quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Um Ensaio para Uma Nova Teoria da Visão [147-160] (FINAL)

Por George Berkeley


Parte anterior


[199]147. No geral, eu penso que nós podemos concluir1 justamente [200]que os objetos próprios da Visão constituem a Linguagem Universal da Natureza; através da qual nós somos instruídos sobre como regular as nossas ações, a fim de obtermos aquelas coisas que são necessárias para a preservação e bem-estar de nossos corpos, bem como evitarmos seja o que for que possa ser prejudicial e destrutivo para eles. É principalmente através da informação deles que nós somos guiados em todas as transações e preocupações da vida. E a maneira pela qual eles significam e classificam para nós os objetos que estão à distância é a mesma que aquela das linguagens e sinais de designação humana; a qual não sugere as coisas significadas por qualquer semelhança ou identidade de natureza, mas apenas através de uma conexão que a experiência fez-nos observar entre elas2.

148. Suponha alguém que sempre continuasse cego seja contado por seu guia que, após ter avançado tantos passos, ele deveria chegar à beira de um precipício, ou ser parado por uma parede; não deve isso parecer para ele muito admirável e surpreendente? Ele não pode conceber como é possível a mortais formarem tais proposições como essas, as quais, para ele, pareceriam tão estranhas e inexplicáveis quanto a profecia parece para outros. Mesmo aqueles que são abençoados com a faculdade visiva podem (embora a familiaridade torne isso menos observado) encontrar nesse lugar causa suficiente de admiração. A arte e invenção maravilhosas por meio das quais isso é ajustado àqueles fins e propósitos para os quais ele aparentemente foi [201]projetado; a diversa extensão, número e variedade de objetos que de uma vez, com tanta facilidade, rapidez e prazer são sugeridas por ele – todos esses proporcionam assunto para tanta especulação prazerosa e podem, se qualquer coisa, dar-nos alguma cintilante prenoção análoga de coisas que estão posicionadas além de certa descoberta e compreensão de nosso estado3 presente.

149. Eu não planejo preocupar-me muito com a dedução de corolários a partir da doutrina que eu até agora estabeleci. Se comporta o teste, outros podem, até onde eles devam considerar conveniente, empregar seus pensamentos para a estender mais e aplicá-la a quaisquer propósitos aos quais ela possa ser útil. Eu apenas não posso evitar de fazer alguma investigação concernente ao objeto da geometria, a um tema que nós temos sido naturalmente conduzidos. Nós revelamos que não há tal coisa como aquela de extensão em abstrato4; e que há dois tipos de extensão e figuras sensíveis, as quais são inteiramente heterogêneas e distintas uma da outra5. Agora, é natural investigar qual dessas é o objeto da geometria6.

150. Há algumas coisas que, à primeira vista, inclinam alguém a considerar a geometria relacionada à extensão visível. O uso constante dos olhos, tanto nas partes práticas quanto especulativas dessa ciência, muito nos induzem muito a isso. Sem dúvida, pareceria estranho a um matemático tentar convencê-lo de que os diagramas que ele vê sobre o papel não eram as figuras, ou até a semelhança das figuras, que formam o tema da demonstração – o contrário sendo sustentado uma verdade inquestionável, não apenas por matemáticos, mas também por aqueles que se aplicam particularmente ao estudo da lógica; eu quero dizer, quem considera a natureza da ciência, certeza e demonstração; sendo por eles especificado como uma [202]razão da clareza e evidência extraordinárias da geometria que, nessa ciência, os raciocínios são livres daquelas inconveniências que acompanham o uso dos sinais arbitrários, as ideias mesmas sendo copiadas e expostas à visão sobre o papel. Mas, a propósito, quão bem isso concorda com aquilo que eles igualmente afirmam das ideias abstratas sendo o objeto da demonstração geométrica, eu deixo para ser considerado.

