sexta-feira, 3 de maio de 2024

Uma Introdução aos Princípios da Moral e Legislação - V Prazeres e Dores, Seus Tipos

Uma Introdução aos Princípios da Moral e Legislação


Por Jeremy Bentham


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[33]V Prazeres e Dores, Seus Tipos


I. Tendo representado o que pertence de modo idêntico a todos os tipos de prazeres e dores, nós chegamos agora a exibir os vários tipos de dores e prazeres, cada um por si mesmo. Dores e prazeres podem ser chamadas por uma palavra geral, percepções interessantes (interesting perceptions). Percepções interessantes são ou simples ou complexas. As simples são aquelas que qualquer uma delas não pode ser resolvida em mais: complexas são aquelas que podem ser resolvidas em diversas simples. Portanto, uma percepção interessante complexa pode ser composta ou, 1. De prazeres sozinhos: 2. De dores sozinhas: ou 3. De um prazer ou prazeres, e uma dor ou dores, juntos. Por exemplo, o que determina um monte de prazer ser considerado como um prazer complexo, em vez de diversos simples, é a natureza da causa excitante. Quaisquer prazeres que sejam excitados todos de uma vez pela ação da mesma causa, são aptos a serem considerados como constituindo todos juntos apenas um prazer.

II. Os vários prazeres simples aos quais a natureza humana é suscetível parecem ser os seguintes: 1. Os prazeres do sentido. 2. Os prazeres da riqueza. 3. Os prazeres da habilidade. 4. Os prazeres da amizade (amity). 5. Os prazeres de um bom nome. 6. Os prazeres do poder. 7. Os prazeres da piedade. 8. Os prazeres da benevolência. 9. Os prazeres da malevolência. 10. Os prazeres da memória. 11. Os prazeres da imaginação. 12. Os prazeres da expectativa. 13. Os prazeres dependentes de associação. 14. Os prazeres do alívio.

III. As várias dores simples parecem ser as seguintes: 1. As dores da privação. 2. As dores dos sentidos. 3. As dores da [34]inabilidade (awkwardness). 4. As dores da inimizade (enmity). 5. As dores de um mau nome. 6. As dores da piedade. 7. As dores da benevolência. 8. As dores da malevolência. 9. as dores da memória. 10. As dores da imaginação. 11. As dores da expectativa. 12. As dores dependentes de associação1.

IV. 1. Os prazeres do sentido (sense) parecem ser os seguintes: 1. Os prazeres do gosto (taste) ou paladar; incluindo quaisquer prazeres que são experienciados satisfazendo os apetites de fome ou sede. 2. Os prazeres de intoxicação. 3. Os prazeres do órgão do olfato (smelling). 4. Os prazeres do toque. 5. Os prazeres simples do ouvido; independentes de associação. 6. Os prazeres simples do olho; independentes de associação. 7. O prazer da sensação (sense) sexual. 8. O prazer da saúde: ou o sentimento prazeroso interno ou fluxo de espírito (como é chamado,) o qual acompanha um estado de saúde e vigor plenos; especialmente em momentos de esforço (exertion) corporal moderado. 9. Os prazeres da novidade: ou, os prazeres derivados a partir da gratificação do apetite da curiosidade pela aplicação de novos objetos a quaisquer dos sentidos2.

V. 2. Pelos prazeres da riqueza podem ser significados aqueles prazeres que um homem está apto a derivar a partir da consciência da posse de qualquer artigo ou quaisquer artigos que estão na lista de instrumentos de satisfação (enjoyment) ou segurança e, mais particularmente, no momento de sua aquisição inicial deles; momento no qual o prazer pode ser denominado de um prazer do ganho ou prazer da satisfação: em outros momentos, um prazer da posse.

3. Os prazeres da habilidade, conforme exercidos sobre objetos particulares, [35]são aqueles que acompanham a aplicação daqueles particulares instrumentos de satisfação (enjoyment) aos seus usos, visto que não podem ser assim aplicados sem uma quinhão maior ou menor de dificuldade ou esforço3.

