sexta-feira, 7 de junho de 2024

A Teoria dos Sentimentos Morais P1S2C1 Das Paixões que derivam sua Origem do Corpo

A Teoria dos Sentimentos Morais


Por Adam Smith


Parte I Da Propriedade da Ação


Seção II Dos Graus das Paixões Diferentes que são Consistentes com Propriedade


Capítulo anterior


[36]Introdução


A propriedade de cada paixão excitada por objetos peculiarmente relacionados a nós mesmos, o tom que o espectador pode acompanhar, tem de se situar, é evidente, em uma certa mediocridade. Se a paixão for muito intensa, ou se ela for muito baixa, ele não pode entrar nela. Por exemplo, pesar e ressentimento por infortúnios e injúrias privados podem facilmente serem intensos demais e, na maior parte do gênero humano, eles são assim. Eles podem, de maneira similar, embora isso mais raramente aconteça, ser fracos demais. Nós denominamos os excessos, fraqueza e fúria: e nós chamamos o defeito de estupidez, insensibilidade e falta de espírito. Nós não podemos entrar em nenhum deles, mas ficamos atônitos e confusos ao vê-los.

Contudo, essa mediocridade, na qual o ponto de propriedade consiste, é diferente em paixões diferentes. É intensa em algumas, e fraca em outras. Há algumas paixões que são indecentes para expressar muito fortemente, mesmo naquelas ocasiões nas quais é reconhecido que nós não podemos evitar de as sentir no grau mais intenso. E há outras das quais as expressões mais fortes são em muitas ocasiões extremamente graciosas, mesmo se, talvez, as paixões mesmas não [37]surjam tão necessariamente. As primeiras são aquelas paixões com as quais, por certas razões, há pouca ou nenhuma simpatia: as segundas são aquelas com as quais, por outras razões, há a maior. E se nós considerarmos todas as paixões diferentes da natureza humana, nós devemos descobrir que elas são consideradas como decentes, ou indecentes, exatamente na proporção que o gênero humano estão mais ou menos disposto a simpatizar com elas.


Capítulo I Das Paixões que derivam sua Origem do Corpo


1. É indecente expressar qualquer grau forte daquelas paixões que surgem a partir de uma certa situação ou disposição do corpo; porque a companhia, não estando na mesma disposição, não pode ser esperada simpatizar com elas. Por exemplo, a fome violenta, embora em muitas ocasiões não apenas natural, mas inevitável, é sempre indecente, e comer vorazmente é universalmente considerado como uma peça de más maneiras. Contudo, há algum grau de simpatia mesmo com a fome. É agradável ver nossas companhias comerem com bom apetite, e todas as expressões de repugnância são ofensivas. A disposição de corpo que é habitual para um homem em saúde, faz o estômago dele acompanhar facilmente, se eu [38]posso ser permitido uma expressão tão grosseira, um [caso] e não com o outro. Nós podemos simpatizar com a aflição que a fome excessiva ocasiona quando nós lemos a descrição dela no diário de um cerco ou de uma viagem marítima. Nós imaginamos a nós mesmos na situação dos sofredores e, consequentemente, facilmente concebemos o pesar, o medo e a consternação, os quais, necessariamente, têm de os confundir. Nós mesmos sentimos algum grau daquelas paixões e, portanto, simpatizamos com elas; mas como nós não ficamos famintos através da leitura da descrição, nós não podemos propriamente, mesmo nesse caso, ser ditos simpatizar com a fome deles.

É a mesma coisa com a paixão pela qual a natureza une os dois sexos. Embora naturalmente a mais furiosa de todas as paixões, todas as fortes expressões dela são, em qualquer ocasião, indecentes, mesmo entre pessoas em quem a mais completa indulgência é reconhecida por todas as leis, tanto humanas quanto divinas, ser perfeitamente inocente. Contudo, parece haver algum grau de simpatia mesmo nessa paixão. Falar com uma mulher como nós deveríamos falar com um homem é impróprio: espera-se que a companhia delas deveria inspirar-nos mais alegria, mais gentileza e mais atenção; e uma inteira insensibilidade com o belo sexo torna um homem detestável em alguma medida mesmo para os homens.

