Por George Berkeley
[237]Introdução
1. A filosofia nada sendo senão apenas o estudo da Sabedoria e Verdade1, pode com razão ser esperado que aqueles que despenderam a maior parte do tempo e dos sofrimentos nela deveriam desfrutar de uma maior calma e serenidade de mente, uma maior clareza e evidência de conhecimento, e ser menos perturbados por dúvidas e dificuldades do que outros homens. Todavia, assim é, nós vemos a massa iletrada da humanidade, que caminha pela estrada principal do simples bom senso, e é governada pelos ditames da natureza, pela maior parte tranquila e não perturbada. Para eles, nada do que é familiar parece inexplicável e difícil de compreender. Eles não se queixam de qualquer falta de evidência de seus sentidos e estão fora de todo o perigo de se tornarem Céticos. Mas, tão logo nos afastamos de sentido e instinto para seguir a luz de um princípio superior – para raciocinar, meditar e refletir sobre a natureza das coisas, apenas mil escrúpulos brotam em nossas mentes, relativos àquelas coisas as quais antes nós parecíamos compreender completamente. Prejuízos e erros dos sentidos de todas as partes descobrem-se a nossa visão; e, tentando corrigi-los pela razão, nós somos imperceptivelmente tragados por grosseiros paradoxos, dificuldades e inconsistências, as quais se multiplicam e crescem conforme nos avançamos na especulação; até que finalmente, tendo errado através de labirintos intrincados, nós encontramos a nós mesmos exatamente onde nós estávamos, ou, o que é pior, sentados em Ceticismo desamparado2.
[238]2. A causa disso é considerada ser a obscuridade das coisas, ou a fraqueza e imperfeição naturais de nossos entendimentos. É dito que as faculdades que nós temos são poucas, e essas projetadas pela natureza para o suporte e prazer da vida, e não para penetrar na essência interior e constituição das coisas: além do mais, a mente do homem sendo finita, quando se trata de coisas que participam do Infinito, não é de se maravilhar que ela incorra em absurdos e contradições, das quais é impossível dever alguma vez libertar a si mesma; sendo da natureza do Infinito não ser compreendido por aquilo que é finito3.
3. Mas, talvez, nós também possamos ser injustos com nós mesmos, colocando a falta originariamente em nossas faculdades, e não antes no uso errado que fazemos delas. É uma coisa difícil supor que deduções corretas a partir de princípios verdadeiros devam alguma vez terminar em consequências que não podem ser mantidas ou feitas consistentes. Nós devemos acreditar que Deus tratou mais abundantemente com os filhos dos homens do que para lhes dar um desejo forte por aquele conhecimento que ele colocara bastante longe de seu alcance. Isso não era conforme aos costumeiros métodos indulgentes da Providência, a qual, quaisquer que sejam os apetites que ela possa ter implantado nas criaturas, usualmente lhes supri com meios tais que, se corretamente utilizados, não falharão em os satisfazer. Em geral, eu estou inclinado a pensar que a parte muito maior, se não toda, daquelas dificuldades que até agora divertiram os filósofos, e bloquearam o caminho para o conhecimento, são devidas inteiramente a eles mesmos. Primeiro nós levantamos uma poeira e, em seguida, queixamo-nos de que não podemos ver.
4. Portanto, meu propósito é tentar se eu posso descobrir quais são aqueles princípios que introduziram toda essa dúvida e incerteza, aqueles absurdos e contradições, nas várias seitas de filosofia: tanto que os mais sábios consideraram nossa ignorância incurável, concebendo-a surgir a partir de nossa natural estupidez e limitação de nossas faculdades. E certamente é uma obra bem merecedora de nossas dores fazer uma investigação rigorosa concernente aos Primeiros [239]Princípios do Conhecimento Humano; para os esquadrinhar e examinar de todos os lados: especialmente uma vez que pode haver alguns fundamentos para suspeitar que aqueles impedimentos e dificuldades, os quais obstam e embaraçam a mente em sua busca pela verdade, não se originam de alguma escuridão e complexidade nesses objetos, ou defeito natural no entendimento, tanto quanto a partir de falsos Princípios sobre os quais se têm insistido, e poderiam ter sido evitados.
5. Por mais difícil e desencorajadora que essa tentativa possa parecer, quando eu considero que um número de muito grandes e extraordinários homens vieram antes de mim com desígnios semelhantes4, todavia, eu não estou sem algumas esperanças; sobre a consideração de que as maiores visões não são sempre as mais claras, e que ele quem é de visão curta será obrigado a puxar o objeto para mais perto e pode, talvez, através de uma análise próxima e estreita, discernir aquilo que escapara de olhos muito melhores.
