sábado, 29 de janeiro de 2022

Um Ensaio para Uma Nova Teoria da Visão [88-120]

Por George Berkeley


Parte anterior


[171]88. Tendo concluído o que eu pretendia dizer sobre a Distância e Magnitude de objetos, eu agora venho tratar da maneira pela qual a mente percebe a Posição1 deles pela vista. Entre as descobertas da última época, não é considerada como das menores que o uso da visão tenha sido mais claramente explicado do que alguma vez tinha sido. Não há, nesta época, ninguém ignorante de que as imagens dos objetos exteriores são pintados na retina ou no fundo do olho; que nós não podemos ver nada que não esteja assim pintado; e que, de acordo com que a imagem seja mais distinto ou confuso, também assim é a percepção que nós temos do objeto2. Mas então, nessa explicação da visão, ali ocorre uma poderosa dificuldade, a saber, os objetos são pintados em uma ordem invertida na base do olho: a parte superior de qualquer objeto sendo pintada na parte inferior do olho, e a parte inferior do objeto na parte superior do olho; e assim também quanto à direita e esquerda. Portanto, uma vez que as imagens estão dessa maneira invertidos, é perguntado, como acontece que nós vejamos os objetos eretos e em sua postura natural?

89. Em resposta a essa dificuldade, explica-se a nós que a mente, percebendo o impulso de um raio de luz na parte superior do olho, considera esse raio como vindo em uma linha direta da parte inferior do objeto; e, da mesma maneira, traçando o raio que atinge a parte inferior do olho, é dirigido da parte superior do objeto. Dessa maneira, na figura adjacente, C, o ponto inferior do objeto ABC, é projetado em c, a parte superior do olho. Da mesma forma, o ponto mais elevado A é projetado em a, a parte mais baixa do olho; o que torna a representação cba invertida. Mas a mente – considerando [172]a marca que é feita em c como vindo na linha reta Cc a partir da extremidade inferior do objeto; e a marca ou impulso em a, como vindo na Aa da extremidade superior do objeto – é dirigida a fazer um julgamento correto da posição do objeto ABC, a despeito da imagem dele estar invertida.

Além disso, isso é ilustrado ao conceber-se um homem cego, quem, segurando em suas mãos dois bastões que cruzam um ao outro, toca com eles as extremidades de um objeto, posicionado em uma posição perpendicular3. É certo que esse homem julgará que a parte superior do objeto que ele toca com o bastão mantém-se na mão mais baixa, e que deve ser a parte mais baixa do objeto que ele toca com o bastão em sua mão mais alta. Essa é a explicação comum da aparência ereta de objetos, a qual é geralmente recebida e aquiescida, sendo (como o Sr. Molyneuz explica-nos, Diopt. Part ii. ch. vii. p. 289) ‘considerada por todos os homens como satisfatória.’

90. Mas essa explicação para mim não parece verdadeira em qualquer grau. Houvesse eu percebido aqueles impulsos, intersecções e direções dos raios de luz, de maneira semelhante a como foram estabelecidos, então, de fato, não seriam à primeira vista vazias de probabilidade. E poderia haver alguma simulação para a comparação do cego e seus bastões cruzados. Mas o caso é muito diferente. Eu conheço muito bem que eu não percebo semelhante coisa. E, por consequência, eu não posso por esse meio fazer uma estimativa da posição de objetos. Além disso, eu apelo à experiência de qualquer um, quer ele esteja consciente de si mesmo para que ele pense na intersecção formado pelos lápis em circunferência, quer busque os impulsos que eles dão em linhas retas, quando que ele percebe pela vista a posição de [173]qualquer objeto? Para mim parece evidente que o cruzamento e traçado dos raios, etc, nunca são considerados por crianças, idiotas, ou, verdadeiramente, por qualquer outro, salvo apenas por aqueles que se aplicaram ao estudo da ótica. E para a mente julgar da posição de objetos por aquelas coisas sem as perceber, ou percebê-las sem conhecê-la4, escolha o que te agrada, está perfeitamente além da minha compreensão. Acrescente a isso, que a explicação do uso da visão pelo exemplo dos bastões cruzados, e a caçada do objeto ao longo dos eixos dos lápis em circunferência, supõem que os objetos próprios da vista sejam percebidos à distância de nós, contrariamente ao que tem sido demonstrado5. [Portanto, nós podemos aventurarmo-nos a declarar essa opinião, relativa à maneira pela qual a mente percebe a aparência ereta de objetos, ser uma parte daqueles outros dogmas de escritores em óptica, os quais, nas partes anteriores deste tratado, nós tivemos ocasião de examinar e refutar6.]