151. Para chegar a uma resolução nesse ponto, nós apenas precisamos observar o que foi dito nas seções 59, 60, 61, onde é revelado que extensões visíveis em si mesmas são de pouca consideração e não têm grandeza determinada estabelecida, e que os homens medem de modo geral pela aplicação da extensão tangível à extensão tangível. Tudo isso torna evidente que a extensão e figuras visíveis não são o objeto da geometria.

152. Portanto, é evidente que figuras são do mesmo uso em geometria que as palavras são. E que umas pode ser tão bem contadas como o objeto daquela ciência como as outras; nenhuma delas estando de qualquer maneira interessadas nisso senão como elas representam ou sugerem à mente as particulares figuras tangíveis conectadas com elas. De fato, há esta diferença entre a significação das figuras tangíveis por figuras visíveis e das ideias por palavras – que, enquanto a última é variável e incerta, dependendo completamente da designação pelos homens, a primeira é fixa e imutavelmente a mesma em todos os tempos e lugares. Um quadrado visível, por exemplo, sugere à mente a mesma figura tangível na Europa que sugere na América. E é por isso, que a voz da natureza, a qual fala aos nossos olhos, não é responsável por aquela má interpretação e ambiguidade às quais as linguagens de invenção humana estão inevitavelmente sujeitas7. A partir disso, em alguma medida, podem ser derivadas aquela evidência e clareza peculiares das demonstrações geométricas.

153. Embora o que foi dito pode ser suficiente para revelar o que deve ser determinado com relação ao objeto da geometria, eu devo, mesmo assim, para uma ilustração mais completa disso, tomar em meus pensamentos o caso de uma inteligência ou espírito sem corpo, o qual se supõe ver perfeitamente [203]bem, ou seja, ter uma clara percepção dos objetos próprios e imediatos da vista, mas não ter o sentido do tato8. Quer haja ou não um semelhante ser na natureza, está além de meu propósito investigar; é suficiente que a proposição não contenha contradição nela. Agora, examinemos que proficiência um tal espírito é capaz de ter em geometria. Especulação que nos levará mais claramente a ver se as ideias da vista podem possivelmente ser o objeto dessa ciência.

154. Primeiro, então, é evidente que a inteligência supracitada não poderia ter ideia de um sólido ou quantidade de três dimensões, o que se segue dela não ter nenhuma ideia de distância. De fato, nós estamos inclinados a pensar que nós temos as ideias de espaço e sólido através da vista; o que surge de nós imaginarmos que, estritamente falando, vemos a distância, e algumas partes de um objeto a uma distância maior do que outras; o que foi demonstrado ser o efeito da experiência que nós tivemos de que as ideias de toque estão conectadas com tais e tais ideias acompanhando a visão. Mas supõe-se que a inteligência aqui mencionado não tem experiência do toque. Portanto, ela não julgaria como nós fazemos, nem teria nenhuma ideia de distância, exterioridade ou profundidade, nem, consequentemente, de espaço ou corpo, quer imediatamente, quer por sugestão. De onde é evidente que ela não pode ter noção daquelas partes da geometria que se relacionam à mensuração de sólidos, suas superfícies convexas ou côncavas e contemplar as propriedades de linhas geradas pela secção de um sólido. A concepção de qualquer parte do qual está além o alcance de suas faculdades.

155. Adicionalmente, ela não pode compreender a maneira pela qual os geômetras descrevem uma linha reta ou círculo; a régua e o compasso, com seus usos, sendo coisas das quais é impossível que ela deva ter qualquer noção. Nem é uma questão mais fácil para ela conceber a posição de um plano ou ângulo sobre outro, a fim de provar a igualdade dele; uma vez que isso supõe uma ideia de distância, ou espaço externo. [204]Tudo isso torna evidente que nossa inteligência pura nunca pode chegar a conhecer tanto quanto os primeiros elementos da geometria plana. E talvez, sobre uma investigação difícil, será descoberto que ela nem mesmo pode ter a ideia de figuras planas algo mais que de sólidos; uma vez que alguma ideia de distância é necessária para formar a ideia de um plano geométrico, como se afigurará para quem quer que deva refletir um pouco sobre isso.

