Por George Berkeley
[186]121. Nós revelamos a maneira pela qual as mentes, pela mediação de ideias visíveis1, percebe ou apreende a distância, magnitude e posição de objetos tangíveis2. Eu agora venho a investigar mais particularmente sobre a diferença entre as ideias da vista e do toque que são chamadas pelos mesmos nomes, e ver se há alguma ideia comum a ambos os sentidos3. A partir do que no geral nós estabelecemos e demonstramos nas partes acima expostas deste tratado, é evidente que não há nenhuma idêntica extensão numérica, percebida tanto pela vista quanto pelo toque; mas que as figuras e extensões particulares percebidas pela vista, de qualquer maneira que elas possam ser chamadas pelos mesmos nomes, e consideradas as mesmas coisas que aquelas percebidas pelo toque, não obstante, são diferentes, e têm uma existência muito distinta e [187]separada delas. De maneira que a questão agora não é concernente às mesmas ideias numéricas, mas se há qualquer tipo ou espécie, um e o mesmo, de ideias igualmente perceptível por ambos os sentidos? Ou, em outras palavras, se extensão, figura e movimento que são percebidos pela vista, não são especificamente distintos de extensão, figura e movimento percebidos pelo toque?
122. Mas, antes que venha a discutir mais particularmente esse assunto, eu considero apropriado tomar em meus pensamentos a extensão em abstrato4. Pois disso há muito a falar; e eu estou inclinado a pensar que, quando os homens falam de extensão como sendo uma ideia comum aos dois sentidos, é com uma suposição secreta de que nós podemos destacar a extensão de todas as outras qualidades tangíveis e visíveis, e formar a partir da mesma uma ideia abstrata, ideia a qual eles terão em comum tanto para vista quanto para o toque. Portanto, nós devemos entender por extensão em abstrato, uma ideia5 de extensão – por exemplo, uma linha ou superfície, despojada de todas as outras qualidades sensíveis e circunstâncias que poderiam determiná-la a qualquer existência particular; ela não é nem petra, nem branca, nem vermelha, nem tem qualquer cor de qualquer maneira, ou qualquer qualidade sensível que seja e, consequentemente, não é de nenhuma determinada magnitude6 finita; pois isso que limita ou distingue uma extensão de outra é alguma qualidade ou circunstância na qual elas discordam.
123. Agora, eu não considero que possa perceber, imaginar ou, de qualquer maneira, formar em minha mente uma tal ideia abstrata como aqui é indicada. Uma linha ou superfície que não é nem preta, nem branca, nem azul, nem amarela, etc; nem longa, nem curta, nem irregular, nem lisa, nem quadrada, nem redonda, etc, é perfeitamente incompreensível. Disso eu estou certo quanto a mim mesmo; quão longe as faculdades de outros homens podem alcançar eles podem dizer melhor.
124. Diz-se comumente que o objeto da geometria é [188]a extensão abstrata. Mas a geometria contempla figuras: agora, a figura é o limite da magnitude7; mas nós revelamos que a extensão em abstrato não tem determinada magnitude finita; de onde claramente se segue que ela não tem figura e, consequentemente, não é o objeto da geometria. De fato, é um dogma, tanto para os modernos quanto para os antigos filósofos, que todas as verdades gerais são concernentes às ideias universais abstratas; sem as quais, conta-se a nó, que não pode haver ciência, nem demonstração de qualquer proposição geral em geometria. Mas essa não era questão difícil, eu considerei necessário para meu propósito atual, revelar que proposições e demonstrações em geometria poderiam ser universais, embora aqueles que as fazem nunca pensem em ideias gerais abstratas de triângulos ou círculos.
