A Teoria dos Sentimentos Morais
Por Adam Smith
Parte I Da Propriedade da Ação
Seção I Do Senso de Propriedade
[30]Capítulo V Das Virtudes Amigáveis e Respeitáveis
Nesses dois esforços diferentes, naquele do espectador para entrar nos sentimentos da pessoa principalmente interessada, e naquele da pessoa principalmente interessada para rebaixar suas emoções ao que o espectador pode acompanhar, são encontrados dois conjuntos diferentes de virtudes. As virtudes suaves, gentis, amigáveis, as virtudes da condescendência cândida e humanidade indulgente, são fundadas sobre uma: as grandes, as terríveis e respeitáveis da autonegação, do autogoverno, daquele comando das paixões que sujeita todos os movimentos da nossa natureza para que a nossa própria dignidade e honra, e a propriedade da nossa própria conduta requer, obtenham sua origem a partir da outra.
Quão amigável ele parece ser, cujo coração simpático parece reecoar todos os sentimentos daqueles com ele conversa, quem sofre pelas calamidades deles, quem se ressente das injúrias deles, e quem se regozija diante da boa fortuna deles! Quando nós compreendemos a situação dos companheiros dele, nós entramos na gratidão dele, e sentimos que consolação eles têm de derivar a partir da simpatia de um amigo tão afeiçoado. E por uma razão contrária, quão desagradável ele parece ser, cujo coração duro e obstinado sente apenas por si mesmo, mas é completamente [31]insensível para a felicidade ou miséria de outros! Nesse caso também, nós entramos na dor que a presença dele tem de conceder a cada mortal com quem ele conversa, especialmente para aqueles com quem nós estamos mais aptos a simpatizar, o infeliz e o injuriado.
Por outro lado, que nobre propriedade e graça nós sentimos na conduta daqueles quem, em seu próprio caso, exercem essa recordação e autocontrole que constituem a dignidade de cada paixão, e que a rebaixam para que outros possam entrar nela? Nós ficamos desgostosos com aquele pesar clamoroso, o qual, sem nenhuma delicadeza, requisita a nossa compaixão com suspiros e lágrimas e lamentações inoportunas. Mas nós reverenciamos aquele sofrimento reservado, silente e majestático, o qual descobre a si mesmo apenas no inchaço dos olhos, no tremor dos lábios e bochechas, e na distante, mas comovente, frieza do inteiro comportamento. Isso impõe silêncio semelhante sobre nós. Nós consideramos isso com atenção respeitosa, e observarmos com preocupação ansiosa o nosso inteiro comportamento, abandonado por qualquer impropriedade que nós deveríamos perturbar aquela tranquilidade concertada, a qual requer um esforço tão grande para suportar.
Da mesma maneira, a insolência e a brutalidade da raiva, quando nós satisfazemos sua fúria sem dificuldade ou restrição, é de todos os objetos o mais detestável. Mas nós admiramos aquele ressentimento nobre e generoso que governa a sua busca das maiores injúrias, não pela ira que elas estão inclinadas a excitar no peito do sofredor, mas pela indignação que elas naturalmente induzem [32]naquele do espectador imparcial; o que não permite a nenhuma palavra, nem gesto, para escapar além do que esse sentido mais equitativo ditaria; o qual nunca, mesmo em pensamento, tenta nenhuma vingança maior, nem deseja infligir nenhuma punição maior, do que cada pessoa indiferente regozijar-se-ia em ver executada.
E consequentemente é, que sentir muito por outros e pouco por nós mesmos, que restringir as nossas afeições egoístas, e satisfazer as nossas afeições benevolentes, constitui a perfeição da natureza humana; e pode sozinho produzir em meio ao gênero humano aquela harmonia de sentimentos e paixões na qual consiste a sua inteira graça e propriedade. Como amar o nosso vizinho como nós amamos a nós mesmos é a grande lei do cristianismo, assim é o grande preceito da natureza amar a nós mesmos apenas enquanto nós amamos o nosso vizinho, ou o que vem a ser a mesma coisa, como o nosso vizinho é capaz de nos amar.