VI. 4. Os prazeres da amizade (amity), ou autorrecomendação, são os prazeres que podem acompanhar a persuasão de um homem estar na aquisição ou posse da boa vontade (good-will) de tal pessoa ou tais pessoas atribuíveis em particular, ou, como se diz, de estar em bons termos com ela ou elas; e, como um fruto disso, de certa forma, ter o benefício dos seus serviços espontâneos e gratuitos.

VII. 5. Os prazeres de um bom nome são os prazeres que acompanham a persuasão de um homem estar na aquisição ou posse da boa vontade do mundo em torno dele; quer dizer, daqueles membros da sociedade com os quais é provável que ele se preocupe; e, como um meio disso, ou o amor ou a estima deles, ou ambos: e, como um fruto de disso, de certa forma, ter o benefício dos serviços espontâneos e gratuitos deles. Da mesma maneira, esses podem ser chamados de os prazeres da boa reputação, os prazeres da honra, ou os prazeres da sanção moral4.

VIII. 6. Os prazeres do poder são os prazeres que acompanham a persuasão de um homem estar em uma condição de dispor das pessoas, através das esperanças e dos medos delas, para lhe concederem o benefício dos seus serviços; quer dizer, através da esperança de algum serviço, ou através do medo de algum desserviço, que ele pode, de certa forma, prestar-lhas.

IX. 7. Os prazeres da piedade são os prazeres que acompanham a crença de um homem estar na aquisição ou posse da boa vontade ou favor do Ser Supremo: e, como um fruto disso, de certa forma, de desfrutar de prazeres a serem recebidos por designação especial de Deus, quer nesta vida, quer na vida por vir. Esses também podem ser chamados de os prazeres da religião, os [36]prazeres de uma disposição religiosa, ou os prazeres da sanção religiosa5.

X. 8. Os prazeres da benevolência são os prazeres resultantes a partir da visão de quaisquer prazeres supostos de serem possuídos pelos seres que podem ser objetos de benevolência; a saber, os seres sensíveis com os quais nós estamos familiarizados; nos quais estão comumente incluídos, 1. O Ser Supremo. 2. Seres Humanos. 3. Outros animais. Esses também podem ser chamados de os prazeres da boa vontade (good-will), os prazeres da simpatia, ou os prazeres das afeições benevolentes ou sociais.

XI. 9. Os prazeres da malevolência são os prazeres resultantes a partir da visão de qualquer dor suposta ser sofrida pelos seres que podem se tornar objetos de malevolência: a saber, 1. Seres Humanos. 2. Outros Animais. Esses podem ser chamados de os prazeres da má vontade (ill-will), os prazeres do apetite irascível, os prazeres da antipatia, os prazeres das afeições malevolentes ou antissociais.

XII. 10. Os prazeres da memória são os prazeres que, após se ter desfrutado de tais e tais prazeres, ou mesmo, em algum caso, após se ter sofrido de tais e tais dores, um homem agora e depois experienciará, ao recordar-lhes exatamente na ordem e na circunstância nas quais eles efetivamente foram desfrutados ou sofridos. É claro, esses prazeres derivados podem ser distinguidos em tantas espécies quanto são as das percepções originais, a partir das quais eles podem ser copiados. Eles também podem ser chamados de prazeres da recordação simples.

XIII. 11. Os prazeres da imaginação são os prazeres que podem ser derivados a partir da contemplação de quaisquer prazeres que podem acontecer de serem sugeridos pela memória, mas em uma ordem diferente e acompanhados por grupos diferentes de circunstâncias. Portanto, esses podem ser referidos a qualquer um dos três pontos cardeais do tempo, presente, passado ou futuro. É evidente que eles podem admitir tantas distinções quanto aquelas da classe anterior.

XIV. 12. Os prazeres da expectativa são os prazeres que [37]resultam a partir da contemplação de qualquer tipo de prazer referido ao tempo futuro e acompanhado pelo sentimento de crença. Esses também admitem as mesmas distinções6.

