Por George Berkeley
[313]101. As duas grandes províncias da ciência especulativa, proficientes com ideias recebidas do sentido e suas relações, são a Filosofia Natural e a Matemática. Com respeito a cada uma dessas, eu deverei fazer algumas observações.
E primeiro eu deverei falar algo sobre a Filosofia Natural. Sobre esse assunto é que os céticos triunfam. Todo aquele estoque de argumentos que eles produzem para depreciar nossas faculdades, e fazerem o gênero humano parecer ignorante e baixo, são extraídos principalmente dessa categoria, a saber, que nós estamos sob uma cegueira invencível quanto à natureza verdadeira e real das coisas. Isso eles exageram e amam aumentar. Nós somos miseravelmente ridicularizados por nossos sentidos, eles dizem, e entretidos apenas com o exterior e aparência das coisas. A essência [314]real, as qualidades internas e a constituição de cada um dos mais insignificantes objetos, está oculta de nossa visão: há algo em cada gota de água, em cada grão de areia, que está além do poder do entendimento humano de penetrar ou compreender1. Mas, é evidente a partir do que tem sido demonstrado, que toda essa queixa é sem fundamento, e que nós somos influenciados por falsos princípios a esse grau de desconfiar de nossos sentidos, e pensar que nós não conhecemos nada das coias que nós compreendemos perfeitamente.
102. Um grande incentivo para nossa declaração de nós mesmos [como] ignorantes da natureza das coisas é a opinião corrente de que cada coisa inclui dentro de si mesma a causa de suas propriedades: ou que há em cada objeto uma essência interior, a qual é a fonte de onde suas qualidades discerníveis fluem e da qual elas dependem. Alguns têm pretendido explicar as aparências por qualidades ocultas; mas ultimamente elas são principalmente resolvidas em causas mecânicas, a saber, a figura, o movimento, o peso e qualidades semelhantes de partículas2 insensíveis: ao passo que, em verdade, não há outro agente ou causa eficiente senão o espírito, sendo evidente que o movimento, assim como todas as outras ideias, são perfeitamente inertes. Ver seção 25. Consequentemente, tentar explicar a produção de cores ou sons por figura, movimento, magnitude e semelhantes, precisa ser um labor em vão. E, consequentemente, nós vemos que as tentativas desse tipo não são satisfatórias de maneira alguma. O que pode ser dito, em geral, das instâncias nas quais uma ideia ou qualidade é atribuída como causa de outras. Eu não preciso dizer quantas hipóteses e especulações são ignoradas, e quanto do estudo da natureza é abreviado, por essa doutrina3.
103. O grande princípio mecânico agora em voga é o da atração. Que uma pedra caia na terra, ou o mar dilate-se para a lua, para alguns pode parecer suficientemente explicado desse modo. Mas, quão iluminados nós ficamos ao ser-nos explicado que isso é ocorre pela atração? É que essa palavra significa a conduta da tendência, e que é pela [315]mútua atração dos corpos em vez de eles serem impelidos ou projetados um na direção do outro? Mas nada é determinado da conduta ou ação, e pode tão verdadeiramente (por tudo que sabemos) ser denominado de impulso, ou protusão, quanto atração. Novamente, as partes do aço nós vemos aderirem firmemente juntas, isso também é explicado pela atração; mas, nessa como em outras instâncias, eu não percebo que qualquer coisa é significada além do efeito mesmo; pois, quanto à conduta da ação pela qual ele é produzido, ou a causa que o produz, essas não são tão visadas.