Como gosto e bom julgamento, quando eles são considerados como qualidades que merecem elogio e admiração, são supostos implicar uma delicadeza de sentimento e uma agudeza de entendimento não comumente encontradas; assim as virtudes de sensibilidade e autodomínio não são compreendidas consistir nos graus ordinários, mas nos graus incomuns daquelas qualidades. Certamente a virtude amigável da humanidade requer uma sensibilidade muito além da que é possuída pelo vulgo rude do gênero humano. Sem dúvida a grande e exaltada virtude da magnanimidade demanda muito mais do que aquele grau de autodomínio que o mais fraco dos mortais é [33]capaz de exercer. Como no grau comum das qualidades intelectuais não há virtudes; assim no grau comum da moral, não há virtude. Virtude é excelência, alguma coisa incomumente grande e bela, a qual se eleva muito acima do que é vulgar e ordinário. As virtudes amigáveis consistem naquele grau de sensibilidade que surpreende por sua delicadeza e ternura exóticas e inesperadas. O terrível e respeitável, naquele grau de autodomínio que surpreende pela sua superioridade espetacular sobre as paixões mais ingovernáveis da natureza humana.
A esse respeito, há uma diferença considerável entre virtude e mera propriedade; entre aquelas qualidades e ações que merecem ser admiradas e celebradas, e aquelas que simplesmente merecem ser aprovadas. Em consequência de muitas ocasiões, agir com a propriedade mais perfeita não requer mais do que aquele grau comum e ordinário de sensibilidade e autocontrole dos quais os mais sem valor do gênero humano são capazes, e, algumas vezes, nem mesmo esse grau não é necessário. Dessa maneira, para fornecer um exemplo muito baixo, comer quando nós estamos famintos, é certamente, em ocasiões ordinárias, perfeitamente correto e apropriado, e não pode deixar de ser aprovado como tal por todos. Contudo, nada poderia ser mais absurdo do que dizer que isso foi virtuoso.
Pelo contrário, frequentemente há um grau considerável de virtude naquelas ações que falham em alcançar a propriedade mais perfeita; porque elas ainda poderiam aproximar-se da perfeição do que poderia ser bem esperado em [34]ocasiões nas quais era tão extremamente difícil alcançá-la; e esse é muito frequentemente o caso naquelas ocasiões que requerem os maiores esforços de autodomínio. Há algumas situações que pesam tanto sobre a natureza humana que o maior grau de autodomínio que pertence a uma criatura tão imperfeita quanto o homem, não é capaz de abafar completamente a voz da fraqueza humana para aquele tom de moderação no qual o espectador imparcial pode entrar inteiramente nelas. Portanto, embora naqueles casos o comportamento do sofredor falhe em alcançar a propriedade mais perfeita, ele ainda pode merecer algum aplauso e até, em um certo sentido, pode ser denominado de virtuoso. Ele ainda manifestar um esforço de generosidade e magnanimidade, do qual a maior parte dos homens é incapaz; e embora ele falhe em ser perfeição absoluta, ele pode ser uma aproximação muito maior em relação à perfeição do que aquela que, em semelhantes ocasiões tentadoras, deve ser comumente encontrado ou esperado.
Em casos desse tipo, quando nós estamos determinando o grau de culpa ou aplauso que parece ser devido à ação, nós muito frequentemente fazemos usos de dois padrões diferentes. O primeiro é a ideia de propriedade e perfeição completas, a qual, naquelas situações difíceis, nenhuma conduta humana nunca realizou, ou até pode alcançar; e em comparação com a qual as ações de todos os homens têm de parecer para sempre culpáveis e imperfeitas. O segundo é a ideia daquele grau de proximidade ou distância a partir dessa perfeição completa, o qual as ações [35]da maior parte dos homens comumente chega. O que quer que vá além desse grau, por mais longe que possa estar removido da perfeição absoluta, parece merecer aplauso; e o que quer que falhe em relação a ele, merecer culpa.
É da mesma maneira que nós julgamos as produções de todas as artes que se dirigem à imaginação. Quando um crítico examina a obra de qualquer dos grandes mestres em poesia ou pintura, ele pode, algumas vezes, examiná-la através de uma ideia de perfeição, em sua própria mente, a qual nem aquela, nem qualquer outra obra humana nunca alcançará; e enquanto ele compara-a com esse padrão, ele não consegue ver nada nela exceto suas faltas e imperfeições. Mas quando ele vem a considerar a posição que ela deveria manter entre outras obras do mesmo tipo, ele necessariamente a compara com um padrão muito diferente, o degrau comum de excelência é usualmente alcançado nessa arte particular; e quando ele a julga através dessa nova medida, ela frequentemente pode parecer merecer o aplauso mais elevado, por conta dela chegar muito mais próxima da perfeição do que a maior parte daquelas obras que podem ser trazidas para competirem com ela.
ORIGINAL:
SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 30-35. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/30/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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