91. Portanto, resta que examinemos outra explicação para essa dificuldade. E eu acredito que não seja impossível encontrar uma, se nós a examinarmos até a base, e cuidadosamente distinguirmos entre as ideias da vista e do toque; o que não pode ser tão frequentemente inculcado ao tratar da visão7. Mas, mais especificamente do começo ao fim da consideração desse assunto, nós devemos levar essa distinção em nossos pensamentos; pois a dificuldade da explicação da visão ereta parece surgir principalmente dessa carência de um entendimento correto da mesma.

92. Para desembaraçar nossas mentes de quaisquer prejuízos que nós possamos acolher com relação ao assunto à mão, nada parece mais apropriado do que a tomada em nossos pensamentos do caso de alguém cego de nascença, e, mais tarde, feito ver. E – embora talvez essa possa não ser uma tarefa inteiramente fácil e familiar para nós, despojar-nos inteiramente das experiências recebidas da vista, para sermos capazes de colocar nossos pensamentos exatamente na postura de um semelhante alguém – nós devemos, não obstante, tanto quanto possível, tentar formar verdadeiras concepções do que razoavelmente poderia ser suposto passar em sua mente8.

[174]93. É certo que um homem realmente cego, quem continuara assim desde o seu nascimento, conseguiria, pelo sentido do tato, ter ideias de alto e baixo. Pelo movimento de sua mão, ele poderia discernir a posição de qualquer objeto tangível dentro de seu alcance. Aquela parte sobre a qual ele se sentisse suportado, ou na direção da qual ele percebesse seu corpo gravitar, ele denominaria de baixo, e a contrária dessa, de alto; e consequentemente denominaria quaisquer objetos que ele tocasse.

94. Mas então, quaisquer julgamentos que ele faça concernentes à posição de objetos estão confinados somente àqueles que são percebidos pelo toque. Todas aquelas coisas que são intangíveis, e de uma natureza espiritual – seus pensamentos e desejos, suas paixões e, em geral, todas das modificações de sua alma – a esses ele nunca aplicaria os termos de alto e baixo, exceto apenas um sentido metafórico. Talvez ele possa, por meio de alusão, falar de pensamentos altos ou baixos: mas aqueles termos, em sua significação própria nunca seriam aplicados a qualquer coisa que não fosse concebida existir fora da mente. Pois, um homem cego de nascença, e permanecendo no mesmo estado, não poderia significar nada mais pelas palavras alto e baixo do que uma distância maior ou menos da terra; distância a qual ele mediria pelo movimento de aplicação de sua mão, ou alguma outra parte de seu corpo. Portanto, é evidente que todas essas coisas que, com respeito uma a outra, seriam por ele consideradas altas ou baixas, devem ser tal como se fossem concebidas existir fora da mente, no espaço ambiente9.

95. De onde simplesmente se segue que um tal alguém, se nós supusemos ele feito enxergar, à primeira vista, não consideraria que nada do que ele visse seria alto ou baixo, ereto ou invertido. Pois, já tendo sido demonstrado na seção 41, que ele não consideraria as coisas que ele percebesse pela vista estarem a qualquer distância dele, ou fora da mente. Os objetos aos quais até então ele estivesse acostumado a aplicar os termos para cima e para baixo, alto e baixo, eram assim apenas enquanto afetassem, ou fossem de alguma maneira percebidos por, seu toque. Mas os objetos [175]próprios da visão formam um novo conjunto de ideias, perfeitamente distintas e diferentes do anterior, e que não podem de jeito nenhum se tornarem percebidas pelo toque. Portanto, não há absolutamente nada que poderia induzir-lhe a considerar aqueles termos aplicáveis a eles. Nem ele nunca pensaria nisso, até tal ocasião quando ele observasse a conexão deles com objetos tangíveis, e o mesmo prejuízo10 começasse a insinuar-se em seu entendimento, o qual, desde a infância deles, crescera nos entendimentos de outros homens.

96. Para colocar essa questão em uma luz mais clara, eu deverei fazer uso de um exemplo. Suponha que a pessoa cega acima mencionada, pelo seu toque, perceba um homem ficar de pé ereto. Investiguemos o modo disso. Pela aplicação de sua mão em várias partes de um corpo humano, ele percebera diferentes ideias tangíveis; as quais, sendo coletados em diversas complexas11, têm nomes distintos anexados a elas. Dessa maneira, uma combinação de uma certa figura tangível, volume e consistência de partes é chamada de cabeça; outra, de mão; uma terceira, de pé, e assim quanto ao resto – ideias complexas todas as quais poderiam, no entendimento dele, ser formadas apenas de ideias percebidas pelo toque. Ele também obtivera, pelo seu toque, uma ideia de terra ou solo, na direção do qual ele percebe que as partes de seu corpo ter uma tendência natural. Agora – por ereto nada mais sendo significado do que a posição perpendicular de um homem na qual os seus pés estão o mais próximo possível da terra – se a pessoa cega, movendo sua mão sobre as partes do homem que está de pé diante ele, percebe ideias tangíveis que compõem a cabeça estarem o mais distante de, e aquelas que compõem os pés o mais próximo de, essa outra combinação de ideias tangíveis, que ele chama de terra, ele denominará esse homem de ereto. Mas, se supusermos que ele de repente recebe sua vista, e que ele contempla o homem de pé diante dele, é evidente, nesse caso, que ele nem julgaria o homem que ele vê estar ereto nem invertido; pois ele, nunca tento conhecido esses termos aplicados a quaisquer outras senão coisas tangíveis, ou que existissem no espaço fora dele, e que ele não vê nem sendo tangível, nem percebidas como existindo fora, ele não poderia [176]saber, na propriedade da linguagem, se eles seriam aplicadas a isso.

