crítico deles sabia bem como distinguir entre as observações científicas dos caldeus e suas inferências errôneas. Permanece sua glória eterna que eles descobriram e fizeram uso dos elementos sérios, científicos, na massa confusa e complexa de observações exatas e ideias supersticiosas, a qual constitui a sabedoria sacerdotal do Oriente, e lançou toda bobagem fantástica de lado.”

9[9]Ver A. B. Keith no Journal of the Royal Asiatic Society, 1909, pp. 589 ff. É uma pena que M. Milhaud tenha sido persuadido a aceita uma data anterior para os Śulba-sūtras, em seus Nouvelles études (1911), pp. 109 sqq.

10[10]Ver E. Gr. Ph.2 p. 253.

11[11]Esse requerimento do método científico grego é frequentemente ignorado, mas o Rafael de Milton conhece tudo sobre ele. Paradise Lost, viii. 81: “como construir, desconstruir, inventar Para salvar aparências.”

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