segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Um Ensaio para Uma Nova Teoria da Visão [43-51]

Por George Berkeley


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[146]43. E talvez, sob uma investigação rigorosa, nós não devamos descobrir que mesmo aqueles quem, desde o seu nascimento, cresceram em um hábito continuado de ver, estão irrecuperavelmente prejudicados por outro lado, a saber, ao pensar o que eles veem estar à distância deles. Pois, neste momento, parece concordado por todos, por aqueles que tiveram quaisquer pensamentos sobre essa matéria, que as cores, as quais são o objeto próprio e imediato da vista, não são exteriores a mente. - Mas então, será dito, pela vista nós também temos as ideias de extensão e figura e movimento; todas as quais bem podem ser pensadas fora e a alguma distância da mente, embora a cor não deva. [147]Em resposta a isso, eu apelo à experiência de qualquer homem, se a extensão visível de qualquer objeto não aparece para ele tão próxima quanto a cor daquele objeto; ou melhor, se ambas não parecem estar exatamente no mesmo lugar. Não é a extensão que nós vemos colorida, e é possível para nós, tanto quanto no pensamento, separar e abstrair a cor da extensão? Agora, onde está a extensão, ali certamente está a figura, e ali o movimento também. Eu falo daqueles que são percebidos pela vista1.

44. Mas para uma explicação mais completa desse ponto, e para revelar que os objetos imediatos da vista não são tanto quanto as ideias ou semelhanças de coisas posicionadas à distância, é necessário que nós examinemos o assunto mais de perto e, cuidadosamente, observemos o que significava no discurso comum quando alguém dizia, que o que ele vê está à distância dele. Suponha, por exemplo, que olhando para a lua eu deva dizer que ela estava a cinquenta ou sessenta semidiâmetros da terra de distância de mim. Vejamos de que lua falamos. É claro que não pode ser a lua visível, ou qualquer coisa semelhante à lua visível, ou isso que eu vejo – o que é apenas uma planície luminosa circular, de aproximadamente trinta pontos visíveis em diâmetro. Pois, no caso de eu ser transportado a partir do lugar onde eu estou diretamente para a lua, é manifesto que o objeto varie constantemente conforme eu avance; e, pelo tempo em que eu tiver avançado cinquenta ou sessenta semidiâmetros da terra, eu deveria estar tão longe de ser quase um pequeno, redondo, luminoso plano que eu não deveria perceber nada como isso – esse objeto tendo desaparecido há muito, e, se eu recuperasse-o, precisa ser retornando para a terra, a partir de onde eu parti2. Novamente, suponha que eu perceba pela vista a fraca e obscura ideia de alguma coisa, a qual eu duvide ser a de um homem, ou uma árvore, ou uma torre, mas [148]julgue-a estar à distância de aproximadamente uma milha. É simples que eu não posso pretender que o que eu vejo esteja a uma milha de distância, ou que é a imagem ou semelhança de qualquer coisa que esteja a uma milha de distância; uma vez que cada passo que eu dou na direção dela o aparecimento altera-se e, a partir de sendo obscuro, pequeno e fraco, torna-se claro, grande e vigoroso. E, quando eu chego ao fim da milha, aquilo que eu vi está bastante perdido, nem eu encontro coisa alguma que se assemelhe a ele3.

45. Nessa e em instâncias semelhantes, a verdade do assunto, eu julgo, posiciona-se desta maneira: - Tendo há muito tempo experienciado certas ideias perceptíveis pelo toque4 - como distância, figura tangível e solidez – ter estado conectadas com certas ideias da vista, eu imediatamente concluo, ao perceber essas ideias da vista, quais ideias tangíveis são, pelo acostumado curso ordinário da natureza, prováveis de se seguirem. Olhando para um objeto, eu percebo certa figura visível e cor, com algum grau de fraqueza e outras circunstâncias, as quais, a partir do que eu observei antigamente, determinam-me a pensar que, se eu avançar adiante tantos passos, milhas, etc, eu deverei ser afetado por tais e tais ideias de toque. De maneira que, em verdade e rigor de falar, eu nem vejo a distância em si mesma, nem qualquer coisa que eu tomo por estar à distância. Eu digo, nem a distância nem as coisas posicionadas à distância são elas mesmas, ou suas ideias, verdadeiramente percebidas pela vista. Disso eu estou persuadido, quanto ao que concerne a mim mesmo. E eu acredito que quem quer que examine rigorosamente seus próprios pensamentos, e examine o que ele quer dizer ao dizer que ele vê está ou aquela coisa à distância, concordará comigo, que o que ele vê apenas [149]sugere ao seu entendimento que, após ter passado por um certo tipo de distância, a ser medida pelo movimento de seu corpo, o qual é perceptível pelo toque5, ele deverá vir a perceber tais e tais ideias visíveis. Mas, que alguém poderia ser enganado por essas sugestões dos sentidos, e que não há conexão necessária entre ideias visíveis e tangíveis sugeridas por elas, nós não precisamos ir mais longe do que ao próximo espelho ou retrato para ficar convencido. Note-se que, quando eu falo de ideias tangíveis, eu tomo a ideia por qualquer objeto imediato do sentido, ou entendimento – no qual grande significação é comumente usada pelos modernos6.