125. Após reiterados esforços e tormentos de pensamento8 para apreender a ideia geral de um triângulo9, eu considerei-a completamente incompreensível. E certamente, se qualquer um fosse capaz de deixar essa ideia entrar em sua mente, ele deve ser o autor10 do Essay concerning Human Understanding: ele, quem tão longe se distinguiu da generalidade de escritores, pela clareza e significância do que ele diz. Portanto, vejamos como esse celebrado autor11 descreve a geral ou [o que é a mesma coisa, a12] abstrata ideia de um triângulo. ‘Ela precisa ser nem oblíqua, nem retangular, nem equilátera, nem equicrural, nem escalena; mas tudo e nada disso de uma vez. Com efeito, é alguma coisa imperfeita que não pode existir; uma ideia, na qual algumas partes de várias diferentes e inconsistentes ideias são postas juntas.’(Essay on Human Understanding, B. iv. ch. 7. s. 9.) Essa é a ideia que ele considera necessária para o alargamento do conhecimento, a qual é o objeto da demonstração matemática e sem a qual nós nunca poderíamos chegar a conhecer qualquer proposição [189]geral concernente a triângulos. [Eu estou certo, se esse for o caso, é impossível para eu chegar a conhecer mesmo o primeiro dos elementos de geometria: uma vez que eu não tenho a faculdade de formar em minha mente uma tal ideia como é aqui descrita13.] O autor reconhece, ‘requerem-se alguns esforços e habilidade para formar essa ideia geral de triângulo.’ (Ibid.) Mas, houvesse ele refletido sobre o que ele diz em outro lugar, a saber, ‘que ideias de modos mistos nos quais quaisquer ideias inconsistentes são colocadas juntas, não podem mesmo existir na mente, ou seja, ser concebidas,’ (ver, B. iii. ch. 10. s. 33, ibid.) - Eu digo, houvesse isso ocorrido a seus pensamentos, não é improvável que ele confessasse isso acima de todas os esforços e habilidade dos quais ele era mestre, para formar a supracitada ideia de um triângulo, a qual é formada de manifestas contradições explícitas. Que um homem [de um tão claro entendimento14], quem pensou tanto e tão bem, e colocou uma ênfase tão grande em ideias claras e determinadas, mesmo assim devesse falar nesse ritmo, parece muito surpreendente. Mas a surpresa atenuar-se-á, se for considerado que a fonte da qual essa opinião [de figuras e extensão15 abstratas] flui é o útero prolífico que produziu inumeráveis erros e dificuldades, em todas as partes da filosofia e em todas as ciências. Mas essa questão, tomado em sua extensão completa, era uma um assunto tão vasto e compreensivo para ser insistido neste lugar16. [Eu apenas deverei observar que os seus metafísicos e homens de especulação parecem ter faculdades distintas daquelas dos homens ordinários, quando eles falam de triângulos e círculos gerais ou abstraídos, etc, e tão peremptoriamente os declaram ser o objeto de todas as verdades eternas, imutáveis universais em geometria17.] E isso é demais para a extensão em abstrato.
126. Talvez alguns possam pensar que o puro espaço, vácuo, ou dimensão tríplice, sejam igualmente o objeto da vista e do toque18. Mas, embora nós tenhamos uma grande propensão para pensar que as ideias de exterioridade e espaço sejam o objeto imediato da vista, todavia, se eu não me engano, nas partes acima mencionadas deste Ensaio, isso foi claramente [190]demonstrado ser uma mera ilusão, surgindo a partir da rápida e súbita sugestão da imaginação, a qual, tão rigorosamente conecta a ideia de distância com aquelas da vista, que nós ficamos inclinados a considerar que ela é em si mesma um objeto próprio e imediato daquele sentido, até que a razão corrija o engano19.
127. Tendo sido revelado que não há ideias abstratas de figura, e que é impossível para nós, através de qualquer exatidão de pensamento, formar uma ideia de extensão separada de todas as outras qualidades visíveis e tangíveis, as quais deveriam ser comuns tanto à vista quanto ao toque – a questão que agora resta é20, se as extensões, figuras e movimentos particulares percebidos pela vista são do mesmo tipo que as extensões, figuras e movimentos particulares percebidos pelo toque? Em resposta a isso eu devo arriscar-me a estabelecer a seguinte proposição: - A extensão, figuras e movimentos percebidos pela vista são especificamente distintos das ideias do toque, chamadas pelos mesmos nomes; nem há tal coisa como uma ideia, ou tipo de ideia, comum21 a ambos os sentidos. Essa proposição pode, sem muita dificuldade, ser coletada a partir do que tem sido dito em vários pontos deste Ensaio. Mas, por que ela parece tão distante de, e contrária a, as noções recebidas e a opinião estabelecida da humanidade, eu devo tentar demonstrá-la mais particularmente e em geral pelos argumentos seguintes:-
128. [Primeiro22,] Quando, diante da percepção de uma ideia, eu classifico-a sobre este ou aquele tipo, é porque ela é percebida segundo a mesma maneira, ou porque ela tem uma semelhança ou conformidade com, ou afeta-me da mesma maneira que as ideias do tipo sob o qual eu classifico-a. Em resumo, ela não deve ser inteiramente nova, mas ter alguma coisa nela antiga e já percebida por mim. Ela deve, eu digo, ter tanto, pelo menos, [191]em comum com as ideias que eu antes conheci e nomeei, quanto a fazer eu dá-la o mesmo nome que elas. Mas, se eu não me engano, tem sido claramente compreendido (made out)23 que um homem cego de nascença, à primeira recepção de sua vista, não consideraria que as coisas que ele visse fossem da mesma natureza que os objetos do toque, ou tivessem alguma coisa em comum com eles; mas que elas eram um novo conjunto de ideias, percebidas de uma nova maneira, e inteiramente diferentes de todas que ele alguma vez percebera antes. De maneira que ele não as chamaria pelo mesmo nome, nem as consideraria ser do mesmo tipo que qualquer coisa que até então ele conhecera. [E certamente o julgamento de uma semelhante pessoa sem prejuízo é mais do que confiado neste caso do que os sentimentos da generalidade dos homens; quem, nisso como em quase todo o resto, toleram que eles mesmos sejam guiados pelo costume e pelas sugestões errôneas do prejuízo, antes que pela razão e reflexão24 tranquila.]