97. Depois disso, quando, ao virar sua cabeça ou olhos para cima e para baixo, para a direita e a esquerda, ele deverá observar os objetos visíveis mudarem, e também deverá chegar a saber que eles são chamados pelos mesmos nomes, e conectados com os objetos percebidos pelo toque; então, de fato, ele chegará a falar deles e da posição deles nos mesmos termos que ele estava acostumado a aplicar a coisas tangíveis: e essas que ele percebe ao virar os olhos para cima ele chamara de mais altas, e aquelas que ele perceber virando os olhos para baixo ele chamará de mais baixas.

98. E essa parece-me ser a verdadeira razão pela qual ele deveria considerar aqueles objetos mais altos que estão pintados na parte inferior de seu olho. Pois, ao virar o olho para cima eles deveriam ser distintamente vistos; como da mesma forma eles que estão pintados na parte mais elevada do olho deverão ser distintamente vistos ao virar o olho para baixo, e são por essa razão estimados os mais baixos. Pois nós revelamos que, aos objetos imediatos da vista, considerados neles mesmos, nós não atribuiríamos os termos de alto e baixo. Portanto, deve ser por causa de algumas circunstâncias que são observadas acompanhando-os. E essas, é simples, são as ações de virar o olho para cima e para baixo, o que sugere uma razão muito óbvia pela qual a mente deveria denominar os objetos da vista adequadamente de alto e baixo. E sem esse movimento do olho – esse virar para cima e para baixo a fim de discernir diferentes objetos – sem dúvida ereto, inverso, e outros termos semelhantes à posição de objetos tangíveis, nunca teriam sido transferidos, ou, em qualquer grau, apreendidos pertencer, às ideias da vista, o mero ato da visão nada incluindo nele quanto a esse propósito; visto que as diferentes posições do olho naturalmente dirigem a mente para fazer um julgamento adequado da posição de objetos intrometidos por ele12.

99. Adicionalmente, quando ele tivesse apreendido por experiência a conexão que existe entre as várias ideias da vista e do toque, ele será capaz, pela percepção que ele tem da posição das coisas visíveis com respeito umas às outras, de fazer uma súbita e verdadeira estimativa da posição das coisas tangíveis exteriores correspondentes a elas. E dessa maneira [177]é que ele deverá perceber13 pela vista a posição dos objetos externos14, a qual propriamente não cai sob esse sentido.

100. Eu sei que nós estamos muito propensos a pensar que, se apenas fôssemos feitos ver, nós deveríamos julgar a posição das coisas visíveis como nós agora fazemos. Mas, também nós estamos tão inclinados a pensar que, à primeira vista, nós deveríamos da mesma maneira apreender a distância e magnitude de objetos, como nós agora fazemos; o que foi revelado ser uma crença (persuasion) falsa e infundada. E, por razões semelhantes, a mesma censura pode ser transferida para a certeza positiva que a maioria dos homens, antes que eles tenham pensado suficientemente sobre o assunto, poderia ter de eles serem capazes de determinar pelo olho, à primeira vista, se os objetos estão eretos ou invertidos.

101. Talvez será objetado contra nossa opinião, que um homem, por exemplo, sendo considerado ereto quando seus pés estão próximos à terra, e invertido quando sua cabeça está próxima à terra, consequentemente se segue que, pelo mero ato de visão, sem qualquer experiência ou alteração da posição do olho, nós deveríamos ter determinado ser ele estava ereto ou invertido. Pois, tanto a terra mesma, quanto os membros do homem que está de pé sobre ela, sendo igualmente percebidos pela vista, alguém não pode escolher ver que parte do homem está mais próxima da terra e que parte está mais distante dela, ou seja, se ele está ereto ou invertido.