46. A partir do que nós revelamos, é uma consequência manifesta que as ideias de espaço, exterioridade (outness)7, e de coisas posicionadas à distância não são, estritamente falando, o objeto da vista8; elas não são de outra maneira percebidas pelo olho do que pelo ouvido. Sentando-me em meu escritório eu ouço um coche conduzir ao longo da rua; e olho através da janela e vejo-o; eu saio e entro nele. Dessa maneira, o discurso comum inclinaria alguém a pensar que eu ouvi, vi e toquei a mesma coisa, a saber o coche. Não obstante, é certo que as ideias introduzidas pelos sentidos são vastamente diferentes; mas, tendo sido observadas constantemente acompanhando uma a outra, elas são declaradas como uma e mesma coisa. Pela variação do barulho, eu percebo as distâncias diferentes do coche, e sei que ele aproxima-se antes de olhar para fora. Dessa maneira, pelo ouvido, eu percebo a distância exatamente da mesma maneira que eu percebo pelo olho.

47. No entanto, eu digo que eu ouço a distância, de maneira [150]parecida como eu digo que eu vejo-a – as ideias percebidas pela audição (hearing) não estando tão aptas a serem confundidas com as ideias do toque como estão aquelas da vista. Assim, da mesma maneira, um homem é facilmente convencido de que corpos e coisas exteriores não são propriamente o objeto da audição, mas apenas os sons, pela mediação dos quais a ideia desse ou daquele corpo, ou distância, é sugerida a seus pensamentos. Mas então alguém fica com mais dificuldade trazida para discernir a diferença que há entre as ideias da vista e do toque9, embora seja certo, um homem não vê e sente a mesma coisa, do que ele ouve e sente a mesma coisa.

48. Uma razão do que isso parece ser. É considerado um grande absurdo imaginar que uma e mesma coisa deveria ter mais do que uma extensão e uma figura. Mas, a extensão e figura de um corpo sendo inseridas a mente de duas maneiras, e isso indiferentemente, ou pela vista ou pelo toque, parece seguir-se que nós vemos a mesma extensão e a mesma figura que nós sentimos.

49. Mas, se nós dermos uma cuidadosa e precisa olhada no assunto, precisa ser reconhecido que nós nunca vemos e sentimos o mesmo objeto10. Que o que nós vemos é uma coisa, e que o que nós sentimos é outra. Se a figura e a extensão visíveis não são a mesma que a figura e a extensão tangíveis, nós não estamos a inferir que uma e a mesma coisa possui diversas extensões. A verdadeira consequência é que os objetos da vista e do toque são duas coisas distintas11. Talvez possa requerer-se algum pensamento correto para conceber essa distinção. E a dificuldade parece não pouco aumentada porque a combinação de ideias visíveis têm constantemente o mesmo nome que a combinação de ideias tangíveis com as quais estão conectadas – as quais necessariamente surgem do uso e fim da linguagem12.

50. Portanto, a fim de tratar acuradamente e sem confusão da visão, nós precisamos ter em mente que há dois tipos de objetos apreendidos pelo olho – um primaria e imediatamente, o outro secundariamente e pela intervenção do primeiro. Aqueles do primeiro tipo nem são nem parecem estar fora da mente, ou à qualquer distância dela13. [151]De fato, eles podem tornar-se maiores ou menores, mais confusos, ou mais claros, ou mais fracos. Mas eles não se aproximam, não podem aproximar-se, [ou até parecer aproximar-se14] ou recuar de nós. Sempre que nós dizemos que um objeto está à distância, sempre que nós dizemos que ele aproxima-se, ou distancia-se, nós sempre precisamos querer dizê-lo do último tipo, o qual propriamente pertence ao toque15, e não é tão verdadeiramente percebido como sugerido pelo olho, de maneira semelhante como pensamentos pelo ouvido.

51. Não antes de nós ouvirmos as palavras de uma linguagem familiar serem pronunciadas em nossos ouvidos, apenas as ideias correspondentes a elas apresentam-se as nossas mentes: no exato mesmo instante o som e o significado entram no entendimento: tão rigorosamente eles estão unidos que não está em nosso poder manter um fora exceto se excluirmos o outro também. Nós até agimos, em todos os aspectos, como se nós ouvíssemos os pensamentos mesmos. Da mesma maneira, os objetos secundários, ou aqueles que são somente sugeridos pela vista, frequentemente nos afetam mais fortemente, e são mais considerados, do que os próprios objetos daquele sentido; junto com os quais eles entram em nossa mente, e com os quais eles têm uma conexão muito mais estreita do que as ideias têm com as palavras16. Consequentemente é quando nós achamos tão difícil discriminar entre os objetos imediatos e mediatos da vista, e ficamos tão inclinados a atribuir ao primeiro o que pertence ao segundo. Eles estão, por assim dizer, mais estritamente enroscados, misturados e incorporados juntos. E o prejuízo é confirmado e firmado em nossos pensamentos por um longo período de tempo, pelo uso da linguagem e pela carência da reflexão. Contudo, eu não duvido de que qualquer um que apenas deva considerar atentamente o que nós já dissemos, e devemos dizer sobre esse assunto antes de termos terminado (especialmente se ele busca-o em seus próprios pensamentos), pode ser capaz de libertar a si mesmo desse prejuízo. Certo eu estou, e é digno de alguma [152]atenção, para seja quem for que entenderia a verdadeira natureza da visão.