104. De fato, se dermos uma olhada em vários fenômenos, e comparamo-os juntos, nós podemos observar alguma semelhança e conformidade entre eles. Por exemplo, na queda de uma pedra no chão, na elevação do mar em direção à lua, na coesão e cristalização, há alguma coisa semelhante; a saber, uma união ou aproximação mútua de corpos. De maneira que qualquer um desses fenômenos ou semelhantes pode não parecer estranho ou surpreendente para um homem que observou satisfatoriamente e comparou os efeitos da natureza. Pois isso apenas é que é considerado tão incomum, ou uma coisa por si mesma, e fora do curso ordinário de nossa observação. Que os corpos devam tender para o centro da terra não é considerado estranho, porque é o que nós percebemos a cada momento de nossas vidas. Mas, que eles devam ter uma gravitação semelhante na direção do centro da lua, parece estranho e inexplicável para a maioria dos homens, porque é apenas discernido nas marés. Mas um filósofo, os pensamentos de quem possuem um escopo mais abrangente da natureza, tendo observado uma certa semelhança de aparências, tanto nos céus quanto na terra; esse argumenta que inumeráveis corpos têm uma tendência natural um na direção do outro, a qual ele denota pelo nome geral de atração e, o que quer que seja que possa ser reduzido a isso, ele considera justamente explicado. Dessa maneira ele explica as marés pela atração do globo terráqueo na direção da lua, a qual não parece nem estranha nem anômala para ele, mas somente um exemplo particular de uma regra geral ou lei da natureza.
105. Portanto, se nós considerarmos a diferença que há entre os filósofos naturais e outros homens, com respeito ao conhecimento deles dos fenômenos, nós devemos descobrir que ela consiste, não em um conhecimento mais exato da causa eficiente que os produz – pois essa não pode ser outra que a vontade [316]de um espírito – mas apenas em uma grandeza maior de compreensão, pela qual analogias, harmonias e concordâncias são descobertas nas obras da natureza, e os efeitos particulares explicados, quer dizer, reduzidos a regras gerais, ver seção 62: regras as quais, fundamentadas na analogia e uniformidade observadas na produção de efeitos naturais, são mais agradáveis e buscadas pela mente; porque elas estendem nossa perspectiva além do que está presente e próximos a nós e capacitam-nos a fazer conjecturas muito prováveis envolvendo coisas que podem ter acontecido a distâncias muito grandes de tempo e lugar, assim como a predizer coisas por vir: tipo de empreendimento na direção da Onisciência pelo qual a mente é muito afetada.
106. Mas nós devemos proceder muito cuidadosamente em semelhantes coisas: pois nós estamos inclinados a colocar uma grande ênfase em analogias e, em prejuízo da verdade, ceder àquela ansiedade da mente, pela qual ela é levada a estender seu conhecimento a teoremas gerais. Por exemplo, gravitação ou atração mútua, porque ela aparece em muitas instâncias, alguns imediatamente a pronunciam universal; e que atrair e ser atraído por todo outro corpo é uma qualidade essencial inerente a todos os corpos, sejam quais forem. Considerando que as estrelas fixas não têm semelhantes tendências umas em relação às outras; e tão longe é que a gravitação está de ser essencial a corpos que, em algumas instâncias, um princípio bastante contrário parece se revelar; como no crescimento perpendicular das plantas e na elasticidade do ar. Não há nada necessário ou essencial no caso4; mas isso depende inteiramente da vontade do Espírito Governante5, quem causa certos corpos a unirem-se ou tenderem uns na direção dos outros de acordo com várias leis, ao passo que Ele mantém outros a uma distância fixa; e a alguns ele dá uma tendência contrária para se precipitarem separadamente, exatamente como ele considera conveniente.