102. Ao que eu respondo, as ideias que constituem a terra e o homem tangíveis são inteiramente diferentes daquelas que constituem a terra e o homem visíveis. Nem era possível, em virtude da faculdade visiva sozinha, sem adicionar em excesso qualquer experiência de toque, ou alterar a posição do olho, alguma vez ter conhecido, ou tanto quanto ter suspeitado, que houvesse qualquer relação ou conexão entre elas. Consequentemente, à primeira vista um homem não denominaria coisa alguma que ele visse, terra, ou cabeça, ou ; e consequentemente, ele não poderia dizer, pelo mero ato de visão, se a cabeça ou os pés estavam mais perto da terra. Nem, de fato, ele teria por esse meio qualquer pensamento de terra ou homem, ereto ou inverso, de qualquer maneira – o que, todavia, seria tornado [178]mais evidente, se nós observássemos satisfatoriamente, as ideias de ambos os sentidos.

103. Que isso que eu vejo é apenas variedade de luz e cores. Que isso que eu sinto é duro ou macio, quente ou frio, áspero ou liso. Que semelhança, que conexão, têm as primeiras ideias com as segundas? Ou, como é possível que qualquer um veja razão para dar um e o mesmo nome15 para combinações de ideias tão diferentes, antes que ele tenha experienciado a coexistência delas? Nós não descobrimos existir qualquer conexão desta ou daquela qualidade tangível e qualquer cor que seja. E algumas vezes nós podemos perceber cores onde não haja nada a ser sentido. Tudo isso torna manifesto que nenhum homem, à primeira recepção de sua vista16, saberia haver qualquer acordo entre este ou aquele objeto particular de sua vista e qualquer objeto de toque com o qual ele já estivesse familiarizado. Portanto, as cores da cabeça não mais lhe sugeririam a ideia de cabeça17 do que elas sugeririam a ideia de pés.

104. Adicionalmente, nós em geral revelamos (ver seções 63 e 64) que não há conexão necessária descobrível entre qualquer magnitude visível dada e qualquer magnitude tangível particular; mas que isso é inteiramente o resultado de costume e experiência, e depende de circunstâncias acidentais e externas, que nós podemos, pela percepção da extensão visível, informar a nós mesmos de qual pode ser a extensão de qualquer objeto tangível conectado com ela. Consequentemente, é certo que nem a magnitude visível da cabeça ou do pé conjugariam na mente, ao primeiro abrir dos olhos, as respectivas magnitudes tangíveis dessas partes.

105. Pela seção anterior, está claro que a figura visível de qualquer parte do corpo não tem conexão necessária com a figura tangível do mesmo, assim como a sugeri-la, à primeira vista, à mente. Pois, figura é o limite (termination) da magnitude. De onde se segue que nenhuma magnitude visível tendo em sua própria natureza uma aptidão para sugerir qualquer magnitude tangível particular, assim, nem pode qualquer figura visível estar inseparavelmente conectada com sua correspondente figura tangível, assim como a si mesma, e em uma maneira anterior a experiência, ela poderia sugeri-la [179]ao entendimento. Isso será ainda mais evidente, se nós considerarmos que o que parece liso e redondo ao toque, pode, à vista, se visto através de um microscópio, parecer bem diferente.

106. A partir de tudo isso, estabelecido junto e devidamente considerado, nós claramente podemos deduzir esta inferência: - no primeiro ato de visão, nenhuma ideia entrando pelo olho teria uma conexão perceptível com as ideias às quais os nomes de terra, homem, cabeça, pé, etc, foram anexados no entendimento de uma pessoa cega desde seu nascimento; assim como em qualquer tipo para as introduzir na mente dela, ou fazê-las ser chamadas pelos mesmos nomes, e consideradas as mesmas coisas com eles, como mais tarde elas vêm a ser.

107. Mesmo assim, aqui permanece uma dificuldade, que para alguns pode parecer pressionar duramente nossa opinião e não merecer ser transmitida. Pois, embora seja concedido que nem a cor, tamanho, nem figura dos pés visíveis tenham qualquer conexão necessária com as ideias que compõem os pés tangíveis, assim como a trazê-las à mente à primeira vista, ou colocar-me em perigo de as confundir, antes que eu tenha acostumado a e por algum tempo experienciado a conexão delas; todavia, dessa maneira parece inegável, a saber, que o número de pés visíveis sendo o mesmo que aqueles de pés tangíveis, consequentemente eu possa, sem qualquer experiência de vista, razoavelmente concluir que eles representam ou estão conectados aos pés em vez da cabeça. Eu digo, parece que a ideia de dois pés visíveis mais cedo sugerirá à mente a ideia de dois pés tangíveis do que a de uma cabeça – de maneira que o cego, à primeira recepção da faculdade visiva, poderia conhecer quais eram os pés ou dois, e qual era a cabeça, ou um.