129. Segundo, Luz e cores são admitidas por todos como constituindo um tipo ou espécie inteiramente diferente das ideias de toque; nem qualquer homem dirá, eu presumo, que elas possam fazer a si mesmas percebidas por aquele sentido. Mas não há outro objeto imediato da vista além de luz e cores25. Portanto, é uma consequência direta que não há ideia comum a ambos os sentidos.
130. É uma opinião prevalente, mesmo entre aqueles que têm pensado e escrito mais precisamente sobre nossas ideias e as maneiras pelas quais elas entram em nosso entendimento, que algo mais é percebido pela vista do que apenas luz e cores com as variações delas. [O excelente26] Sr Locke chama a vista de ‘o mais compreensivo de todos os nossos sentidos, comunicando a nossas mentes as ideias de luz e cores, as quais são peculiares apenas àquele sentido; e também muito diferentes das ideias de espaço, figura e movimento.’ (Essay on Human Understanding, B. iii. ch. 9. s.9.) Espaço ou distância27, nós revelamos, não são de outra forma o [192]objeto da vista do que da audição. (Ver seção 46) E, quanto à figura e extensão, eu deixo para qualquer um que deva atentar cuidadosamente para suas próprias ideias claras e distintas decidir se ele tem alguma ideia imediata e propriamente introduzida pela vista senão apenas vista e cores: ou se é possível para ele formar em sua mente uma distinta ideia abstrata de extensão visível, ou figura, separada de toda cor; e, por outro lado, se ele pode conceber a cor sem extensão visível? De minha parte, eu devo confessar, que eu não sou capaz de atingir uma tal exatidão de abstração. Eu sei muito bem que, em um sentido estrito, eu não vejo nada senão luz e cores, com suas diversas tonalidades e variações. Aquele que além dessas também percebe pela vista ideias muito diferentes e distintas delas, tem uma faculdade em um grau mais perfeito e compreensivo do que eu posso pretender. Precisa ser reconhecido, de fato, que, pela mediação da luz e das coisas, outras ideias muito diferentes são sugeridas à minha mente. Mas igualmente elas são pela audição (hearing)28. Mas então, sobre esse ponto, eu não vejo razão de porque a vista deva ser considerada mais compreensiva do que a audição, a qual, além dos sons que são peculiares a esse sentido, pela intermediação deles, sugere não apenas espaço, figura e movimento, mas todas as outras ideias que, de jeito nenhum, podem ser significadas por palavras.
131. Terceiro, é, eu penso, um axioma universalmente recebido que ‘quantidades do mesmo tipo podem ser adicionadas e formarem uma soma inteira.’ Matemáticos adicionam linhas; mas eles não adicionam uma linha a um sólido, ou concebem-no formando uma soma com uma superfície. Esses três tipos de quantidade sendo considerados incapazes de qualquer adição mútua e, consequentemente, de serem comparados juntos nas várias formas de proporção, são por aqueles, por essa razão, considerados inteiramente diferentes e heterogêneos. Agora, que qualquer um tente em seus pensamentos adicionar uma linha ou superfície visíveis a uma linha ou superfície tangíveis, assim como a concebê-las formando uma soma ou todo contínuo. Aquele que pode fazer isso pode considerá-las homogêneas; mas ele que não deve poder, pelo axioma supracitado, considerá-las heterogêneas. [Eu reconheço a mim mesmo ser do último tipo29.] Uma linha azul e uma vermelha eu posso conceber adicionadas em uma soma e [193]formando uma linha contínua; mas formar, em meus pensamentos, uma linha contínua de uma linha visível e uma tangível adicionadas é, eu considero, uma tarefa muito mais difícil, e até insuperável – eu deixo-a para a reflexão e experiência de cada pessoa particular para determinar por si mesma.