6. A fim de preparar a mente do leitor para a concepção mais fácil do que se segue, é apropriado pressupor um pouco, por meio de Introdução, concernente à natureza e abuso da Linguagem. Mas o desenrolar desse assunto conduz-me a antecipar meu desígnio em alguma medida, ao tomar nota do que parece ter tido uma parte principal em tornar a especulação intrincada e perplexa, e ter ocasionado erros e dificuldades inumeráveis em quase todas as partes do conhecimento. E essa é a opinião de que a mente tem o poder de construir ideias ou noções abstratas das coisas5. Aquele que não é um perfeito estranho aos escritos e disputas de filósofos precisa [240]reconhecer que não pequena parte deles é despendida em ideias abstratas. Essas são, de uma maneira especial, consideradas ser o objeto daquelas ciências que se chamam de lógica e metafísica, e tudo aquilo que se passa sob a noção do mais abstrato e sublime conhecimento; em tudo isso alguém escassamente deve encontrar alguma questão manejada de maneira tal como a não supor a existência delas na mente, e que está bem familiarizado com elas.
7. É concordado por todos os lados que qualidades ou modos das coisas nunca realmente existem cada um a parte por si mesmo, e separados de todos os outros, mas estão misturados, por assim dizer, combinados, vários no mesmo objeto. Mas, conta-se a nós, a mente, sendo capaz de considerar cada qualidade isolada, ou abstraída daquelas outras qualidades com as quais está unida, faz através disso meio de construir ideias abstratas para si mesma. Por exemplo, ali está, concebido pela vista, um objeto extenso, colorido e movido: essa ideia misturada ou composta da mente resolvendo-se em suas simples partes constituintes, e vistas cada uma por si mesma, exclusivas do resto, constrói as ideias abstratas de extensão, cor e movimento. Não que seja possível para cor ou movimento existirem sem extensão; mas apenas que a mente pode construir para si mesma, através de abstração, a ideia de cor exclusiva da de extensão, e a de movimento exclusiva tanto da de cor quanto da de extensão.
8. Novamente, a mente tendo observado que em extensões particulares percebidas pelo sentido há alguma coisa comum e parecida em todas, e algumas outras coisas peculiares, como essa ou aquela figura ou magnitude, a qual distingui-as uma da outra, ela considera à parte, ou seleciona por si mesma, aquilo que é comum; fazendo disso a mais abstrata ideia de extensão; a qual não é nem linha, superfície, nem sólido, nem tem qualquer figura ou magnitude, mas é uma ideia inteiramente abstraída de todas essas. Assim, da mesma maneira, ao deixar de fora as cores particulares percebidas pelo sentido que as distinguem uma da outra, e retendo apenas aquela que é comum a todas, forma uma ideia de cor em abstrato; a qual não é nem vermelha, nem azul, nem branca, nem qualquer outra cor determinada. E, da mesma maneira, ao considerar o movimento abstratamente, não apenas em relação ao corpo movido, mas igualmente em relação à figura que ele descreve, e a todas as direções e velocidades particulares, a ideia abstrata de movimento é [241]construída; a qual igualmente corresponde a todos os movimentos particulares seja o que for que possa ser percebido pelo sentido.
9. E como a mente constrói para si mesma as ideias abstratas de qualidades ou modos, assim alcança, pela mesma precisão, ou separação mental, ideias dos seres mais compostos que incluem várias qualidades coexistentes. Por exemplo, a mente tendo observado que Peter, James e John assemelham-se uns aos outros em certas combinações comuns de forma e outras qualidades, deixa de fora a ideia complexa ou composta que ela tem de Peter, James e qualquer outro homem particular, essa que é peculiar a cada um, retendo apenas o que é comum a todos, e assim cria uma ideia abstrata, da qual todos os particulares participam igualmente; abstraindo inteiramente de e isolando todas aquelas circunstâncias e diferenças que poderiam determiná-los a qualquer existência particular. E segundo essa maneira é dito que nós obtemos a ideia abstrata de homem, ou, se agradar-te, de humanidade ou natureza humana; na qual, é verdadeiro, está incluída a cor, porque não há homem que não tenha alguma cor, mas então ela não pode ser nem branca, nem negra, nem qualquer cor particular, porque não há cor particular na qual todos os homens participem. Assim, da mesma maneira, ali está incluída a estatura, mas então não é nem alta estatura, nem baixa estatura, nem todavia estatura media, mas alguma coisa abstraída de todas essas. E assim para o resto. Além disso, há uma grande variedade de outras criaturas que participam de algumas partes, mas não de todas, da ideia complexa de homem, a mente, deixando de fora aquelas partes que são peculiares aos homens, e retendo aquelas que apenas são comuns a todas as criaturas vivas, cria a ideia de animal; a qual abstrai não apenas de todos os homens particulares, mas também de todos os pássaros, bestas, peixes e insetos. As partes constituintes da ideia abstrata de animal são corpo, vida, sentido e movimento espontâneo. Por corpo pretendia-se significar corpo sem qualquer forma ou figura particular, não havendo nenhuma forma ou figura comum a todos os animais; sem cobertura, quer de cabelo, ou penas, ou escamas, etc, mas não nu: cabelo, penas, escamas e nudez sendo as propriedades distintivas de animais particulares e, por essa razão, deixadas de fora da ideia abstrata. Sobre a mesma explicação, o movimento espontâneo precisa ser nem caminhar, nem voar, nem se arrastar; no entanto, é um movimento; mas que movimento ele é, não é fácil de conceber.