XV. 13. Os prazeres da associação são os prazeres que certos objetos ou incidentes podem acontecer de proporcionar, não por si mesmos, mas meramente em virtude de alguma associação que eles tenham contraído na mente com certos objetos ou incidentes que são em si mesmos prazerosos. Por exemplo, tal é o caso com o prazer da habilidade, quando propiciado por um tal conjunto de incidentes que compõem um jogo de xadrez. Isso deriva a sua qualidade prazerosa a partir de sua associação em parte com os prazeres da habilidade, como exercidos na produção de incidentes prazerosos em si mesmos: em parte a partir da sua associação com os prazeres do poder. Tal também é o caso com o prazer da boa sorte, quando propiciado por aqueles acidentes que compõem o jogo de hazard, ou qualquer outro jogo de azar, quando jogado por nada. Isso deriva a sua qualidade prazerosa a partir da sua associação com um dos prazeres da riqueza; a saber, com o prazer de a adquirir.

XVI. 14. Mais adiante nós deveremos ver as dores fundamentadas em prazeres; de maneira similar a que nós agora podemos ver prazeres fundamentados em dores. Portanto, ao catálogo de prazeres pode ser adicionado os prazeres do alívio (relief): ou os prazeres que um homem experiencia quando, após ter suportado uma dor de qualquer tipo por um certo tempo, ela chega a cessar ou a abater-se. É claro, esses podem ser distinguidos em tantas espécies quanto são as de dores: e podem dar origem a muitos prazeres de memória, de imaginação e de expectativa.

XVII. 1. Dores da privação são as dores que podem resultar a partir do pensamento de não possuir no momento presente nenhum dos vários tipos de prazeres. Portanto, dores da privação podem ser resolvidas em tantos tipos quanto há de prazeres aos quais elas podem corresponder, e a partir da ausência dos quais elas podem ser derivadas.

XVIII. Há três tipos de dores que são apenas tantas [38]modificações das várias dores da privação. Quando a satisfação de qualquer prazer particular acontece de ser particularmente desejada, mas sem nenhuma expectativa aproximando-se da certeza (assurance), a dor da privação que então resulta toma um nome particular, e é chamada de dor do desejo, ou do desejo não satisfeito.

XIX. Onde acontece de a satisfação (enjoyment) ter sido procurada com um grau de expectativa que se aproxima da certeza, e essa expectativa subitamente é feita cessar, ela é chamada de uma dor de desapontamento.

XX. Uma dor de privação adota o nome de uma dor de arrependimento (regret) em dois casos: 1. Onde ela está fundamentada sobre a memória de um prazer, o qual, tendo sido uma vez desfrutado, não parece provável de ser desfrutado novamente: 2. Onde ela está fundamentada sobre a ideia de um prazer, o qual nunca foi efetivamente desfrutado, nem, talvez, até esperado, mas que poderia ter sido desfrutado (supõe-se,) tivesse uma tal ou tal contingência ocorrida, a qual, de fato, não ocorreu.

XXI. 2. As várias dores dos sentidos parecem ser as seguintes: 1. As dores da fome e sede: ou as sensações desagradáveis pela falta de substâncias apropriadas que, às vezes, necessitam ser aplicadas ao canal alimentar. 2. As dores do gosto: ou as sensações desagradáveis produzidas pela aplicação de várias substâncias ao paladar, e outras partes superiores do mesmo canal. 3. As dores do órgão de olfato (smell): ou as sensações desagradáveis produzidas pelos eflúvios de várias substâncias quando aplicados àquele órgão. 4. As dores do toque: ou as sensações desagradáveis produzidas pela aplicação das várias substâncias à pele. 5. As dores simples da audição (hearing): ou as sensações desagradáveis excitadas no órgão do sentido por vários tipos de sons: independentemente (como antes,) de associação. 6. As dores simples da vista (sight): ou as sensações desagradáveis, se alguma dessas houver, que podem se excitadas no órgão daquele sentido por imagens visíveis, independente do princípio de associação. 77. As dores resultantes a partir do [39]calor ou frio excessivos, exceto aquelas referíveis ao toque. 8. As dores da doença: ou as sensações agudas e inquietas resultantes a partir de várias doenças e indisposições aos quais a natureza humana é passível. 9. A dor do esforço, quer corporal, quer mental: ou a sensação que está apta a acompanhar qualquer esforço intenso, quer da mente, quer do corpo.