132. Mais uma confirmação de nosso princípio pode ser extraída da solução do problema do Sr. Molyneux, publicada pelo Sr. Locke em seu Essay30: a qual eu devo escrever como ela lá se encontra, junto com a opinião do Sr. Locke sobre ela:- ‘Suponha-se um homem cego de nascença, e agora adulto, e ensinado por seu toque a distinguir entre um cubo e uma esfera do mesmo metal, e quase da mesma grandeza, assim como a dizer quando ele sentisse um e o outro, qual é o cubo e qual a esfera. Suponha-se então o cubo e a esfera posicionados sobre uma mesa, e o cego de nascença feito ver: pergunta-se, se pela sua vista, antes que ele tocasse-os, ele agora podeira distinguir, e dizer, qual é o globo, qual é o cubo. Ao que, o proponente perspicaz e judicioso responde: não. Pois, embora ele tenha obtido a experiência de como um globo, como um cubo afeta seu toque; todavia, ele ainda não obteve a experiência de que, aquilo que afeta seu toque assim ou assim deve afetar sua vista assim ou assim: ou que um ângulo protuberante no cubo, que pressiona sua mão desigualmente, deverá aparecer para seu olho como ele aparece no cubo. Eu concordo com esse cavaleiro pensante, a quem eu estou orgulhoso de chamar de meu amigo, em sua resposta para esse problema; e eu sou da opinião de que o cego de nascença, à primeira vista, não seria capaz de dizer com certeza, qual era o globo, qual era o cubo, considerando que ele apenas os viu.’(Essay on Human Understanding, B. ii. c. 9. s. 8.)
133. Agora, se uma superfície quadrada percebida pelo toque fosse do mesmo tipo que uma superfície quadrada percebida pela vista, é certo que o cego de nascença aqui mencionado poderia conhecer uma superfície quadrada tão logo ele visse-a. Isso não é nada mais senão a introdução em sua mente, por uma nova entrada, de uma ideia com a qual ele já estava bem familiarizado. Portanto, uma vez que se supõe que ele tenha conhecido por seu toque que um cubo é um corpo [194]delimitado por superfícies quadradas; e que uma esfera não é delimitada por superfícies quadradas – sobre a suposição de um quadrado visível e um tangível diferem apenas em número, segue-se que ele poderia conhecer, pela marca infalível das superfícies quadradas, qual era o cubo, e qual não era, enquanto ele apenas os visse. Portanto, nós devemos admitir, ou que a extensão e figura visíveis são especificamente distintas da extensão e figuras tangíveis, ou senão, que a solução desse problema, dada por aqueles dois homens [muito31] profundos e engenhosos, está errada.
134. Muito mais poderia ser reunido em prova da proposição que eu propus. Mas, o que foi dito é, se eu não me engano, suficiente para convencer qualquer um que deverá conceder uma atenção razoável. E, quanto àqueles que não se submeterão às dificuldades de um pequeno pensamento, nenhuma multiplicação de palavras alguma vez será suficiente para os fazer entender a verdade, ou corretamente conceber meu significado32.
135. Eu não posso deixar o problema acima mencionado sem alguma reflexão sobre ele. Foi tornado evidente que um homem cego desde o seu nascimento, à primeira vista, não denominaria coisa alguma que ele visse pelos nomes que estivera acostumado a apropriar-se para as ideias do toque. (Ver seção 106) Cubo, esfera, mesa são palavras que ele conhecia aplicadas a coisas perceptíveis pelo toque, mas, a coisas perfeitamente intangíveis, ele nunca as conheceu aplicadas. Aquelas palavras, em sua aplicação habitual, sempre classificavam para sua mente corpos ou coisas sólidas que eram percebidas pela resistência que eles davam. Mas não há solidez, nem resistência ou saliência percebidas pela vista. Em resumo, as ideias da vistas são percepções inteiramente novas, para as quais não há nomes anexados em sua mente; portanto, ele não pode entender o que é dito a ele concernente a eles. E, perguntar dos dois corpos que ele viu posicionados sobre mesa, qual era a esfera, qual era o cubo, foi para ele uma questão francamente de brincadeira e ininteligível; nada que ele vê sendo capaz de sugerir a seus pensamentos a ideia de corpo, distância ou, no geral, de qualquer coias que ele já tivesse conhecido.