108. Para clarear essa aparente dificuldade, nós apenas devemos observar que a diversidade de objetos visíveis não necessariamente implica a diversidade de objetos tangíveis a eles correspondentes. Uma imagem pintada com grande variedade de cores afeta o toque de uma maneira uniforme; portanto, é evidente que eu não julgo, por qualquer consequência necessária, independentemente de experiência, do número de coisas tangíveis a partir do número de coisas visíveis. Portanto, eu não deveria, à primeira abertura de meu olhos, concluir que, porque eu vejo dois, eu deverei sentir dois. Portanto, como posso eu, antes que a experiência ensine-me, conhecer que as pernas visíveis, porque [180]duas, estão conectadas com as pernas tangíveis; ou a cabeça visível, porque uma, está conectada com a cabeça tangível? A verdade é; as coisas que eu vejo são tão diferentes e heterogêneas das coisas que eu sinto, que a percepção de uma nunca teria sugerido a outra aos meus pensamentos, ou capacitado-me a avançar o menor julgamento sobre ela, até que eu tivesse experienciado a conexão18 delas.

109. Mas, para uma ilustração mais completa dessa questão, deve ser considerado que o número (por mais que alguns considerem-no entre as qualidades primárias19) não é fixo e estabelecido, realmente existente nas coisas em si mesmas. É inteiramente criatura da mente, considerando quer uma ideia simples por si mesma, quer qualquer combinação de ideias simples à qual é dada um nome, e assim a faz passar por uma unidade. Conforme a mente variadamente combina suas ideias, a unidade varia; e, como a unidade, assim o número, o qual é apenas uma coleção de unidade, também varia. Nós chamamos uma janela de uma, uma chaminé de uma; e, todavia, uma casa, na qual há muitas janelas e muitas chaminés, tem um direito igual a ser chamada de uma; e muitas casas prosseguem para formar uma cidade. Nessas instâncias e em semelhantes, é evidente que a unidade constantemente se relaciona aos esboços particulares que a mente faz de suas ideias, aos quais ela afixa nomes, e nos quais ela [181]inclui mais ou menos, como melhor adequa-se aos seus próprios fins e propósito. Portanto, o que quer que a mente considere como um, isso é uma unidade. Cada combinação de ideias é considerada como uma coisa pela mente, e no sinal dessa é marcada por um nome. Agora, esse nome e combinação de ideias é perfeitamente arbitrário, e feito pela mente de tal forma como a experiência revela a ela ser a mais conveniente – sem o que nossas ideias nunca teriam sido coletadas em combinações tão variadamente diversas quanto elas agora são.

110. Consequentemente, segue-se que um homem cego de nascença, e mais tarde, quando crescido, feito enxergar, não dividiria, ao primeiro ato de visão, as ideias da vista nas mesmas coleções distintas que outros que têm experienciado quais regularmente coexistem e são adequadas para serem empacotadas juntas sob um nome. Por exemplo, ele não criaria uma ideia complexa e desse modo consideraria e uniria todas aquelas ideias particulares que constituem a cabeça ou pé visíveis. Pois, não pode haver nenhuma razão atribuída de porque ele deveria fazê-lo, apenas diante de sua visão de um homem ficar de pé diante dele. Ali se amontoariam em sua mente as ideias que compõem o homem visível, em companhia de todas as outras ideias da vista percebidas ao mesmo tempo. Mas, todas essas ideias oferecidas de uma vez à sua vista ele não distribuiria em diversas combinações distintas, até uma ocasião tal como, observando o movimento das partes do homem e outras experiências, ele chegasse a conhecer quais deveriam ser separadas e quais deveriam ser recolhidas juntas20.

111. A partir do que tem sido pressuposto, é simples que os objetos da vista e do toque formam, se eu posso dizê-lo, dois conjuntos de ideias, os quais são amplamente diferentes um do outro. Aos objetos de cada tipo, nós indiferentemente atribuímos os termos de alto e baixo, direita e esquerda, e semelhantes, denotando a posição ou posição das coisas; mas então nós precisamos observar bem que a posição de cada objeto é determinada com respeito apenas aos objetos do mesmo sentido. Nós dizemos que qualquer objeto do toque é alto ou baixo, de acordo com que ele esteja mais ou menos distante da terra tangível: e de maneira similar nós [182]denominamos qualquer objeto da vista ou do toque de alto ou baixo, em proporção a como ele esteja mais ou menos distante da terra visível. Mas, para definir a posição das coisas visíveis com relação à distância que elas comportam de qualquer coisa tangível, ou vice-versa, isso seria absurdo ou perfeitamente ininteligível. Pois todas as coisas visíveis estão igualmente na mente, e não ocupam nenhuma parte no espaço externo; e, consequentemente, são equidistantes de qualquer coisa tangível que exista fora da mente21.