Próxima parte


ORIGINAL:

BERKELEY, G. An Essay towards a New Theory of Vision. First published in 1709. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.146-152. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/146/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [147]Aqui Berkeley começa a estabelecer, a partir da conexão experienciada entre extensão e cor e entre extensão visível e tangível, uma prova de que a exterioridade (outness) é invisível. A partir de Aristóteles adiante fora assumido que a cor é o único fenômeno do qual nós estamos imediatamente perceptivos no ato da visão (seeing). Extensão visível, figura visível e movimento visível são, portanto, compreendidos ser dependentes da sensação de cor.

2 Em conexão com essa e a próxima ilustração, Berkeley parece argumentar que nós não apenas somos incapazes de ver a distância na linha de vista, mas também que nós não vemos um objeto distante em sua magnitude visível real. Mas em outro lugar ele afirma que apenas a magnitude tangível está autorizada a ser chamada de real. Conf. secções 55, 59, 61.

3 [148]As objeções céticas à confiabilidade (trustworthiness) dos sentidos, propostas pelos Eleatas e outros, referidas por Descartes em suas Meditations, e por Malebranche no Primeiro Livro de sua Recherche, podem ter sugeridos as ilustrações desta seção. Cf. também o ensaio de Hume, On the Academical ou Sceptical Philosophy. A dificuldade cética está fundamentadas na suposição de que o objeto visto a distâncias diferentes é o mesmo objeto visível: é realmente diferente, e assim a dificuldade desaparece.

4 Aqui Berkeley expressamente ‘toque (touch)’ – um temo com o qual ele inclui não meramente o sentido orgânico de contato, mas também a experiência sensorial muscular e locomotiva. Depois disso, ele começa a revelar a antítese dos fenômenos visuais e táteis, cuja síntese subsequente é o objeto da New Theory explicar. Cf. Principles of Human Knowledge, seção 43 – Theory of Vision Vindicated, seções 22 e 25. Note-se aqui a reticência de Berkeley de sua idealização da Matéria – tangível bem como visível. Cf. Principles, seção 44.

5 [149]Essa conexão de nosso conhecimento da distância com nossa experiência locomotiva aponta para uma teoria que, em última análise, resolve o espaço em uma experiência de locomoção desimpedida.

6 Locke (Essay, Introdução, §8) toma ideia (idea) vagamente como ‘o termo que melhor serve para significar seja o que for que é o objeto do entendimento quanto um homem pensa.’ O descuido do que Berkeley quer dizer pelo termo ideia tornou sua inteira concepção de natureza e de universo material um enigma para muito; sobre os quais, mais tarde.

7 O termo expressivo ‘exterioridade (outness),’ favorecido por Berkeley, é usado aqui pela primeira vez.

8 ‘Nós obtemos a ideia do Espaço,’ diz Locke, ‘tanto por nossa vista quanto por nosso toque’ (Essay, II, 13. §2). Locke não contempla a antítese de Berkeley de extensão visível e tangível e a ambiguidade consequente do termo extensão; as quais algumas vezes significa experiência colorida e, em outras vezes, resistente em sentido.

9 [150]Para uma explicação dessa dificuldade, ver seção 144.

10 ‘Objeto’ – ‘coisa,’ nas edições anteriores.

11 Esta é a questão da porção analítica do Essay.

12 Cf. seção 139-40.

13 Aqui a questão de externalidade (externality), [151]significando independência de toda a vida perceptiva, novamente está misturada com aquela da invisibilidade da distância para fora (distance outwards) na linha de vista.

14 Omitido na última edição pelo autor.

15 Isto é, incluindo experiência muscular e locomotiva assim como sentido de contato. Mas o que são os tangibilia eles mesmos? Também são eles significantes, como os visibilia, de uma realidade ainda mais distante? Esse é o problema dos Principles of Human Knowledge.

16 Nesta seção, a concepção de uma Linguagem Visual natural faz seu aparecimento, com sua implicação de que a Natureza é (para nós), virtualmente, Espírito. Cf. seções 140, 147 – Principles, seção 44 – Dialogues of Hylas and PhilonousAlcyphron, IV. 8, II – e Theory of Vision Vindicated, passim.

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