sábado, 8 de junho de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S2C3 Das Paixões Antissociais

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção II Dos Graus das Paixões Diferentes que são Consistentes com Propriedade


Capítulo anterior


[50]Capítulo III Das Paixões Antissociais


Há outro conjunto de paixões, as quais, embora derivadas a partir da imaginação, contudo, antes que nós possamos entrar nelas, ou considerá-las como graciosas ou apropriadas, sempre têm de ser rebaixadas a um tom muito mais baixo do que aquele ao qual a natureza indisciplinada erguê-las-ias. Essas são ódio e ressentimento, com todos as suas diferentes modificações. Com respeito a todas essas paixões, a nossa simpatia está dividida entre a pessoa que as sente, e a pessoa que é o objeto delas. Os interesses dessas duas são diretamente opostos. O que a nossa simpatia com a pessoa que as sente nos incitaria a desejar, a nossa simpatia com a outra nos levaria a temer. Visto que ambos são homens, nós ficamos interessados em ambos, e o nosso medo pelo que um pode sofrer, abafa o nosso ressentimento pelo que o outro sofreu. Portanto, a nossa simpatia com o homem que recebeu a provocação necessariamente falha com a paixão que naturalmente o anima, não apenas em consideração daquelas causas gerais que tornam todas as paixões simpáticas inferiores às originais, mas por conta daquela causa particular que é peculiar a ela mesma, a nossa simpatia com outra pessoa. Portanto, antes que o ressentimento possa tornar-se gracioso e agradável, ele tem de ser [51]mais humilhado e rebaixado que o tom ao qual ele naturalmente se elevaria, do que quase qualquer outra paixão.

O gênero humano, ao mesmo tempo, tem um senso muito forte das injúrias que são feitas a outro. O vilão, em uma tragédia ou um romance, é tanto o objeto da nossa indignação quanto o herói é aquele da nossa simpatia e afeição. Nós detestamos Iago tanto quando nós estimamos Otelo; e deliciamo-nos tanto na punição de um quanto ficamos entristecidos diante do sofrimento do outro. Mas embora a humanidade tenha uma simpatia tão forte com as injúrias que são realizadas com seus irmãos, ela nem sempre as lamenta quanto mais o sofredor parece lamentá-las. Na maioria das situações, quanto maior a paciência dela, sua suavidade, sua humanidade, na condição de que não pareça que falte espírito, ou que medo foi o motivo da sua paciência, mais alto o ressentimento contra a pessoa que a injuriou. A amabilidade do caráter exaspera a sua sensação da atrocidade da injúria.

Contudo, essas paixões são consideradas como partes necessárias do caráter da natureza humana. Uma pessoa que mansamente se senta parada e submete-se a insultos, sem tentar ou repelir ou vingá-los torna-se detestável. Nós não conseguimos entrar na sua indiferença e insensibilidade: nós chamamos esse comportamento de mesquinharia (mean-spiritedness) e somos tão realmente provocados por ele quanto pela insolência do seu adversário. Mesmo a multidão fica enfurecida ao ver qualquer homem se submeter pacientemente a afrontas e mau uso. Eles desejam ver essa insolência lamentada, e [52]lamentada pela pessoa quem sofre a partir dela. Se a indignação dela finalmente surge, eles aplaudem de coração e simpatizam com ela. Isso anima a própria indignação deles contra o inimigo dela, quem eles se alegram de o ver atacar, por sua vez, e ficam como realmente gratificados pela vingança dela, com a condição de que ela não imoderada, como se a injúria tivesse sido realizada para eles mesmos.