107. Segundo o que tem sido pressuposto, eu penso que nós podemos estabelecer as seguintes conclusões. Primeiro, é evidente que filósofos [317]se entretém em vão, quando eles perguntam por qualquer causa natural eficiente, distinta de uma mente ou espírito. Segundo, considerando que toda a criação é o trabalho (workmanship) de um Agente sábio e bom, isso deveria parecer tornar os filósofos a empregarem seus pensamentos (contrariamente ao que alguns sustentam6) sobre as causas finais das coisas. [7Pois, além de que isso se provaria um entretenimento muito agradável para a mente, isso poderia ser de grande vantagem, no que não apenas nos descobre os atributos do Criador, mas também nos dirige, em várias instâncias, aos usos e aplicações apropriados das coisas.] E eu devo confessar que não vejo razão de porque apontar os vários fins aos quais as coisas naturais estão adaptadas, e para as quais elas foram inventadas com sabedoria indescritível, não deveria ser considerado uma boa maneira de as explicar, e completamente digna de um filósofo. Terceiro, a partir do que tem sido pressuposto, nenhuma razão pode ser extraída de porque a história da natureza não deveria ser estudada, e observações e experiências feitas; o que, para que elas sejam de uso para o gênero humano, e capacitem-nos a extrair quaisquer conclusões gerais, não é o resultado de quaisquer hábitos imutáveis ou relações entre as coisas mesmas, mas apenas da bondade e benevolência de Deus para os homens na administração do mundo. Ver seções 30 e 31. Quarto, através de uma observação diligente dos fenômenos dentro de nossa visão, nós podemos descobrir as leis gerais da natureza e, a partir delas, deduzir outros fenômenos. Eu não digo demonstrar; pois todas as demonstrações desse tipo dependem de uma suposição de que o Autor da Natureza sempre opera uniformemente, e em uma constante observância daquelas regras que nós tomamos por princípios, o que nós não podemos evidentemente conhecer8.
108. [9Parece, a partir da seção 66, etc, que os firmes métodos consistentes da natureza não podem ser inadequadamente arranjados [como] a Linguagem de seu Autor, por meio da qual ele revela Seus atributos para nossa visão e dirige-nos a como agir para a conveniência e felicidade da vida. Aqueles homens que formam10 regras gerais a partir de fenômenos e depois derivam11 [318]os fenômenos a partir dessas regras, parecem considerar sinais12 em vez de causas. 13Um homem pode entender bem os sinais naturais sem conhecer sua analogia, ou ser capaz de dizer por qual regra uma coisa é assim ou assim. E, como é muito possível escrever impropriamente, embora uma observância muito estrita das regras gerais da gramática; assim, ao argumentar a partir das leis gerais da natureza, é possível que nós possamos estender14 a analogia longe demais e, por esse meio, incorrermos em erros.]
109. [15Para continuar com a analogia (resemblance).] Como na leitura de outros livros um homem sábio escolherá fixar seus pensamentos no sentido e aplicá-lo ao uso, em vez de os estabelecer em observações gramaticais sobre a linguagem; assim, ao ler o volume da natureza, parece-me que está abaixo da dignidade da mente simular uma exatidão na redução de cada fenômeno particular a regras gerais, ou revelar como ele se segue a partir delas. Nós devemos propor a nós mesmos visões mais nobres, tal como recriar e exaltar a mente com a perspectiva da beleza, ordem, extensão e variedade das coisas naturais; consequentemente, por inferências apropriadas, alargar nossas noções da grandeza, sabedoria e beneficência do Criador: e, por último, tornar as várias partes da criação, até onde em nós encontra-se, subservientes aos fins que foram projetados para a glória de Deus, e o sustento e conforto de nós mesmos e de nossas criaturas companheiras.
110. [16A melhor chave para a analogia supracitada, ou Ciência natural, será facilmente reconhecida ser um certo celebrado Tratado de Mechanics.] Na entrada desse [319]justamente admirado tratado, Tempo, Espaço e Movimento são distinguidos em absolutos e relativos, verdadeiros e aparentes, matemáticos e vulgares: distinção a qual, como é no geral explicado pelo autor, supõe que aquelas quantidades tenham uma existência fora da mente: e que elas sejam ordinariamente concebidas com relação a coisas sensíveis, com as quais, no entanto, por sua própria natureza, elas não comportam absolutamente nenhuma relação.
