domingo, 7 de novembro de 2021

Um Tratado a respeito dos Princípios do Conhecimento Humano - Dedicatória do Autor e Prefácio

Por George Berkeley


[Dedicatória do Autor]


[233]Ao Muito Honorável

Thomas, Earl de Pembroke1, etc.

Cavaleiro da Mais Nobre Ordem do Garter, e

Um dos Lordes do Mais Honorável Conselho Privado

de Sua Majestade


Meu Lorde,


Talvez você maravilhar-se-á que uma pessoa obscura, quem não tem a honra de ser conhecido de vossa senhoria, deva presumir falar com você desta maneira. Mas, que um homem que tenha escrito algo com o desígnio de promover o Conhecimento Útil e a Religião no mundo, deveria fazer a escolha de vossa senhoria para seu patrono, não será considerado estranho por qualquer um que não está completamente ignorante do estado presente da igreja e do aprendizado e, consequentemente, ignorante de quão grande ornamento e suporte você é para ambos. Todavia, nada poderia ter induzido-me a fazer-vos este presente de meus pobres esforços, não estivesse [234]eu encorajado por aquela candura e bondade nativa que é uma parte tão brilhante da personalidade de vossa senhoria. Eu poderia adicionar, meu senhor, que o favor e a liberalidade extraordinários que apeteceram a você dar provas diante de nossa Sociedade2 deram-me esperanças de se você não estaria desejoso de tolerar os estudos de um de seus membros. Essas considerações determinaram-me a estender este tratado aos pés de vossa senhoria, e antes porque eu estava ambicioso para ter conhecido que eu, com o mais verdadeiro e profundo respeito, na explicação daquele aprendizado e virtude os quais o mundo tão justamente admira em vossa senhoria,


Meu Lorde,

Vossa senhoria mais humilde

e mais devotado servo,

George Berkeley



[235]O Prefácio


O que aqui eu torno público tem, após uma longa e escrupulosa investigação3, parecido-me evidentemente verdadeiro e útil de ser conhecido; particularmente por aqueles que estão contaminados pelo ceticismo, ou querem uma demonstração da existência e imaterialidade de Deus, ou da imortalidade natural da Alma. Quer seja assim ou não eu estou contente de que o leitor deva examiná-lo imparcialmente; uma vez que eu não considero a mim mesmo nada mais relacionado ao sucesso do que eu escrevi do que é conforme a verdade. Mas, no final, isso pode não ser tolerado, e eu faço meu pedido para que o leitor suspenda seu julgamento até que ele tenha, pelo menos uma vez, lido o todo do princípio ao fim, com aquele grau de atenção e pensamento que a matéria deverá parecer merecer. Pois, como há algumas passagens que, tomadas por elas mesmas, são muito passiveis (nem poderia isso ser remediado) de gerar má interpretação, e serem acusadas das mais absurdas consequências, as quais, no entanto, sob uma inteira leitura cuidadosa, parecerão não se seguirem delas; assim, da mesma forma, embora o todo deva ser lido do começo ao fim, todavia, se isso for feito transitoriamente, é muito provável que minha intenção possa ser perdida: mas ao leitor pensante, eu lisonjeio-me de que isso ficará claro e óbvio do começo ao fim.

Quanto às características de novidade e singularidade4 que [236]algumas das noções que se seguem podem parecer portar, são, eu espero, desnecessárias para fazer qualquer apologia nessa consideração. Alguém precisa necessariamente ser ou muito fraco ou muito pouco familiarizado com as ciências, se ele deverá rejeitar uma verdade que é capaz de demonstração5, por nenhuma outra razão senão porque é recentemente conhecida, e contrária aos prejuízos da humanidade.

Esse tanto eu considerei adequado de pressupor, a fim de prevenir, se possível, as censuras apressadas de um tipo de homens que estão muito inclinados a condenar uma opinião antes que eles corretamente a tenham compreendido6.


Próxima parte


ORIGINAL:

BERKELEY, G. A Treatise concerning the Principles of Human Knowledge [Part I]. First published in 1710. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.233-236. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/233/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 Thomas Herbert, oitavo Earl de Pembroke e quinto Earl de Montgomery, foi correspondente e amigo de Locke – quem dedicou seu famoso Essay a ele, como um trabalho ‘tendo alguma pouca correspondência com algumas partes daquele mais nobre e vasto sistema das ciências do qual vossa senhoria fez um esboço tão novo, exato e instrutivo.’ Ele representa uma família renomada na história política e literária inglesa. Ele nasceu em 1656; foi um aristocrata de Christ Church, Oxford, em 1672; sucedeu aos seus títulos em 1683; foi jurado do Conselho Privado em 1689; e tornado um Cavaleiro da Jarreteira em 1700. Ele ocupou alguns dos mais elevados cargos do estado, nos reinados de William e Mary, e de Ana. Ele foi Lorde Tenente da Irlanda em 1707, tendo anteriormente sido um Comissionário através dos quais a união entre Inglaterra e Escócia foi negociada. Ele morreu em julho de 1733.

2 Trinity College, Dublin.

3 Em seu Commonplace Book, Berkeley parece referir-se às suas especulações da infância. A concepção do mundo material apresentada no Tratado seguinte foi, em sua nova visão, antes da publicação da Nova Teoria da Visão, a qual foi pretendida para prepara o caminho para ele.

4 Confira Locke, na ‘Epístola Dedicatória’ do Essay dele. A despeito da ‘novidade’ dos Novos Princípios, a saber, a negação de Matéria, Espaço, Tempo, Substância e Potência abstratos ou não percebidos; e afirmação da Mente como Síntese, Substância e Causa de tudo – muito na melhor filosofia precedente, antiga e moderna, foi uma obscura antecipação disso.

5 Confira as seções 6, 22, 24, etc, em ilustração da alegação demonstrativa da doutrina inicial de Berkeley.

6 Berkeley roga a seu leitor, aqui e por toda parte, para se esforçar para entender seu significado, e, especialmente, para evitar confundir as ideias ou fenômenos ordenados, objetivamente apresentados aos nossos sentidos, com quimeras caprichosas da imaginação.

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