136. É um engano pensar que a mesma33 coisa afete tanto a vista quanto o toque. Se o mesmo ângulo ou quadrado que é o [195]objeto do toque for também o objeto da visão, o que deveria impedir o cego, à primeira visa, de o conhecer? Pois, embora a maneira pela qual ele afeta a vista seja diferente daquela pela qual ele afetava seu toque, todavia, há, além dessa maneira ou circunstância, a qual é nova e desconhecida, o ângulo ou figura, o qual é antigo e conhecido, ele não pode escolher senão discerni-lo.
137. Figura e extensão visíveis tendo sido demonstradas serem de uma natureza inteiramente diferente e heterogênea da figura e extensão tangíveis, resta que investiguemos sobre o movimento. Agora, que o movimento visível não é do mesmo tipo que o movimento tangível parece não necessitar de prova adicional; sendo um corolário evidente a partir do que nós revelamos concernente à diferença que há entre extensão visível e tangível. Mas, para uma mais completa e expressa prova acerca disso, nós apenas precisamos observar que alguém quem não experienciara a visão não conheceria, à primeira vista, o movimento34. De onde claramente se segue que o movimento perceptível pela vista é de um tipo distinto do movimento perceptível pelo toque. O antecedente eu provo desta maneira – pelo toque ele não perceberia nenhum movimento senão que fosse para cima ou para baixo, à direita ou esquerda, mais próximo ou mais distante dele; além desses, e de suas diversas variedades e complicações, é impossível que ele devesse ter qualquer ideia de movimento. Portanto, ele não consideraria coisa nenhuma ser movimento, ou dar o nome de movimento a qualquer ideia, a qual ele não classificasse sobre um ou outro daqueles tipos particulares do mesmo. Mas, a partir da seção 95, é eviddente que, pelo mero ato da visão, ele não poderia conhecer o movimento para cima ou para baixo, para a direita ou esquerda, ou em qualquer outra direção possível. A partir do que eu concluo, ele não conheceria o movimento de maneira alguma, à primeira vista. Quanto à ideia de movimento em abstrato, eu não deverei desperdiçar papel com ela, mas deixá-la para meu leitor fazer o melhor que puder dela. Para mim, ela é perfeitamente ininteligível35.
138. A consideração do movimento pode fornecer um novo campo para investigação36. Mas, uma vez que a maneira pela qual a [196]mente apreende pela vista o movimento de objetos tangíveis, com os diversos graus do mesmo, pode ser facilmente coletada a partir do que tem sido dito concernente a maneira pela qual aquele sentido sugere suas várias distâncias, magnitudes e situações. Eu não deverei expandir nada mais sobre esse assunto, mas proceder para investigar o que pode ser alegado, com a maior aparência de razão, contra a proposição que nós demonstramos ser verdadeira; pois, onde há tanto prejuízo a ser encontrado, uma demonstração sem enfeites e disfarces da verdade escassamente será suficiente. Nós também precisamos satisfazer os escrúpulos que os homens pode trazer à baila em favor de suas noções preconcebidas, revelar de onde o engano surge, como ele pode espalhar-se e, cuidadosamente, revelar e erradicar aquelas falsas crenças que um prejuízo inicial poderia ter implantado na mente.
139. Portanto, primeiro, será perguntado; como extensão e figuras visíveis chegaram a ser chamadas pelo mesmo nome que extensão e figuras tangíveis, se elas não são do mesmo tipo? Precisa ser por alguma coisa mais do que humor ou acidente que pôde ocasionar um costume tão constante e universal como esse, o qual foi obtido em todas as épocas e nações do mundo, e em meio a todas as categorias de homens, os instruídos assim como os iletrados.