111. Quanto ao Tempo, como ele é aqui tomado em um sentido absoluto ou abstraído, pela duração ou perseverança da existência das coisas, eu nada mais tenho a adicionar relativo a ele após o que já foi dito sobre o assunto. Seções 97 e 98. Quanto ao resto, esse autor celebrado sustenta que há um Espaço absoluto, o qual, sendo não perceptível pelo sentido, permanece em si mesmo semelhante e imóvel; e o espaço relativo é a medida disso, o qual, sendo móvel e definido por sua posição com respeito aos corpos sensíveis, é vulgarmente tomado pelo espaço imóvel. O Lugar é definido ser aquela parte do espaço que é ocupado por qualquer corpo: e, conforme o espaço seja absoluto ou relativo, assim também é o lugar. O Movimento Absoluto é dito ser a translação de um corpo de espaço absoluto para espaço absoluto, como o movimento relativo é de um lugar relativo para outro. E porque as partes do espaço absoluto não caem sob nossos sentidos, em vez delas nós somos obrigados a usar as medidas sensíveis delas; e assim a definir tanto o lugar quanto o movimento com respeito aos corpos que nós consideramos como imóveis. Mas é dito, em questões filosóficas nós devemos abstrairmo-nos de nossos sentidos; uma vez que pode ser que nenhum daqueles corpos que parecem estar em repouso verdadeiramente estão; e a mesma coisa que é relativamente movida pode realmente estar em repouso. Da mesma forma, um e o mesmo corpo pode estar em repouso ou movimento relativos, ou mesmo movido com movimentos relativos contrários ao mesmo tempo, conforme sua posição seja variadamente definida. Toda essa ambiguidade deve ser encontrada nos movimentos aparentes; mas de maneira nenhuma no verdadeiro ou absoluto, o qual apenas, portanto, deveria ser considerado em filosofia. E conta-se a nós que o verdadeiro deve ser distinguído do movimento aparente ou relativo pelas seguintes propriedades. Primeiro, no movimento verdadeiro ou absoluto, todas as partes que preservam a mesma posição com respeito ao todo participam nos movimentos do todo. Segundo, o lugar sendo movido, aquilo [320]que é localizado nele também é movido: de modo que um corpo movente em um lugar que está em movimento participa do movimento do seu lugar. Terceiro, o movimento verdadeiro nunca é gerado ou modificado de outra maneira que não pela força impressa no corpo mesmo. Quarto, o movimento verdadeiro é sempre modificado pela força impressa no corpo movido. Quinto, no movimento circular, escassamente relativo, não há força centrífuga, a qual, no entanto, naquilo que é verdadeira ou absoluta, é proporcional à quantidade de movimento.
112. Mas, a despeito do que tem sido dito, eu devo confessar que não me parece que deva haver qualquer outro movimento senão o relativo17: de modo que, para conceber o movimento, devem ser concebidos pelo menos dois corpos; dos quais a distância ou posição com respeito a cada um é variada. Consequentemente, se houvesse apenas um corpo no ser, ele não poderia possivelmente ser movido. Isso parece evidente, no que a ideia de movimento necessariamente inclui relação. - [18Se outros podem conceber isso de outra maneira, um pouco de atenção pode satisfazê-los.]
113. Mas, embora em cada movimento seja necessário conceber mais corpos do que um, contudo, pode ser que apenas um seja movido, a saber, aquele sobre o qual a força causando a mudança na distância ou posição dos corpos é impressa. Pois, de qualquer maneira que alguém possa definir o movimento relativo, assim como a denominar aquele corpo movido que muda sua distância a partir de algum outro corpo, quer a força [19ou ação] causando aquela mudança fosse impressa nele ou não, todavia, como o movimento relativo é aquele que é percebido pelo sentido e é considerado nas questões ordinárias da vida, segue-se que cada homem de senso comum conhece-o tão bem quanto o melhor filósofo. Agora, eu pergunto a qualquer um se, em seu sentido de movimento, conforme ele anda ao longo das ruas, as pedras pelas quais ele passa podem ser ditas moverem-se, porque elas mudam a distância com relação aos pés dele? Para mim parece que, embora o movimento inclua a relação de uma coisa com outra, contudo, não é necessário que cada termo da relação seja denominado a partir dele. Como um homem pode pensar em alguma coisa que ele não [321]pensa, assim um corpo pode ser movido para ou a partir de outro corpo que não está portanto em movimento, [20eu quero dizer movimento relativo, pois outro eu não sou capaz de conceber.]