[242]10. Se outros têm essa maravilhosa faculdade de abstrair as ideias deles, eles podem informar melhor6. Por mim mesmo, [7eu atrevo-me a estar confiante de que eu não tenho.] De fato, eu descubro que tenho a faculdade de imaginar, ou de representar para mim mesmo, as ideias daquelas coisas particulares que eu percebi, e de variadamente compô-las e dividi-las. Eu posso imaginar um homem com duas cabeças; ou as partes superiores de um homem unidas ao corpo de um cavalo. Eu posso considerar a mão, o olho, o nariz, cada um por si mesmo abstraído ou separado do resto do corpo. Mas então, qualquer que seja a mão ou olho que eu imagine8, ele precisa ter alguma forma e cor particular. Da mesma maneira, a ideia de homem que eu forma para mim mesmo precisa ser de um homem branco, ou negro, ou moreno, um ereto, ou um curvo, um alto, ou baixo ou de altura média. Eu não posso, por qualquer esforço de pensamento, conceber a ideia abstrata acima descrita. E é igualmente impossível para mim formar a ideia abstrata de movimento distinto do corpo movente, e a qual não é nem rápido nem lento, curvilíneo nem retilíneo; e o semelhante pode ser dito de todas as outras ideias gerais abstratas, sejam quais forem. Para ser simples, eu reconheço-me capaz de abstrair em um sentido, como quando eu considero algumas partes ou qualidades particulares separadas de outras, com as quais, embora elas estejam unidas em algum objeto, todavia, é possível que elas realmente existam sem ele. Mas nego que eu possa abstrair uma da outra, ou concebê-las separadamente, aquelas qualidades que é impossível dever existir assim separadas; ou que eu posso formar uma noção geral, abstraindo de particulares da maneira acima mencionada – as duas últimas que são as próprias acepções de abstração. E há fundamento para pensar que a maioria dos homens reconhecerão a si mesmos estarem em minha situação. A generalidade dos homens que são simples e iletrados nunca pretende abstrair noções9. É dito que elas são difíceis, e não são atingidas sem dores e estudo. Portanto, nós podemos concluir razoavelmente que, se tais existirem, elas estão confinadas apenas aos sábios.
ORIGINAL:
BERKELEY, G. A Treatise concerning the Principles of Human Knowledge [Part I]. First published in 1710. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.237-243. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/237/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [237]‘A filosofia não é nada senão o verdadeiro conhecimento de coisas.’ Locke.
2 O propósito desses ensaios iniciais de Berkeley era reconciliar a filosofia com o senso comum, empregando a reflexão para fazer o latente senso comum, ou a razão comum, revelar-se em sua integridade genuína. Cf. as sentenças finais do Third Dialogue between Hylas and Philonous.
3 [238]Cf. O Essay – Introdução, seções 4-7; livro II, capítulo 23, §12, etc – de Locke. Locke (quem provavelmente está aqui na visão de Berkeley) atribui as perplexidades da filosofia às nossas faculdades limitadas, as quais se destinam a regular nossas vidas, não a remover todos os mistérios. Ver também, Principia, I. 26, 27, etc, de Descartes; Recherche, III. 2, de Malebranche.
4 [239]Seus precursores mais significantes foram Descartes, em seus Principia, e Locke, em seu Essay.
5 Aqui ‘ideia’ e ‘noção’ parecem ser usadas permutavelmente. Ver seção 142. Comparar com o argumento contra ideias abstratas, desdobrado no restante da Introdução, Princípios, seções 97-100, 118-132, 143; Nova Teoria da Visão, seções 122-125; Alciphron, diálogo vii, 5-7; Defence of Free Thinking in Mathematics, seções 45-48. Também Siris, seções 323, 324, etc, onde ele distingue Ideia em um sentido superior de suas ideias sensíveis. Como mencionado em meu Prefácio, a terceira edição de Alciphron, publicada em 1752, o ano antes da morte de Berkeley, omite as três seções do Sétimo Diálogo que repetem o argumento seguinte contra ideias abstratas.
6 [242]Como em Logica, Pt. II. c.6, 7 e Philosophica Contracta, I. i. §§ 7-11, por Derodon; e Leg. Instit., I. 8, por Gassendi; também Eternal and Immutable Morality, Bk. IV, por Cudworth.
7 Omitido na segunda edição.
8 Nós precisamos lembrar que o que Berkeley entende por uma ideia é ou um percebido pelo sentido, ou uma imaginação sensível; e o argumento dele é que nenhum desses pode ser uma abstração. Nós não podemos nem perceber nem imaginar o que não é concreto ou parte de uma sucessão.
9 ‘Noções abstratas’ – aqui usadas permutavelmente com ‘ideias abstratas.’ Cf. Princípios, seções 89 e 142, sobre o sentido especial de noção.
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