XXII. 38. As dores da inabilidade (awkwardness) são as dores que algumas vezes resultam a partir da tentativa falha para aplicar quaisquer instrumentos particulares de satisfação ou segurança aos seus usos, ou a partir de alguma dificuldades que um homem experiencia ao aplicá-los9.

XXIII. 4. As dores da inimizade (enmity) são as dores que podem acompanhar a persuasão de um homem ser detestável para a má vontade de uma tal pessoa ou tais pessoais atribuíveis em particular: ou, como é a frase, de se estar em maus termos com ela ou elas: e, em consequência, de ser detestável para certas dores de um tipo ou outro, das quais ele pode ser a causa.

XXIV. 5. As dores de um nome ruim (ill-name) são as dores que acompanham a persuasão de um homem ser detestável para a má vontade do mundo em torno dele. Da mesma maneira, essas podem ser chamadas de as dores da reputação ruim (ill-repute), as dores da desonra, ou as dores da sanção moral10.

[40]XXV. 611. As dores da piedade são as dores que acompanham a crença de um homem ser detestável para o descontentamento do Ser Supremo: e, em consequência, para certas dores para serem infligidas através da sua designação especial, quer nesta vida, quer em uma vida por vir. Essas podem ser chamadas de dores da religião; as dores de uma disposição religiosa; ou as dores da sanção religiosa. Quando a crença é considerada como bem fundamentada, essas dores são comumente chamadas de terrores religiosos; quando consideradas como mal fundamentada, terrores supersticiosos12.

XXVI. 7. As dores da benevolência são as dores resultantes a partir da visão de quaisquer dores serem supostas serem suportadas por outras pessoas. Essas também podem ser chamadas de dores da boa vontade, da simpatia, ou as dores das afeições benevolentes ou sociais.

XXVII. 8. As dores de malevolência são as dores resultantes a partir da visão de quaisquer prazeres serem supostos serem desfrutadas por quaisquer seres que acontecem de serem objetos do descontentamento de um homem. Essas também podem ser denominadas de dores de má vontade, de antipatia, ou as dores das afeições malevolentes ou antissociais.

XXVIII. 9. As dores da memória podem ser fundamentadas em cada um dos tipos acima, tanto das dores de privação quanto das dores positivas. Esses correspondem exatamente aos prazeres da memória.

XXIX. 10. As dores da imaginação também podem ser fundamentadas [41]em qualquer um dos tipos acima, tanto de dores de privação quanto de dores positivas: em outros aspectos, elas correspondem exatamente aos prazeres da imaginação.

XXX. 11. As dores da expectativa podem ser fundamentadas em cada um dos tipos acima, tanto de dores de privação quanto de dores positivas. Elas também podem ser denominadas de dores da apreensão13.

XXXI. 12. As dores da associação correspondem exatamente aos prazeres da associação.

XXXII. Na lista acima, há certos prazeres e dores que supõem a existência de algum prazer ou dor em alguma outra pessoa, ao qual o prazer ou a dor da pessoa em questão foi considerado: tais prazeres e dores podem ser denominados de extraconsideração (extra-regarding). Outros não supõem nenhuma coisa semelhante: esses podem ser denominados de autoconsideração (self-regarding)14. Os únicos prazeres e dores da classe de extraconsideração são aqueles da benevolência e aqueles da malevolência: todo resto são de autoconsideração15.