Tal é a nossa aversão por todos os apetites que derivam sua origem a partir do corpo; todas as expressões fortes deles são repugnantes e desagradáveis. De acordo com alguns filósofos antigos, [39]essas são as paixões que nós compartilhamos com os brutos, e as quais, não tendo nenhuma conexão com as qualidades características da natureza humana, estão, por essa consideração, abaixo da sua dignidade. Mas há muitas outras paixões que nós compartilhamos com os brutos, tais como ressentimento, afeição natural, até gratidão, que, nessa consideração, não parecem ser tão brutais. A verdadeira causa do desgosto peculiar que nós concebemos pelos apetites do corpo, quando nós os vemos em outros homens, é que nós não podemos entrar neles. Para a pessoa mesma que os sente, tão logo eles sejam satisfeitos, o objeto que os excitou cessa de ser agradável: mesmo a sua presença torna-se ofensiva para ela: ela procura em torno por nenhum propósito para o encanto que a arrebatou no momento anterior, e agora ela tampouco pode entrar em sua própria paixão quanto outra pessoa. Quando nós temos jantado, nós ordenamos que as tampas sejam removidas; e nós deveríamos tratar das mesma maneira os objetos dos desejos mais ardentes e apaixonados, se eles não forem objetos de nenhuma outra paixão exceto daquelas que tomam sua origem a partir do corpo.

No comando desses apetites do corpo consiste aquela virtude que é propriamente chamada de temperança. Restringi-los dentro daqueles limites, com respeito ao que saúde e boa fortuna prescrevem, é parte da prudência. Mas confiná-los dentro daqueles limites, o que graça, o que propriedade, o que delicadeza e modéstia requerem, é o ofício da temperança.

[40]2. É pela mesma razão que gritar com dor corporal, por mais intolerável que seja, sempre parece nada viril e impróprio. Contudo, há uma grande quantidade de simpatia até com a dor corporal. Se, como já foi observado, eu vejo um golpe mirado, e exatamente pronto para cair sobre a perna ou braço de outra pessoa, eu naturalmente me contraio e puxo de volta minha própria perna ou meu próprio braço; e quanto ele cai, eu sinto em alguma medida, e fico machucado por ele assim como o sofredor. Contudo, sem dúvida, o meu machucado é excessivamente leve, e, por conta disso, se ele produz qualquer grito violento, eu não o posso acompanhar, eu nunca falho em o desprezar. E esse é o caso em todas as paixões que derivam sua origem a partir do corpo: ou elas não excitam absolutamente nenhuma simpatia, ou um tal grau dela que é completamente desproporcionado à violência do que é sentido pelo sofredor.

É bastante de outra maneira com aquelas paixões que derivam sua origem da imaginação. A estrutura do meu corpo pode ser apenas pouco afetada pelas alterações que são causadas sobre aquele da minha companhia: mas a minha imaginação é mais maleável, e mais prontamente assume, se eu posso falar assim, a forma e configuração das imaginações daqueles de quem eu sou familiar. Em consequência disso, um desapontamento no amor, ou na ambição, inspiram mais simpatia do que o maior mal corporal. Essas paixões surgem completamente a partir da imaginação. A pessoa que perdeu toda a sua fortuna, se ela está com saúde, não sente [41]nada em seu corpo. O que ela sente é apenas a partir da imaginação, a qual representa para ela a perda da sua dignidade, negligência a partir do seus amigos, desdém a partir dos seus inimigos, dependência, carência e miséria, chegando rápido a ela; e nós simpatizamos com ela mais fortemente em consequência dessa consideração, porque as nossas imaginações podem mais facilmente moldarem a si mesmas sobre a imaginação dela, do que os nossos corpos podem moldar a si mesmos sobre o corpo dela.

A perda de uma perna geralmente pode ser considerada como uma calamidade mais real do que a perda de uma amante. Contudo, seria uma tragédia ridícula da qual a catástrofe devesse revelar-se uma perda desse tipo. Um infortúnio do outro tipo, por frívolo que ele possa parecer ser, tem dado ocasião a muitas boas.