140. Ao que eu respondo, nós não podemos mais argumentar que um quadrado visível e uma tangível são da mesma espécie, a partir deles serem chamados pelo mesmo nome, do que nós podemos [argumentar] que um quadrado (square) tangível, e o monossílabo consistindo de seis letras37 pelas quais ele é marcado, são da mesma espécie, porque eles dois são chamados pelo mesmo nome. É costumeiro chamar palavras escritas e as coisas que elas significam pelo mesmo nome: pois, palavras não sendo consideradas em sua própria natureza, ou de outra maneira como elas são marcas das coisas, tem sido supérfluo, e além do desígnio da linguagem, ter dado a elas nomes distintos daqueles das coisas marcadas por elas. A mesma razão também vale aqui. Figuras visíveis são as marcas das figuras tangíveis; e, a partir da seção 59, é evidente que nelas mesmas elas são pouco consideradas, ou sobre qualquer outra conta do que por sua conexão com figuras tangíveis, as quais, por natureza, elas estão ordenadas a significar. E, porque essa linguagem da natureza38 [197]não varia em diferentes épocas ou nações, consequentemente, é que em todos os tempos e lugares as figuras visíveis são chamadas pelos mesmos nomes que as respectivas figuras tangíveis por elas sugeridas; e não porque elas sejam semelhantes, ou do mesmo tipo que elas.
141. Mas, diz você, certamente um quadrado tangível é mais semelhante a um quadrado visível do que um círculo visível: ele tem quatro ângulos e tantos lados; assim também tem o quadrado visível – mas o círculo visível não tem coisa semelhante, sendo restrito por uma curva uniforme, sem linhas retas ou ângulo, o que o torna incapaz de representar o quadrado tangível, mas muito adequado para representar o círculo tangível. De onde claramente se segue que as figuras visíveis são padrões de, ou das mesmas espécies que, as respectivas figuras tangíveis representadas por elas; que elas são semelhantes a elas e, de sua própria natureza, apropriadas para as representar, como sendo do mesmo tipo; e que elas são, em nenhum aspecto, sinais arbitrários, como as palavras.
142. Eu respondo, precisa ser reconhecido que o quadrado visível é mais adequado do que o círculo visível para representar o quadrado tangível, mas então não é porque ele é mais semelhante, ou mais da mesma espécie que ele; mas, porque o quadrado visível contém nele várias partes distintas, pelas quais marcam as várias partes distintas correspondentes de um quadrado tangível, ao passo que o círculo visível não o faz. O quadrado percebido pelo toque tem quatro distintos lados iguais, assim também tem quatro distintos ângulos iguais. Portanto, é necessário que a figura visível que deva ser a mais própria para o marcar contenha quatro distintas partes iguais, correspondendo aos quatro lados de um quadrado tangível; da mesma forma, quatro outras partes distintas e iguais, através das quais denotar os quatro ângulos iguais do quadrado tangível. E portanto, nós vemos que as figuras visíveis contêm nelas distintas partes visíveis, respondendo às distintas partes tangíveis das figuras significadas ou sugeridas por elas.
143. Mas, consequentemente não se seguirá que qualquer figura visível seja semelhante a, ou da mesma espécie que, sua correspondente figura tangível – a menos que também seja revelado que não somente o número, mas também o tipo das partes seja o mesmo em ambas. Para ilustrar isso, eu observo que figuras visíveis representam figuras tangíveis muito segundo a mesma maneira que palavras escritas representam sons. Agora, a esse respeito, palavras não são arbitrárias; não é indiferente que palavras escritas representem [198]qualquer som. Mas, é requisito que cada palavra contenha nela tantos caracteres distintos quanto há variações no som que ele representa. Dessa maneira, a letra única a é própria para marca um simples som uniforme; e a palavra adultério está adaptada para representar o som anexado a ela – na formação da qual ocorrendo oito diferentes colisões ou modificações de ar pelos órgãos de fala, cada uma das quais produz um som diferentes, e era adequado que a palavra representando-a devia consistir em tantos caracteres diferentes, assim para marcar cara diferença ou parte particular do som todo. De fato, é arbitrário que, em geral, as letras de qualquer linguagem representem sons de qualquer maneria; mas, quando isso é uma vez acordado, não é arbitrário quais combinações de letras devam representar este ou aquele som particular. Eu deixo isso para o leitor pesquisar, e aplicá-lo em seus próprios pensamentos.