XXXIII. Dos vários tipos de prazeres e dores, escassamente há qualquer um que não seja passível, por mais do que uma razão, de se sujeitar à consideração do direito. Uma ofensa é cometida? É a tendência que se tem para destruir, em tal ou tais pessoas, alguns desses prazeres, ou para produzir algumas dessas dores, que constitui o dano (mischief) dela e o fundamento para a punir. É a perspectiva de alguns desses prazeres, ou da segurança de algumas dessas dores, que constitui o motivo ou tentação, é a obtenção (attainment) deles que constitui o lucro da ofensa. O ofensor deve ser punido? Apenas através da produção de uma ou mais dessas dores, que a punição pode ser infligida16.


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ORIGINAL:

BENTHAM, J. An Introduction to the Principles of Morals and Legislation. Oxford: At the Clarendon Pressa, 1907. pp. 33-42. Disponível em: <https://archive.org/details/introductiontoth033476mbp/page/n70/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [34]O catálogo aqui dado é o que pareceu ser uma lista completa dos vários prazeres e dores simples aos quais a natureza humana está suscetível: de tal maneira que, se, em consequência de qualquer ação que seja, um homem sente prazer ou dor, ele é ou referível imediatamente a um ou outro desses tipos, ou solucionável naqueles que são. Talvez poderia ter sido uma satisfação para o leitor ter visto uma visão analítica do assunto, tomada sobre um plano exaustivo, para o propósito de demonstração do que o catálogo se propõe a ser, algo completo. De fato, o catálogo é o resultado de uma semelhante análise; a qual, contudo, eu considerei melhor descartar no presente, como sendo uma rede muito metafísica, e não estritamente dentro dos limites deste desígnio. Confira, capítulo xiii [Casos impróprios], parágrafo 2, nota.

2 Também há prazeres de novidade, excitados pelo aparecimento de novas ideias: esses são prazeres da imaginação. Ver abaixo xiii.

3 [35]Por exemplo, o prazer de ser capaz de gratificar o sentido da audição, ao cantar ou tocar algum instrumento musical. O prazer obtido dessa forma é uma coisa superadicionada a, e perfeitamente distinguível de, aquele que um homem desfruta ao ouvir outra pessoa realizar da mesma maneira.

4 Ver capítulo iii [Sanções].

5 [36]Ver capítulo iii [Sanções].

6 [37]Em oposição a esses, todos os outros prazeres podem ser denominado de prazeres de satisfação (enjoyment).

7 [38]O prazer da sensação (sense) sexual parece não ter nenhuma dor positiva para corresponder a ele: ele tem apenas uma dor de privação, ou dor da classe [39]mental, a dor de desejo não satisfeito. Se qualquer dor positiva do corpo resultar a partir da carência de tal satisfação (indulgence), ele pertence à categoria das dores da doença.

8 [39]Os prazeres de novidade não têm dores positivas correspondendo a eles. A dor que um homem experiencia quando ele está na condição de não saber o que fazer consigo mesmo, essa dor, que em francês é expressa por uma única palavra, ennui, é uma dor de privação; uma dor resultando a partir da ausência não apenas de todos os prazeres de novidade, mas de todos os tipos de prazer que sejam.

Os prazeres de riqueza também não têm dores positivas correspondendo a eles: as únicas dores opostas a eles são dores de privação. Se quaisquer dores positivas resultam a partir da carência de riqueza, elas são referíveis a alguma outra classe de dores positivas; principalmente aquelas dos sentidos. Por exemplo, a partir da ausência de comida resultam-se as dores de fome; a partir da ausência de vestimenta, as dores de frio; e assim por diante.

9 Talvez possa ser uma questão se isso é uma dor positiva por si mesma, ou se ela não é nada mais do que uma dor de privação, resultando a partir da consciência de uma carência de habilidade. Contudo, isso é apenas uma questão de palavras, nem importa de que maneira deve ser determinada.