Mas embora a utilidade dessas paixões para o indivíduo, tornando perigoso insultá-lo ou injuriá-lo, seja reconhecida; e embora a utilidade pública delas, como guardiães da justiça e da igualdade da sua administração, não seja menos considerável, como deverá ser revelado posteriormente; contudo, ainda há alguma coisa desagradável nessas paixões mesmas, o que torna o aparecimento delas em outros homens o objeto natural da nossa aversão. A expressão de raiva com relação a qualquer um presente, se ela excede a simples intimidação de modo que nós ficamos cientes do mau uso por ele, é considerada não apenas um insulto aquela pessoa particular, mas como um rudeza com a companhia toda. Respeito por eles deveria ter nos restringido de dar vazão a uma emoção tão barulhenta e ofensiva. São os efeitos distantes dessas paixões que são agradáveis; os efeitos imediatos são injúria para a pessoa contra qual eles são dirigidos. Mas são os efeitos imediatos, e não os distantes, dos objetos que os tornam agradáveis ou desagradáveis para a imaginação. Uma prisão certamente é mais útil para o público do que um palácio; e uma pessoa que funda um é [53]geralmente dirigida por um espírito muito mais justo de patriotismo do que quem constrói o outro. Mas os efeitos imediatos de uma prisão, o confinamento dos miseráveis encerrados nela, são desagradáveis; e a imaginação ou não toma tempo para traçar os distantes, ou vê-los a uma distância grande demais para ser muito afetada por eles. Portanto, uma prisão sempre será um objeto desagradável; e quão mais adequada ela for para o propósito para o qual ela foi intencionada, mas ela será assim. Pelo contrário, um palácio sempre será agradável; por mais que seus efeitos distantes frequentemente sejam inconvenientes para o público. Ele pode servir para promover a luxuria e estabelecer o exemplo da dissolução dos costumes. Contudo, os seus efeitos imediatos, a conveniência, o prazer, e a alegria do povo que vive nele, sendo todos agradáveis, e sugerindo para a imaginação mil ideias agradáveis, essa faculdade geralmente depende deles, e raramente vai além ao traçar suas consequências mais distantes. Troféus dos instrumentos de música ou de agricultura, imitados em pintura ou em reboco, formam um ornamento comum e agradável dos nossos salões e salas de jantar. Um troféu do mesmo tipo, composto pelos instrumentos de cirurgia, de dissecação e facas de amputação, de serras para cortar os ossos, de instrumentos de trepanação, etc, seria absurdo e chocante. Contudo, instrumentos de cirurgia são sempre mais finamente polidos e geralmente mais finamente adaptados para os propósitos para os quais eles são projetados do que os instrumentos de agricultura. Também os efeitos distantes deles, [54]a saúde do paciente, são agradáveis; contudo, visto que o efeito imediato deles é dor e sofrimento, a visão deles sempre nos desagrada. Instrumentos de guerra são agradáveis, embora o efeito imediato deles possa parecer ser da mesma maneira dor e sofrimento. Mas então são a dor e o sofrimento dos nossos inimigos, com quem nós não temos simpatia. Com respeito a nós, eles estão imediatamente conectados com as ideias agradáveis de coragem, vitória e honra. Portanto, supõem-se que ele formem uma das partes mais nobres da vestimentas, e a imitação deles é um dos mais finos ornamentos da arquitetura. É o mesmo caso com as qualidades da mente. Os antigos estoicos foram da opinião de que, como o mundo era governado por uma providência onigovernante de um Deus sábio, poderoso e bom, cada evento único deveria ser considerado como formando uma parte necessária do plano do universo, e como tendendo a promover a ordem e felicidade gerais do todo: portanto, que os vícios e as loucuras do gênero humano, formavam uma parte tão necessária desse plano quanto a sabedoria e a virtude deles; e, através daquela arte eterna que extraia bem do mal, eram feitos tender igualmente para a prosperidade e perfeição do grande sistema da natureza. Contudo, nenhuma especulação desse tipo, por mais profundamente que seja que ela possa estar enraizada na mente, poderia diminuir a nossa natural aversão ao vício, cujos efeitos imediatos são tão destrutivos, e cujos distantes são distantes demais para serem traçados pela imaginação.

[55]É o mesmo caso com aquelas paixões que há pouco nós estivemos considerando. Os seus efeitos imediatos são tão desagradáveis que, mesmo quando elas são mais justamente provocadas, ainda há alguma coisa sobre elas que nos desgosta. Portanto, há apenas as paixões cujas expressões, como eu anteriormente observei, não nos descartam e preparam para simpatizar com elas, antes que nós sejamos informados da causa que as excita. A voz queixosa da miséria, quando ouvida a uma distância, não nos admitirá sermos indiferentes sobre a pessoa a partir de quem ela vem. Tão logo ela atinja nossos ouvidos, ela interessa-nos na fortuna dela e, se continuada, ela quase nos força involuntariamente a voarmos em sua assistência. Da mesma maneira, a visão de um semblante sorridente eleva até o melancólico a um humor alegre e aéreo, o que o dispõe a ser simpatizado e partilhar da alegria que ele expressa; e ele sente o seu coração, o qual, com pensamento e cuidado, antes esteve diante daquele encolhido e deprimido, instantaneamente expandido e elevado. Mas é bastante de outra maneira com expressões de ódio e ressentimento. A voz grosseira, barulhenta e discordante da raiva, quando ouvida a um distância inspira-nos ou medo ou aversão. Nós não voamos na direção dela, como para alguém que chora com dor e agonia. Mulheres e homens de nervos fracos tremem e são sobrepujados pelo medo, embora cientes de que eles mesmos não são os objetos da ira. Contudo, eles concebem o medo ao colocarem a si mesmos na situação da pessoa que é. Mesmo aqueles de corações mais firmes são perturbados; de fato não suficientemente para os tornar assustados, mas o suficiente para os tornar [56]irados; pois ira é a paixão que eles sentiriam na situação da outra pessoa. É o mesmo caso com o ódio. Meras expressões de desprezo não nos inspiram contra ninguém, exceto o homem que as usa. Ambas essas paixões são por natureza os objetos da nossa aversão. A aparência desagradável e barulhenta delas nunca excita, nunca prepara e frequentemente perturba a nossa simpatia. O pesar não mais poderosamente nos engaja com e atrai-nos para a pessoa em quem nos o observamos do que essas, embora nós sejamos ignorantes da causa delas, desgostam-nos e afastam-nos dela. Parece que foi a intenção da natureza que aquelas emoções mais grosseiras e menos amigáveis, as quais afastam os homens uns dos outros, deveriam ser menos facilmente e mais raramente comunicadas.