144. Precisa ser confessado que nós não estamos tão inclinados para confundir outros sinais com as coisas significadas, ou considerá-los da mesma espécie, como nós estamos para as ideias visíveis e tangíveis. Mas um pouco de consideração revelar-nos-á como isso pode bem ocorrer, sem nossa suposição delas de uma natureza semelhante. Esses sinais são constantes e universais; a conexão deles com ideias tangíveis foi aprendida em nossa primeira entrada no mundo; e desde então, em quase qualquer momento de nossas vidas, ela tem ocorrido a nossos pensamentos, e firmando-se em e atingindo mais profundamente nossas mentes. Quando nós observamos que os sinais são variáveis e de instituição humana; quando nós lembramos que houve um tempo em que eles não estavam conectados em nossas mentes com aquelas coisas que eles agora tão prontamente sugerem, mas que a significação deles foi aprendida através dos lentos passos da experiência: isso preserva-nos de os confundir. Mas, quando nós descobrimos que os mesmos sinais sugerem as mesmas coisas por todo o mundo; quando nós sabemos que eles não são de instituição humana, não podemos lembrar que nos nunca aprendemos sua significação, apenas pensar que, à primeira vista, eles teriam sugerido-nos as mesmas coisas que eles agora sugerem: tudo isso persuade-nos de que eles são da mesma espécie que as coisas respectivamente representadas por eles, e que é por uma semelhança natural que eles sugerem-nas às nossas mentes.
145. Adicione-se a isso que sempre que nós fazemos uma bela análise [199]de qualquer objeto, sucessivamente dirigindo os eixos ópticos para cada ponto do mesmo, há certas linhas e figuras, descritas pelo movimento da cabeça ou olho, os quais, sendo em verdade percebidos pelo sentimento39, mesmo assim se misturam, por assim dizer, com as ideias da vista que nós escassamente podemos pensar senão que elas pertencem àquele sentido. Novamente, as ideias da vista entram na mente várias de uma vez, mais distintas e sem mistura do que é usual nos outros sentidos além do toque. Os sons, por exemplo, percebidos no mesmo instante, estão inclinados a amalgamarem-se, se eu posso falar assim, em um som: mas nós podemos perceber, ao mesmo tempo, grande variedade de objetos visíveis, muito separados e distintos uns dos outros. Agora, a extensão tangível40 sendo formada por várias partes coexistentes e distintas, consequentemente, nós podemos obter outra razão que pode dispor-nos a imaginar a semelhança ou analogia entre os objetos imediatos da vista e do toque. Mas nada, certamente, contribui mais para os misturar e confundir, do que a conexão41 estrita e próxima que eles têm um com o outro. Nós não podemos abrir nossos olhos sem que as ideias de distância, corpos e figuras tangíveis são sugeridas por eles. Tão rápida, súbita e não percebida é a transição das ideias visíveis para as tangíveis que nós escassamente podemos evitar considerá-la igualmente o objeto imediato da visão.
146. O prejuízo42 que está fundamentado sobre esses, e quaisquer outras causas que possam ser atribuídas ao mesmo, penetra tão rápido em nossos entendimentos, que é impossível, sem esforço obstinado e labor da mente, limpar-se inteiramente dele. Mas então a relutância que nós encontramos na rejeição de qualquer opinião não pode ser argumento de sua verdade, para qualquer um que considere o que já foi revelado com respeito aos prejuízos que nós acolhemos relativos à distância, magnitude e posição dos objetos; prejuízos tão familiares a nossas mentes, tão confirmados e inveterados, enquanto eles dificilmente cederão a mais clara demonstração.
ORIGINAL:
BERKELEY, G. An Essay towards a New Theory of Vision. First published in 1709. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.186-199. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/186/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [186]‘Ideias visíveis’ – incluindo sensações musculares e locomotivas sentidas no órgão da visão. Seções 16, 27, 57.
2 Ou seja, objetos que, neste Ensaio tentativo, são admitidos, por causa do argumento, ser externos, ou independentes de mente percipiente.
3 Ou seja, investigar se há, neste caso, Sensíveis Comuns; e, em particular, se uma extensão do mesmo tipo, pelo menos, se não numericamente a mesma, é apresentada a ambos. A teoria kantiana de uma intuição a priori do espaço, a condição comum da experiência tátil e visual, porque implícita na experiência sensorial como tal, não é concebida por Berkeley. Cf. Theory of Vision Vindicated, seção 15.
4 [187]No raciocínio seguinte contra a extensão abstrata, como distinta da concreta ou apresentada (visível ou tangível) ao sentido, Berkeley insiste em algumas de suas objeções favoritas às ‘ideias abstratas,’ completamente reveladas em seus Princípios, Introdução, seções 6-20. - Ver também Alciphron, VIII. 5-8.- Defence of Free thinking in Mathematics, seções 45-48.
