A Teoria dos Sentimentos Morais
Por Adam Smith
Parte I Da Propriedade da Ação
Seção I Do Senso de Propriedade
[16]Capítulo III Da maneira pela qual nós julgamos a propriedade ou impropriedade das afeições de outros homens, pela sua concordância ou discordância com a as nossas próprias
Quando as paixões originais da pessoa principalmente interessada estão em concordância perfeita com as emoções simpáticas do espectador, elas necessariamente parecem para esse último justas e apropriadas, e adequadas para os seus objetos; e, pelo contrário, quando, ao familiarizar-se, ele descobre que elas não coincidem com o que ele sente, elas necessariamente lhe parecem injustas e impróprias, e inadequadas para as causas que as excitam. Portanto, aprovar as paixões de outro como apropriadas com seus objetos é a mesma coisa que observar que nós simpatizamos inteiramente com elas; e não as aprovar como tais, é a mesma coisa que observar que nós não simpatizamos inteiramente com elas. O homem que se ressente das injúrias quem têm sido cometidas contra mim, e observa que eu me ressinto delas precisamente como ele o faz, necessariamente aprova o meu ressentimento. O homem cuja simpatia acompanha o meu pesar (grief), não pode senão admitir a razoabilidade da minha tristeza (sorrow). Aquele que admira o mesmo poema, ou a mesma pintura, e admira-os exatamente como eu faço, certamente tem de admitir a justeza da minha admiração. Aquele que ri diante da mesma piada, e [17]ri junto comigo, não pode negar bem a propriedade do meu riso. Pelo contrário, a pessoa que, nessas ocasiões diferentes, ou não sente emoção semelhante àquela que eu sinto, ou não sente nenhuma que comporte qualquer proporção com a minha, não pode evitar de desaprovar meus sentimentos por conta da dissonância com os seus próprios. Se a minha animosidade vai além do que aquilo ao que a indignação do meu amigo corresponde; se o meu pesar excede o que a mais tenra compaixão pode acompanhar, se a minha admiração é alta ou baixa demais para corresponder com a dele própria; se eu rio alto e de coração quando ele apenas sorri, ou, pelo contrário, apenas sorrio quando ele ri alto e de coração; em todos esses casos, tão logo ele chegue a considerar o objeto, a observar como eu sou afetado por ele, conforme haja maior ou menor desproporção entre os seus sentimentos e os meus, eu tenho de incorrer em um grau maior ou menor da desaprovação dele: e em todas as ocasiões os próprios sentimentos dele são e os padrões e as medidas pelos quais ele julga os meus.
Aprovar as opiniões de outro homem é adotar aquelas opiniões, e adotá-las é aprová-las. Se os mesmos argumentos que convencem você igualmente me convencem, eu necessariamente aprovo a sua convicção; e se eles não o fazem, eu necessariamente desaprovo: nem eu possivelmente posso conceber que eu deveria fazer um sem o outro. Portanto, aprovar ou desaprovar as opiniões de outros é reconhecido, por todo mundo, não significar nada mais do que observar o acordo ou desacordo com as nossas próprias. [18]Mas isso é igualmente o caso com respeito à nossa aprovação ou desaprovação dos sentimentos ou paixões dos outros.
De fato, há alguns casos nos quais nós parecemos aprovar sem simpatia ou correspondência de sentimentos, e nos quais, consequentemente, o sentimento de aprovação pareceria ser diferente da percepção dessa coincidência. Contudo, um pouco de atenção convencer-nos-á de que mesmo nesses casos a nossa aprovação, no fim das contas, está fundada sobre a simpatia ou correspondência desse tipo. Eu deverei dar um exemplo em coisas de uma natureza muito frívola, porque nelas os julgamentos da humanidade estão menos inclinados a serem pervertidos por sistemas errados. Frequentemente nós podemos aprovar uma piada, e considerar o riso da companhia bastante justo e apropriado, embora nós mesmos não riamos, porque, talvez, nós estamos em um humor grave, ou acontece de termos a nossa atenção engajada com outros objetos. Contudo, nós temos aprendido a partir da experiência que tipo de gentileza é, na maioria das ocasiões, capaz de nos fazer rir, e nós observamos que essa é uma do tipo. Portanto, nós aprovamos o riso da companhia, e sentimos que ele é natural e adequado para o seu objeto; porque, embora no nosso humor presente nós não possamos entrar facilmente nele, nós somos sensíveis de que, na maioria das ocasiões, nós deveríamos muito de coração juntar-nos a ele.