10 Até onde se supõe que as criaturas companheiras de um homem sejam determinadas por qualquer evento para não o considerar com qualquer grau de estima ou boa vontade, ou considerá-lo com um grau menor de estima ou boa vontade do que, de outra maneira, eles o considerariam: [40]não lhe fazer nenhum tipo de bom serviço, ou não lhe fazer tantos bons serviços quanto, de outra maneira, eles fariam; a dor resultante de tais considerações pode ser reconhecida como uma dor de privação: até onde se supõe que eles o considerem com um grau tão grande de aversão ou desestima quanto a estarem dispostos a fazer-lhe positivos serviços ruins, isso pode ser reconhecido uma dor positiva. Nesse caso, a dor de privação e a dor positiva coincidem uma com a outra indistinguivelmente.

11 Parece não haver dores positivas para corresponder aos prazeres do poder. As dores que um homem pode sentir a partir da falta ou perda de poder, até onde o poder é distinguível de todas as outras fontes de prazer, parecem não ser nada mais do que dores de privação.

12 As dores positivas da piedade, e as dores de privação, opostas aos prazeres da piedade, coincidem umas com as outras da mesma maneira que as dores positivas da inimizade, ou de um mau nome, coincidem com respeito às dores de privação, opostas aos prazeres da amizade, e essas aos de um bom nome. Se o que é apreendido das mãos de Deus for escassamente prazer não recebido, a dor é da classe privativa; se, além disso, dor efetiva for apreendida, ela é da classe de dores positivas.

13 [41]Em oposição a essas, todas as outras dores podem ser denominadas de dores de sofrimento (sufferance).

14 Ver capítulo X [Motivos].

15 Por esse meio, os prazeres e as dores da amizade podem ser distinguidos mais claramente daqueles da benevolência: e, por outro lado, aqueles da inimizade, daqueles de malevolência. Os prazeres e as dores da amizade e inimizade são os da casta de autoconsideração: aqueles da benevolência e malevolência, da de extraconsideração.

16 Seria uma questão não apenas de curiosidade, mas de alguma utilidade, exibir um catálogo dos vários prazeres e dores complexos, analisando-os, ao mesmo tempo, nos vários simples, dos quais eles são respectivamente [42]compostos. Mas uma semelhante investigação tomaria espaço demais para ser admitida aqui. Contudo, um breve exemplar, para o propósito de ilustração, dificilmente pode ser dispensado.

Os prazeres admitidos pelo olho e ouvido geralmente são muito complexos. Os prazeres de uma paisagem de interior, por exemplo, consistem comumente, entre outros, nos seguintes prazeres:

I Prazeres dos sentidos

1. Os simples prazeres da visão, excitados pela percepção de cores e figuras agradáveis, campos verdes, folhagem ondulante, água brilhante e semelhantes.

2. Os prazeres simples do ouvido, excitados pelas percepções do chilrear de pássaros, o murmúrio de águas, o farfalhar do vento em meio às árvores.

3. Os prazeres do olfato, excitados pela percepção da fragrância das flores, do feno recém-cortado, ou outras substâncias vegetais, nos primeiros estágios de fermentação.

4. A agradável sensação para dentro, produzida por uma circulação rápida do sangue, e a ventilação dele nos pulmões por um ar puro, tal como aquele no campo frequentemente é em comparação com aquele que é respirado nas cidades.

II. Prazeres da imaginação, produzidos por associação.

1. A ideia de plenitude, resultando a partir da posse dos objetos que estão na vista, e da felicidade surgindo a partir dela.

2. A ideia da inocência e felicidade dos pássaros, ovelhas, gado, cães e outros animais gentis ou domésticos.

3. A ideia do fluxo constante de saúde, suposto ser desfrutado por todas essas criaturas: uma noção que está apta a resultar a partir do fluxo ocasional de saúde desfrutado pelo suposto espectador.

4. A ideia de gratidão, excitada pela contemplação do Ser todo-poderoso e beneficente, quem é considerado como o autor dessas bençãos.

Todos esses quatro últimos são, pelo menos em alguma medida, prazeres de simpatia.

Privar um homem desse grupo de prazeres é um dos males apto a resultar a partir do aprisionamento; se produzido por violência ilegal, ou na forma de punição pela indicação das leis.

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