5 Ideias para Berkeley são concretas ou particulares – dados imediatos do sentido ou imaginação.
6 Ou seja, não pode ser individualizada, quer como objeto percebido, quer como imaginado.
7 [188]Seção 105.
8 ‘Esforços,’ na primeira edição.
9 Ou seja, uma imagem mental de uma abstração, uma imagem impossível, na qual que a extensão e a compreensão da noção devem estar adequadamente retratadas.
10 ‘autor merecidamente admirado,’ na primeira edição.
11 ‘este celebrado autor’ - ‘esse grande homem,’ na segunda edição. Ao atacar a ‘ideia abstrata’ de Locke, ele liberta o sentido que Locke pretendia pelo termo e, em seguida, demole sua própria invenção.
12 Omitido na última edição pelo autor.
13 [189]Omitido na última edição.
14 Omitido na última edição.
15 Omitido na última edição.
16 Ver Princípios, passim.
17 Omitido na última edição pelo autor.
18 Ele provavelmente tem Locke em vista.
19 [190]Na teoria de Berkeley, o espaço sem relação a corpos (ou seja, espaço insensível ou abstrato) não seria extenso, enquanto não tendo partes; na medida em que partes somente podem ser atribuídas a ele com relação a corpos. Berkeley não distingue espaço da extensão sensível. Cf. Works, p. 126, nota, por Reid – na Sir W. Hamilton sugere que alguém pode ter uma concepção a priori de espaço puro, e também uma percepção a posteriori de finito espaço concreto.
20 Seção 121. Cf. New Theory of Vision Vindicated, seção 15.
21 Ou seja, não há Sensíveis Comuns: a partir do que se segue que nós só podemos raciocinar de um sentido para outro apenas nos baseando sobre a conexão constante de seus respectivos fenômenos sob uma lei natural, contudo (para nós) contingente. Cf. New Theory of Vision Vindicated, seções 27, 28.
22 Omitido na última edição.
23 [191]Cf. seções 63, 103, 106, 110.
24 Omitido na última edição.
25 Cf. seções 43, 103, etc. Uma pluralidade de coexistentes mínimos de pontos coloridos constitui a extensão visível para Berkeley; enquanto que uma pluralidade de sucessivamente experienciados minímos de pontos resistentes constitui a experiência tátil para ele. Se nós podemos perceber a extensão visível sem a experiência de movimento muscular, pelo menos no olho, ele não diz aqui.
26 Omitido na última edição.
27 Distância real pertence originariamente, de acordo com o Ensaio, apenas a nossa experiência tátil – na [192]acepção ampla, a qual inclui percepções musculares e locomotivas, assim como a simples percepção de contato.
28 Adicionado na segunda edição.
29 Omitido na última edição.
30 [193]Ver também a ‘Correspondência’ de Locke com Molyneux, em Works, vol. IX. p. 34, por Locke. Noveaux Essais, Liv. II. ch. 9, por Leibniz, quem, até agora admitindo o fato, disputa a heterogeneidade. - Optics.-Remarks, §§161-170, por Smith. - Reid, p. 137, nota e Lect. Metaph. II. p.176, por Hamilton.
31 [194]Omitido na última edição.
32 Cf. Theory of Vision Vindicated, seção 70.
33 Cf. seções 49, 146, etc. Aqui ‘mesma’ inclui ‘similar.’
34 [195]Ou seja, movimentos visíveis e tangíveis sendo absolutamente heterogêneos, e o primeiro, ao ponto de vista humano, apenas sinais contingentes do segundo, nós não deveríamos, à primeira vista, ser capazes de interpretar os sinais visuais do fenômeno tátil.
35 Cf. seções 122-125.
36 Cf. Princípios, seções 111-116; também, Analyst, questão 12. No sistema de Berkeley, o espaço em suas três dimensões é imperceptível sem a experiência de movimento.
37 [Nota do tradutor: Em inglês, quadrado é square e tem seis letras, dai a razão da argumentação de Berkeley nesta parte de seu texto.]
38 [196]Aqui o termo ‘linguagem da natureza’ faz seu aparecimento, como aplicável às ideias ou sinais visuais das realidades táteis.
39 [199]Cf. seções 16, 27, 97.
40 ‘tangível’ é usado aqui em seu sentido estreito – excluindo experiência muscular e locomotiva?
41 Ou seja, como sinais naturais, divinamente associados com seus significados dessa maneira implícitos.
42 Cf. New Theory of Vision Vindicated, seção 35.
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