114. Como o lugar acontece de ser variadamente definido, assim o movimento que é relacionado a ele varia21. Um homem em um navio pode ser dito estar em repouso com relação aos lados do navio e, contudo, mover-se com relação à terra. Ou ele pode mover-se para o leste com respeito a um, e para o oeste com respeito ao outro. Nas questões comuns da vida, os homens nunca vão além da Terra para definir o lugar de qualquer corpo; e o que está em repouso com respeito a isso é considerado estar absolutamente assim. Mas os filósofos, quem têm uma maior extensão de pensamento e noções mais justas do sistema das coisas, descobrem que até a Terra é movida. Portanto, para fixar suas noções, eles parecem conceber o Mundo Corporal como finito, e as mais extremas muralhas ou casca imoveis do mesmo ser o lugar por meio do qual eles estimam os movimentos verdadeiros. Se nós investigarmos nossas próprias concepções, eu acredito que nós podemos descobrir que todo o movimento absoluto do qual nós podemos formar uma ideia está na base de nenhum outro que o movimento relativo assim definido. Pois, como já foi observado, o movimento absoluto, exclusivo de toda relação externa, é incompreensível; e com esse tipo de movimento relativo, todas as propriedades, causas e efeitos acima mencionados e atribuídos ao movimento absoluto, se eu não me engano, serão descobertas concordar. Quanto ao que é dito da força centrífuga, que ela não pertence de maneira nenhuma ao movimento circular relativo, eu não vejo como isso se segue a partir do experimento que é produzido para o provar. Ver Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, em Schol. Def. VIII, por Newton. Pois a água no vaso, no momento no qual é dita ter o maior movimento circular relativo, eu penso, não tem absolutamente nenhum movimento: como é evidente a partir da seção acima mencionada.
115. Pois, para denominar um corpo de movido, é requisito, primeiro, que ele mude sua distância ou posição com respeito a algum outro corpo: e segundo, que a força ocasionando essa mudança seja aplicada a22 ele. Se qualquer um desses estiver faltando, eu não penso que, consistentemente com o sentido do gênero humano ou com propriedade da linguagem, um corpo [322]pode ser dito estar em movimento. De fato, eu concedo que é possível para nós pensarmos um corpo, o qual nós vemos mudar sua distância de algum outro, ser movido, embora ele não tenha força aplicada a23 ele (sentido no qual pode haver movimento aparente); mas então, é porque a força causando a mudança24 de distância é imaginada por nós ser [25aplicada a ou] impressa sobre esse corpo pensado se mover. O que de fato revela que nós somos capazes de nos enganarmos de que uma coisa está em movimento que não existe, e isso é tudo. [26Mas isso não prova que, na acepção comum do movimento, um corpo seja movido meramente porque ele muda de uma distância para outra; uma vez que, tão logo nós sejamos esclarecidos e descubramos que a força movente não foi comunicada a ele, nós não mais o sustentamos estar movido. Assim, por outro lado, quando apenas um corpo (as partes do qual preservam uma dada posição entre si mesmas) é imaginado existir, alguns existem que pensam que ele pode ser movido de todas as condutas de direções, embora sem qualquer mudança de distância ou posição para quaisquer outros corpos; o que nós não deveríamos negar, se eles apenas quisessem dizer que ele poderia ter uma força impressa, a qual, a partir da simples criação de outros corpos, produziria um movimento de alguma quantidade e determinação certas. Mas, que um movimento efetivo (distinto da força, ou do poder, impressa, produtivo de mudança de lugar no caso em que existissem corpos presentes por meio dos quais o definir) possa existir em um semelhante corpo único, eu preciso confessar que eu não sou capaz de compreender.]