112. Ou antes, para falar verdadeiramente, os objetos próprios da vista não estão à distância, nem próximos, nem longe de qualquer coisa tangível. Pois, se nós inquirirmos rigorosamente a questão, nós deveremos encontrar que aquelas coisas somente são comparadas juntas com respeito à distância que existe segundo a mesma maneira, ou são próprios de um mesmo sentido. Pois, pela distância entre dois pontos quaisquer, nada mais é significado do que o número de pontos intermediários. Se os pontos dados são visíveis, a distância entre eles é marcada pelo número de ponto interjacentes visíveis; se eles são tangíveis, a distância entre eles é uma linha consistindo em pontos tangíveis; mas, se eles são um tangível e o outro visível, a distância entre eles nem consiste em pontos perceptíveis pela vista nem pelo toque, ou seja, ela é completamente inconcebível22. Talvez isso não será uma admissão fácil no entendimento de todos os homens. Contudo, eu de bom grado deveria ser informado se isso não fosse verdadeiro, por qualquer um que estará na dificuldade de refletir um pouco, e usá-lo em casa para seus pensamentos.

113. A não observação do que foi transmitido nas duas últimas seções, parece ter ocasionado uma parte não pequena da dificuldade que ocorre no assunto das aparências diretas. A cabeça, a qual está pintada o mais próximo da terra parece ficar o mais longe dela; e, por outro lado, os pés, que estão pintados o mais distante da terra, são considerados os mais próximos dela. Aqui jaz a dificuldade, a qual desaparece ser nós expressarmos a coisa mais claramente e livre de ambiguidade, de desta maneira: - Como se chega que, para o olho, a cabeça visível, a qual está mais perto da terra tangível, pareça mais longe da terra; e os pés visíveis, os quais estão o mais distante da terra tangível, pareçam os mais próximos da [183]terra? A questão proposta dessa maneira, quem não vê que a dificuldade é encontrada na suposição de que o olho ou faculdade visiva, ou antes a alma por meio dela, deveria julgar da posição dos objetos visíveis com referência à distância deles da terra tangível? Considerando que, é evidente que a terra tangível não é percebida pela vista. E foi revelado, nas duas últimas seções anteriores, que a localização dos objetos visíveis é determinada apenas pela distância que eles comportam para com o outro, e que é sem sentido falar de distância, grande ou próxima, entre uma coisa visível e tangível.

114. Se nós confinarmos nossos pensamentos aos próprios objetos da vista, o todo é simples e fácil. A cabeça está pintada o mais longe de, e os pés o mais perto de, a terra visível; e assim e assim elas parecem estar. O que é estranho ou incompreensível nisso? Suponhamos que as imagens no fundo do olho sejam os objetos imediatos da vista23. A consequência é que as coisas deveriam aparecer na mesma postura na qual elas estão pintadas; e não é assim? A cabeça que é vista parece o mais distante da terra que é vista; e o pés que são vistos parecem o mais distante da terra que é vista. E assim mesmo eles estão pintados.

115. Mas, diz você, a imagem do homem está invertida e, contudo, a aparência está ereta. Eu pergunto, o que você quer dizer pela imagem do homem, ou, o que é a mesma coisa, o homem visível estar invertido? Você explica-me que está invertido, porque os calcanhares estão para cima e a cabeça para baixo? Explique-me isso. Você diz que pela cabeça estando para baixo você quer dizer que ela está o mais próximo da terra; e, pelos calcanhares estando para cima, que eles estão os mais distante da terra. Eu pergunto novamente, a que terra você refere-se? Você não pode querer dizer a terra que está pintada no olho ou a terra visível – pois a imagem da cabeça está o mais distante da imagem da terra, e a imagem dos pés o mais próximo da imagem da terra; e portanto, a cabeça visível está o mais distante da terra visível, e os pés visíveis o mais próximo dela. Portanto, resta que você queira dizer a terra tangível; e assim determinar a posição de coisas visíveis com respeito a coisas tangíveis – contrário ao que foi demonstrado nas seções 111 e 112. As duas [184]províncias distantes da vista e do toque devem ser consideradas separadas, e como se os objetos delas não tivessem ligação, nem modo de relação, um com o outro, no ponto de distância ou posição24.