Quando a música imita as modulações da tristeza ou alegria, ela ou efetivamente nos inspira àquelas paixões, ou, pelo menos, coloca-nos no temperamento que nos dispõe a concebê-las. Mas quando ela imita as notas da ira, ela inspira-nos ao medo. Alegria, sofrimento, amor, admiração, devoção, são todas elas paixões que são naturalmente musicais. Os tons naturais delas são todos suaves, claros e melodiosos; e elas naturalmente se expressam em períodos que são distinguidos por pausas regulares e que, por conta disso, são facilmente adaptados aos retornos regulares dos ares correspondentes de uma melodia. Pelo contrário, a voz da ira, e de todas as paixões que são semelhantes a ela, é grosseira e discordante. Também os seus períodos são todos irregulares, algumas vezes muito longos, e algumas vezes muito curtos, e não distinguidos por nenhuma pausa regular. Portanto, é com dificuldade que a música [57]pode imitar qualquer uma dessas paixões; e a música que as imita não é a mais agradável. Um entretenimento inteiro pode consistir, sem nenhum impropriedade, na imitação das paixões sociais e agradáveis. Seria um entretenimento estranho o qual consistisse completamente na imitações do ódio e ressentimento.

Se essas paixões são desagradáveis para o espectador, elas não são menos para a pessoa que as sente. Ódio e ira são o maior veneno para a felicidade de uma boa mente. Há, no sentimento mesmo dessas paixões, alguma coisa severa, chocante e convulsiva, alguma coisa que dilacera e confunde o peito, e é completamente destrutiva daquela compostura e tranquilidade de mente que são tão necessárias para a felicidade, e que são melhor promovidas pelas paixões contrárias da gratidão e do amor. Não é o valor do que eles perdem pela perfídia e ingratidão daqueles com quem eles vivem que o generoso e humano estão mais apto a lamentar. O que quer que eles possam ter perdido, eles geralmente podem ser muito felizes sem isso. O que mais os perturba é a ideia de perfídia e ingratidão exercidas contra eles mesmos; e as paixões discordantes e desagradáveis que isso excita, constituem, em sua própria opinião, a parte principal da injúria que eles sofrem.

Quantas coisas são necessárias para tornar a gratificação do ressentimento completamente agradável, e para fazer o espectador simpatizar completamente com a nossa vingança? Primeiro de tudo, a provocação tem de ser tal que nós deveríamos nos tornar desprezíveis, e ficarmos expostos a insultos [58]perpétuos, se, em alguma medida, nós não nos ressentíssemos disso. Ofensas menores são sempre melhor negligenciadas; nem há qualquer coisa mais vil do que o humor malvado e capcioso que pega fogo em qualquer ocasião leve de contenda. Nós deveríamos nos ressentir mais de um senso de propriedade de ressentimento, de um senso do que o gênero humano espera e requer de nós, do que porque nós sentimos em nós mesmos a fúria daquela paixão desagradável. Não há paixão, da qual a mente seja capaz, dizendo respeito à justeza cuja do que nós deveríamos estar tão duvidosos, dizendo respeito à indulgência cuja nós deveríamos tão cuidadosamente consultar o nosso natural senso de propriedade, ou tão diligentemente considerar quais serão os sentimentos do espectador frio e imparcial. A magnanimidade, ou uma consideração para manter a nossa própria posição e dignidade na sociedade, é o único motivo que pode enobrecer as expressões dessa paixão desagradável. Esse motivo tem de caracterizar todo o nosso estilo e comportamento. Esse deve ser simples, aberto e direto; determinado sem positividade, e elevado sem insolência; não apenas livre de petulância e grosseria inferior, mas generoso, cândido e cheio de todos os cumprimentos apropriados, mesmo pela pessoa quem nos ofendeu. Em resumo, tem de parecer a partir da nossa maneira inteira, sem nós laborarmos afetadamente para o expressar, que a paixão não extinguiu a nossa humanidade; e que se nós nos rendemos aos ditados da vingança é com relutância, a partir da necessidade, e em consequência de provocações grandes e repetidas. Quando o ressentimento é guardado e qualificado dessa maneira, ele pode ser admitido ser mesmo generoso e nobre.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 50-58. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/50/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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