116. A partir do que foi dito, segue-se que a consideração filosófica do movimento não implica o ser de um espaço absoluto, distinto daquele que é percebido pelo sentido, e relacionado a corpos: que ele não pode existir fora da mente está claro a partir dos mesmos princípios que demonstram o semelhante de todos os outros objetos do sentido. E talvez, se nós investigarmos rigorosamente, nós devemos descobrir que não podemos formar uma ideia de um Espaço puro exclusivo de todo corpo. Isso, eu preciso confessar, parece impossível27, como [323]sendo uma ideia mais abstrata. Quando eu excito uma noção em alguma parte de meu corpo, se ela for livre ou sem restrição, eu digo que há Espaço. Mas, se eu encontro uma resistência, então eu digo que há Corpo: e, em proporção a conforme a resistência seja menor ou maior, eu digo que o espaço é mais ou menos puro. Assim, quando eu falo de espaço puro ou vazio, não se deve supor que a palavra espaço represente uma ideia distinta de, ou concebível sem, corpo e movimento. Embora, de fato nós estejamos inclinados a pensar que todo nome substantivo represente uma ideia distinta que pode ser separada de todas as outras; o que ocasionou erros infinitos. Portanto, quando supondo que todo o mundo além do meu próprio corpo deva ser aniquilado, eu digo que ainda resta o Espaço puro; por isso nada mais é significado senão apenas que eu concebo possível para os membros de meu corpo serem movidos para todos os lados sem a menor resistência: mas, isso também isso fosse aniquilado, então, não poderia haver movimento e, consequentemente, nenhum Espaço28. Talvez, alguns possam pensar que o sentido da visão fornece-nos a ideia do espaço puro; mas é evidente a partir que foi revelado em outra parte, que as ideias de espaço e distância não são obtidas por aquele sentido. Ver o Ensaio relativo à Visão.
117. O que é estabelecido aqui parece colocar um fim a todas aquelas disputas e dificuldades concernentes à natureza do Espaço puro que brotaram em meio aos instruídos. Mas a principal vantagem surgindo a partir disso é que nós estamos livres daquele perigoso dilema, ao qual os vários que empregaram seus pensamentos sobre esse assunto imaginaram a si mesmos reduzidos, a saber, o pensamento de que, ou o Espaço Real é Deus, ou se senão, que há alguma coisa além de Deus que seja eterna, incriada, infinita, indivisível, imutável. Ambas as quais podem ser justamente consideradas noções perniciosas e absurdas. É certo que não poucos teólogos, assim como filósofos de grande nota, têm, a partir da dificuldade que eles encontraram quer em conceber os limites quer a aniquilação o espaço, concluíram que ele deva ser divino. E alguns recentemente se determinaram a revelar que os atributos incomunicáveis de Deus concordam com isso. Doutrina a qual, por mais indigna que ela possa parecer da Natureza Divina, contudo, [324]eu devo confessar, eu não vejo como possa elucidá-la, enquanto nós aderirmos às opiniões29 recebidas.
ORIGINAL:
BERKELEY, G. A Treatise concerning the Principles of Human Knowledge [Part I]. First published in 1710. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.313-324. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/313/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1 [314]Cf. Introdução, seções 1-2. Para Berkeley, a essência real das coisas sensíveis é dada na percepção – tão longe quanto nossas percepções carregam-nos.
2 Por exemplo, Essay, Bk. IV. ch. 3, por Locke.
3 Berkeley defende um realismo que elimina a efetiva causação do mundo material, concentra-a na mente e, na pesquisa física, tenta encontrar, em meio aos dados do sentido, suas leis naturais divinamente mantidas.