116. Adicionalmente, o que grandemente contribui para nos fazer enganar nesse assunto é que, quando nós pensamos nas imagens no fundo do olho, nós imaginamos a nós mesmos olhando no fundo do olho de outro, ou outro olhando no fundo de nosso próprio olho, e contemplando as imagens pintadas ali. Suponha dois olhos, A e B. A olhando de alguma distância para as imagens de B enxerga-las invertidas e, por essa razão, conclui que elas estão invertidas em B. Mas isso está errado. Ali elas estão projetadas em escala pequena na base de A as imagens de imagens e, supõem-se, homem, terra, etc, as quais estão pintadas em B. E, além dessas, do olho B mesmo, e dos objetos que o cercam, junto com outra terra, são projetadas em tamanho maior em A. Agora, pelo olho A essas imagens maiores são consideradas os verdadeiros objetos, e as menores apenas imagens em miniatura. E é com respeito àquelas imagens maiores que ele determina a posição das imagens menores; de modo que, comparando o pequeno homem com o a grande terra, A julga-lhe invertido, ou que os pés estão o mais distante de e a cabeça o mais perto da grande terra. Considerando que, se A compara o pequeno homem com a pequena terra, então ele aparecerá ereto, ou seja, sua cabeça deverá aparecer o mais distante e seus pés o mais próximo da pequena terra. Mas nós precisamos considerar que B não vê duas terras como A vê. Ele vê apenas o que está representado pelas pequenas imagens em A e, consequentemente, deverá julgar o homem ereto. Pois, em verdade, o homem em B não está invertido, pois ali os pés estão próximos à terra; mas é a representação dele em A que está invertida, pois ali a cabeça da representação da imagem em B está próxima da terra, e os pés, o mais distantes da terra – significando que a terra que está fora da representação das imagens em B. Pois, se você tomar as pequenas imagens das imagens em B, e considerá-las por elas mesmas, e com respeito apenas uma a outra, elas estão todas eretas em suas posturas naturais.

[185]117. Adicionalmente, aqui jaz um erro em nossa imaginação que as imagens de objetos externos25 estão pintadas na base do olho. Foi revelado que não há semelhança entre as ideias da vista e as coisas tangíveis. Da mesma forma, foi demonstrado26 que os objetos próprios da vista não existem fora da mente. De onde claramente se segue que as imagens na base do olho não são as imagens de objetos externos27. Que qualquer um consulte seus próprios pensamentos, e então me conte, que afinidade, que semelhança, há entre certa variedade e disposição de cores que constituem o homem visível, ou a imagem de um homem, e aquela outra combinação de ideias muitos diferentes sensíveis ao toque, que compõem o homem tangível. Mas, se esse for o caso, como elas chegam a ser consideradas pinturas ou imagens, uma vez que se supõe que elas copiem ou representem alguns originais ou outros?

118. Ao que eu respondo – na instância supracitada, o olho A toma as pequenas imagens, incluídas na representação do outro olho B, para ser imagens ou cópias, das quais os arquétipos não são coisas existindo fora28, mas as imagens29 maiores projetadas em seu próprio fundo; e as quais por A não são consideradas imagens, mas as coisas originais ou verdadeiras mesmas. Embora se nós supusermos um terceiro olho C, a partir de uma distância devida, observar o fundo de A, então, de fato, as coisas projetadas sobre ele deverão, para C, parecer imagens ou imagens, no mesmo sentido que aquelas projetadas sobre B fazem para A.

119. Para conceber corretamente o negócio à mão, nós devemos distinguir cuidadosamente entre as ideias da vista e do toque, entre o olho visível e o tangível; pois certamente, no olho tangível, nada está ou parece esta pintado. Novamente, o olho visível, assim como todos os outros objetos visíveis, foi revelado existir apenas na mente30; a qual, percebendo suas próprias ideias, e comparando-as juntas, chama algumas de imagens com respeito a outras. O que foi dito, sendo corretamente compreendido e estabelecidos conjuntamente, eu penso, proporciona uma explicação completa e genuína da aparência ereta de objetos – fenômeno que, eu devo [186]confessar, eu não vejo como pode ser explicado por quais teorias da visão até então tornadas públicas.

120. Ao tratar dessas coisas, o uso da linguagem está inclinado para ocasionar alguma obscuridade e confusão, e criar em nós ideias erradas. Pois, a linguagem estando acomodada às noções e prejuízos comuns dos homens, é escassamente possível transmitir a verdade nua e precisa, sem grande circunlóquio, impropriedade e (para qualquer leitor incauto) contradições aparentes. Portanto, de uma vez por todas, eu desejo que seja quem for que considere valer o seu tempo entender o que eu escrevi concernente à visão, que ele não se fixe nesta ou naquela frase ou forma de expressão, mas francamente colete meu sentido a partir da soma e teor inteiros de meu discurso, e, deixando de lado as palavras31 tanto quanto possível, considere as noções nuas elas mesmas, e então julgue se elas são conforme a verdade e sua própria experiência ou não.


Próxima parte


ORIGINAL:

BERKELEY, G. An Essay towards a New Theory of Vision. First published in 1709. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.171-186. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/171/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [171]As seções de 88-119 relacionam-se à natureza, invisibilidade e aos sinais arbitrários da Posição, ou das localidades das coisas tangíveis. Cf. Theory of Vision Vindicated, sect. 44-53.