A mesma coisa frequentemente acontece com respeito a todas as outras paixões. Um estranho passa por nós na rua com todas as marcas da mais profunda aflição; e imediatamente é contado a nós que ele [19]há pouco ele recebeu as notícias da morte do pai dele. É impossível que, nesse caso, nós não deveríamos aprovar a tristeza dele. Contudo, pode frequentemente acontecer, sem nenhum defeito de humanidade da nossa parte, que, longe de entramos na violência do sofrimento dele, nós escassamente devamos conceber os primeiros movimentos de preocupação por causa dele. Talvez ele e o pai dele sejam inteiramente desconhecidos para nós, ou acontece de nós estarmos empregados em outras coisas, e não nos demorarmos para representar na nossa imaginação as circunstâncias diferentes de sofrimento que tem de ocorrer com ele. Contudo, nós temos aprendido a partir da experiência que um semelhante infortúnio naturalmente excita um tal grau de tristeza, e sabemos que se nós tomássemos tempo para considerar a situação dele, completamente e em todas as suas partes, nós deveríamos, sem dúvida, simpatizarmos muito sinceramente come ele. É em consequência da consciência dessa simpatia condicional que a nossa aprovação do sofrimento dele está fundamentada, mesmo naqueles casos nos quais essa simpatia efetivamente não ocorre; e as regras gerais derivadas a partir da nossa experiência anterior de a que os nossos sentimentos comumente corresponderiam, corretas nesta, como em consequência de muitas outras ocasiões, a impropriedade das nossas emoções presentes.
O sentimento ou afeição do coração a partir do qual qualquer ação procede, e em consequência do qual a sua virtude ou seu vício inteiros em última instância dependem, pode ser considerado sob dois aspectos diferentes, ou em duas relações diferentes; primeiro, em relação à causa que o excita, ou o motivo que dá ocasião a ele; e segundo, em relação ao [20]fim ao qual ele se propõe, ou o efeito que ele tende a produzir.
Na adequação ou inadequação, na proporção ou desproporção que a afeição parece comportar para a causa ou o objeto que a excita, consiste a propriedade ou impropriedade, a decência ou ingratidão (ungracefulness) da ação consequente.
Na natureza benéfica ou prejudicial dos efeitos aos quais a afeição visa, ou tende a produzir, conflitam-se o mérito ou demérito da ação, as qualidades pelas quais ela tem direito à recompensa ou é merecedora de punição.
Nos anos recentes, os filósofos têm considerado principalmente a tendência das afeições e têm concedido pouca atenção à relação na qual elas estão com a causa que as excita. Contudo, na vida comum, quando nós julgamos a conduta de qualquer pessoa, e dos sentimentos que a dirigiram, nós constantemente as consideramos sob ambos esses aspectos. Quando nós culpamos em outro homem os excessos de amor, de pesar, de ressentimento, nós não apenas consideramos os efeitos ruinosos que elem podem produzir, mas a pequena ocasião que foi concedida a eles. O mérito do seu favorito, nós dizemos, não é tão grande, o seu infortúnio não é tão terrível, sua provocação não é tão extraordinária, quanto para justificar uma paixão tão violenta. Nós deveríamos ter nos satisfeito, nós dizemos; talvez ter aprovado a violência da emoção dele, tivesse a causa sido, em algum aspecto proporcional a ele.
Quando nós julgamos dessa maneira qualquer afeição como proporcional ou desproporcional à [20]causa que a excita, escassamente é possível que nós devamos fazer uso de qualquer regra ou cânone, exceto a afeição correspondente em nós mesmos. Se, em consequência de nos familiarizarmos, nós descobrirmos que os sentimentos aos quais ela dá ocasião, coincidem e concordam com os nossos próprios, nós necessariamente os aprovamos como proporcionais e adequados para os seus objetos; se, de outra maneria, nós necessariamente as desaprovamos, como extravagantes e fora de proporção.
Cada faculdade em um homem é a medida pela qual ele julga faculdade similar em outro. Eu julgo a sua vista pela minha vista, o seu ouvido pelo meu ouvido, a sua razão pela minha razão, o seu ressentimento pelo meu ressentimento, o seu amor pelo meu amor. Eu nem tenho, nem posso ter, qualquer outra maneira de os julgar.
ORIGINAL:
SMITH, A. The Theory of Moral Sentiments. IN:______. The Works of Adams Smith. In Five Volumes. Vol. I. London: Printed for T. Cadell and W. Davies … [at 16 others], 1812. pp. 16-21. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofadamsmith01smituoft/worksofadamsmith01smituoft/page/16/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
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