Nada é tão esquecido tão logo quanto a dor. No momento em que ela passa, a inteira agonia dela está acabada, e o pensamento dela não mais pode nos conceder nenhum tipo de distúrbio. Portanto, nós mesmos não podemos entrar na ansiedade e angústia que antes tínhamos concebido. Uma palavra inesperada de um amigo ocasionará um desconforto mais durável. A agonia que isso cria de maneira nenhuma termina com a palavra. O que primeiro nos perturba não é o objeto dos sentidos, mas a ideia da imaginação. Portanto, como é uma ideia que ocasiona o nosso desconforto, até que o tempo e outros acidentes tenham apagado-a da memória, a imaginação continua a afligir e irritar dentro, a partir do pensamento dela.

[42]A dor nunca traz à luz nenhuma simpatia muito vívida, a menos que ela seja acompanhada por perigo. Nós simpatizamos com o medo, embora não com a agonia do sofredor. Contudo, o medo é uma paixão derivada completamente a partir da imaginação, a qual representa, com uma incerteza e oscilação que aumenta a nossa ansiedade, não o que nós realmente sentimos, mas o que depois nós possivelmente podemos sofrer. A gota ou a dor de dente, embora intensamente dolorosas, excitam pouca simpatia; doenças mais perigosas, embora acompanhadas por muito pouca dor, excitam a máxima.

Algumas pessoas enfraquecem e adoecem diante da visão de uma operação cirúrgica, e essa dor corporal que é ocasionada pela dilaceração da carne, parece, nelas, excitar a simpatia mais excessiva. Nós concebemos de uma maneira mais vívida e distinta a dor que procede a partir de uma causa externa do que aquela que surge a partir de uma desordem interna. Eu escassamente posso formar uma ideia das agonias do meu vizinho quando ele é torturado pela gota ou a pedra; mas que tenho a mais clara concepção do que ele tem de sofrer a partir de uma incisão, um ferimento ou uma fratura. Contudo, a causa principal de porque tais objetos produzem efeitos tão violentos sobre nós, é a novidade deles. Alguém que tenha testemunhado uma duzia de dissecações e tantas amputações, vê, afinal, todas as operações desse tipo com grande indiferença, e frequentemente com perfeita insensibilidade. Embora nós tenhamos lido ou visto representadas mais do que quinhentas tragédias, nós raramente devemos sentir [43]um abatimento tão inteiro da nossa sensibilidade aos objetos que eles representam para nós.

Em algumas das tragédias gregas há uma tentativa de excitar compaixão através da representação das agonias da dor corporal. Filoctetes grita e desmaia a partir da extremidade dos seus sofrimentos. Hipólito e Hércules são ambos introduzidos como expirando sob as mais severas torturas, as quais, parece, mesmo a fortitude de Hércules era incapaz de suportar. Contudo, em todos esses casos, não é a dor que nos interessa, mas alguma outra circunstâncias. Não é o pé machucado, mas a solidão, de Filoctetes que nos afeta, e difunde aquela tragédia charmosa, aquela selvageria romântica, que é tão agradável para a imaginação. As agonias de Hércules e Hipólito são interessantes apenas porque nós prevemos que a morte deve ser a consequência. Se esses heróis devessem recuperar-se, nós deveríamos considerar a representação dos seus sofrimentos perfeitamente ridícula. Que tragédia seria aquela cujo sofrimento consistisse em uma cólica! Contudo, nenhuma dor é mais intensa. Essas tentativas de excitar compaixão através da dor corporal podem ser considerados como entre as maiores brechas de decoro das quais o teatro grego estabeleceu o exemplo.

A pouca simpatia que nós sentimos pela dor corporal é o fundamento da propriedade de constância e paciência em a suportar. O homem que sob as torturas mais severas não permite fraqueza lhe escapar, não deixa escapar nenhum gemido, não dá abertura para nenhuma paixão que nós não inteiramente [44]entramos, merece a nossa admiração mais elevada. A firmeza dele possibilita-o acompanhar a nossa indiferença e insensibilidade. Nós admiramos e acompanhamos inteiramente o esforço magnânimo que ele realiza para esse propósito. Nós aprovamos o comportamento dele, e a partir da nossa experiência da fraqueza comum da natureza humana, nós ficamos surpresos, e ponderamos sobre como ele deveria ser capaz de agir assim para merecer aprovação. Aprovação, misturada com e animada por maravilha e surpresa, constitui o sentimento que é propriamente chamado de admiração, da qual o aplauso é a expressão natural, como já tem sido observado.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 36-44. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/36/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0

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