2 Cf. seções 2, 114, 116, 118.

3 [172]Esta ilustração é tirada de Descartes. Ver Apêndice.

4 [173]Seções 10 e 19.

5 Seções 2-51.

6 Omitido na última edição do autor.

7 Essa é a solução universal por Berkeley das dificuldades psicológicas envolvidas na percepção visual.

8 Cf. seções 103, 106, 110, 128, etc. [174]Berkeley trata desse caso hipoteticamente no Ensaio, em falta de experimentos reais sobre os cegos de nascença, desde então acumulados a partir de Cheselden adiante. Ver contudo o Apêndice, e Theory of Vision Vindicated, seção 71.

9 Ou seja, coisas tangíveis. Cf. Princípios, seção 44.

10 [175]O ‘prejuízo,’ a saber, que Berkeley dissolver através de sua análise introspectiva da visão. Cf. Theory of Vision Vindicated, seção 35.

11 Dessa maneira formando coisas concretas individuais a partir do que é percebido separadamente através de diferentes sentidos.

12 [176]Em resumo, essa é a solução de Berkeley para ‘a dificuldade das imagens invertidas,’ a qual há muito confundia os homens de ciência.

13 [177]Ou seja, perceber mediatamente – objetos visíveis, per se, não tendo nenhuma situação tátil. A visão pura, ele diria, não tem nada a ver com ‘alto’ e ‘baixo,’ ‘grande’ e ‘invertido,’ no sentido real ou tátil desses termos.

14 Ou seja, tangíveis.

15 [178]Ou seja, ‘extensão,’ a qual, de acordo com Berkeley, é um termo equívoco, comum (em seus significados diferentes) para visibilia e tangibilia. Cf. seções 139, 140.

16 Cf. seções 93, 106, 110, 128.

17Ou seja, cabeça real ou tangível.

18 [180]Cf. seções 140, 143. Na Gent. Mag. (vol. XXII, p. 12), o ‘Antiberkeley’ argumenta desta maneira no caso de alguém cego de nascença. ‘Esse homem,’ ele acrescenta, ‘estando acostumado a sentir a mão de alguém com a outra, teria percebido que a extremidade da mão estava dividida em dedos – que as extremidades desses dedos eram distinguidas por certas superfícies duras, lisas, de uma textura diferente do resto dos dedos – e que cada dedo tem certas juntas ou curvaturas. Agora, se esse homem fosse restaurado à vista, e imediatamente visse sua mão antes que ele tocasse-a novamente, é manifesto que as divisões da extremidade da mão em dedos seriam visivelmente percebidas. Ele também notaria os pequenos espaços na extremidade de cada dedo, os quais afetariam sua visão diferentemente do resto dos dedos; ao mover os dedos ele veria as juntas. Embora, portanto, através desse sentido de visão tardiamente adquirido, o objeto afetou sua mente de uma maneira nova e diferente do que antes fizera, todavia, como através do toque ele adquirira o conhecimento dessas várias divisões, marcas e distinções da mão e, como o novo objeto da vista parecia ser divido, marcado e distinguido de uma maneira similar, eu penso que ele certamente concluiria, antes que ele tocasse sua mão, que a coisa que ele agora via era a mesma que ele sentira antes e chamara de mão.’

19 Locke, Essay, II. 8, 16. Aristóteles considera o número como um Sensível Comum. - De Anima, II. 6, II. 1.

20 [181]‘Se a aparência visível de dois xelins foi considerada conectada desde o começo com a ideia de um xelim, essa aparência tão natural e prontamente teria significado a unidade do objeto (tangivel) como ela agora significa sua duplicidade.’ Reid, Inquiry, VI. ii.

21 [182]Novamente se note aqui a reticência inconveniente de Berkeley de sua completa teoria da matéria, como dependente da vida percipiente para sua realidade. Entretanto, concede-se que coisas tangíveis sejam reais ‘fora da mente.’ Cf. Princípios, seções 43, 44. ‘Fora da mente’ – em contraste com o fenômeno apenas sensível.

22 Cf. seção 131.

23 [183]Seções 2, 88, 116, 116.

24 [184]Para resumir, nós vemos apenas quantidade de cor – os reais ou táteis distância, tamanho, forma, localização, cima e baixo, direita e esquerda, etc, sendo gradualmente associadas às várias modificações visíveis de cor.

25 [185]Ou seja, tangíveis.

26 Seções 41-44.

27 Ou seja, tangíveis.

28 Ou seja, coisas tangíveis.

29 Ou seja, visíveis.

30 Cf. seções 41-44. Os ‘olhos’ – visíveis e tangíveis – são eles mesmos objetos dos sentidos.

31 [186]Cf. Princípios, Introdução, seções 21-25.

Nenhum comentário:

Postar um comentário