4 [316]Na interpretação dos dados do sentido, nós somos obrigados a presumir que cada novo fenômeno deve ter existido previamente em alguma forma equivalente – mas não necessariamente nesta ou naquela fora particular, por um conhecimento do qual nós estamos em dívida com comparações indutivas da experiência.
5 As formas anteriores de novos fenômenos, sendo afinal determinadas pela Vontade, são, nesse sentido, arbitrárias; mas não inconsistentes, pois a Vontade é Razão perfeita. Deus é a causa imanente da ordem natural.
6 [317]Ele provavelmente se refere a Bacon.
7 Omitido na segunda edição.
8 O que nós somos capazes de conhecer na ordem abrangente pode ser apenas subordinado e provisório. A natureza em seu mais profundo significado se explica na Onisciência Divina.
9 Omitido na segunda edição.
10 Ou seja, indutivamente.
11 Ou seja, dedutivamente.
12 [318]‘parecem considerar sinais,’ ou seja, ser gramáticos antes que filósofos: as ciências físicas lidam com a gramática da linguagem divina da natureza.
13 ‘Um homem bem pode ler na linguagem da natureza sem o entendimento da gramática dela, ou ser capaz de dizer,’ etc. - na primeira edição.
14 ‘estender (extend)’ – ‘esticar (stretch)’ – na primeira edição.
15 Omitido na segunda edição.
16 Na primeira edição, a seção começa desta maneira: ‘A melhor gramática do tipo que nós estamos falando será facilmente reconhecida ser um tratado de Mechanics, demonstrado e aplicado à Natureza, por um filósofo de uma nação vizinha, a quem todo o mundo admira. Eu não deverei assumir a responsabilidade de fazer observações sobre o desempenho dessa pessoa extraordinária: apenas algumas coisas que ele propôs tão diretamente opostas à doutrina que nós até agora estabelecemos, a fim de que nós devamos ficar desprovidos da consideração devida a um homem tão grande se nós não tomássemos algum conhecimento dele.’ É claro, ele refere-se a Newton. A primeira edição dos Princípios de Berkeley foi publicada na Irlanda – por isso, ‘nação vizinha.’ Os Principia, de Newton, apareceram em 1687.
17 [320]‘Movimento,’ em vários aspectos, é tratado especialmente no De Motu. Uma imaginação de espaço tripartite pressupõe experiência locomotiva – desimpedida, em contraste com locomoção impedida. Cf. seção 116.
18 Omitido na segunda edição.
19 Adicionado na segunda edição.
20 [321]Omitido na segunda edição.
21 Ver Essay, Bk. II. ch. 13, §§ 7-10, por Locke.
22 ‘aplicada a (applied to)’ – ‘impressa em (impressed on)’ – na primeira edição.
23 [322]‘aplicada a (applied to)’ – ‘impressa em (impressed on)’ – na primeira edição.
24 ‘a força causando a mudança’ – força que, de acordo com Berkeley, somente pode ser atribuída metaforicamente ao assim chamado de corpo impulsor; visto que os corpos, ou os dados dos sentidos, apenas podem ser sinais de seus eventos consequentes, não causas eficientes de mudança.
25 Adicionado na segunda edição.
26 O que se segue até o final desta seção está omitido na segunda edição.
27 ‘parece impossível’ – ‘está acima da minha capacidade’ – na primeira edição.
28 [323]Em resumo, o Espaço vazio é a ideia sensível de movimento não resistido. Isso está implícito na Nova Teoria da Visão. Ele minimiza o Espaço, tratando-o como um dado do sentido.
29 [324]Ele provavelmente se refere a Demonstration of the Being and Attributes of God, o qual apareceu em 1706, e a um tratado, De Spatio Reali, publicado no mesmo ano, ambos por Samuel Clarke.
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