156. Tudo que é propriamente percebido pela faculdade visiva equivale a não mais do que cores com as variações delas, e a diferentes proporções de luz e sombra – mas a mutabilidade e fugacidade perpétuas daqueles objetos imediatos da vista tornam-nos incapazes de ser manejados segundo a maneira das figuras geométricas; nem é isso útil em qualquer grau para o que eles deveriam [ser]. É verdadeiro que deve haver diversos deles percebidos de uma vez; e mais de alguns, e menos de outros: mas computar acuradamente a magnitude deles, e atribuir precisas proporções determinadas entre coisas tão variáveis e inconstantes, se nós supusermos isso possível de ser feito, todavia, dever ser um labor muito trivial e insignificante.

157. Eu preciso confessar, deve ser opinião de alguns homens muito engenhosos que figuras achatadas ou planas sejam os objetos imediatos da vista, ainda que eles reconheçam que os sólidos não são. E essa opinião deles está fundamentada no que é observado em pintura, na qual (dizem eles) as ideias imediatamente impressas na mente são apenas planos variadamente coloridos, os quais, através de um ato súbito de julgamento, são mudados em sólidos: mas, com um pouco de atenção, nós deveremos descobrir que os planos aqui mencionadas como os objetos imediatos da vista não são visíveis mas planos tangíveis. Pois, quando nós dizemos que pinturas são planas, nós queremos dizer com isso que elas parecem lisas e uniformes para o toque. Mas então, essa lisura e uniformidade, ou, em outras palavras, essa planicidade da pintura não é percebida imediatamente pela visão; pois ela aparece para o olho variada e multiforme.

158. A partir de tudo isso nós podemos concluir que planos não são os objetos imediatos das vista mais do que os sólidos. O que nós estritamente vemos não são sólidos, nem ainda planos variadamente coloridos – eles são apenas diversidade de cores. E algumas dessas sugerem à mente figuras sólidas e outras, planas; exatamente como elas têm sido experienciadas estar conectadas com uma ou outra: de maneira que nós vemos planos da mesma maneira que nós vemos sólidos – ambos sendo igualmente sugeridos pelos [205]objetos imediatos da vista, os quais, consequentemente, são eles mesmos denominados de planos e sólidos. Mas, embora eles sejam chamados pelos mesmos nomes que as coisas marcadas por eles, eles são, mesmo assim, de uma natureza inteiramente diferente, como tem sido demonstrado9.

159. O que foi dito é, se eu não me engano, suficiente para decidir a questão que nos propusemos a examinar, concernente à habilidade de um espírito puro, tal como nós descrevemos, conhecer geometria. De fato, não é questão fácil para nós entrar precisamente nos pensamentos de uma semelhante inteligência; porque nós não podemos, sem grandes esforços, inteligentemente separar e desemaranhar em nossos pensamentos os objetos próprios da vista daqueles do toque que estão conectados com eles. Isso, de fato, em um grau completo, parece escassamente possível de ser realizado; o que não parecerá estranho para nós, se considerarmos quão difícil é para qualquer um ouvir as palavras de sua própria linguagem nativa, a qual é familiar para ele, pronunciadas em seus ouvidos sem as entender. Embora ele esforce-se para desunir o significado do som, mesmo assim, ele se intrometerá em seus pensamentos, e ele deverá considerar extremamente difícil, se não impossível, colocar-se exatamente na condição de um estrangeiro que nunca aprendeu a linguagem, assim como a ser escassamente afetado pelos sons mesmos, e não perceber a significação anexada a eles.

160. Por esta hora, eu suponho, está claro que nem extensão abstrata, nem extensão visível constitue o objeto da geometria; o não discernimento do que, talvez, criou algum labor difícil e inútil na matemática. [10Eu estou certo de algo relacionado a isso ocorreu a meus pensamentos; o que, embora após o exame mais ansioso e repetido, eu sou forçado a considerar verdadeiro, todavia, parece tão distante da via comum da geometria, que eu não sei se pode ser considerada presunção se [206]eu devesse torná-lo público, e em uma época na qual essa ciência tem recebido semelhantes progressos poderosos por novos métodos; grande parte dos quais, assim como das antigas descobertas, talvez possa perder sua reputação, e muito daquele ardor com o qual os homens estudam a geometria de difícil compreensão e excelente pode ser abatido, se o que para mim, e para aqueles poucos a quem eu comuniquei-o, parece evidentemente verdadeiro, deva realmente se provar ser assim.]


ORIGINAL:

BERKELEY, G. An Essay towards a New Theory of Vision. First published in 1709. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.199-206. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/199/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [199]Berkeley, nesta seção, enuncia a principal conclusão do Ensaio, conclusão que de fato, forma sua nova teoria da Visão.

2 [200]Portanto, uma sugestão devida às leis naturais de associação. A explicação de que nós apreendemos, por meio daquelas ideias ou fenômenos que são os objetos das vista, certas outras ideias, que nem se assemelham a elas, nem eficientemente as causam, nem são causadas por elas, nem têm nenhuma conexão necessária com elas, compreende, de acordo com Berkeley, a inteira Teoria da Visão. ‘A imaginação de cada pessoa pensante,’ observa Adam Smith, ‘supri-la-á com instâncias para provar que as ideias recebidas por qualquer um dos sentidos prontamente excitam certas outras ideias, quer do mesmo sentido, quer de qualquer outro, enquanto têm habitualmente sido associadas com elas. De maneira que, se, nessa explicação, nós devemos supor, com um engenhoso escritor falecido, que as ideias da Vista constituem uma Linguagem Visual, porque elas prontamente sugerem as correspondentes ideias do toque – como os termos de uma linguagem excitam as ideias respondendo a eles – eu não vejo senão que nós podemos, pela mesma razão, admitir uma linguagem palpável (tangible), audível, gustatória e olfatória; embora, sem dúvida, a Linguagem Visual será abundantemente muito mais copiosa do que o resto.’ Optics. - Remarks, p. 29, por Smith. E nessa concepção de um simbolismo sensível universal, a teoria de Berkeley da Visão, em última análise, surge.

3 [201]Cf. Alciphron, Dialogue IV. Seções 11-15.

4 Seções 122-125.

5 Seções 127-138.

6 Alguns metafísicos modernos diriam que nem a extensão tangível, nem a visível é o objeto da geometria, mas a extensão abstrata; e outros que o espaço está necessariamente implícito na experiência sensorial, em vez de, per se, um objeto de qualquer sentido único. Cf. a explicação de Kant da origem de nosso conhecimento matemático, Kritik der reinen Vernunft. Elementarlehre, I.

7 [202]Cf. seções 51-66, 144.

8 [203]Isso é uma conjectura, não quanto às ideias prováveis de alguém nascido cego, mas quanto às ideias de uma inteligência ‘sem corpo (unbodied),’ cujo único sentido devia ser esse da visão. Ver a especulação de Reid (Inquiry, VI. 9) sobre a ‘Geometria de Visíveis,’ e a experiência mental dos Idomenianos, ou seres imaginários que se supõem não ter ideias do mundo material, exceto aquelas que eles recebem através da visão.

9 [205]Cf. seção 130, e New Theory of Vision Vindicated, seção 57. Berkeley, nesta e nas duas seções precedentes, pretende sugerir que o único objeto próprio da vista é cor inextensa; e que, aparte de nosso movimento muscular no olho ou outra locomoção, os visíveis resolvem-se em pontos matemáticos inextensos? Essa questão não escapou a psicólogos britânicos mais recentes, incluindo Stewart, Brown e Bain, quem parecem sustentar que cor inextensa e percebível e imaginável.

10 A sentença entre colchetes não é mantida na última edição pelo autor, na qual a primeira sentença da seção é a sentença conclusiva da seção 159, e do Ensaio.

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